{"id":1244,"date":"2007-11-17T18:25:00","date_gmt":"2007-11-17T17:25:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1244"},"modified":"2007-11-17T18:25:00","modified_gmt":"2007-11-17T17:25:00","slug":"educacao-no-contexto-do-25-de-abril","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1244","title":{"rendered":"Educa\u00e7\u00e3o no contexto do 25 de Abril"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"texto\">                    <b>Arte de Educar<\/b><\/p>\n<p>Ci\u00eancias da Educa\u00e7\u00e3o e o pensar correcto<br \/>A Europa tornou-se na \u00e9poca de sessenta e setenta o campo de experimenta\u00e7\u00e3o dos grandes protagonistas da liberdade e da renova\u00e7\u00e3o. De facto urgia uma mudan\u00e7a radical duma sociedade formalista com estruturas e comportamentos demasiado est\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Da revolta contra os caudilhos do tempo (nazismo, estalinismo, fascismo italiano, autoritarismo portugu\u00eas) e contra a tradi\u00e7\u00e3o surgiu uma alian\u00e7a concertada de todas as for\u00e7as relevantes na sociedade europeia. Pol\u00edticos, soci\u00f3logos, psic\u00f3logos e pedagogos assenhoreiam-se da ribalta do poder e dos lugares charneira da sociedade. Aliam-se na luta contra a autoridade, contra o poder estabelecido, numa atitude adversa a institui\u00e7\u00f5es e normas portadoras da mem\u00f3ria da tradi\u00e7\u00e3o. Pouco a pouco fazem o seu saneamento das institui\u00e7\u00f5es ocupando-as. A sociedade aplaude. Em nome dum antifascismo difuso abdica-se do car\u00e1cter cr\u00edtico e da d\u00favida met\u00f3dica. O esp\u00edrito sadio conservador \u00e9 difamado e estigmatizado, refugiando-se inseguro \u00e0 margem da sociedade. Iniciara-se a \u00e9poca do pensar correcto al\u00e9rgico a personalidades com coluna vertebral erecta. Um discorrer social leve instala-se. De modo simplicista abdica-se da an\u00e1lise das formas e m\u00e9todos de legitima\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias, o que vem servir a nova classe na escalada do poder. Muitos dos manifestantes e arruaceiros de ontem s\u00e3o os senhores de hoje.<\/p>\n<p>Assim dum movimento anti-autorit\u00e1rio e anti-reaccion\u00e1rio foi poss\u00edvel instalar-se nos novos sistemas a atitude autorit\u00e1ria escondida sob o manto do revolucion\u00e1rio, do democrata, do tolerante. Em contrapartida, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 verdade do passado, instala-se a opini\u00e3o como absoluto, o que vem servir uma praxe irreflectida. \u00c9 a \u00e9poca das ideologias e do pensar oportuno, do conveniente. A disciplina foi desautorizada por uma pedagogia nascida da reac\u00e7\u00e3o anti-autorit\u00e1ria, contra a chamada sociedade burguesa que exaltava a obedi\u00eancia. As ci\u00eancias da educa\u00e7\u00e3o tornam-se ve\u00edculo do novo pensar oportuno. Nas institui\u00e7\u00f5es de ensino mais do que especialistas queriam-se assistentes sociais\u2026<\/p>\n<p>                            <b>Decep\u00e7\u00e3o colectiva<\/b><br \/>Na consequ\u00eancia de tanto \u00e0-vontade, de tanta adolesc\u00eancia, as sociedades europeias e a sociedade portuguesa em particular encontram-se hoje \u00e0 chuva. Apesar dum relativo bem estar domina por toda a parte um sentimento decadente e de inseguran\u00e7a. Observa-se uma certa desorienta\u00e7\u00e3o, no p\u00fablico consumidor de imagens p\u00fablicas, acompanhada dum certo descr\u00e9dito em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s elites. De facto os ap\u00f3stolos da liberdade de ontem confundem-se hoje, nas suas formas de actuar, administrar e governar, com os actores do passado que destronaram e estigmatizam.<\/p>\n<p>Porque mant\u00eam as r\u00e9deas do poder, continuam com o esp\u00edrito ensombrado, negam a necessidade de orienta\u00e7\u00e3o e reflex\u00e3o, escondendo-se por detr\u00e1s de inc\u00f3gnitos apontando como fundamento do seu agir para o estrangeiro e para as orienta\u00e7\u00f5es europeias. Ofuscados em nevoeiros de ideologias irreflectidas agarram-se a bolhas empoladas de promessas de progresso e \u00e0 defesa das conquistas de Abril como se estas se tivessem tornado propriedade dos novos detentores do poder e da influ\u00eancia. Contradit\u00f3rios em si acordam os esp\u00edritos son\u00e2mbulos do passado. Reagem como as galinhas no poleiro ao sentirem o outro galo nas redondezas.<\/p>\n<p>Mundivis\u00f5es subjacentes \u00e0s teorias concorrentes da educa\u00e7\u00e3o<br \/>Educar quer dizer dirigir e pressup\u00f5e a capacidade de assumir responsabilidade. Na fam\u00edlia, na escola ou nas institui\u00e7\u00f5es sociais e estatais quem dirige n\u00e3o pode abdicar da capacidade de orientar. Tamb\u00e9m na escola o docente deve ser modelo, orientador para ser reconhecido como autoridade.<\/p>\n<p>Para Rousseau o ser humano \u00e9 bom. N\u00e3o precisa de interven\u00e7\u00e3o, carecendo apenas de acompanhamento. O desenvolvimento positivo \u00e9 para ele um pressuposto natural. Esta vis\u00e3o tem sido orientadora na pr\u00e1tica da pol\u00edtica escolar.<\/p>\n<p>Para a vis\u00e3o crist\u00e3 ao contr\u00e1rio o g\u00e9nero humano vive na polaridade entre bem e mal; traz em si potenciais positivos e negativos de toda a ordem. Por isso precisa de modelos comunicativos e de orienta\u00e7\u00e3o participada para fortalecer o bem que traz em si e transformar as for\u00e7as do mal em factores potenciadores de bem. O respeito m\u00fatuo gera autoridade. Aqui n\u00e3o se trata tanto de aplica\u00e7\u00e3o de ideias mas sim de viv\u00eancia no relacionamento.<\/p>\n<p>\u00c9 ileg\u00edtimo formar-se o ser humano \u00e0 base e em servi\u00e7o duma ideologia ou da pr\u00f3pria imagem. O ser humano, como imagem e participador do divino n\u00e3o pode ser petrificado numa imagem desejo, numa doutrina, teoria ou pr\u00e1xis. S\u00f3 na autonomia poder\u00e1 atingir um estado de consci\u00eancia livre n\u00e3o amarrado a ideologias ou cren\u00e7as sejam elas pedag\u00f3gicas, cient\u00edficas, pol\u00edticas ou religiosas. Conduzir e orientar algu\u00e9m implica em si o risco da petrifica\u00e7\u00e3o dum sistema. A orienta\u00e7\u00e3o acontece em processo, num decurso em que o educador desbrava o caminho do jovem para a liberdade, para si mesmo. O encontro da liberdade \u00e9 por\u00e9m feito pelo jovem n\u00e3o sendo este reduzido a objecto obrigado a seguir a liberdade que eu penso. Cada pessoa ter\u00e1 de descobrir, conquistar a liberdade na disputa consigo mesmo e com o mundo. Tem de se dar a si mesmo \u00e0 luz. Os outros s\u00e3o as parteiras conscientes da sua miss\u00e3o.<\/p>\n<p>                               <b>O equ\u00edvoco da esquerda<\/b><br \/>A esquerda reagiu com raz\u00e3o a uma sociedade e a uma pedagogia que vivia de atitudes e de virtudes petrificadas e portanto alienadoras. O problema \u00e9 que a esquerda tendo embora feito uma cr\u00edtica justa \u00e0 sociedade burguesa caiu no erro do fundamentalismo ideol\u00f3gico militante, ainda reinante. Apenas substitu\u00edram umas cren\u00e7as e pr\u00e1ticas por outras caindo nos mesmos dogmatismos e oportunismos sem chegarem a perceber o esp\u00edrito m\u00edstico que estava por detr\u00e1s da revolta. Tornaram-se cegos a guiar outros cegos!<\/p>\n<p>A partir dos anos 60 a esquerda ao basear a sua imagem do ser humano em Rousseau que considera o ser humano como bom em si e a sociedade como m\u00e1, inicia uma avalanche de consequ\u00eancias incalcul\u00e1veis. A sociedade ascendente apadrinha este modelo atendendo \u00e0s esperan\u00e7as socialistas em curso e \u00e0 revelia contra as institui\u00e7\u00f5es e a igreja tidas como mal e impedimento ao desenvolvimento do bem do homem espont\u00e2neo.<\/p>\n<p>A nova elite abandona o indiv\u00edduo a si mesmo interessando-se apenas com a mudan\u00e7a e o melhoramento da sociedade. Equivocava-se ao pensar que alterando certas situa\u00e7\u00f5es ambientais da sociedade o homem se modificaria automaticamente. Desleixa assim o essencial. Os seus actores que inteligentemente ocuparam a pol\u00edtica, a administra\u00e7\u00e3o do estado e os servi\u00e7os continuam irreflectidamente de cabe\u00e7a erguida sem ter de dar contas a um povo que apenas pressente a decad\u00eancia mas j\u00e1 n\u00e3o tem espinha dorsal nem entendimento para saber o que quer nem o que se passa.<\/p>\n<p>Assim, nas \u00faltimas duas gera\u00e7\u00f5es as crian\u00e7as e a juventude foram abandonadas a si mesmas e confrontadas com formas autorit\u00e1rias desautorizadas num ambiente lascivo de desinteresse. \u00c9 not\u00f3ria a falta de participa\u00e7\u00e3o interior. A vida agora acontece na rua, na \u00e1gora onde o que vale \u00e9 a m\u00e1scara. Em nome da liberdade querem-se \u201cboys\u201d e m\u00e1sculas. A sociedade civil, tamb\u00e9m no caso de Portugal, erradamente para se auto-afirmar, desautoriza a disciplina e as autoridades, mete no caixote do lixo da hist\u00f3ria indiferenciadamente autoridades e atitudes autorit\u00e1rias. Ao fim e ao cabo trata-se duma sociedade experimental em que todos reagem sem saber porqu\u00ea nem entender bem para qu\u00ea.<\/p>\n<p>\u00c9 \u00f3bvio que uma educa\u00e7\u00e3o integral e equilibrada n\u00e3o poder\u00e1 deixar de apontar para as atitudes autorit\u00e1rias nas formas de trato ou de governo, n\u00e3o se limitando a difamar sistemas e pessoas. Todos eles t\u00eam aspectos positivos e negativos independentemente do seu car\u00e1cter manifesto ou axiom\u00e1tico. A atitude \u00e9 formada atrav\u00e9s da experi\u00eancia no curr\u00edculo de cada um, n\u00e3o havendo uma explica\u00e7\u00e3o monocausal para a realidade social e individual como pretende a ideologia.<\/p>\n<p>A educa\u00e7\u00e3o ter\u00e1 de ser desideologizada e passar a ser assistida por uma ci\u00eancia ainda a emancipar-se do pensar correcto do tempo, para, no encontro e reconhecimento do indiv\u00edduo como ele \u00e9, &#8211; no seu ser \u201cbom\u201d e \u201cmau\u201d &#8211; , possibilitar o est\u00edmulo das potencialidades no processo de desenvolvimento. Na educa\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria uma discuss\u00e3o sobre o equil\u00edbrio entre o car\u00e1cter individual e social e entre as rela\u00e7\u00f5es fam\u00edlia e estado. Paradoxalmente o Estado liberal adoptou certos v\u00edcios dos sistemas marxistas sendo os consequentes defeitos j\u00e1 palp\u00e1veis no estado doentio em que se encontra a fam\u00edlia e concludentemente a sociedade.<\/p>\n<p>     <b>Revolta \u2013 o factor constitutivo de identidade<\/b><br \/>Para o educador a dificuldade estar\u00e1 em manter o balan\u00e7o entre obriga\u00e7\u00e3o e liberdade. N\u00e3o h\u00e1 caminho para a liberdade sem catarses nem subordina\u00e7\u00e3o. O educando ter\u00e1 de reflectir e dar-se conta do seu ser condicionado. A subordina\u00e7\u00e3o \u00e0 vida no reconhecimento das suas leis n\u00e3o significa a abdica\u00e7\u00e3o de ser para a liberdade mas sim o desenvolvimento da consci\u00eancia no sentido de integrar em si o todo sem permanecer rebelde, o que, neste caso, significaria uma emancipa\u00e7\u00e3o desintegrada, superficial e an\u00f3mala contra a realidade de se ser ente interrelacionado. O ser humano n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 esp\u00edrito, ele \u00e9 tamb\u00e9m mat\u00e9ria, muita mat\u00e9ria em processo de espiritualiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O adolescente para concretizar o corte do cord\u00e3o umbilical tem de se tornar resistente e mesmo de se revoltar, tal como fizeram Ad\u00e3o e Eva no processo de passagem ao estado adulto. A revolta est\u00e1 na ess\u00eancia do ser humano, a auto-afirma\u00e7\u00e3o perante o ambiente e a norma. S\u00f3 assim se chega \u00e0 pr\u00f3pria identidade, doa ela ao ambiente, \u00e0 ideia de Estado ou de Deus! A tend\u00eancia de impedir a revolta em vez de a reflectir \u00e9 uma reac\u00e7\u00e3o ego\u00edsta e exploradora por parte da sociedade e do educador de reac\u00e7\u00f5es prim\u00e1rias. Pais e professores devem estar preparados para aceitarem a revolta adolescente. Estes \u00e9 que s\u00e3o as pessoas de rela\u00e7\u00e3o, da autoridade, ocasionalmente representantes da proibi\u00e7\u00e3o do comer da \u00e1rvore proibida mas que transmitem ao vivo princ\u00edpios morais comuns e valores como solidariedade, respeito, honestidade, afecto e responsabilidade na liberdade.<\/p>\n<p>O educador tem um certo adiantamento no que respeita ao valor de certas experi\u00eancias e potenciais aquisi\u00e7\u00f5es, bem como na avalia\u00e7\u00e3o dos talentos e inclina\u00e7\u00f5es do educando. O educador consciente aprende tamb\u00e9m ele, no contacto directo com o educando, a distanciar-se dos pr\u00f3prios desejos e projec\u00e7\u00f5es no respeito pelo formando que \u00e9 um original \u00fanico. N\u00e3o lhe pode aplicar uma forma pr\u00e9-idealizada. Decide-se em di\u00e1logo, mas uma vez iniciado o caminho n\u00e3o se cede \u00e0 primeira resist\u00eancia.<\/p>\n<p>No di\u00e1logo e na abertura, pode-se n\u00e3o saber exactamente o caminho mas na caminhada comum v\u00e3o-se tornando claros os passos a seguir. Na provisoriedade, o adulto por\u00e9m sabe que o que prop\u00f5e \u00e9 bom para o adolescente. Como adulto sei que h\u00e1 coisas positivas e tenho de dar seguran\u00e7a ao filho ou ao aluno. Essa seguran\u00e7a \u00e9 por\u00e9m din\u00e2mica e processual, at\u00e9 porque o adulto n\u00e3o \u00e9 nenhum produto acabado, e a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 processo din\u00e2mico.<\/p>\n<p>A fun\u00e7\u00e3o do educando \u00e9 dolorosa, \u00e9 um processo mai\u00eautico porque por um lado n\u00e3o pode abandonar o adolescente a si mesmo e por outro n\u00e3o deve impor a sua ideia. Educa\u00e7\u00e3o \u00e9 um sistema que envolve as duas partes em crescimento rec\u00edproco de matura\u00e7\u00e3o na caminhada educativa conjunta de rela\u00e7\u00e3o e resson\u00e2ncia, progredindo as duas partes na experi\u00eancia, n\u00e3o dependentes de ideias mas abertos \u00e0 fantasia. Como caminhada comum h\u00e1 diferentes fases a transcorrer.<\/p>\n<p>                <b>Concorr\u00eancia entre os parceiros<\/b><br \/>Um problema \u00e9 a concorr\u00eancia entre a interven\u00e7\u00e3o do Estado que a partir dos 16 j\u00e1 permite o consumo do \u00e1lcool e do tabaco, al\u00e9m doutros direitos por que se n\u00e3o responsabiliza. Independentemente da fun\u00e7\u00e3o protectora do Estado, este intromete-se demais entre a crian\u00e7a e os pais, entre alunos e docentes. Muitos educadores para n\u00e3o entrarem em conflito com interpreta\u00e7\u00f5es da lei desinteressam-se e abandonam os educandos a eles mesmos.<\/p>\n<p>Na escola, como posso observar na minha actividade docente, muitos adolescentes j\u00e1 esperam com ansiedade por cada etapa para poderem dar-se aos excessos que a lei lhes permite, numa atitude de auto \u2013 afirma\u00e7\u00e3o perante os educadores e os colegas. O legislador tem uma perspectiva errada ao partir da ideia de que h\u00e1 um m\u00e9todo de introdu\u00e7\u00e3o ao consumo do \u00e1lcool ou do sexo que conduza automaticamente \u00e0 aprendizagem do trato regrado do mesmo. Uma escola que se limite a ensinar coisas n\u00e3o compreendeu o essencial que \u00e9 ensinar e viver o sentido delas.<\/p>\n<p>O problema p\u00f5e-se sob o ponto de vista do desenvolvimento psicol\u00f3gico do adolescente no aferimento da experi\u00eancia a fazer com a sua maturidade. Logicamente a vida \u00e9, em grande parte, o resultado de experi\u00eancias e ao fim e ao cabo cada um \u00e9 o resultado das suas. Isto por\u00e9m n\u00e3o justifica a conveni\u00eancia de uma experi\u00eancia qualquer. Dado que cada pessoa \u00e9 diferente torna-se quase imposs\u00edvel situar o ponto da sua maturidade para cada ac\u00e7\u00e3o a desenvolver no seu curr\u00edculo. Ensino \u2013 aprendizagem \u00e9 um processo din\u00e2mico na abertura para a liberdade.<\/p>\n<p>Aqui encontramo-nos numa encruzilhada sem sinais de tr\u00e2nsito. A quest\u00e3o situa-se a n\u00edvel de legitima\u00e7\u00e3o dos crit\u00e9rios de maturidade, e autonomia. Nisto cruzam-se interesses familiares, escolares, individuais, pol\u00edticos, econ\u00f3micos e ideol\u00f3gicos muitas vezes em concorr\u00eancia. O fen\u00f3meno torna-se mais complicado quando um estado pretensamente democr\u00e1tico faz tudo por tudo por manter o monop\u00f3lio do ensino escolar. Isto contraria o princ\u00edpio democr\u00e1tico e o princ\u00edpio da liberdade de ensino e da liberdade de sistemas e de indiv\u00edduo.<\/p>\n<p>                  <b>Educar \u00e9 ensinar a aprender<\/b><br \/>A educa\u00e7\u00e3o quer possibilitar a estabilidade de auto-consci\u00eancia no educando de maneira a este poder resistir com efici\u00eancia \u00e0s contrariedades do dia a dia e do ser. Para isso precisa da confian\u00e7a e dum espa\u00e7o pr\u00f3prio onde se possam abrigar e recuperar for\u00e7as para encarar os novos desafios. Naturalmente que o adolescente, perante as nuvens amea\u00e7adoras do mundo adulto que repudia, poder\u00e1 ter a tend\u00eancia a regredir ao seio materno onde a protec\u00e7\u00e3o \u00e9 meramente maternal ou ao seio de grupos afins. A quest\u00e3o a p\u00f4r ser\u00e1 &#8211; qual o lugar de protec\u00e7\u00e3o ser\u00e1 melhor: o escolhido pelo adolescente ou o oferecido pelo educador\u2026<\/p>\n<p>Os jovens encontram-se desprotegidos perante um mundo meramente mercantil que apenas est\u00e1 interessado em ganhar dinheiro com as suas necessidades. O Estado, por seu lado encontra-se sobrecarregado sendo inapto para a tarefa que assume por estar sujeito \u00e0 ideologia de quem assume o governo e por leis de mercado a que o Estado se obriga. Tanto a configura\u00e7\u00e3o dos estabelecimentos de ensino bem como pedagogias e did\u00e1cticas n\u00e3o se encontram em conformidade com os nobres objectivos do ensino em geral. H\u00e1 um precip\u00edcio entre a realidade e as inten\u00e7\u00f5es dum estado isento. Neste sentido o Estado mais que interessado em que o educando aprenda a aprender est\u00e1 empenhado em conduzi-lo. Por isso est\u00e1 mais empenhado em que o aluno aprenda coisas do em que ele compreenda o sentido delas. As \u00faltimas medidas do ME em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 avalia\u00e7\u00e3o dos professores apontam mais para que os alunos andem na escola a aquecer os bancos da escola do que em que saiam delas capacitados e habilitados para a vida. Quer-se uma democratiza\u00e7\u00e3o da incompet\u00eancia, apesar dos resultados das investiga\u00e7\u00f5es PISA que documentam o estado catastr\u00f3fico do n\u00edvel dos nossos alunos. Educar, mais que ensinar a prender, \u00e9 um processo m\u00fatuo de aprender a aprender, doutro modo constroem-se mundos paralelos: o das ideias e o da pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Pedagogia dos anos sessenta e setenta em fun\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica<br \/>A pedagogia dos anos 60 e 70 sonhava com um lugar de protec\u00e7\u00e3o para o indiv\u00edduo em que este, longe do medo, conseguisse experimentar e experimentar-se. Esta ci\u00eancia pedag\u00f3gica surgiu da reac\u00e7\u00e3o contra o fascismo e contra a tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Queria-se uma educa\u00e7\u00e3o em liberdade, uma nova sociedade correctora daquela que tinha levado \u00e0s guerras europeias. Contra o tabu da tradi\u00e7\u00e3o cria-se o tabu do novo, do progresso, em contra \u2013 afirma\u00e7\u00e3o. Acredita-se ingenuamente ou funcionalmente na verdade e na liberdade. Ao querer-se um ser humano livre como um passarinho esqueceu-se que este tamb\u00e9m tem ninho e est\u00e1 sujeito \u00e0 assist\u00eancia dos pais\u2026<\/p>\n<p>Na luta por impor novos ideais sociais para criarem uma sociedade civil secular, desvalorizaram os rituais religiosos e familiares da configura\u00e7\u00e3o do dia e da semana (refei\u00e7\u00f5es comuns e liturgia semanal) sem criarem rituais seculares substitutos. A autoridade foi questionada como se ela fosse um impedimento ao desenvolvimento. A autoridade do professor foi sistematicamente minada, questionando-se o seu carisma, submetendo-o a pr\u00e1ticas protocolares para assim o desvincular do aluno e o tornar totalmente dispon\u00edvel para a ideia colectivista do Estado em voga.<\/p>\n<p>(Ao contr\u00e1rio, a experi\u00eancia de quem ensina confirma que o aluno manifesta respeito pela autoridade. Esta pr\u00e1tica pude faz\u00ea-la j\u00e1 bem cedo em Bragan\u00e7a nos anos 71-73. No meu primeiro ano de est\u00e1gio como professor procurei aplicar as teorias aprendidas na psicologia e pedagogia anti-autorit\u00e1ria (A.S.Neill, Virg\u00ednia M. Axline, Wilhelm Reich, Paulo Freire e outros ) introduzindo tamb\u00e9m o tu no trato entre professor e aluno. No fim do ano confrontei-me com o meu descontentamento e com o descontentamento dos alunos. No ano seguinte adoptei o m\u00e9todo baseado na psicologia do desenvolvimento da personalidade e do comportamento de Carl Rogers tendo-se patenteado ent\u00e3o grande sucesso e contentamento por parte de toda a comunidade escolar. O col\u00e9gio era um internato e externato ao mesmo tempo com alunos internos de bom quociente de intelig\u00eancia que provinham de meios degradados do Porto e de Coimbra. A estes era-lhes proibido sair do col\u00e9gio sem acompanhamento atendendo ao perigo de fuga e outros. Facto \u00e9 que, no segundo ano, a estes alunos j\u00e1 lhes era permitido passear por Izeda sem a cont\u00ednua presen\u00e7a do professor monitor.)<\/p>\n<p>Nos anos sessenta e setenta a pedagogia e a psicologia deixou-se obcecar pela ideia de liberdade individual procurando explica\u00e7\u00e3o para todos os maus sintomas individuais do jovem e da crian\u00e7a na malfazeja educa\u00e7\u00e3o dada por pais e institui\u00e7\u00f5es. Isto vinha de encontro aos interesses da pol\u00edtica que queria p\u00f4r a fam\u00edlia e o indiv\u00edduo sob a sua tutela. Via-se nas fam\u00edlias e na sociedade, que tinham sido respons\u00e1veis pela hist\u00f3ria tr\u00e1gica europeia, os malfeitores a combater. Na escola deu-se o mesmo processo. Ainda hoje se cede \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de reduzir a disciplina de hist\u00f3ria a uma disciplina de pedagogia. \u00c9 enjoativa a maneira como se assiste a ac\u00e7\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o para professores em que a ideologia \u00e9 bebida imperceptivelmente por docentes desatentos. Uma pobreza franciscana entre pessoas todas bem intencionadas!&#8230; Seria de chorar se n\u00e3o fosse t\u00e3o divertido!&#8230;<\/p>\n<p>O mesmo se pode observar na tend\u00eancia de acabar com a disciplina de Filosofia nos cursos do ensino complementar. Querem-se pessoas d\u00f3ceis ao sistema com capacidade para terem opini\u00e3o ideol\u00f3gica mas com incapacidade cr\u00edtica para as questionar.<\/p>\n<p>Assiste-se ao costumado jogo do rato e do gato. Questiona-se a problem\u00e1tica em termos de gera\u00e7\u00f5es o que leva a culpabilizar os mais velhos desautorizando-os. O processo ideol\u00f3gico da era sessenta era t\u00e3o radical que envolvia todos os sectores do saber. Por outro lado a gera\u00e7\u00e3o p\u00f3s-guerra acumulou tanta riqueza na Europa central que o optimismo econ\u00f3mico n\u00e3o deixava momento para se questionar a pr\u00e1tica social.<\/p>\n<p>A prosperidade fomentou uma moral longe da realidade humana, uma moral para meninos-bem filhos de pais com cargos, uma atitude irrespons\u00e1vel e leviana de que hoje todos sofremos.<\/p>\n<p>Facilmente a reac\u00e7\u00e3o contra uma sociedade monol\u00edtica impeditiva de qualquer emancipa\u00e7\u00e3o justificou oposi\u00e7\u00e3o t\u00e3o exagerada deslegitimando toda a autoridade leg\u00edtima ou ileg\u00edtima.<\/p>\n<p>Tal, como confessa Daniel Cohn-Bendit instala-se contra a ideologia autorit\u00e1ria a ideologia anti-autorit\u00e1ria questionadora n\u00e3o s\u00f3 da autoridade como tamb\u00e9m da ordem social.<\/p>\n<p>O sonho do movimento anti-autorit\u00e1rio era conseguir uma forma pol\u00edtica geralmente de cunho marxista que se impusesse por ela mesma, tornando a autoridade sup\u00e9rflua. Um sonho que tamb\u00e9m eu sonhei mas que n\u00e3o passa duma utopia. Importante \u00e9 a abertura \u00e0 experi\u00eancia como factor corrector, pressuposto dif\u00edcil para caracteres obsessivos. A experi\u00eancia mostra que a leg\u00edtima aspira\u00e7\u00e3o e exig\u00eancia do ser humano para a autonomia e independ\u00eancia ter\u00e1 de acontecer numa din\u00e2mica entre o indiv\u00edduo e a sociedade n\u00e3o podendo aquele viver sem esta.<br \/>O desenvolvimento \u00e9 doloroso mas, nessa dial\u00e9ctica, a supra-estrutura deve reconhecer na autonomia e individua\u00e7\u00e3o de cada membro o seu mais elevado motivo e fim.<\/p>\n<p>A palavra anti-autorit\u00e1rio desapareceu da ci\u00eancia pedag\u00f3gica, permanecendo por\u00e9m o direito \u00e0 revolta. Seria \u00f3bvio que esta revolta passasse a ser um direito humano que assiste a toda a pessoa. O direito de tudo questionar mas n\u00e3o como ideologia ao servi\u00e7o dum sistema pol\u00edtico ou social, tal como acontece no pensar correcto estabelecido. Todo o pensamento deve ser corrigido pela vida.<\/p>\n<p>A revolta por\u00e9m n\u00e3o pode ser arvorada em bandeira ou no direito do adolescente perturbar a aula e n\u00e3o respeitar o docente. O aluno tem, no sistema escolar, meios de recurso e de auto-defesa institucionalizada.<\/p>\n<p>A dificuldade \u00e9 que o Estado n\u00e3o cria as infra-estruturas escolares com um m\u00ednimo de pressupostos para que a turma ou conjunto de turmas dum n\u00edvel escolar tenham um desenvolvimento sadio numa comunidade escolar coesa. O Estado confessando-se embora democr\u00e1tico tem uma pr\u00e1tica antidemocr\u00e1tica. Ele desresponsabiliza o indiv\u00edduo logo \u00e0 partida, no seu processo de forma\u00e7\u00e3o, considerando apenas a turma e o professor como aplicador dum programa r\u00edgido superiormente ordenado.<\/p>\n<p>A auto-sufici\u00eancia dos professores \u00e9 geralmente questionada por uma pol\u00edtica que n\u00e3o aceita o erro no seu sistema. Isto independentemente de haver muitos professores sem voca\u00e7\u00e3o para a profiss\u00e3o que exercem ou que foram obrigados a perder a aptid\u00e3o que inicialmente tinham.<\/p>\n<p>Numa sociedade que se quer terreno de constru\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o aceites valores nem o cultivo da tradi\u00e7\u00e3o. Antigamente dava-se import\u00e2ncia \u00e0 aprendizagem de muitas virtudes, entre elas a das boas maneiras. Uma est\u00e9tica do trato anteriormente aprendida tamb\u00e9m na escola tendente a formar personalidades \u00e9 hoje vista como teias de aranha do passado a remover. Cortesia cheira a corte, a monarquia, a princ\u00edpios. A virtude reduz-se a palavra arcaica e certos valores pelo facto de terem sido abusados na sociedade tradicional s\u00e3o agora vistas como impedimento ao desenvolvimento e \u00e0 implementa\u00e7\u00e3o do novo regime. Obedi\u00eancia cheira a burguesia, hoje quer-se subservi\u00eancia. A virtude todavia \u00e9 o meio de dois extremos o que proporciona um bom termo de orienta\u00e7\u00e3o. Cortesia significa tomar o outro em considera\u00e7\u00e3o. Isto vai naturalmente contra a centraliza\u00e7\u00e3o no ego o que n\u00e3o agrada \u00e0 ideologia anti-autorit\u00e1ria. O problema da pedagogia de ontem e de hoje permanece o mesmo: fazer da civilidade adestramento. De resto ainda resta a quest\u00e3o dos destinat\u00e1rios da educa\u00e7\u00e3o: a mediocracia ou o precariado\u2026<\/p>\n<p>\u00c9 um equ\u00edvoco condicionar a liberdade do adulto \u00e0 liberdade da crian\u00e7a como queria Rousseau e um certa tend\u00eancia da psicoterapia. O problema da sociedade de hoje \u00e9 que tem pedagogos a mais e personalidades a menos.<\/p>\n<p>O desenvolvimento da hist\u00f3ria acontece de forma pendular de um extremo para o outro sobrevivendo sempre o meio-termo. Cada bi\u00f3topo social precisa duma outra pedagogia dado esta ser rela\u00e7\u00e3o, caminho em conjunto e este implicar encontro, identifica\u00e7\u00e3o, compaix\u00e3o.<\/p>\n<p>Numa sociedade cada vez mais fria e mais sujeita \u00e0 lei do mercado torna-se cada vez mais carente, mais carente tamb\u00e9m de certas virtudes de que j\u00e1 n\u00e3o se faz ideia hoje. Para reconhecer e respeitar a juventude \u00e9 preciso conhec\u00ea-la primeiro e entender o seu ambiente. Um pressuposto para o desenvolvimento ser\u00e1 abandonar a forma de pensar orientada para os problemas substituindo-a por um pensar orientado para as solu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio  Justo<br \/>Pedagogo<br \/>\u201cPegadas do Tempo\u201d                   <\/span><\/p>\n<div align=\"right\"> <span class=\"texto\"><b>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/b> <\/span><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Arte de Educar Ci\u00eancias da Educa\u00e7\u00e3o e o pensar correctoA Europa tornou-se na \u00e9poca de sessenta e setenta o campo de experimenta\u00e7\u00e3o dos grandes protagonistas da liberdade e da renova\u00e7\u00e3o. De facto urgia uma mudan\u00e7a radical duma sociedade formalista com estruturas e comportamentos demasiado est\u00e1ticos. 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