{"id":1243,"date":"2007-11-17T18:25:00","date_gmt":"2007-11-17T17:25:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1243"},"modified":"2007-11-17T18:25:00","modified_gmt":"2007-11-17T17:25:00","slug":"maria-%e2%80%93-maio-%e2%80%93-fatima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1243","title":{"rendered":"Maria \u2013 Maio \u2013 F\u00e1tima"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"texto\"> Maria, tal como a natureza em Maio, tem as mais diversas express\u00f5es. As diferentes devo\u00e7\u00f5es a Maria s\u00e3o tamb\u00e9m elas manifesta\u00e7\u00e3o da multiplicidade da realidade e das imagens da alma humana.<\/p>\n<p>Maria, tal como a alma humana, tem mil rostos. Expressa-se como m\u00e3e, rainha, virgem, auxiliadora, a Senhora de Lurdes, de F\u00e1tima, etc. Nela se manifesta tamb\u00e9m a nossa geografia espiritual, o nosso ser de paisagem no tempo e no espa\u00e7o. Em Maria se manifestam a escrituras e a tradi\u00e7\u00e3o, a espiritualidade e a teologia, o rito e o folclore. Nela, tal como em Cristo, se encontra o ser humano completo.<\/p>\n<p>A teologia feminista procura ver nela sobretudo a dimens\u00e3o humana (1). Em Maria a mulher foi expropriada. Ao p\u00f4r-se na disponibilidade do acto criativo, Maria e com ela a mulher \u00e9 libertada das correntes que a submetiam ao homem e \u00e0 sociedade. Na sua disposi\u00e7\u00e3o ao esp\u00edrito ela torna-se o prot\u00f3tipo da cria\u00e7\u00e3o, da arte \u2013 o dar \u00e0 luz em si. Torna-se a imagem de todo o artista cujo programa se realiza no Magnificat. Nele se revela o segredo do processo de expropria\u00e7\u00e3o, o programa para todo o homem e mulher na integra\u00e7\u00e3o da polaridade, superando assim a explora\u00e7\u00e3o e o dom\u00ednio sobre o outro.<\/p>\n<p>Na teologia feminista Maria, como todos os s\u00edmbolos religiosos, pode ser vista das mais variadas perspectivas. Maria \u00e9 ao mesmo tempo submissa e insubordinada. O movimento das mulheres procura em Maria marcas em que se apoiar. O feminismo radical, numa estrat\u00e9gia polarizante procura conquistar terreno vendo em Maria a deusa das origens. Muitas v\u00eaem nos evang\u00e9licos, na sua acentua\u00e7\u00e3o s\u00f3 em Cristo, a esconjura\u00e7\u00e3o dos restos da feminidade. Independentemente dos abusos masculinos na interpreta\u00e7\u00e3o do divino deve recordar-se que o Cristianismo original n\u00e3o \u00e9 de conota\u00e7\u00e3o sexual nem se deixa reduzir a interpreta\u00e7\u00f5es, a perspectivas e maneiras de ver pr\u00f3prias do tempo. Estas dependem do desenvolvimento da consci\u00eancia humana e do esp\u00edrito da correspondente \u00e9poca, o que torna as interpreta\u00e7\u00f5es relativas. F\u00e9 mais que um credo \u00e9 uma viv\u00eancia, uma m\u00edstica e s\u00f3 assim universal na sua integralidade.<\/p>\n<p>Muitas das imagens de Maria s\u00e3o pr\u00e9-crist\u00e3s. Maria cristianiza as deusas pag\u00e3s e assume as suas resid\u00eancias. Nela se re\u00fanem todas as met\u00e1foras femininas. Ela \u00e9 a Deusa secreta do Cristianismo. As suas apari\u00e7\u00f5es expressam o grande poder da realidade do inconsciente.<br \/>Tamb\u00e9m o peregrino no seu peregrinar se sente como parte dum todo, o povo, a natureza a responder ao chamamento interior. (Tamb\u00e9m por isso ser\u00e1 debalde muito do esfor\u00e7o de padres na tentativa de racionalizarem mais as promessas de crentes).<\/p>\n<p>De momento assiste-se a um novo irracionalismo na procura de muitas pessoas por dominar a pr\u00f3pria vida. Este favorece tudo o que est\u00e1 fora da tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica interessando-se por uma interpreta\u00e7\u00e3o feminista espiritualizado a maneira pr\u00f3pria. O neg\u00f3cio com os devocionais floresce. A capacidade de compreens\u00e3o simb\u00f3lica tornou-se muit\u00edssimo dif\u00edcil. O mundo da racionalidade trivial n\u00e3o deixa espa\u00e7o para imagens ficando estas reservadas ao mundo da religi\u00e3o e da arte. A alma por\u00e9m revela-se e fala atrav\u00e9s das imagens.<\/p>\n<p>Maria \u00e9 a mulher f\u00e9rtil que transmite a vida. No princ\u00edpio est\u00e1 a m\u00e3e original. A mulher traz a vida sem a interven\u00e7\u00e3o do homem. Maria virgem e m\u00e3e \u00e9 a met\u00e1fora dum novo come\u00e7o. As imagens de Maria surgem da base. Ela torna-se o prot\u00f3tipo, a m\u00e3e da Igreja; ela encontra-se no centro de cada mulher, de cada homem.<br \/>A humanidade de Jesus foi em parte absorvida pela cultura. O problema \u00e9 que uma humanidade radical torna sup\u00e9rflua a tradi\u00e7\u00e3o, a mem\u00f3ria. Na mem\u00f3ria por\u00e9m d\u00e1-se o nascimento espiritual.<\/p>\n<p>\u201cAquele que faz a minha vontade \u00e9 meu pai, minha m\u00e3e e meu irm\u00e3o\u201d. Jesus faz ir pelos ares os pap\u00e9is a que as pessoas se encostam, sejam eles familiares, sociais ou religiosos. Com Jesus e com Maria irrompe o tempo do homem-mulher adulto. Para Jo\u00e3o a filia\u00e7\u00e3o divina s\u00f3 acontece no esp\u00edrito santo. Maria, a pessoa, engravida por obra do esp\u00edrito santo, por for\u00e7a do esp\u00edrito. A dimens\u00e3o do esp\u00edrito \u00e9 reconhecida como essencial, como formadora da realidade mas n\u00e3o defin\u00edvel nem localiz\u00e1vel s\u00f3 no particular.<\/p>\n<p>Para Mateus Jesus re\u00fane em si as esperan\u00e7as dos judeus na adop\u00e7\u00e3o de Jesus por Jos\u00e9, descendente da casa de David, e no totalmente novo como filho do esp\u00edrito. Ele \u00e9 o esperado que atrav\u00e9s do esp\u00edrito apresenta o totalmente novo, n\u00e3o precisando doutra legitimacao. Deus interv\u00e9m assim, atrav\u00e9s do esp\u00edrito hist\u00f3rica e misticamente. A imagem judaica tradicional de Deus \u00e9 superada. Maria, na anuncia\u00e7\u00e3o e concep\u00e7\u00e3o, embora ligada a David indirectamente atrav\u00e9s de Jos\u00e9, realiza nela a alian\u00e7a hist\u00f3rica de Deus ao povo de Israel alargando essa alian\u00e7a a todo o indiv\u00edduo atrav\u00e9s do gerar por ac\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito. (Naturalmente que na b\u00edblia se trata de teologia e n\u00e3o de mera biologia como gostariam aqueles que sonham com uma igreja muda.) O acto legitimador n\u00e3o se reduz ao institucional hist\u00f3rico, ele passa a ser o Esp\u00edrito que sopra independentemente de condicionamentos.<\/p>\n<p>No Magnificat, as v\u00edtimas tornam-se sujeito da ac\u00e7\u00e3o. A salva\u00e7\u00e3o vem de baixo.<br \/>Hoje \u00e9 mais que nunca necess\u00e1ria tamb\u00e9m uma exegese com uma veia m\u00edstica. No caminho m\u00edstico d\u00e1-se a converg\u00eancia da transcend\u00eancia com a iman\u00eancia.<br \/>N\u00e3o podemos reconhecer s\u00f3 a terra como deusa, como quer o feminismo radical nem s\u00f3 o c\u00e9u como horizonte descontextuado como pretendem outros. Num processo aberto \u00e0 m\u00edstica conseguir-se-\u00e1 reconciliar o mundo das ideias com o da realidade, o mundo do esp\u00edrito com o da mat\u00e9ria. Seria falso desmiolar os mitos. Mito age a partir do que est\u00e1 escondido no encontro da for\u00e7a vertical com a for\u00e7a horizontal. Todo o componente da realidade est\u00e1 integrado num todo global, num sistema din\u00e2mico relacional na interliga\u00e7\u00e3o dos campos f\u00edsico, fenomenol\u00f3gico e espiritual como se v\u00ea na realidade trinit\u00e1ria.<\/p>\n<p>No m\u00eas de Maio por todo o mundo cat\u00f3lico se observa grande actividade em torno de Maria. Muitas vezes as celebra\u00e7\u00f5es lit\u00fargicas s\u00e3o orientadas por leigos. Nestas liturgias marianas privilegia-se a feminidade.<\/p>\n<p>Um aspecto importante que se enquadraria dentro desta espiritualidade seria a introdu\u00e7\u00e3o de ritos de imposi\u00e7\u00e3o das m\u00e3os em todas as par\u00f3quias. A\u00ed todos os participantes poderiam, na resposta \u00e0 diversidade dos dons do esp\u00edrito santo, criar ritos em que tamb\u00e9m o tratamento do corpo, a cura dos fi\u00e9is presentes se tornassem pr\u00e1ticas usuais mediante a imposi\u00e7\u00e3o das m\u00e3os por parte dos fi\u00e9is. Isto corresponderia a uma necessidade real e cuja vulgariza\u00e7\u00e3o poderia ter como orienta\u00e7\u00e3o a b\u00ean\u00e7\u00e3o dos enfermos realizada em F\u00e1tima nos dias treze bem como certas pr\u00e1ticas dos movimentos carism\u00e1ticos. As liturgias marianas poderiam tornar-se um exerc\u00edcio mais adequado \u00e0s necessidades do lugar e do tempo.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<br \/>\u201cPegadas do Tempo\u201d<\/p>\n<p>(1) Sabe-se da investiga\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica que o modo de pessoas compreenderem a b\u00edblia depende muit\u00edssimo da sua pr\u00e9-atitude. \u201cNa cabe\u00e7a do leitor surge um texto virtual, que se pode distinguir muito do texto b\u00edblico em quest\u00e3o\u201d. Tamb\u00e9m o modo de compreender o texto se processa diferentemente. Enquanto que leitores ligados \u00e0 igreja compreendem o texto num contexto global b\u00edblico, leitores sem experi\u00eancia eclesial procuram o acesso ao texto atrav\u00e9s da perspectiva hist\u00f3rica. <\/span><\/p>\n<div align=\"right\"> <span class=\"texto\"><b>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/b> <\/span><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria, tal como a natureza em Maio, tem as mais diversas express\u00f5es. As diferentes devo\u00e7\u00f5es a Maria s\u00e3o tamb\u00e9m elas manifesta\u00e7\u00e3o da multiplicidade da realidade e das imagens da alma humana. Maria, tal como a alma humana, tem mil rostos. 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