{"id":1238,"date":"2007-11-17T12:29:00","date_gmt":"2007-11-17T11:29:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1238"},"modified":"2007-11-17T12:29:00","modified_gmt":"2007-11-17T11:29:00","slug":"medo-eo-medo-do-medo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1238","title":{"rendered":"Medo e\/o medo do medo"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"texto\"> Para melhor compreens\u00e3o do que digo a seguir come\u00e7o por citar: &#8220;Encontro-me desesperada, sem for\u00e7as para nada e cheia de medos, at\u00e9 de Deus tenho medo. Tudo me parece sem sentido e duvido de tudo o que fa\u00e7o. Tenho sentimentos de culpa e a necessidade de controlar tudo, ser perfeita. Tudo me foge debaixo dos p\u00e9s. Levei uma vida sempre adaptada, sem problemas. Antes ouvia e aconselhava os outros e agora quero repetir e contar continuamente os meus medos e n\u00e3o confio em nada. Um abra\u00e7o. Sua antiga aluna. S&#8221;<\/p>\n<p>                              <b>Medo e o medo do medo<\/b><\/p>\n<p>Querida estudante amiga:<\/p>\n<p>A ti, pessoalmente, queria dizer-te: tu \u00e9s uma pessoa muito rica e prendada. Exteriormente tudo parece estar bem em ti mas no fundamento da tua alma h\u00e1 l\u00e1 uma fonte inesgot\u00e1vel onde muitas energias quererem expressar-se e fluir na tua vida com naturalidade. Parece que tu n\u00e3o queres que a vida te apresente surpresas. Procuras defender ou esconder algo importante em ti que quer sair mas de que tu tens medo. Tu repeles inconscientemente algo em ti e deste modo o fluxo da vida \u00e9 interrompido ou sai aos solu\u00e7os.<\/p>\n<p>Agora passo a responder-te duma maneira geral atendendo a que tamb\u00e9m outras pessoas das tuas rela\u00e7\u00f5es poder\u00e3o ler isto para poderem perceber a tua situa\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso h\u00e1 uma outra pessoa que conhe\u00e7o com problemas semelhantes e que poder\u00e1 tamb\u00e9m aproveitar da leitura do que escrevo. Por isso falo do problema em geral do problema da obsess\u00e3o para te poderes situar e verificar o que te poder\u00e1 servir. Referir-me-ei um pouco mais detalhadamente \u00e0 ideia de Deus porque esta me foi referida por uma outra pessoa neste contexto, e por detr\u00e1s da ideia de Deus esconde-se a ideia de n\u00f3s mesmos como reflexo na forma\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria identidade.<\/p>\n<p>O que apresentas exige a visita dum psic\u00f3logo e para come\u00e7ar dum psicoterapeuta para tamb\u00e9m poderes ser medicamentada com rem\u00e9dio.<\/p>\n<p>Em ti parece irromper uma enxurrada de for\u00e7as e de vitalidade incontrol\u00e1vel e que te metem medo porque te amea\u00e7am querer tirar-te do ambiente do repetitivo habitual. Tu tens vivido amarrada \u00e0s regras e aos h\u00e1bitos. Agora que surge a chance de te desenvolveres mais surge o medo da mudan\u00e7a. O impulso de abrir as portas do teu eu \u00e0 riqueza que roja do teu mais \u00edntimo leva-te a reagir com medo, a trancar as portas.<\/p>\n<p>Tu viveste amarrada \u00e0 corda dos outros e agora sentes-te extraditada. No mais profundo de ti mesma o totalmente outro (Deus) libertador bate \u00e0 porta e tudo treme em ti. E na falta do totalmente outro sentes-te entregue \u00e0 necessidade pura, \u00e0 necessidade de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>O desespero \u00e9 um grito \u00e0 procura de solo fixo em ti mesma, um lugar onde colocares os p\u00e9s para poderes andar segura. O problema \u00e9 que talvez esperes a seguran\u00e7a vinda de fora. A vida exige de ti um salto no obscuro onde ser\u00e1 poss\u00edvel o encontro com o totalmente outro, um tu no qual possas entrar numa rela\u00e7\u00e3o dialogal e ent\u00e3o passares a ser a formadora de ti mesma na confian\u00e7a que te vem do encontro profundo. Tu queres dar um salto em solo s\u00f3lido, o salto na \u00e1gua mete medo porque exige mais de ti, a confian\u00e7a. A base do problema est\u00e1 na falta de confian\u00e7a; se ainda h\u00e1 confian\u00e7a em Deus esse deus corresponde a um deus mesquinho demasiado preocupado com a tralha: um Deus retalhista porque te mete medo e talvez castigue. Troca-se a sua abertura e total potencialidade por uma imagem est\u00e1tica, segura a que se poder agarrar (agarrar-se a uma ideia trai\u00e7oeira de Deus). Ent\u00e3o em vez de nos agarramos a Deus que \u00e9 a total abertura (\u00e1gua) agarramo-nos a uma ideia fixa dele ou a uma perfei\u00e7\u00e3o segura, \u00e0 ideia que dela temos. Confiar em Deus seria um risco de se seguir caminho sem ter a que se agarrar. Deus n\u00e3o d\u00e1 garantias e a pessoa que sofre quer agarrar-se a garantias, para\u00edso, sa\u00fade, casamento&#8230; Porque a imagem de Deus \u00e9 din\u00e2mica e portanto com inseguran\u00e7as e implica o imprevisto, a cont\u00ednua mudan\u00e7a, o futuro aberto do nosso eu, em momentos dif\u00edceis tendemos a agarrar-nos \u00e0 seguran\u00e7a duma ideia, uma ideia de Deus \u00e0 medida da nossa necessidade ou doen\u00e7a. Criamos mundos paralelos legitimados pela ideia e assim nos agarramos de ideia em ideia, de facto em facto porque a confian\u00e7a absoluta no totalmente outro, diferente (Deus) tornar-se-ia perigoso e demasiado inst\u00e1vel. Deus n\u00e3o quer que nos agarremos a ele mas que andemos por n\u00f3s. Ele \u00e9 o fundamento, o ch\u00e3o em que podemos p\u00f4r os p\u00e9s. S\u00f3 partindo dum sentimento da confian\u00e7a podermos ter for\u00e7a para ousar o novo, a mudan\u00e7a. N\u00e3o estamos c\u00e1 para a vida, a vida \u00e9 que est\u00e1 c\u00e1 para n\u00f3s. Infelizmente normalmente n\u00e3o somos habituados a ouvir-nos nem a dar express\u00e3o aos nossos sentimentos nem \u00e0 criatividade em n\u00f3s. Somos habituados a agarrar-nos a ideias julgando assim adquirir seguran\u00e7a sobre a vida atrav\u00e9s do pensar e do agir \u00e0 custa da repress\u00e3o da intui\u00e7\u00e3o e da criatividade. Falta a confian\u00e7a incondicional criativa exigindo-se do mist\u00e9rio e de Deus algo fixo e palp\u00e1vel. Ele por\u00e9m n\u00e3o pode ser reduzido a forma, a modelo; a sua grandeza est\u00e1 na rela\u00e7\u00e3o moderativa entre um eu e um tu.<\/p>\n<p>O sofrimento vem dum complexo moral muito estreito que conduz ao escr\u00fapulo. Em vez dum ambiente de confian\u00e7a h\u00e1 um substrato de culpa que conduz ao medo que se torna numa constante amea\u00e7adora. Este pode chegar a tornar-se numa nuvem cada vez mais escura que tenta ocupar o espa\u00e7o aberto no eu profundo a despertar. Se a situa\u00e7\u00e3o se agrava a pessoa passa a ser um juiz muito duro para consigo mesmo que se castiga. Se faz algo que pensa ser errado castiga-se duplamente porque experimenta o seu ser como um ser culpado em vez de ver a falha \u2013 culpa como elemento da vida, tem como inimigo o perfeccionismo. Ent\u00e3o n\u00e3o se atreve a ser agressivo n\u00e3o aceitando a agressividade pr\u00f3pria nem a dos outros. Para a evitar refugia-se por vezes na solid\u00e3o. A\u00ed d\u00e1 lugar a uma ideia de perfei\u00e7\u00e3o que leva ao alheamento da vida e ao alheamento dos outros. O medo impede a entrega, o desprendimento, o verdadeiro relacionamento. O seu sentimento insurge-se contra uma atitude confiante aberta e contra a liberdade. A sua consci\u00eancia exige de si e dos outros o m\u00e1ximo, quer perfei\u00e7\u00e3o em tudo. A sua vida torna-se como uma teia de aranha onde se mant\u00e9m preso, prendendo. Se a doen\u00e7a avan\u00e7a a pessoa torna-se num juiz. A seguran\u00e7a do julgamento e do papel compensa o medo. Tudo \u00e9 reduzido a regras e normas num mundo inflex\u00edvel e sem compromissos. Muitas vezes perdem-se no detalhe, t\u00eam medo de decis\u00f5es espont\u00e2neas. S\u00e3o muito exactos e correctos em tudo. T\u00eam uma grande exig\u00eancia moral num mundo que consideram perverso. Como querem controlar tudo n\u00e3o confiam para n\u00e3o perderem os cordelinhos das m\u00e3os.<\/p>\n<p>Ao fim e ao cabo querem-se preservar, desejam defender-se da mudan\u00e7a agarrando-se \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o ou a coisas muito concretas. Trata-se de se agarrar a normas exteriores, ao conhecido, na pris\u00e3o da pr\u00f3pria ordem. Evita-se o novo, o espont\u00e2neo, o mundo sentimental por ser inseguro, flex\u00edvel. Flexibilidade torna-se numa amea\u00e7a a um mundo objectivo, o mundo exterior de normas ou ideias seguras a que se encontra. Por isso adia continuamente a ac\u00e7\u00e3o perdendo-se nas ideias. Para n\u00e3o arriscar fazer algo mal fica-se pelo mundo das ideias sem passar \u00e0 pr\u00e1tica. Quem n\u00e3o age n\u00e3o erra! Como se encontra prisioneiro do dualismo verdadeiro ou falso, bom ou mal na sua inst\u00e2ncia dum eu exterior (Pai, Deus, Norma) que o obriga a julgar e a ser julgado continuamente. N\u00e3o quer dar um passo sem saber onde p\u00f5e os p\u00e9s. Uma experi\u00eancia inconsciente de que tudo muda aliada a medos existenciais amplia o medo perante a mudan\u00e7a e o desenvolvimento. Talvez a experi\u00eancia infantil de que tudo depende do esfor\u00e7o e de que n\u00e3o h\u00e1 perd\u00e3o possa ter condicionado por demasiado controlo, sentimento de vergonha, demasiada acentua\u00e7\u00e3o nos resultados. Exig\u00eancias excessivas atrav\u00e9s de expectativas familiares perturbam muitas vezes a confian\u00e7a original. Ent\u00e3o a crian\u00e7a aprende demasiado cedo a desconfiar de si elaborando o seu ego nas convic\u00e7\u00f5es e nas regras dos outros sem lugar para a espontaneidade que foi castigada numa fase demasiado cedo e substitu\u00edda por regras ou normas morais.<\/p>\n<p>Estas pessoas s\u00e3o muito agrad\u00e1veis, fazem tudo pelos outros esquecendo-se a si mesmas. S\u00e3o ordeiras, de confian\u00e7a, trabalhadeiras, objectivas, constantes, respons\u00e1veis e persistentes no que fazem e dizem.<\/p>\n<p>Na crise tu trocas as tuas potencialidades, a possibilidade em ti pela necessidade. A possibilidade (uma tua outra express\u00e3o de ti mesma que quer ser libertada) encontra-se aprisionada. Ent\u00e3o agarras-te \u00e0 alternativa do teu eu criativo a uma rotina perfeccionista de ordem exterior no \u00e2mbito da culpa e do perfeccionismo. E na exig\u00eancia de se ter tudo sob controlo corre-se o perigo de se cair num ciclo vicioso repetitivo. O medo passa a ter uma fun\u00e7\u00e3o de auto-defesa do status quo, contra a necessidade de mudan\u00e7a. O medo do medo est\u00e1 t\u00e3o longe do objecto (necessidade de mudar algo na sua vida) que causa o medo que se torna aut\u00f3nomo vivendo dele e para ele mesmo. Ao fim e ao cabo as energias que se gastam com o medo n\u00e3o s\u00e3o empregues na liberdade e criatividade confiante que lutam por vir \u00e0 tona. O facto de se querer tudo na m\u00e3o e de se sentir responsabilizado por tudo \u00e9 um problema de n\u00e3o perdoar e n\u00e3o querer ser perdoado.<\/p>\n<p>Para evitar a fixa\u00e7\u00e3o no medo \u00e9 bom fazerem-se exerc\u00edcios de eutonia e massagens. Estes e trabalhos com o pr\u00f3prio corpo ajudam a desenvolver sentimentos e a desatar os n\u00f3s das sensa\u00e7\u00f5es. Estas pessoas precisam dum programa e de louvor nas suas ac\u00e7\u00f5es espont\u00e2neas. O seu problema \u00e9 o controlo de tudo, n\u00e3o se deixarem perder, tal como a pessoa que com medo da \u00e1gua vai nadar. O medo da vida, da vida nova contrai as potencialidades vitais espont\u00e2neas. N\u00e3o se deve prestar aten\u00e7\u00e3o aos sintomas. Na sua conversa com uma pessoa ter\u00e3o de ser levados a reconhecer que na sua expectativa duma receita est\u00e3o em atitude de defesa e n\u00e3o abertos ao novo que quer irromper. \u00c9 importante deixar viver as fantasias.<br \/>De resto recomendo a leitura do livro \u201cGesundheit f\u00fcr K\u00f6rper und Seele\u201d de Louise L. Hay. Este livro tamb\u00e9m se encontra traduzido em portugu\u00eas. J\u00e1 o recomendei a muita gente e recebi uma reac\u00e7\u00e3o muito positiva dos que o leram. No livro encontra-se uma refer\u00eancia biogr\u00e1fica da autora que tamb\u00e9m \u00e9 muito interessante e pode ajudar muitas pessoas em per\u00edodos dif\u00edceis da vida. Ele \u00e9 muito pr\u00e1tico.<br \/>Minha querida, tudo o que h\u00e1 de bom para ti.<br \/>Ant\u00f3nio Justo                   <\/p>\n<div align=\"right\"> <b>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/b> <\/div>\n<p><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para melhor compreens\u00e3o do que digo a seguir come\u00e7o por citar: &#8220;Encontro-me desesperada, sem for\u00e7as para nada e cheia de medos, at\u00e9 de Deus tenho medo. Tudo me parece sem sentido e duvido de tudo o que fa\u00e7o. Tenho sentimentos de culpa e a necessidade de controlar tudo, ser perfeita. 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