{"id":1385,"date":"2009-01-27T22:51:00","date_gmt":"2009-01-27T21:51:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1385"},"modified":"2009-01-27T22:51:00","modified_gmt":"2009-01-27T21:51:00","slug":"solidariedade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1385","title":{"rendered":"Solidariedade"},"content":{"rendered":"<p>O eco do outro possibilita o meu falar<br \/>Ant\u00f3nio Justo<br \/>O ser do ser \u00e9 rela\u00e7\u00e3o. Esta rela\u00e7\u00e3o d\u00e1-se duma forma imanente e transcendente, tomando a sua melhor express\u00e3o na f\u00f3rmula trinit\u00e1ria. A Trindade (Eu-tu-n\u00f3s), a Realidade toda, revela-se como rela\u00e7\u00e3o de forma prot\u00f3tipo na sua rela\u00e7\u00e3o criador \u2013 criatura e criatura \u2013 esp\u00edrito. Nela se manifesta o nosso ser processo de condicionados e condicionantes, de mundo e esp\u00edrito. A aspira\u00e7\u00e3o a uma autonomia isolada revela-se mais como desgaste na rela\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio, uma autonomia trinit\u00e1ria integra a realiza\u00e7\u00e3o na solidariedade. A experi\u00eancia do dia a dia revela-se interdepend\u00eancia. O pressuposto, de \u201cser de\u201d e de \u201cser para os outros\u201d, fomenta um sentimento de agradecimento, alegria e confian\u00e7a no outro que \u00e9 pressentido j\u00e1 n\u00e3o como impedimento mas como realidade fomentadora do eu no n\u00f3s. As necessidades individuais passam ent\u00e3o a ganhar uma nova perspectiva. O projecto de vida tra\u00e7ado \u00e9 participativo e participante e a sorte \u00e9 comum. Abertos \u00e0 rela\u00e7\u00e3o mudamo-nos e moldamo-nos continuamente. <\/p>\n<p>O outro torna-se o meu chamamento que me leva a descobrir-me nele. A partir de mim falo e a partir do outro ou\u00e7o-me. O eco do outro possibilita o meu falar. A exig\u00eancia dum tu ouvida d\u00e1 hip\u00f3tese ao outro e faz de mim a sua possibilidade. A\u00ed eu ganho-me e reconhe\u00e7o que sou mais que eu mesmo. Descubro-me como filho da solidariedade. O ser do outro est\u00e1 presente no meu agir; a partir da\u00ed come\u00e7a a acontecer a constru\u00e7\u00e3o do n\u00f3s. Aqui j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 s\u00f3 posi\u00e7\u00f5es ou objectivos a atingir, n\u00e3o \u00e9 apenas uma for\u00e7a externa que me guia ou puxa. Descobre-se um chamamento comum na responsabilidade n\u00e3o s\u00f3 \u00e9tica mas constitutiva do nosso ser comum de condicionados na resposta a dar, j\u00e1 n\u00e3o s\u00f3, por um tu mas por um n\u00f3s realizado no amor. Solidariedade \u00e9 o nosso destino.<\/p>\n<p>Irmanados na solidariedade de \u201cser no\u201d e no \u201cser para o outro\u201d poderemos chegar a ter de aguentar o momento do abandono e at\u00e9 mesmo o momento de amea\u00e7a do outro. Nele se esconde tamb\u00e9m a chance do meu tornar-me, do meu devir! \u201cPai, afasta de mim este c\u00e1lice\u201d, apesar de tudo \u201cem tuas m\u00e3os encomendo o meu esp\u00edrito\u201d. N\u00e3o quero abandonar-me aos sentimentos que me separam do todo, que me separam da rela\u00e7\u00e3o. A chamada do Amor n\u00e3o permite a minha retirada, n\u00e3o me deixa evit\u00e1-lo. \u00c9 mais forte o que nos une: o amor teleol\u00f3gico e existencial. Ele \u00e9 o suporte de tudo e leva a suportar o processo doloroso da rela\u00e7\u00e3o eu-tu num cont\u00ednuo gerar e ser dado \u00e0 luz. <\/p>\n<p>A solidariedade \u00e9 solidariedade para e n\u00e3o solidariedade contra. Dela surge a mudan\u00e7a n\u00e3o do outro ou de mim, mas do n\u00f3s em processo criador aberto. Somos processo aberto ao infinito. A entrega na cruz pressup\u00f4s o sil\u00eancio de Deus. Doutro modo poderia n\u00e3o passar dum auto-engano, dum enganar o outro, duma solidariedade falsa, presa em mim mesmo. Ent\u00e3o passo a ver j\u00e1 n\u00e3o com os meus olhos, mas com os teus olhos em mim. A\u00ed sou aceite e aceito, a\u00ed me vejo, eu e tu, nos vemos, ao mesmo tempo, no mesmo espelho. Em ti me gero e tu me trazes e me d\u00e1s \u00e0 luz. Contigo sei quem sou!&#8230; Tamb\u00e9m eu me torno o chamamento que te interpela no nosso caminhar. Se, neste andar, tu \u00e9s um p\u00e9 para mim, eu sou o outro p\u00e9 para ti. Estou consciente da minha entrega na nossa aventura comum. Unidos vemos juntos, com os olhos de Deus para nos realizarmos na comunidade de vida com ele, a nossa realiza\u00e7\u00e3o completa. O chamamento divino humaniza-nos e conduz-nos \u00e0 divindade atrav\u00e9s da solidariedade. Este d\u00e1 coes\u00e3o \u00e0 fidelidade que prov\u00e9m da confian\u00e7a no outro, na realiza\u00e7\u00e3o comum. A caminhada \u00e9 \u00e1rdua e por vezes sombria. O sol do perd\u00e3o ajuda a clarear os buracos negros do outro, tamb\u00e9m em mim sentidos. Ent\u00e3o de amor movido, no reconhecimento, e n\u00e3o por interesse, dou o primeiro passo e com ele avan\u00e7o facultando a oportunidade \u00e0 verdadeira solidariedade. Trata-se de ver as coisas j\u00e1 n\u00e3o duma perspectiva, mas de uma forma aperspectiva, ou seja, de todas as perspectivas. Da conex\u00e3o trinit\u00e1ria n\u00e3o chega j\u00e1 o simples di\u00e1logo (n\u00e3o s\u00f3 atrav\u00e9s da palavra) mas um tri\u00e1logo que tem como modelo as tr\u00eas pessoas e das quais estamos processualmente a tornarmo-nos uma. Atrav\u00e9s do Pai somos irm\u00e3os, somos todos um. A isto estamos chamados, crentes e ateus!<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<br \/>antoniocunhajusto@googlemail.com<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O eco do outro possibilita o meu falarAnt\u00f3nio JustoO ser do ser \u00e9 rela\u00e7\u00e3o. Esta rela\u00e7\u00e3o d\u00e1-se duma forma imanente e transcendente, tomando a sua melhor express\u00e3o na f\u00f3rmula trinit\u00e1ria. 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