{"id":1395,"date":"2009-03-04T20:40:00","date_gmt":"2009-03-04T19:40:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1395"},"modified":"2009-03-04T20:40:00","modified_gmt":"2009-03-04T19:40:00","slug":"judaismo-e-cristianismo-%e2%80%93-semana-da-fraternidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1395","title":{"rendered":"Juda\u00edsmo e Cristianismo \u2013 Semana da Fraternidade"},"content":{"rendered":"<p>A Terra Prometida \u00e9 a Realiza\u00e7\u00e3o da Promessa B\u00edblica<br \/>Ant\u00f3nio Justo<br \/>Encontramo-nos na Semana da Fraternidade entre Crist\u00e3os e Judeus. Na Alemanha as comunidades crist\u00e3s e judaicas, especialmente durante esta semana, organizam muitas iniciativas em comum, no sentido da promo\u00e7\u00e3o do conhecimento e respeito m\u00fatuos.<\/p>\n<p>A B\u00edblia \u00e9 o documento base da exist\u00eancia do povo de Israel, constituindo como que a sua identidade normativa. Deus escolheu o povo judaico que se deixa formar e conduzir por Ele ao longo da hist\u00f3ria, surgindo assim uma rela\u00e7\u00e3o singular do juda\u00edsmo na hist\u00f3ria. A B\u00edblia, um livro feito de livros, n\u00e3o encontra paralelo noutras civiliza\u00e7\u00f5es. Gera\u00e7\u00f5es consecutivas foram co-autores escrevendo-a durante centen\u00e1rios. \u00c9 uma literatura cont\u00ednua que trata sempre da mesma rela\u00e7\u00e3o de Deus para com o seu povo. A Tora (Pentateuco) complementada pela mischna (tradi\u00e7\u00e3o oral da Tora) d\u00e1 forma ao caminho de Israel e determina o ser judeu no presente e no futuro. O judeu vive na continuidade viva da tradi\u00e7\u00e3o sempre actualizada. Ao S\u00e1bado os judeus juntam-se na sinagoga para recitar a Tora que deve ser toda lida durante o ano. <\/p>\n<p>J\u00e1 no primeiro livro da B\u00edblia, no G\u00e9nesis o Deus de Israel \u00e9 um Deus diferente dos outros Deuses; \u00e9 mais que um Deus para um povo ou uma na\u00e7\u00e3o. A\u00ed se declara a igualdade de todo o Homem. Mesmo mais tarde quando se estabelece a m\u00e1xima do \u201colho por olho, dente por dente\u201d isto significava que o escravo e o senhor n\u00e3o deviam ser julgado com diferentes medidas, al\u00e9m de estabelecer um limite ao exagero da vingan\u00e7a. J\u00e1 no per\u00edodo arqueol\u00f3gico do juda\u00edsmo se determina a inviolabilidade da vida de todo o indiv\u00edduo.<\/p>\n<p>A b\u00edblia de Israel \u00e9 tamb\u00e9m b\u00edblia do cristianismo. Jesus esclareceu a quest\u00e3o dizendo \u201cEu n\u00e3o vim para destruir a Tora\u2026\u201d. Os Judeus crist\u00e3os dos in\u00edcios do cristianismo, com os seus autores do Novo Testamento (NT), n\u00e3o acentuavam a distin\u00e7\u00e3o entre novo e velho testamento. A partir do s\u00e9culo segundo acentuam-se as diferen\u00e7as atendendo tamb\u00e9m ao alargamento do cristianismo a muitos povos desconhecedores do povo de Israel. A necessidade de separa\u00e7\u00e3o colocou aos crist\u00e3os a quest\u00e3o da validade do AT e do especificamente novo. <\/p>\n<p>Ent\u00e3o, tal como acontece na luta do adolescente pela auto-afirma\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos pais, segue-se uma fase de concorr\u00eancia entre crist\u00e3os e judeus. Marcion (que morreu no ano 170 d.C.), da comunidade grega, assume uma atitude agressiva, acusando a Igreja Cat\u00f3lica de juda\u00edsta e contrapondo o Deus da lei antiga (AT) ao Deus do amor (NT) e v\u00ea em Paulo o aut\u00eantico disc\u00edpulo de Cristo. Tamb\u00e9m no estudo hermen\u00eautico dos diferentes evangelhos do NT se pode constatar vest\u00edgios das discuss\u00f5es e diverg\u00eancias mais ou menos judaizantes, em curso nas diferentes comunidades da Igreja. Marcion v\u00ea dum lado o Deus justiceiro (Deus da lei, AT) e do outro o Deus amoroso (NT) com o mandamento do amor ao pr\u00f3ximo (ao estranho). Defende a sua ideia de cristianismo como uma religi\u00e3o totalmente nova e apresenta o Juda\u00edsmo como a religi\u00e3o do \u201cvetus testamentum\u201d a ser superada. A Igreja condenou Marcion como herege (mais tarde, pelo ano 400 d\u00e1-se a fus\u00e3o dos seus seguidores com os maniqueus). <\/p>\n<p>Para a Igreja AT e NT n\u00e3o se encontram em contradi\u00e7\u00e3o mas complementam-se, reconhecendo as duas partes. Assim a Igreja manteve a b\u00edblia completa integrando a Septuaginta que \u00e9 uma tradu\u00e7\u00e3o judaica. O segundo testamento s\u00f3 pode ser compreendido na perspectiva do primeiro e \u00e9 compreendido pela Igreja como sua continua\u00e7\u00e3o. Naturalmente surge o problema da compreens\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o das duas partes. A primeira \u00e9 a base do juda\u00edsmo e na rela\u00e7\u00e3o entre juda\u00edsmo e cristianismo h\u00e1 respostas insatisfat\u00f3rias. Por isso crist\u00e3os e judeus juntam-se na procura de novas leituras da B\u00edblia.<\/p>\n<p>As ideias de Marcion mostraram-se extremadas nas suas consequ\u00eancias, acusando os Judeus de se negarem a aceitar o Messias Jesus como seu Messias. A destrui\u00e7\u00e3o do Templo do templo pelos romanos e a anatemiza\u00e7\u00e3o dos judeus passa a ser refinadamente usada por alguns para deslegitimar o direito daquele povo \u00e0 exist\u00eancia mostrando-se fatal e duma injusti\u00e7a monstruosa ainda hoje presente na nega\u00e7\u00e3o ao direito de exist\u00eancia do estado de Israel.<\/p>\n<p>O AT implica uma leitura pr\u00f3pria e independente n\u00e3o podendo ser limitado \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o cristol\u00f3gica. A leitura e compreens\u00e3o do AT deve partir duma posi\u00e7\u00e3o fundamental de que os textos t\u00eam um car\u00e1cter po\u00e9tico e liter\u00e1rio que transcende a inten\u00e7\u00e3o dos seus autores, como defende o te\u00f3logo cat\u00f3lico Erich Zenger.<\/p>\n<p>Sob este ponto de vista a interpreta\u00e7\u00e3o transmitida permite uma doutrina anal\u00f3gica orientada para a vida concreta de cada um. De facto Deus revela-se mas cada um pode fazer diferentes leituras do mesmo dito. Hermeneuticamente podem-se ler os textos a diversos n\u00edveis. N\u00f3s, crist\u00e3os compreendemos a B\u00edblia diferentemente dos judeus mas n\u00e3o melhor que eles. Estamos dependentes dos judeus. Cada um tem a sua teologia independente sem necessidade de se missionarem uns aos outros. Crist\u00e3os e judeus adoram o mesmo Deus que os une e age nos dois. Jo\u00e3o Paulo II falava do \u201cpovo da alian\u00e7a\u201d, ao referir-se aos judeus. A pr\u00e1tica do di\u00e1logo pode diminuir assimetrias e ajudar Judeus a um enriquecimento m\u00fatuo. Com uma hermen\u00eautica do respeito m\u00fatuo e com a deposi\u00e7\u00e3o das armas da desconfian\u00e7a e dos mal-entendidos, no reconhecimento b\u00edblico de que \u201ctu deves reconhecer o outro como outro\u201d, constr\u00f3i-se uma ortopraxia da paz. Rosenzweig dizia: tamb\u00e9m n\u00f3s, judeus, estamos dependentes dos crist\u00e3os\u2026\u201d. Para os crist\u00e3os Deus revela-se como pai, filho e esp\u00edrito santo. O Deus \u00fanico trinit\u00e1rio pode abrir os horizontes para um di\u00e1logo tamb\u00e9m com o hindu\u00edsmo e com o budismo.<\/p>\n<p>Judeus e crist\u00e3os l\u00eaem e interpretam cada um \u00e0 sua maneira dentro da mesma tradi\u00e7\u00e3o. Uma leitura n\u00e3o se pode reduzir \u00e0 outra. Neste sentido, os crist\u00e3os l\u00eaem os textos reconhecendo os judeus como primeiros destinat\u00e1rios e irm\u00e3os mais velhos. O judeu l\u00ea a B\u00edblia como o agir de Deus na B\u00edblia e no seu povo e o crist\u00e3o l\u00ea a B\u00edblia como o agir de Deus em Jesus Cristo e na comunh\u00e3o dos crist\u00e3os com os judeus e os outros povos. Judeus e crist\u00e3os sentem-se ligados pelo sentimento da gratid\u00e3o. Crist\u00e3os e judeus est\u00e3o de tal maneira interrelacionados que o di\u00e1logo entre crist\u00e3os e judeus tem um car\u00e1cter \u00fanico e \u00e9 mais relevante que o di\u00e1logo com qualquer outra religi\u00e3o, acentua Erich Zenger. <\/p>\n<p>O povo de Israel e a Igreja trabalham na mesma miss\u00e3o de realizar a mensagem do Reino de Deus.<br \/>Para o povo israelita h\u00e1 tr\u00eas elementos constitutivos na sua exist\u00eancia: a elei\u00e7\u00e3o por Deus; a promessa do pa\u00eds (terra prometida) como espa\u00e7o e base da vida. O regresso do povo de Deus \u00e0 terra dos seus antepassados revela-se como concretiza\u00e7\u00e3o da fidelidade divina. Segundo a Tora, cada povo tem direito \u00e0 sua terra (Deuteron\u00f3mio 32). A discuss\u00e3o pol\u00edtica em torno de Gaza n\u00e3o deve perturbar o di\u00e1logo cultural e religioso; muitas vezes as pessoas s\u00e3o mais exigentes para com os judeus do que para com os seus advers\u00e1rios!&#8230; Defende-se uma justi\u00e7a com dois pesos e com duas medidas.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 tamb\u00e9m pessoal atendendo a que todos vivemos atrasados em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s exig\u00eancias que colocamos aos outros. <\/p>\n<p>Haver\u00e1 sempre quest\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s imagens de Deus. Se n\u00e3o houvesse diferentes compreens\u00f5es de Deus n\u00e3o se justificaria a exist\u00eancia de Judeus e de crist\u00e3os. N\u00e3o podemos passar com a rasoira da igualdade contra a diferen\u00e7a. Essencial \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o de respeito m\u00fatuo.<br \/>Como exemplo de respeito para com o juda\u00edsmo passo a relatar o que se passou em 1978 comigo na qualidade de celebrante da eucaristia e com um aluno judeu que queria participar nela como ac\u00f3lito. Eu deixei-o acolitar mas chamando-o \u00e0 aten\u00e7\u00e3o para que ele ao identificar-se comigo n\u00e3o deveria distanciar-se da sua religi\u00e3o. Passado algum tempo fui convidado pelos seus pais para a celebra\u00e7\u00e3o da Bar Mizwa do filho, na sinagoga de Lisboa. O respeito pela diferen\u00e7a fomenta a rela\u00e7\u00e3o e a paz.<br \/>Ant\u00f3nio da cunha Duarte Justo<br \/>Te\u00f3logo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Terra Prometida \u00e9 a Realiza\u00e7\u00e3o da Promessa B\u00edblicaAnt\u00f3nio JustoEncontramo-nos na Semana da Fraternidade entre Crist\u00e3os e Judeus. 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