{"id":1336,"date":"2008-06-09T10:07:00","date_gmt":"2008-06-09T09:07:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1336"},"modified":"2008-06-09T10:07:00","modified_gmt":"2008-06-09T09:07:00","slug":"com-o-romantismo-nas-pegadas-de-portugal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1336","title":{"rendered":"Com o Romantismo nas Pegadas de Portugal"},"content":{"rendered":"<p class=\"MsoNormal\"><b style=\"\"><span style=\"\" lang=\"PT\">(Continua\u00e7\u00e3o do texto \u201cDia de Portugal \u2013 Nas Pegadas de Portugal &#8211;<\/span><\/b><b style=\"\"><span style=\"font-size: 14pt;\" lang=\"PT\"> <\/span><\/b><b style=\"\"><span style=\"\" lang=\"PT\">Romantismo, Diagn\u00f3stico e Cura)<o:p><\/o:p><\/span><span style=\"font-size: 14pt;\" lang=\"PT\"><o:p> <\/o:p><\/span><\/b><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: left;\"><span style=\"\" lang=\"PT\">Ant\u00f3nio Justo<o:p><\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\">A crise de hoje \u00e9 civilizacional, antes de tudo cultural. Ela atinge mais os pa\u00edses da periferia, levados no redemoinho da globaliza\u00e7\u00e3o e propensos a reduzir-se a macacos de imita\u00e7\u00e3o. A crise portuguesa \u00e9 cr\u00f3nica com muitos problemas chocados em casa. A m\u00e1 condu\u00e7\u00e3o e aplica\u00e7\u00e3o da \u201cRevolu\u00e7\u00e3o de Abril\u201d, com o abandalhamento do esp\u00edrito portugu\u00eas; a trai\u00e7\u00e3o dos interesses portugueses nas antigas prov\u00edncias ultramarinas, e um povo continuamente na rua de ouvidos atentos \u00e0 propaganda dos dan\u00e7arinos de Abril, tudo isto conduz Portugal \u00e0 depress\u00e3o e reata o ritmo da na\u00e7\u00e3o ao ide\u00e1rio do jacobinismo socialista do s\u00e9culo XIX. <o:p><\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\"><o:p> <\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\">Outrora, o romantismo, cultura tamb\u00e9m ela de <b style=\"\">importa\u00e7\u00e3o tardia,<\/b> esfor\u00e7ou-se muito por tapar o buraco do racionalismo franc\u00eas e por salvar o liberalismo dando-lhe uma fei\u00e7\u00e3o portuguesa. Para tapar os buracos da ideologia dial\u00e9cticaactual, ainda se n\u00e3o vislumbra nenhum o\u00e1sis em que os portugueses se reconciliem, na base duma identidade pr\u00f3pria. (Naturalmente que Portugal precisa de inova\u00e7\u00e3o e de progresso mas n\u00e3o com os extremismos ideol\u00f3gicos e estrangeirados expressos nos bar\u00f5es de outrora e nos boys de hoje!)<o:p><\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\"><o:p> <\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: center;\" align=\"center\"><b style=\"\"><span style=\"font-size: 14pt;\" lang=\"PT\">Criar uma cultura nacional portuguesa<o:p><\/o:p><\/span><\/b><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\">O fomento duma cultura nacional portuguesa implica mundializar Portugal dado o ide\u00e1rio portugu\u00eas possuir um esp\u00edrito integral global, forjado no cadinho do cristianismo e das diferentes culturas.<o:p><\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\"><o:p> <\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\">Os rom\u00e2nticos s\u00e3o escritores em que a dimens\u00e3o nacional se torna palco e sentido da sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Entendem-se como plataforma da cultura e ao mesmo tempo como cr\u00edtica dela. <o:p><\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\"><o:p> <\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\">Em consequ\u00eancia das invas\u00f5es francesas, do ref\u00fagio da corte no Brasil, do desenvolvimento das lojas ma\u00e7\u00f3nicas, ideais liberais, de revolu\u00e7\u00f5es e contra-revolu\u00e7\u00f5es, muitas personalidades v\u00eaem-se constrangidas a emigrar.<o:p><\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\"><o:p> <\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\">O ex\u00edlio pol\u00edtico dos nossos rom\u00e2nticos contribuiu para a evolu\u00e7\u00e3o cultural portuguesa. Emigrantes como Garrett e Herculano, transmitem com autenticidade temas rom\u00e2nticos como saudade, isolamento, revolta amargurada e anseio da liberdade. Garrett desabafa perante o estado da na\u00e7\u00e3o e os exageros liberais: \u201cEu do meu p\u00e1trio Tejo desejoso \/ Deixei nas praias desmontada a lira: \/ Suas \u00e1guas, j\u00e1 t\u00e3o puras; hoje envoltas \/ Em l\u00e1grimas de sangue\u2026 \/ \u2026quando a p\u00e1tria \u00e9 morta, \/ Morrem com ela as Musas.\u201d<o:p><\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\"><o:p> <\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\">Tamb\u00e9m Alexandre Herculano em \u2018A Vit\u00f3ria e a Piedade\u2019 (1833) d\u00e1 express\u00e3o \u00e0 alma portuguesa rom\u00e2ntica: \u201d\u2026E<span style=\"\">  <\/span>l\u00e1 chorei, na idade da esperan\u00e7a, \/ Da p\u00e1tria a dura sorte: \/ <o:p><\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\">Esta alma encaneceu; e antes do tempo \/ Ergueu hinos \u00e0 morte\u2026\u201d<o:p><\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\"><o:p> <\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\">No romantismo, o ideal, o sonho, a emo\u00e7\u00e3o o sentimento, fazem parte duma mesma paisagem humana e duma natureza comuns. Ele segue uma esp\u00e9cie de pante\u00edsmo m\u00edstico que constitui como que o cen\u00e1rio base para a rela\u00e7\u00e3o indiv\u00edduo \u2013 geografia, indiv\u00edduo \u2013 paisagem, indiv\u00edduo \u2013 povo numa identidade participada. Quer construir o futuro mas numa unidade de na\u00e7\u00e3o e indiv\u00edduo num destino comum enraizado no passado mas aberto ao futuro. Ele questiona uma forma de racionalismo vigente para possibilitar a descoberta do indiv\u00edduo sens\u00edvel e livre. Pretende, na procura duma espiritualidade e duma m\u00edstica que lhe d\u00ea um panorama libertador, libertar das amarras pol\u00edtico-sociais autorit\u00e1rias e dum certo moralismo convencional. O status quo ata o povo \u00e0 melancolia levando-o a refugiar-se em figuras de her\u00f3is que contestam a mediocridade do factual e as m\u00e1scaras duma sociedade artificial que se op\u00f5e a uma subjectividade nascente e inconformada com os limites do dia a dia.<o:p><\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\"><o:p> <\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\">Introduzido em Portugal por Almeida Garret com \u201cCam\u00f5es e Dona Branca\u201d em 1825, o romantismo afirma a emo\u00e7\u00e3o e o sentimento, ao contr\u00e1rio do Neoclassicismo que afirmava a raz\u00e3o. O sentimento e a imagina\u00e7\u00e3o s\u00e3o guiados pela liberdade com uma refer\u00eancia sempre ligada \u00e0 terra e ao povo num estilo coloquial e muito natural. Almeida Garrett, empenhado na propaga\u00e7\u00e3o do liberalismo, proclamava: \u201d<b style=\"\">Este \u00e9 um s\u00e9culo democr\u00e1tico, tudo o que se fizer h\u00e1-se ser pelo povo e com o povo\u201d<\/b>. Por isso a literatura assume um car\u00e1cter pedag\u00f3gico com inten\u00e7\u00e3o formativa. Os poetas querem-se com esp\u00edrito c\u00edvico e democr\u00e1tico com uma reflex\u00e3o fundada sobre a nacionalidade. Sentem-se os continuadores da obra dos padres numa plataforma c\u00edvica. Almeida Garrett preanuncia em \u201cDona Branca\u201d a nova orienta\u00e7\u00e3o est\u00e9tica. Renuncia \u00e0 mitologia pag\u00e3 para afirmar o maravilhoso nacional. O novo altar \u00e9 o das tradi\u00e7\u00f5es nacionais. <b style=\"\">\u201cProfessei outra f\u00e9, sigo outro rito<\/b>, E para novo altar meus hinos canto\u201d. Nas suas obras est\u00e3o presentes as tradi\u00e7\u00f5es populares, as figuras hist\u00f3ricas, o sebastianismo, a rivalidade com Espanha e o ideal crist\u00e3o evang\u00e9lico. Garrett tamb\u00e9m contribui para a restaura\u00e7\u00e3o do teatro nacional com a sua obra-prima \u201cFrei Lu\u00eds de Sousa\u201d.<b style=\"\"> <\/b>Aqui confessa a preval\u00eancia da Literatura sobre a Hist\u00f3ria. \u201c<b style=\"\">Eu sacrifico \u00e0s musas de Homero<\/b>, n\u00e3o \u00e0s de Heredoto; e quem sabe, por fim, em qual dos dois altares arde o fogo de melhor verdade\u201d. Em \u201cFrei Lu\u00eds de Sousa\u201d assiste-se ao sebastianismo projectado na fidelidade de Maria e de Telmo que se v\u00ea representado no regresso de D. Jo\u00e3o de Portugal, o primeiro marido. \u00c0 ocupa\u00e7\u00e3o filipina procura afirmar-se a dignidade nacional preservada num certo sebastianismo.<span style=\"\">  <\/span><o:p><\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><b style=\"\"><span style=\"\" lang=\"PT\"><o:p> <\/o:p><\/span><\/b><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\">A revolu\u00e7\u00e3o liberal de 1820 empenha a intelectualidade portuguesa. Os rom\u00e2nticos da primeira gera\u00e7\u00e3o<b style=\"\"> <\/b>revelam-se personalidades do equil\u00edbrio n\u00e3o perdendo, no seu entusiasmo iluminista, a perspectiva da paisagem natural mantendo-se com os p\u00e9s no ch\u00e3o p\u00e1trio. Garrett e Herculano fazem parte do movimento revolucion\u00e1rio liberal, contribuindo tamb\u00e9m eles para a derrota miguelista.<o:p><\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\"><o:p> <\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\">A implanta\u00e7\u00e3o do romantismo com \u201cCam\u00f5es\u201d e \u201cDona Branca\u201d d\u00e1-se sob o signo dum liberalismo humano baseado nos valores de liberdade, igualdade e soberania da na\u00e7\u00e3o. <o:p><\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\"><o:p> <\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\">Com Herculano surge uma consci\u00eancia nova duma hist\u00f3ria cr\u00edtica mas integral. Alexandre Herculano em \u201cEurico o Presb\u00edtero\u201d torna-se porta-voz dum romantismo liberal conservador e respeitador da tradi\u00e7\u00e3o religiosa portuguesa, contra o jacobinismo militante e contra o populismo ideol\u00f3gico vigentes. <b style=\"\">Herculano defende o municipalismo (democracia biot\u00f3pica e n\u00e3o ideol\u00f3gica) contra o centralismo<\/b>; ele critica o clericalismo e o socialismo e defende um liberalismo e um cristianismo evang\u00e9lico como se pode ver no \u201cP\u00e1roco de Aldeia\u201d. Herculano luta pela implanta\u00e7\u00e3o dum liberalismo portugu\u00eas e n\u00e3o franc\u00eas. Ele lamenta que o pa\u00eds viva sem conte\u00fados culturais profundos e que a preocupa\u00e7\u00e3o intelectual portuguesa se esgote pois \u201ctodos os cuidados estavam aplicados \u00e0s mis\u00e9rias p\u00fablicas e aos meios de os remover\u201d. <o:p><\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\"><o:p> <\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\">Oliveira Martins constata tamb\u00e9m: \u201dUma das mais consp\u00edcuas aventuras do Romantismo foi decerto a <b style=\"\">tentativa de criar uma tradi\u00e7\u00e3o nacional portuguesa<\/b>\u2026\u201d O romantismo vem tapar o buraco cultural criado por ideologias socialistas n\u00e3o aferidas. Fomenta uma literatura de empenhamento cultural tendente a provocar uma reforma das mentalidades no povo. O problema ser\u00e1 o da ideologia e do jacobinismo mais interessados nos dividendos da revolu\u00e7\u00e3o liberal do que no empenhamento cultural e na transforma\u00e7\u00e3o do povo.<o:p><\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\"><o:p> <\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\">Assim \u00e0 gera\u00e7\u00e3o Garrett\/Herculano (1825-1850) segue-se a <b style=\"\">gera\u00e7\u00e3o convencionalista dos instalados<\/b> \u00e0 sombra dos minist\u00e9rios e da administra\u00e7\u00e3o, liderada por C<b style=\"\">astilho <\/b>em que, sob o seu mandarinato, se imp\u00f5e uma literatura oficial. Alberto Ferreira descreve a situa\u00e7\u00e3o deste modo:\u201dConvulsivamente, <b style=\"\">o artista aceita o predom\u00ednio social e pol\u00edtico do bar\u00e3o<\/b>, cede \u00e0s prepot\u00eancias mundanas ou \u00e0s imposi\u00e7\u00f5es do p\u00fablico\u2026 cada um, mais ou menos, acaba por sucumbir \u00e0s solicita\u00e7\u00f5es e apelos dos instalados, \u00e0 coac\u00e7\u00e3o da mediocridade\u2026 O escritor ora cede \u00e0s imposi\u00e7\u00f5es familiares ora se deixa absorver pela burocracia estatal\u201d. <o:p><\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\"><o:p> <\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\">N\u00e3o admira, assim, que, na feitura liter\u00e1ria passem a dominar os aspectos formais, e o esp\u00edrito criativo se esgote na vernaculidade da palavra, na ortodoxia da sintaxe e na correc\u00e7\u00e3o m\u00e9trica. D\u00e1-se o emburguesamento mental e o escritor perde a capacidade cr\u00edtica, como convinha ao rotativismo partid\u00e1rio da governa\u00e7\u00e3o. <o:p><\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\"><o:p> <\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\">Depois, <b style=\"\">a gera\u00e7\u00e3o de Antero de Quental<\/b>, com a \u201cQuest\u00e3o Coimbr\u00e3\u201d, consegue maior autenticidade e perspectivas de vis\u00e3o. Ele luta contra o mandarinato de Castilho e certas fraquezas ultra-rom\u00e2nticas, contra convencionalismos e oportunismos mas desilude-se. O socialismo leviano portugu\u00eas n\u00e3o compreendeu, ontem nem hoje, a profundidade do pensamento portugu\u00eas de Quental. Quental mata-se desiludido do socialismo e talvez dum Portugal que n\u00e3o aprendeu a entender-se a si mesmo. Um Portugal que, tradicionalmente vai adiando a vida, atra\u00eddo por ideias de ocasi\u00e3o que as modas pol\u00edticas v\u00e3o exibindo.<o:p><\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\"><o:p> <\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\">Como outrora tamb\u00e9m hoje se precisa de janelas abertas e rasgadas que permitam maiores panoramas \u00e0 alma portuguesa. Necessitamos, al\u00e9m de fazedores, tamb\u00e9m de videntes e admoestadores ao servi\u00e7o de todo o povo portugu\u00eas. No deserto de Portugal n\u00e3o chegam as miragens precisa-se tamb\u00e9m de o\u00e1sis. O romantismo queria levantar a na\u00e7\u00e3o e ao mesmo tempo dar-lhe profundidade com a fantasia e a inspira\u00e7\u00e3o, ao contr\u00e1rio do que faziam e fazem os nossos figurinos de casa vivendo da c\u00f3pia ou do ditado alheio. <o:p><\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\"><o:p> <\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\" style=\"text-align: center;\" align=\"center\"><b style=\"\"><span style=\"font-size: 14pt;\" lang=\"PT\">Percurso de Portugal previsto j\u00e1 em \u201cViagens na minha Terra\u201d<o:p><\/o:p><\/span><\/b><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\">Ant\u00f3nio Justo<o:p><\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\"><span style=\"\"> <\/span>\u201cViagens na minha Terra\u201d a obra de Garrett que deveria constituir leitura obrigat\u00f3ria para todo o bom portugu\u00eas \u00e9 uma viagem ao \u201cespa\u00e7o\u201d portugu\u00eas, um espa\u00e7o polivalente que possibilita os mais variegados trajectos ideol\u00f3gicos. Garrett apresenta nesta obra os diferentes componentes pol\u00edticos, culturais, hist\u00f3ricos e ideol\u00f3gicos em curso. Para ele o povo \u00e9 puro, aut\u00eantico e tem bom gosto enquanto que a sociedade urbana e burguesa \u00e9 \u201cespuma descorada\u201d, superficial e artificial.<o:p><\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\"><o:p> <\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\">No her\u00f3i da novela, Carlos, d\u00e1-se uma transforma\u00e7\u00e3o do Homem Natural para o Homem Social. Nas <b style=\"\">Viagens<\/b> prevalece a ideia rousseauriana da bondade natural do indiv\u00edduo, numa m\u00edstica crist\u00e3 e num ambiente id\u00edlico longe da pervers\u00e3o social modernista. <o:p><\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\"><o:p> <\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\">As viagens comprovam a crise de valores e a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtico social com os seus conflitos de idealismo e materialismo. Dum lado os ideais do amor p\u00e1trio e da arte e do outro o mundo mesquinho utilit\u00e1rio e artificial. Nele se v\u00ea o aguilh\u00e3o da cultura portuguesa no conflito frade \u2013 bar\u00e3o. O bar\u00e3o aproveita-se da confisca\u00e7\u00e3o dos bens fundi\u00e1rios das ordens religiosas e duma igreja acomodada, originando-se assim uma oligarquia de bar\u00f5es ricos. <o:p><\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\"><o:p> <\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\">As Viagens resumem: \u201cO frade era, at\u00e9 certo ponto, o Dom Quixote da sociedade velha. O bar\u00e3o \u00e9, em quase todos os pontos, o Sancho Panca da sociedade nova. Menos na gra\u00e7a\u2026 O bar\u00e3o \u00e9 pois usurariamente revolucion\u00e1rio, e revolucionariamente usur\u00e1rio. Por isso \u00e9 zebrado de riscas mon\u00e1rquico \u2013 democr\u00e1ticas por todo o pelo\u201d. <o:p><\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\"><o:p> <\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\">Os bar\u00f5es de hoje reportam-se aos cravos do seu Abril, vendo Portugal com os olhos colorados de Abril mas n\u00e3o com os olhos de Portugal. Encostados tamb\u00e9m eles \u00e0 administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica e partid\u00e1ria deixam Portugal sangrar. A sua m\u00e1 consci\u00eancia \u00e9 branqueada com ideias ou invertida em combates contra redutos crist\u00e3os ou contra uma Igreja j\u00e1 n\u00e3o existe, ou \u00e0 maneira quixotesca com palavras vazias como progresso, inova\u00e7\u00e3o, mudan\u00e7a, reformismo. A quest\u00e3o por\u00e9m n\u00e3o est\u00e1 no ter mas no ser\u2026<o:p><\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\"><o:p> <\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\">Uma coisa \u00e9 comum ao liberalismo, ao republicanismo e ao 25 de Abril: a desilus\u00e3o. Nestas tr\u00eas \u201crevolu\u00e7\u00f5es\u201d mancharam-se os ideais da igualdade e da justi\u00e7a. Em \u201cViagens na minha Terra\u201d constata-se com resigna\u00e7\u00e3o que a oposi\u00e7\u00e3o natural ao progresso \u00e9 constante pois \u201co mundo sempre assim foi e h\u00e1-de ser\u201d e verifica-se que os que se apoderam das revolu\u00e7\u00f5es se apoderam sempre das institui\u00e7\u00f5es estatais. O \u201cstatus in statu forma-se: ou com frades ou com bar\u00f5es ou com pedreiros \u2013 livres se vai pouco a pouco organizando a influ\u00eancia distinta, quando n\u00e3o contr\u00e1ria, \u00e0s influ\u00eancias manifestas e aparentes do grande corpo social. Esta \u00e9 a oposi\u00e7\u00e3o natural do progresso\u2026\u201d Os arautos das revolu\u00e7\u00f5es tornam-se bar\u00f5es. As revolu\u00e7\u00f5es trope\u00e7am nos seus pr\u00f3prios mentores. Certamente por estas raz\u00f5es uma das primeiras ac\u00e7\u00f5es governamentais de M\u00e1rio Soares foi reabilitar a Ma\u00e7onaria.<o:p><\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\"><o:p> <\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\">Na novela, Carlos simboliza o Portugal progressista e Joaninha o Portugal tradicionalista. Carlos representa o conflito ideol\u00f3gico e psicol\u00f3gico com Frei Dinis, seu tio (antigo regime). Ele busca nas novas ideologias, nas lutas liberais o afastamento das suas origens naturais. No seu trajecto, Carlos transforma-se, degrada-se e faz-se bar\u00e3o. Joaninha permanece fiel aos ideais de amor e de autenticidade, de que n\u00e3o abdica e morre doida. Carlos segue a raz\u00e3o e o progresso; Joaninha segue o cora\u00e7\u00e3o e a tradi\u00e7\u00e3o. <o:p><\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\"><o:p> <\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\">J\u00e1 tarde, Carlos escreve a Joaninha, a \u00fanica com quem ele realmente pode falar abertamente e confessa (e com ele a Revolu\u00e7\u00e3o): \u201cestou perdido para todos, e para ti tamb\u00e9m\u2026 Estou perdido. E sem rem\u00e9dio, Joana, porque a minha natureza \u00e9 incorrig\u00edvel. Tenho energia de mais, tenho poderes de mais no cora\u00e7\u00e3o. Estes excessos dele me mataram\u2026e me matam\u201d. <o:p><\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\"><o:p> <\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\">Com esta confiss\u00e3o se declara o falhan\u00e7o do liberalismo portugu\u00eas, que foi o falhan\u00e7o do republicanismo (a primeira democracia portuguesa) e que est\u00e1 a ter continuidade nos ind\u00edcios de fraqueza cr\u00f3nica da nossa democracia de Abril.<o:p><\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\"><o:p> <\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\">Carlos protagoniza o percurso hist\u00f3rico de Portugal e em especial o do liberalismo e do 25 de Abril.<o:p><\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\"><o:p> <\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\">Uma vez desmistificada a revolu\u00e7\u00e3o francesa (e ultimamente a Russa) trata-se agora de desmistificar a revolu\u00e7\u00e3o dos cravos para se poder passar a desmistificar o sentimentalismo portugu\u00eas e, na reconcilia\u00e7\u00e3o de raz\u00e3o e cora\u00e7\u00e3o, se dar perspectiva \u00e0 vida nacional e individual abrindo a janela da poesia e da ac\u00e7\u00e3o no sentido da reconquista de Portugal. Ent\u00e3o a literatura, a poesia tornar-se-\u00e3o, n\u00e3o em instrumentos ideol\u00f3gicos mas em factores correctivos da pol\u00edtica e factor formador do povo, tal como queria o romantismo. Para isso, os conservadores ter\u00e3o de acordar do seu sono deambulat\u00f3rio e os progressistas t\u00eam de deixar o seu esp\u00edrito mercen\u00e1rio, para juntamente descobrirem que o globalismo, a modernidade e a democracia se encontram j\u00e1 nas origens da na\u00e7\u00e3o e da terra lusitana e n\u00e3o nas ideologias e modas estranhas.<o:p><\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\"><o:p> <\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\">H\u00e1 entretanto uma chance que passar\u00e1 pela transforma\u00e7\u00e3o e integra\u00e7\u00e3o cont\u00ednua do nosso ser de Carlos e de Joaninhas sem a perca da pr\u00f3pria identidade. Integrar o progresso na tradi\u00e7\u00e3o e a tradi\u00e7\u00e3o no progresso, esta dever\u00e1 ser a miss\u00e3o de governos e de cidad\u00e3os. Para isto pressup\u00f5e-se uma capacidade de auto-reflex\u00e3o e de integra\u00e7\u00e3o e a vontade de se ser povo, de se ser portugu\u00eas n\u00e3o abdicando das diferen\u00e7as e de se ser homem\/mulher livre em processo. <o:p><\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\"><o:p> <\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\">Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<o:p><\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"\" lang=\"PT\">\u201cPegadas do Tempo\u201d<o:p><\/o:p><\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><b style=\"\"><span style=\"\" lang=\"PT\"><br \/><o:p><\/o:p><\/span><\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Continua\u00e7\u00e3o do texto \u201cDia de Portugal \u2013 Nas Pegadas de Portugal &#8211; Romantismo, Diagn\u00f3stico e Cura) Ant\u00f3nio Justo A crise de hoje \u00e9 civilizacional, antes de tudo cultural. Ela atinge mais os pa\u00edses da periferia, levados no redemoinho da globaliza\u00e7\u00e3o e propensos a reduzir-se a macacos de imita\u00e7\u00e3o. A crise portuguesa \u00e9 cr\u00f3nica com muitos &hellip; <a href=\"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1336\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">Com o Romantismo nas Pegadas de Portugal<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-1336","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1336","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1336"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1336\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1336"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1336"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1336"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}