{"id":1370,"date":"2008-11-24T18:13:00","date_gmt":"2008-11-24T17:13:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1370"},"modified":"2008-11-24T18:13:00","modified_gmt":"2008-11-24T17:13:00","slug":"a-crise-institucional-do-ensino-tem-um-nome-socrates","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1370","title":{"rendered":"A CRISE INSTITUCIONAL DO ENSINO TEM UM NOME: S\u00d3CRATES"},"content":{"rendered":"<p>A Ministra faz Parte do Problema \u2013 Governo, Sindicatos e Professores tamb\u00e9m<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Justo<br \/>Portugal encontra-se mal aproveitado. Quem vive fora do pa\u00eds, quem lhe quer bem e lhe reconhece grandes potencialidades, sofre, ao ver os descalabros que nele acontecem. Sofre mais do que os que vivem nele, pelo facto de poder confrontar e comparar maneiras de resolver os mesmos problemas em pa\u00edses diferentes, com mais ou com menos efici\u00eancia com mais ou menos di\u00e1logo, com mais ou menos respeito. Isto \u00e9 poss\u00edvel na Uni\u00e3o Europeia porque os diferentes governos ocupam a maior parte do seu tempo a aplicar as mesmas directivas da UE. O que mais faz doer na compara\u00e7\u00e3o das atitudes dos governantes alem\u00e3es com os portugueses \u00e9 a diferente rela\u00e7\u00e3o e atitude entre Estado e povo, entre governo e cidad\u00e3o.<\/p>\n<p>Tal como em Portugal, tamb\u00e9m a generalidade dos pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia se encontram empenhados na reforma do Ensino e com o problema da avalia\u00e7\u00e3o dos professores. O que contrasta e choca profundamente em Portugal \u00e9 o autoritarismo e arrog\u00e2ncia com que os criadores dos factos actuam. O comportamento ministerial e dos parceiros seria incompreens\u00edvel num pa\u00eds como a Alemanha. Aqui a discuss\u00e3o n\u00e3o acontece apenas entre institui\u00e7\u00f5es couto, numa rivalidade de interesses de pelouros mas d\u00e1-se dentro da sociedade e dentro dos grupos de interesse institucional, para o melhor da na\u00e7\u00e3o que consta de todos.<\/p>\n<p>Em Portugal todos falam muito bem, mas cada qual no seu poleiro!&#8230; Parece s\u00f3 haver galos em galinheiros sem galinhas! Apenas um exemplo: H\u00e1 anos, na Alemanha, o Chanceler Schr\u00f6der disse que os professores eram \u201cSacos pregui\u00e7osos\u201d (noutra tradu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel \u201cSacos podres\u201d). Logo o povo e o pr\u00f3prio  partido lhe tapou a boca n\u00e3o aceitando inventivas ideol\u00f3gicas contra um grupo profissional, que, pelo que conhe\u00e7o, \u00e9 muito empenhado e mais perto do aluno do que o docente portugu\u00eas. A dist\u00e2ncia que se encontra em Portugal entre professor e aluno ainda \u00e9 maior entre elite pol\u00edtica e povo. Tal como os governantes portugueses, naturalmente que o professorado do quadro, ganha muito bem em termos de compara\u00e7\u00e3o com o operariado, n\u00e3o dando rendimento satisfat\u00f3rio em termos concretos e estat\u00edsticos.<\/p>\n<p> A irresponsabilidade duma discuss\u00e3o p\u00fablica de afronta directa, que procura, mono-causalmente, responsabilizar o professorado pela mis\u00e9ria do ensino nas escolas estatais portuguesas, s\u00f3 pode levar \u00e0 confronta\u00e7\u00e3o. Afirma\u00e7\u00f5es incautas da ministra reduziam os docentes a bode expiat\u00f3rio, degradado ideologicamente, ainda mais a sociedade portuguesa. O grande respons\u00e1vel directo de tudo isto tem um nome: S\u00f3crates. Se pensasse em termos de bem-comum nacional j\u00e1 h\u00e1 muito que deveria ter interferido qualitativamente na discuss\u00e3o. Assim, depois de batalhas desonrosas para todos, s\u00f3 o PM pretende sair ilibado, sacrificando possivelmente, tamb\u00e9m a ministra, quando bem lhe convier. (Naturalmente que o PS saber\u00e1 arranjar uma boa esponja pol\u00edtica para ela cair bem.) <\/p>\n<p>S\u00f3crates sabe que voltar\u00e1 a ser eleito novamente e tornar\u00e1 a ocupar o lugar por uma nova legislatura. \u00c9 de desejar que ent\u00e3o aproveite a oportunidade para se tornar mais um homem de Estado e menos um homem da ideologia e do burocratismo de tipo mercen\u00e1rio. Portugal mereceria mais e melhor. Portugal precisa de politicos menos vaidosos, menos absorventes dos ecr\u00e3s das TVs para dar oportunidade ao povo para pensar. Precisa de mais trabalhadores, no governo e nas institui\u00e7\u00f5es portuguesas. Precisa de pessoas \u00e0 medida dos trabalhadores simples que t\u00eam de emigrar de Portugal para enriquecerem outros povos com o seu trabalho abnegado e s\u00e9rio e que ainda enviam o resto amealhado para ir ajudando a manter um Portugal j\u00e1 h\u00e1 muito distra\u00eddo de si mesmo.<\/p>\n<p>N\u00e3o chega que a Ministra da Educa\u00e7\u00e3o Maria de Lurdes Rodrigues consiga desviar a chuva do capote do senhor Primeiro-ministro e que venha agora dizer o dito pelo n\u00e3o dito, tentando precipitadamente e mesmo fora de horas, sob press\u00e3o, corrigir o decreto-lei com um despacho. O que o orgulho e a arrog\u00e2ncia de estilo n\u00e3o deixaram fazer, faz agora a necessidade. <\/p>\n<p>A reforma n\u00e3o se faz contra os docentes mas com eles. Talvez tamb\u00e9m os sindicatos, que agora tiveram de correr atr\u00e1s da multid\u00e3o dos docentes, apanhando o comboio j\u00e1 em andamento, consigam manter m\u00e3o nos professores para depois os obrigarem a aceitarem decis\u00f5es inc\u00f3modas. Para se imporem ter\u00e3o de aprender a ser menos coutada, menos ideologia, menos oportunidade para carreirismo pol\u00edtico e liberta\u00e7\u00e3o de aulas nem meros defensores de aumentos salariais duma classe. Ter\u00e3o de, a partir da escola e da sociedade, passar a dar resposta \u00e0s necessidades da escola e do povo portugu\u00eas. <\/p>\n<p>A reforma n\u00e3o pode partir apenas de ideias abstractas e dum proceder tecnocrata orientado para postos. A sociedade portuguesa tem sido devastada com os ventos da ideologia e do moralismo. N\u00e3o chega aferir a escola a um sistema econ\u00f3mico em crise sem ter em considera\u00e7\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es de ensino. N\u00e3o se trata de negar o velho em nome do novo, nem de destruir um sistema para construir outro \u2013 somos comunidade. Se os professores tivessem mais liga\u00e7\u00e3o com os pais certamente que n\u00e3o se sentiriam t\u00e3o inseguros. Os professores t\u00eam de sofrer, tal como os pais, com o insucesso dos alunos. O facilitismo e a lei do \u201cdesenrasque-se quem puder\u201d n\u00e3o leva longe. A ideologia continua a ser o cancro de Portugal. Com ela \u00e9 f\u00e1cil enriquecer, como provam muitos pol\u00edticos. No s\u00e9culo quinze eramos orientados pela ideia do com\u00e9rcio. Especialmente a partir do s\u00e9culo dezanove Portugal a casta pol\u00edtica portuguesa tem feito a experi\u00eancia de que apostar na ideologia cria riqueza sem se sujar as m\u00e3os e o povo vai nela. Basta para isso apoderar-se dos meios de comunica\u00e7\u00e3o e apreguar o facilitismo.<\/p>\n<p>Naturalmente que \u00e9 necess\u00e1rio acordar a pasmaceira em que Portugal vem vivendo, h\u00e1 j\u00e1 s\u00e9culos. Em especial a escolas p\u00fablicas portuguesas t\u00eam vindo progressivamente a ser mais desautorizadas. PISA cria muito stress a uma sociedade, at\u00e9 agora, abandonada a si mesma. N\u00e3o chega a cont\u00ednua importa\u00e7\u00e3o de modelos implementados de cima para baixo. Trabalho, disciplina e riqueza eram, para os nossos revolucion\u00e1rios, s\u00edmbolos de fascismo. No tempo da revolu\u00e7\u00e3o todo o que mostrasse um pouco de bom senso era chamado \u201cfacho\u201d. Causa dor constatar que a revolu\u00e7\u00e3o engole os seus pr\u00f3prios filhos! Naturalmente que hoje \u00e9 dif\u00edcil agarrar as \u201cr\u00e9deas\u201d dum povo \u00e0 solta!  O problema \u00e9 que n\u00e3o temos elites com capacidade para isso, encontram-se acomodadas, demasiadamente habituadas a viver na administra\u00e7\u00e3o da mis\u00e9ria, porque sabem estar \u00e0 frente dum povo que nada exige deles. O \u201cpatr\u00e3o\u201d tem sempre raz\u00e3o. <\/p>\n<p>J\u00e1 temos um povo em grande parte v\u00edtima! Ser\u00e1 que as nossas elites ter\u00e3o uma necessidade intr\u00ednseca de v\u00edtimas para poderem subsistir? Temos S\u00f3crates, temos que viver com ele, porque tamb\u00e9m faz trabalho s\u00e9rio. S\u00f3crates tem que contar tamb\u00e9m com o povo que tem. Se este fosse diferente tamb\u00e9m S\u00f3crates seria diferente. Os erros dum s\u00e3o os erros do outro!<\/p>\n<p>O problema de Portugal n\u00e3o \u00e9 geogr\u00e1fico, \u00e9 de sistema e de mentalidades. <\/p>\n<p>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Ministra faz Parte do Problema \u2013 Governo, Sindicatos e Professores tamb\u00e9m Ant\u00f3nio JustoPortugal encontra-se mal aproveitado. Quem vive fora do pa\u00eds, quem lhe quer bem e lhe reconhece grandes potencialidades, sofre, ao ver os descalabros que nele acontecem. 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