{"id":1354,"date":"2008-09-13T13:32:00","date_gmt":"2008-09-13T12:32:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1354"},"modified":"2008-09-13T13:32:00","modified_gmt":"2008-09-13T12:32:00","slug":"meditacao-e-respiracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1354","title":{"rendered":"Medita\u00e7\u00e3o e Respira\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Respira\u00e7\u00e3o na Tradi\u00e7\u00e3o Ocidental<br \/>Ant\u00f3nio Justo<br \/>\u201eNo princ\u00edpio Deus criou os c\u00e9us e a terra\u2026 e o Esp\u00edrito de Deus movia-se sobre o semblante das \u00e1guas\u201d (gen 1,1). O respirar de Deus, a for\u00e7a da vida ( a \u201cruach\u201d= vento, tempestade, o respirar da vida) penetra ent\u00e3o todo o ser. A Ruach \u00e9 o oxig\u00e9nio espiritual que a tudo d\u00e1 \u00e2nimo. A cria\u00e7\u00e3o processa-se, desenvolve-se respirando o Esp\u00edrito Santo. <\/p>\n<p>A cadeia dos metabolismos da respira\u00e7\u00e3o interfere na regula\u00e7\u00e3o do ritmo pulmonar, card\u00edaco,  tens\u00e3o arterial, estado psico-som\u00e1tico at\u00e9 ao limiar do Esp\u00edrito. O ritmo da inspira\u00e7\u00e3o e expira\u00e7\u00e3o ao provocar movimento abdominal e tor\u00e1cico num movimento de contrac\u00e7\u00e3o e extens\u00e3o concentra-nos no corpo e provoca uma abertura geral. Tudo se move, tudo se relaciona. Todo o universo macrosc\u00f3pico e microsc\u00f3pico, material e espiritual, participam do mesmo respirar, da for\u00e7a divina (Ruach). <\/p>\n<p>A vida de Ad\u00e3o come\u00e7ou com o sopro, o h\u00e1lito de Deus nas suas narinas. Se nos concentrarmos, sentimos segredar do seu sopro no respirar do nosso ser, no marejar do mar, no ciciar da brisa do c\u00e9u.<\/p>\n<p>A frequ\u00eancia r\u00edtmica reduzida de pulm\u00f5es, cora\u00e7\u00e3o e c\u00e9rebro, ajuda-nos a entrar na resson\u00e2ncia universal, na frequ\u00eancia da Ruach (Esp\u00edrito, sopro). O universo tal como a nossa corporeidade segue o seu ritmo mesmo a n\u00edvel inconsciente tal como acontece com a respira\u00e7\u00e3o na sua qualidade de parte do sistema vegetativo nervoso. Neste processo experimentamos a satisfa\u00e7\u00e3o de embarcarmos com ele e assim possibilitarmos uma mudan\u00e7a no nosso corpo e na nossa alma. Pela medita\u00e7\u00e3o procura-se tornar consciente e presente estes diferentes impulsos.<\/p>\n<p>Pela respira\u00e7\u00e3o o dentro e o fora, a vida toda, encontram-se em equil\u00edbrio. Tamb\u00e9m a respira\u00e7\u00e3o abdominal \u00e9 mais saud\u00e1vel para o corpo e alma. Ela une a parte superior \u00e0 parte inferior, o c\u00e9rebro \u2013 cora\u00e7\u00e3o ao abd\u00f3men. Na inspira\u00e7\u00e3o poderemos ver o acto do pensamento e na expira\u00e7\u00e3o o acto do sentimento. Um e outro formam uma unidade perfeita, tornando a mat\u00e9ria e o Esp\u00edrito compat\u00edveis. Se, em relaxe, nos concentramos na inspira\u00e7\u00e3o e expira\u00e7\u00e3o seguindo apenas o seu ritmo, sem em nada pensar, ent\u00e3o, passado algum tempo, o mundo todo passa a respirar em n\u00f3s, movido pelo mesmo esp\u00edrito, que pode ser sentido como amor corrente. Na respira\u00e7\u00e3o sentimos corporalmente o efeito do ar e talvez espiritualmente o efeito da ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p>Se num lugar calmo nos concentrarmos na respira\u00e7\u00e3o facilmente tomamos uma percep\u00e7\u00e3o agrad\u00e1vel do nosso corpo e com o tempo experimentamos a paz do Esp\u00edrito em n\u00f3s. O Esp\u00edrito, a for\u00e7a criadora divina, revitaliza-nos at\u00e9 aos poros mais \u00edntimos do nosso corpo e da nossa alma. Leva-nos a sintonizar com o universo, com o esp\u00edrito, tornando-nos parte do todo.<br \/>\u201cO meu povo jamais ser\u00e1 confundido\u2026 acontecer\u00e1 que derramarei o meu Esp\u00edrito sobre toda a carne: os vossos filhos e as vossas filhas profetizar\u00e3o; os vossos anci\u00e3os ter\u00e3o sonhos, e os vossos jovens ter\u00e3o vis\u00f5es, derramarei o meu esp\u00edrito sobre os escravos e as escravas\u201d(Jo 3,1-2). A for\u00e7a do esp\u00edrito \u00e9 de tal ordem que inebria de energia libertadora todo o homem e toda a mulher acabando com as aquisi\u00e7\u00f5es e valoriza\u00e7\u00f5es da carne, para a espiritualizar. <\/p>\n<p>Irrompe o Pentecostes, o tempo da verdadeira comunidade. No momento da dificuldade o Esp\u00edrito do Senhor desce sobre n\u00f3s possibilitando o amanhecer do Pentecostes em n\u00f3s. Neste momento indiv\u00edduo e comunidade tornam-se num s\u00f3 cora\u00e7\u00e3o, criador e cria\u00e7\u00e3o tornam-se solid\u00e1rios. Aqui acontece o Reino de Deus, a democracia espiritual. \u201cQuem n\u00e3o nascer da \u00e1gua e do esp\u00edrito n\u00e3o poder\u00e1 entrar no Reino de Deus\u2026 O vento sopra onde quer; ouves a sua voz, mas n\u00e3o sabes onde vem, nem para onde vai. Assim \u00e9 todo o que nasceu do Esp\u00edrito\u201d(Jo 3, 5 s). O homem velho que vivia na sombra do mal descobre a luz que ao inebri\u00e1-lo o torna novo, e ent\u00e3o a fa\u00falha do amor torna-o novo, tal como o fogo que enrubescedor  do carv\u00e3o e do ferro mais negros na forja..<\/p>\n<p>A \u00e1gua lava-nos e o Esp\u00edrito transforma-nos porque vem de Deus. Cheios do esp\u00edrito estamos preparados para dar \u00e0  luz e repetir o acto de Maria no pres\u00e9pio. O esp\u00edrito m\u00e3e em n\u00f3s desperta a fertilidade e provoca o novo nascimento. Dele surge uma mentalidade nova, um esp\u00edrito de compreens\u00e3o diferente do mundano. \u201cO consolador, o Esp\u00edrito Santo que o Pai enviar\u00e1 em meu nome, Esse ensinar-vos-\u00e1 todas as coisas e vos recordar\u00e1 tudo o que vos tenho dito\u201d(Jo 14, 26). O esp\u00edrito novo, o amor leva a superar a incompreens\u00e3o das diferentes l\u00ednguas e culturas. Agora surge o tempo da inspira\u00e7\u00e3o que ajuda a superar as f\u00f3rmulas r\u00edgidas das culturas permitindo ver o que as sust\u00e9m. O esp\u00edrito jorra em n\u00f3s, j\u00e1 n\u00e3o somos escravos mas senhores, de estirpe divina. Em n\u00f3s h\u00e1 muitos dons do esp\u00edrito escondidos. O barulho da vida e a voz das leis e dos senhores do mundo \u00e9 t\u00e3o alto que n\u00e3o deixa perceber mais nada. Se queremos sair do turbilh\u00e3o no labirinto da vida teremos de parar e aprender, de novo, a ser. \u201cEu sou o caminho a verdade e a vida.\u201d<\/p>\n<p>J\u00e1 na Idade M\u00e9dia havia a tend\u00eancia para mediante t\u00e9cnicas de respira\u00e7\u00e3o se facilitar o alcance do estado da profecia. O conhecimento de Deus n\u00e3o se pode alcan\u00e7ar atrav\u00e9s da especula\u00e7\u00e3o mas atrav\u00e9s do \u201ccora\u00e7\u00e3o\u201d (lugar da vida divina, entre cora\u00e7\u00e3o e c\u00e9rebro), \u00e0 sombra das ideias, ajudado pelas t\u00e9cnicas religiosas \u2013 m\u00edsticas em liga\u00e7\u00e3o com a fala e a respira\u00e7\u00e3o. Na sabedoria asi\u00e1tica e na m\u00edstica crist\u00e3 a ac\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito acontece no confluir e jorrar comum de emo\u00e7\u00e3o e raz\u00e3o, no confluir da mat\u00e9ria e do esp\u00edrito, do Jesus e do Cristo. <\/p>\n<p>O canto gregoriano dos conventos, e das igrejas, os encontros de Taiz\u00e9 onde se cantam c\u00e2nones repetidos e vocalizados, unidos \u00e0 respira\u00e7\u00e3o conduzem \u00e0 resson\u00e2ncia corporal e espiritual, \u00e0 vibra\u00e7\u00e3o universal, ao limiar do esp\u00edrito e da mat\u00e9ria. <\/p>\n<p>Na palavra aleluia ou no vocativo \u201coh Aleluia\u201d, encontram-se propriamente todas as vogais que constituem os mais diversos acordes do nosso ser e os sons do universo. A vibra\u00e7\u00e3o surge do nosso centro para se espalhar em todas as direc\u00e7\u00f5es. Os diferentes tons, cantados no ritmo da respira\u00e7\u00e3o, provocam a abertura global. O esp\u00edrito de Deus sopra vibrando na palavra. Do fundo do cora\u00e7\u00e3o ressoa a ess\u00eancia da nossa alma na vibra\u00e7\u00e3o do \u201ctudo em todos\u201d de que falam Jo\u00e3o e Paulo. Os p\u00f3los do corpo e da alma, do esp\u00edrito e da mat\u00e9ria, do c\u00e9u e do universo unem-se para deixar lugar apenas \u00e0 resson\u00e2ncia amorosa. <\/p>\n<p>O nosso cora\u00e7\u00e3o torna-se no centro do universo, passa a existir s\u00f3 a rela\u00e7\u00e3o, a rela\u00e7\u00e3o trinit\u00e1ria no substrato do amor. \u201cJ\u00e1 n\u00e3o sou eu que vivo, \u00e9 Cristo que vive em mim\u201d. Agora tornado na natureza Jesus Cristo, o C\u00e9u e a Terra abra\u00e7am-se, como o esposo e a esposa na consci\u00eancia duma nova realidade, a realidade trinit\u00e1ria do um em tr\u00eas, do eu no n\u00f3s. A linha horizontal e a linha vertical tocam-se tal como o espa\u00e7o e o tempo.<\/p>\n<p>O nosso corpo na forma de cruz abra\u00e7a toda a humanidade, todo universo. Se na inspira\u00e7\u00e3o o universo, Deus, nos abra\u00e7a, na expira\u00e7\u00e3o abra\u00e7amos n\u00f3s Deus, o universo. No amor \u00e1gape fraterno universal, sentimo-nos como um inv\u00f3lucro (1 Cor 3,16), uma ta\u00e7a, um sino no qual o ressoar se torna toda a presen\u00e7a. <\/p>\n<p>O movimento da respira\u00e7\u00e3o pode ent\u00e3o tamb\u00e9m ser dan\u00e7ado e expresso nos mais diferentes gestos. Fora e dentro, esp\u00edrito e mat\u00e9ria est\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o vital como sombra da realidade trinit\u00e1ria. O amor passa a ser o ar que se respira; o esp\u00edrito que tudo une leva-nos ao mais profundo do nosso ser, do ser universal, da divindade em n\u00f3s (Rom 5,5). Tamb\u00e9m no respirar podemos sentir o eco da voz de Deus. Na intimidade desta ora\u00e7\u00e3o se unem poetas, m\u00fasicos e religiosos, crentes e n\u00e3o crentes na vibra\u00e7\u00e3o comum do amor, do Esp\u00edrito Santo. A nossa humanidade depende do fluxo do amor em n\u00f3s presente.<\/p>\n<p>A t\u00e9cnica da medita\u00e7\u00e3o predisp\u00f5e-nos para o actuar e agir do Esp\u00edrito em n\u00f3s. Ajuda-nos a encontrar outros acessos \u00e0 Realidade para l\u00e1 do acesso racional teol\u00f3gico mas sem o excluir. A \u00e2nsia da rela\u00e7\u00e3o, e a procura do sentido manifesta-se na palavra tipicamente portuguesa \u201csaudade\u201d que exprime o profundo esp\u00edrito po\u00e9tico e religioso da solidariedade existencial e m\u00edstica. Ela \u00e9 o lugar da casa paterna, da realiza\u00e7\u00e3o. No inspirar est\u00e1 o movimento para a vida, no expirar o movimento para a morte. <\/p>\n<p>Na respira\u00e7\u00e3o unida ao pr\u00f3ximo acontecem massagens de reanima\u00e7\u00e3o. O amor expresso na Ruach \u00e9 presencializado (Jo 14,15-21) pelo nosso respirar no amor (Jo 15, 9-17). Deus est\u00e1-nos mais pr\u00f3ximo que o nosso pr\u00f3prio respirar, dizia tamb\u00e9m Agostinho.<\/p>\n<p> A natureza est\u00e1 sempre presente nos momentos mais significativos da presen\u00e7a de Deus: no Arco-Iris, na trovoada, na volta de Jesus como fa\u00edsca ou raio (Lc10,18; 17,24), na abertura do c\u00e9u no baptismo (Mc 1,10), no tremer da terra na sua morte (Mt 27,51). <\/p>\n<p>As met\u00e1foras dos sentidos apontam para uma realidade mais profunda. Na solidariedade crist\u00e3 universal a\u00ed se experimenta o mundo como o \u201cmeio divino\u201d como t\u00e3o bem soube formular Teilhard de Chardin. Em Cristo tornamo-nos tudo em todos como tudo se transforma em Jesus Cristo, reconciliando-se nele a Mat\u00e9ria e o Esp\u00edrito. Nele, o aqui e agora, t\u00eam sentido, sendo assim o optimismo um caracter\u00edstico do esp\u00edrito crist\u00e3o.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<br \/>\u201cPegadas do Esp\u00edrito\u201d, Quinta Outeiro da Luz, 2008<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Respira\u00e7\u00e3o na Tradi\u00e7\u00e3o OcidentalAnt\u00f3nio Justo\u201eNo princ\u00edpio Deus criou os c\u00e9us e a terra\u2026 e o Esp\u00edrito de Deus movia-se sobre o semblante das \u00e1guas\u201d (gen 1,1). O respirar de Deus, a for\u00e7a da vida ( a \u201cruach\u201d= vento, tempestade, o respirar da vida) penetra ent\u00e3o todo o ser. 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