{"id":1386,"date":"2009-01-27T22:51:00","date_gmt":"2009-01-27T21:51:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1386"},"modified":"2009-01-27T22:51:00","modified_gmt":"2009-01-27T21:51:00","slug":"solidariedade-na-nova-sociedade-%e2%80%93-uma-democracia-da-diferenca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1386","title":{"rendered":"Solidariedade na Nova Sociedade \u2013 Uma Democracia da Diferen\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>No Prel\u00fadio da Era global urge a Mudan\u00e7a radical<br \/>Ant\u00f3nio Justo<br \/>A coes\u00e3o da sociedade amea\u00e7a fracturas que s\u00f3 podem ser reparadas com uma solidariedade aberta entre os diversos grupos.<\/p>\n<p>O desenvolvimento cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico tem proporcionado grandes passos no sentido dum maior contacto e dum maior di\u00e1logo no caminho da uni\u00e3o e da realiza\u00e7\u00e3o duma verdadeira globaliza\u00e7\u00e3o. A ci\u00eancia pol\u00edtica come\u00e7a a dar-se conta da interdisciplinaridade de todas as mat\u00e9rias e interesses na constru\u00e7\u00e3o do globalismo. <\/p>\n<p>O processo dial\u00e9ctico da afirma\u00e7\u00e3o do mais forte constr\u00f3i-se e baseia-se na precariedade do outro, na banalidade do factual. Este modelo da filosofia grega tornou-se eficiente nas \u00e9pocas da individua\u00e7\u00e3o cultural, nacional e individual. Agora que nos encontramos no prel\u00fadio da era global seria a altura da mudan\u00e7a do modelo grego para o modelo judaico \u2013 crist\u00e3o subjacente nas mitologias doutras culturas como a chinesa e a indiana. O modelo trinit\u00e1rio ainda se encontra debaixo das cinzas da civiliza\u00e7\u00e3o. Este modelo integral, j\u00e1 n\u00e3o s\u00f3 do di\u00e1logo, mas especialmente do tri\u00e1logo implicaria uma mudan\u00e7a radical na pr\u00e1tica da solidariedade c\u00edvica e natural. Assim a nova estrat\u00e9gia a desenvolver nas rela\u00e7\u00f5es interpessoais, nas na\u00e7\u00f5es e nas culturas, n\u00e3o esquecendo por\u00e9m a for\u00e7a dial\u00e9ctica e a assevera\u00e7\u00e3o dos contr\u00e1rios na afirma\u00e7\u00e3o do ser, ter\u00e1 de optar por uma nova f\u00f3rmula relacional a que chamaria tril\u00f3gica ou trinit\u00e1ria. Uma mudan\u00e7a da ortodoxia para a ortopraxia do logos inicial. <\/p>\n<p>Iniciamos a era do tri\u00e1logo num processo de comunitariza\u00e7\u00e3o que leva \u00e0 comunh\u00e3o no processo relacional trinit\u00e1rio no respeito e reconhecimento m\u00fatuos. N\u00e3o se d\u00e1 o encontro de produtos est\u00e1ticos mas de sujeitos em processo criativo que implica ao mesmo tempo a mudan\u00e7a e a consci\u00eancia de se encontrar e querer a diferen\u00e7a criadora. A procura comum, j\u00e1 no seu processo comunicativo, produz um sentimento de solidariedade que estimula o caminhar comum. Assim v\u00e3o desaparecendo as conota\u00e7\u00f5es ego\u00edstas de ra\u00e7a, na\u00e7\u00e3o, cultura, sistema pol\u00edtico ou religioso, conota\u00e7\u00f5es, estas, dial\u00e9cticas e n\u00e3o tril\u00f3gicas (trinit\u00e1rias). Na nova era tril\u00f3gica, a solidariedade seguir\u00e1 o processo da inclus\u00e3o e n\u00e3o o da exclus\u00e3o. Ser\u00e1 a era da solidariedade da nova democracia, a solidariedade do amor ao pr\u00f3ximo. J\u00e1 n\u00e3o se pretende a solidariedade dos iguais mas a solidariedade dos diferentes. O bem-comum, a felicidade j\u00e1 n\u00e3o se afirmar\u00e1 em nome do eu, em nome do partido, em nome da na\u00e7\u00e3o, mas em nome do n\u00f3s integral. Ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 a classe, o indiv\u00edduo, o partido que ganha, mas cada um como povo peregrino em marcha a desaguar na humanidade global. A meta n\u00e3o \u00e9 a vit\u00f3ria de umas classes sobre as outras, do capitalismo sobre o socialismo nem vice-versa; a meta, mais que uma sociedade, \u00e9 uma comunidade sem classes em que todos actuam numa din\u00e2mica de incarna\u00e7\u00e3o e espiritualiza\u00e7\u00e3o no seguimento do chamamento. A meta \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o da cidade de Deus, a cidade do Homem na din\u00e2mica da realidade solid\u00e1ria trinit\u00e1ria. Nela esp\u00edrito e mat\u00e9ria complementam-se em processo criativo. Nela n\u00e3o reina a ideia da vit\u00f3ria ou do \u201cquem manda, quer e pode\u201d mas a rela\u00e7\u00e3o amorosa que produz o Esp\u00edrito. D\u00e1-se uma nova compreens\u00e3o da vida humana e natural em comum. O que recebemos oferecemo-lo, de novo, enriquecido na din\u00e2mica duma entrega m\u00fatua. Consequentemente, em vez do ressentimento surgir\u00e1 o agradecimento como forma de express\u00e3o dum sentimento de vida, duma viv\u00eancia social.<\/p>\n<p>No exerc\u00edcio da solidariedade de co-criadores sofremos na alma a pris\u00e3o da carne pelos que vivem \u00e0 margem da sociedade. Porque aceitamos sistemas de injusti\u00e7a social tornados normalidade e que geram tantos Cristos abandonados? Na nova viv\u00eancia n\u00e3o se trata de me tornar miser\u00e1vel com os miser\u00e1veis mas de me aproximar da minha humanidade neles maltratada e amea\u00e7ada. N\u00e3o se trata de, em nome do bem, perpetuarmos o mal, como temos praticado eficaz e persistentemente at\u00e9 agora, em todos os sistemas e regimes pol\u00edticos, econ\u00f3micos e sociais. Todos os que nos sentimos mais respons\u00e1veis pela situa\u00e7\u00e3o teremos de nos levantar para pensar e agir em comum. N\u00e3o \u00e9 suficiente divertirmo-nos ao faz de conta falando contra as injusti\u00e7as dos outros. N\u00f3s todos estamos comprometidos no sistema e somos todos injustos. Quanto mais ricos e mais s\u00e1bios somos mais injustos somos.<br \/>Solidariedade \u00e9 dar e receber em comunh\u00e3o. A comunh\u00e3o transcende a solidariedade econ\u00f3mica, cient\u00edfica ou social. <\/p>\n<p>A tarefa de criar uma raz\u00e3o solid\u00e1ria n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Faz parte do ide\u00e1rio e da praxis crist\u00e3 empenhar-se pelo outro mesmo que ele seja mau. O ide\u00e1rio crist\u00e3o tem falhado e desesperou no marxismo. Em cada pessoa h\u00e1 um n\u00facleo bom. A din\u00e2mica do amor ao pr\u00f3ximo, uma caracter\u00edstica do cristianismo, ainda n\u00e3o encontrou acolhimento nas estruturas suportes das sociedades. Solidariedade baseia-se na reciprocidade progressiva<\/p>\n<p>A indiferen\u00e7a pressup\u00f5e estar-se preso nas pr\u00f3prias sombras.<br \/>A nova solidariedade ultrapassa as fronteiras da pr\u00f3pria comarca. Cristo entrega-se por toda a humanidade indiferentemente de ela ser ou n\u00e3o crist\u00e3 e proclama a moral superior do amor ao pr\u00f3ximo e o amor aos pr\u00f3prios inimigos. Deus \u00e9 pai de todos fazendo de n\u00f3s irm\u00e3os, Cristos em pot\u00eancia. Solidariza-se n\u00e3o s\u00f3 com os necessitados mas tamb\u00e9m com os culpados. O ide\u00e1rio crist\u00e3o define o ser humano como ser para os outros com uma miss\u00e3o individual, global e c\u00f3smica. <\/p>\n<p>No sentido crist\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 programas fixos ou j\u00e1 completos, n\u00e3o h\u00e1 dogmas no verdadeiro sentido da palavra. A solidariedade acontece em todos os sentidos. \u00c9 a realidade pai-filho-esp\u00edrito, no sentido do divino e do humano, dando primazia ao humano, na prioridade do mais baixo, do mais fraco. O sol surge de baixo para cima e a luz dos iluminados deve ser reflectida para baixo. A solidariedade a implantar chega aonde outras solidariedades n\u00e3o chegam: abandonados, pobres do esp\u00edrito\u2026 <\/p>\n<p>A defesa da dignidade humana de cada pessoa constitui programa para todo o homem \u2013 mulher de boa vontade, de irm\u00e3os na mesma origem e na mesma situa\u00e7\u00e3o comum.<br \/>Implica uma \u00e9tica da solidariedade pr\u00e1tica baseada numa nova consci\u00eancia e atitude perante o Homem e a natureza. Esta mudan\u00e7a, que passa pela ren\u00fancia, para podermos ser uma oportunidade para os outros, \u00e9 mais que \u00f3bvia, tamb\u00e9m no sentido de possibilitarmos futuro aos que v\u00eam depois de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Da\u00ed a necessidade de tornarmos as ideologias solid\u00e1rias e n\u00e3o estanques ou exclusivas. Do mundo mecanicista e est\u00e1tico do s\u00e9culo XIX daremos o passo para o mundo do mist\u00e9rio, o mundo Trinit\u00e1rio, j\u00e1 pressentido e verificado na f\u00edsica por Einstein, Planck , Chardin e outros. De facto a f\u00edsica j\u00e1 chegou ao mist\u00e9rio apesar de muitos continuarem a persistir no fanatismo religioso e no fanatismo cient\u00edfico. S\u00e3o necess\u00e1rias todas as for\u00e7as e todos os esfor\u00e7os na procura de respostas abertas e ajudas para todos, na realiza\u00e7\u00e3o dum mundo melhor. Uma abertura cont\u00ednua torna-se ent\u00e3o gratificante na experi\u00eancia do mesmo esp\u00edrito que a vivifica. A conex\u00e3o do todo n\u00e3o nos deixa cair no vazio nem no desespero.<\/p>\n<p>A solidariedade \u00e9 o caminho seguro para mais liberdade. N\u00e3o se trata de nos igualarmos mas de entrarmos na rela\u00e7\u00e3o libertadora. Todos temos andado perdidos em ideias, sentimentos ou miss\u00f5es cada vez mais vazios e distantes de n\u00f3s e dos outros. A solidariedade n\u00e3o pode continuar enterrada dentro dos diversos grupos; ela tem de destruir os muros que nos separam uns dos outros, o erro da afirma\u00e7\u00e3o dial\u00e9ctica selectiva.<\/p>\n<p>A pluralidade duma sociedade verdadeiramente livre permite riqueza e variedade sem a determina\u00e7\u00e3o de um grupo sobre outros. A sociedade precisa dum teto metaf\u00edsico que a cubra, necessitando este do trabalho construtivo e solid\u00e1rio de todos os grupos sociais. O direito e a tradi\u00e7\u00e3o judaico \u2013 crist\u00e3, numa din\u00e2mica tril\u00f3gica, poder\u00e3o ser os grandes pilares do grande do tecto metaf\u00edsico duma sociedade com passado presente e futuro. <\/p>\n<p>Naturalmente que toda a pessoa precisa de liga\u00e7\u00e3o a algum grupo da sua confian\u00e7a, doutro modo correr\u00e1 risco de cair em depress\u00e3o. Toda a pessoa precisa de comunica\u00e7\u00e3o aut\u00eantica de permuta de experi\u00eancias e ideias. Esta comunica\u00e7\u00e3o ter\u00e1 de ser aberta, numa sociedade aberta e num mundo aberto. Uma sociedade civil ser\u00e1 tanto mais viva quanto mais grupos tiver. Direitos e deveres s\u00e3o evid\u00eancias no reconhecimento da sociedade e dos cidad\u00e3os. <\/p>\n<p>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<br \/>antoniocunhajusto@googlemail.com<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Prel\u00fadio da Era global urge a Mudan\u00e7a radicalAnt\u00f3nio JustoA coes\u00e3o da sociedade amea\u00e7a fracturas que s\u00f3 podem ser reparadas com uma solidariedade aberta entre os diversos grupos. 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