{"id":1375,"date":"2008-12-01T11:21:00","date_gmt":"2008-12-01T10:21:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1375"},"modified":"2008-12-01T11:21:00","modified_gmt":"2008-12-01T10:21:00","slug":"maome-%e2%80%93-apenas-um-areal-de-projeccao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1375","title":{"rendered":"MAOM\u00c9 \u2013 APENAS UM AREAL DE PROJEC\u00c7\u00c3O?"},"content":{"rendered":"<p>O Impasse Cultural<br \/>Ant\u00f3nio Justo<br \/>Muhammed Sven Kalisc, o primeiro Professor universit\u00e1rio para teologia isl\u00e2mica em M\u00fcnster, Alemanha, duvida da exist\u00eancia hist\u00f3rica do profeta Maom\u00e9. Diz que n\u00e3o se pode provar a exist\u00eancia nem a n\u00e3o exist\u00eancia mas que ele tende para a n\u00e3o exist\u00eancia. \u201cMaom\u00e9 foi sempre uma \u00e1rea de projec\u00e7\u00e3o. Na realidade n\u00e3o se trata duma verdade hist\u00f3rica, mas duma fic\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica\u201d refere o professor em \u201cDIE ZEIT\u201d. Argumenta que uma teologia ensinada numa universidade moderna tem que se submeter aos m\u00e9todos do esclarecimento (iluminismo) tal como aconteceu com o Juda\u00edsmo e com o Cristianismo. <\/p>\n<p>N\u00e3o ser\u00e1 exigir demais querer aplicar a grelha modernista, tamb\u00e9m ela m\u00edope, a uma cultura ainda encerrada em plena Idade M\u00e9dia?<\/p>\n<p>Com as suas afirma\u00e7\u00f5es o professor \u00e9 contestado pelas organiza\u00e7\u00f5es mu\u00e7ulmanas na Alemanha e desiludir\u00e1 a conveni\u00eancia da pol\u00edtica alem\u00e3 condicionada a dar graxa e interessada em integrar os mu\u00e7ulmanos no intuito de transformar os gr\u00e9mios mu\u00e7ulmanos em organiza\u00e7\u00f5es semelhantes \u00e0s crist\u00e3s. Para o professor Kalisc o problema est\u00e1 no facto dos gr\u00e9mios isl\u00e2micos titulares do ensino da religi\u00e3o \u201cexclu\u00edrem a investiga\u00e7\u00e3o cr\u00edtica hist\u00f3rica na universidade\u201d, por estarem mais aferidos ao poder e apenas interessados em estruturas autorit\u00e1rias. Kalisc justifica-se referindo-se \u00e0 fidelidade \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o da RFA (na defesa dos direitos fundamentais do cidad\u00e3o) a que tamb\u00e9m as agremia\u00e7\u00f5es mu\u00e7ulmanas se dever\u00e3o submeter. <\/p>\n<p>A sua miss\u00e3o de Professor compromete-o a tomar posi\u00e7\u00e3o em favor da liberdade cient\u00edfica. Ele questiona-se pelo facto de no tempo de origem do Isl\u00e3o n\u00e3o haver fontes hist\u00f3ricas de refer\u00eancia fora dele al\u00e9m da grande diferen\u00e7a entre os testemunhos arqueol\u00f3gicos das fontes mu\u00e7ulmanas e os das fontes n\u00e3o isl\u00e2micas. N\u00e3o se encontram fontes originais escritas isl\u00e2micas nos dois primeiros s\u00e9culos do isl\u00e3o e \u201conde as h\u00e1 p\u00f5e-se a quest\u00e3o da autenticidade\u201d. <\/p>\n<p>\u00c0 pergunta do problema da explica\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia duma religi\u00e3o sem fundador, Muhammed Kalic responde \u201cque uma nova religi\u00e3o pode originar-se a partir da cis\u00e3o duma religi\u00e3o mais velha\u201d e que v\u00ea como poss\u00edvel que \u201c o Cor\u00e3o, pelo menos em parte, \u00e9 um texto crist\u00e3o primitivo\u201d e que no s\u00e9culo VII, crist\u00e3os \u00c1rabes se ter\u00e3o separado do Ir\u00e3o e de Biz\u00e2ncio podendo ter havido raz\u00f5es pol\u00edticas para a variante do cristianismo para apoio do novo reino.<\/p>\n<p>Para ele, o Isl\u00e3o seria uma forma de vida religiosa e uma tradi\u00e7\u00e3o espiritual. Cada pessoa deve com a sua raz\u00e3o decidir o que deseja assumir da tradi\u00e7\u00e3o. E continua: \u201cA ideia de um isl\u00e3o uno \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o cultivada tanto pelos fundamentalistas religiosos como pelos inimigos do isl\u00e3o.\u201d <\/p>\n<p>O Professor Kalic compreende-se como um mu\u00e7ulmano que apoia mu\u00e7ulmanos liberais.<br \/>Um isl\u00e3o que n\u00e3o coloque nada em quest\u00e3o e que se n\u00e3o deixe p\u00f4r em quest\u00e3o correr\u00e1 sempre atr\u00e1s do desenvolvimento da Hist\u00f3ria entorpecendo em si mesmo. Por outro lado ao reduzir o estar do Homem \u00e0 condi\u00e7\u00e3o religiosa regulamentando-o em todos os sectores da vida criar\u00e1 muita frustra\u00e7\u00e3o que se expressa depois na viol\u00eancia e numa sexualidade em estado de emerg\u00eancia. Isto conduz a uma atitude de hipocrisia que vive \u00e0 custa do mais fraco. Por outro lado, o sentimento de impot\u00eancia conduz \u00e0 incapacidade de conseguir compreender o mundo e de o enfrentar de frente. A viol\u00eancia passa a ser um elemento integrante do pr\u00f3prio sistema, sempre \u00e0 ca\u00e7a do mal fora dos pr\u00f3prios muros.<\/p>\n<p>Esta cr\u00edtica acad\u00e9mica n\u00e3o ser\u00e1 compreens\u00edvel no meio isl\u00e2mico habitualmente fechado em si mesmo e contribuir\u00e1 para reac\u00e7\u00f5es ouri\u00e7o-cacheiro e tamb\u00e9m para uma reflex\u00e3o cr\u00edtica por parte de mu\u00e7ulmanos liberais. <\/p>\n<p>\u00c9 verdade que a religi\u00e3o n\u00e3o pode ser submetida apenas \u00e0 matriz racionalista. O agir da religi\u00e3o e daqueles que se reportam a ela deve ser, por\u00e9m, submetido \u00e0 raz\u00e3o. Uma pergunta \u00e0 qual n\u00e3o escapam mu\u00e7ulmanos e n\u00e3o mu\u00e7ulmanos \u00e9 o facto de o terrorismo a que se assiste no palco internacional ser quase de exclusiva responsabilidade mu\u00e7ulmana. Outra quest\u00e3o \u00e9 o facto da exig\u00eancia mu\u00e7ulmana de afirmar a sua religi\u00e3o nas sociedades para onde emigram e aceitarem, sem se pronunciarem contra, a persegui\u00e7\u00e3o dos crist\u00e3os em todos os estados de cultura mu\u00e7ulmana. Onde fundamentam a sua posi\u00e7\u00e3o contra direitos humanos individuais bem como a discrimina\u00e7\u00e3o da mulher. At\u00e9 que ponto o Cor\u00e3o permite o di\u00e1logo e possibilita activamente a paz? Kalic luta, \u00e0 sua maneira, pela abertura duma sociedade fechada e atolada na estagna\u00e7\u00e3o! Tamb\u00e9m o Cristianismo teve de dar a cara ao renascimento na passagem da Idade m\u00e9dia para a \u00c9poca moderna. Se \u00e9 verdade que a filosofia renascentista se podia fundamentar biblicamente tamb\u00e9m \u00e9 verdade que o Isl\u00e3o, se permitir o instrument\u00e1rio duma teologia, n\u00e3o reduzida a mera jurisprud\u00eancia, encontrar\u00e1 oportunidade de crescer na continuidade.<\/p>\n<p>Quem aprisiona Deus faz do Homem verdugo do Homem<br \/>Os mu\u00e7ulmanos de cunho europeu poder\u00e3o reformar o isl\u00e3o e abrir-lhe perspectivas para o futuro. Doutro modo este perpetuar\u00e1 a frustra\u00e7\u00e3o e a inveja envergonhada no pr\u00f3prio povo e tornar-se-\u00e1 um grande problema tamb\u00e9m para as sociedades para onde emigra. O potencial de conflito j\u00e1 presente nos guetos das grandes metr\u00f3poles, oportunistamente ignorado por pol\u00edticos e intelectuais, no futuro, tornar-se-\u00e1 fatal para a rela\u00e7\u00e3o entre mu\u00e7ulmanos e n\u00e3o mu\u00e7ulmanos na Europa. <\/p>\n<p>\u00c9 irrespons\u00e1vel continuar a haver crian\u00e7as turcas (da terceira gera\u00e7\u00e3o) que nascidas na Alemanha chegam \u00e0 escola sem saber alem\u00e3o. Fechadas na sua sociedade n\u00e3o est\u00e3o preparadas para responder aos desafios da sociedade maiorit\u00e1ria. Sem perspectivas reais resta-lhes a frustra\u00e7\u00e3o, o horizonte da Mesquita ou o ressentimento contra uma sociedade que os n\u00e3o soube defender e promover, ou ainda a revolta inconsciente contra os pais que os mantiveram prisioneiros no hermetismo da pr\u00f3pria cultura.<\/p>\n<p>Nenhuma cultura, nenhuma religi\u00e3o tem o direito de aprisionar Deus para depois, em nome dele, aprisionar o Homem. O mesmo se diga em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edtica \u2013 Estado e Povo. Deus n\u00e3o quer s\u00fabditos nem a na\u00e7\u00e3o precisa de escravos. Tamb\u00e9m, nenhum pai ou ideologia deve arrogar-se o direito de acorrentar o filho, o membro \u00e0 pr\u00f3pria mundivis\u00e3o, tolhendo-lhe um caminho e um horizonte pr\u00f3prio. Toda a religi\u00e3o tem muita riqueza a transmitir. Perde por\u00e9m a raz\u00e3o quando se torna um estorvo \u00e0 emancipa\u00e7\u00e3o e n\u00e3o se deixa questionar criticamente por conhecimentos novos. Ela ter\u00e1 de manter a balance da rela\u00e7\u00e3o indiv\u00edduo-comunidade, apostando prevalentemente na pessoa para que esta se descubra comunidade.<\/p>\n<p>A religi\u00e3o corre o perigo de se tornar anacr\u00f3nico quando se tem de argumentar com a Constitui\u00e7\u00e3o para defender o cidad\u00e3o de arbitrariedades da religi\u00e3o, como acontece na quest\u00e3o da discrimina\u00e7\u00e3o da mulher e da priva\u00e7\u00e3o de direitos humanos. O isl\u00e3o \u00e9 intrinsecamente contra a laicidade, n\u00e3o admitindo a liberdade de pensamento e de consci\u00eancia, nem outra refer\u00eancia \u00e9tica e religiosa que n\u00e3o seja Maom\u00e9 e Cor\u00e3o no sentido duma hegemonia teocr\u00e1tica. O Isl\u00e3o ter\u00e1 que ter lugar para a sociedade civil com espa\u00e7o para o cidad\u00e3o.Tal como ocidente foi a religi\u00e3o que deu orige<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Impasse CulturalAnt\u00f3nio JustoMuhammed Sven Kalisc, o primeiro Professor universit\u00e1rio para teologia isl\u00e2mica em M\u00fcnster, Alemanha, duvida da exist\u00eancia hist\u00f3rica do profeta Maom\u00e9. Diz que n\u00e3o se pode provar a exist\u00eancia nem a n\u00e3o exist\u00eancia mas que ele tende para a n\u00e3o exist\u00eancia. \u201cMaom\u00e9 foi sempre uma \u00e1rea de projec\u00e7\u00e3o. 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