{"id":1229,"date":"2007-11-17T11:29:00","date_gmt":"2007-11-17T10:29:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1229"},"modified":"2007-11-17T11:29:00","modified_gmt":"2007-11-17T10:29:00","slug":"futuro-da-religiao-e-da-sociedade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1229","title":{"rendered":"Futuro da Religi\u00e3o e da Sociedade"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"texto\"> Atendendo a alguma cr\u00edtica, que agrade\u00e7o, feita ao meu artigo \u201cM\u00edstica \u2013 O Futuro da Religi\u00e3o e da Sociedade\u201d de 29.12.06 em que alguns comentadores relegando Deus exclusivamente para o foro subjectivo m\u00edstico negavam compet\u00eancia \u00e0 religi\u00e3o para falar do divino, pretendo acrescentar algumas considera\u00e7\u00f5es leves ao assunto come\u00e7ando com analogias. Na discuss\u00e3o n\u00e3o se trata de entrarmos num pensar sectorial e exclusivista. Temos que aceitar a pessoa e a sociedade, as institui\u00e7\u00f5es como dados necess\u00e1rios a melhorar, restaurar segundo a divisa: \u201cEcclesia semper renovanda\u201d. Toda a discuss\u00e3o da cr\u00edtica pela cr\u00edtica \u00e9 irrespons\u00e1vel e autocr\u00e1tica. A institui\u00e7\u00e3o e o indiv\u00edduo precisam dum factor comum que lhe d\u00ea identidade e continuidade. Ou ser\u00e1 que o nosso irrealismo chega ao ponto de negar o humano pelo facto de ter a gene que lhe d\u00e1 continuidade? Trata-se de aprendermos a grande li\u00e7\u00e3o da natureza. Nela nada se exclui, tudo se transforma.<\/p>\n<p>N\u00e3o conhe\u00e7o melhor imagem de Deus do que o Homem (o ser humano). E a melhor imagem do ser humano \u00e9 a sua palavra., a palavra actuante.<\/p>\n<p>Tal como o Homem \u00e9 a sombra de Deus, a ideia \u00e9 a sombra do objecto. A ci\u00eancia est\u00e1 para Deus como a forma para a mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>Assim a nega\u00e7\u00e3o de Deus implica a nega\u00e7\u00e3o da filosofia tal como a nega\u00e7\u00e3o da palavra implica a nega\u00e7\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de realidade, a nega\u00e7\u00e3o do Homem. O Logos, a palavra, o conceito, mant\u00e9m uma rela\u00e7\u00e3o com o objecto que lhe deu o ser.<\/p>\n<p>Se part\u00edssemos do pressuposto que a pedra \u00e9 vida ou esp\u00edrito materializado, certamente que n\u00e3o poder\u00edamos dar o passo seguinte em frente na perscruta da realidade se a reduz\u00edssemos \u00e0 pedra como a forma da vida (a sua oportunidade). Agimos semelhantemente ao aceitarmos como \u00fanica forma de acesso \u00e0 realidade a dial\u00e9ctica. Provocamos o mesmo curto-circuito ao materializarmos processos hist\u00f3ricos em cad\u00e1veres conceituais ao servi\u00e7o duma ideologia que em nome da vida se alimenta de imagens mortas, das sombras da vida passada ou futura.<\/p>\n<p>A religi\u00e3o cat\u00f3lica est\u00e1 bem consciente da revela\u00e7\u00e3o b\u00edblica quandonela Deus afirma: \u201ctu n\u00e3o deves fazer nenhuma imagem nem forma de Mim\u201d. Este foi o grande papel judaico e crist\u00e3o da desmitiza\u00e7\u00e3o de Deus e continuar\u00e1 a s\u00ea-lo. Naturalmente que a religi\u00e3o tem um car\u00e1cter esot\u00e9rico e outro exot\u00e9rico. O facto de Deus ter proibido ser adorado sob qualquer forma ou imagem de Deus \u201cquer do que est\u00e1 no c\u00e9u quer do que est\u00e1 na terra\u201d n\u00e3o quer dizer que Ele o que d\u00e1 forma a tudo, embora imperscrut\u00e1vel, n\u00e3o esteja presente na forma do mist\u00e9rio. Para o crist\u00e3o todo o falar de Deus \u00e9 sempre o seu falar humano. No falar de Deus usamos imagens tal como no expressar da pr\u00f3pria vida, dos pr\u00f3prios sentimentos se utilizam palavras, imagens condicionadas pelas nossas potencialidades. N\u00e3o seria adequado identificar a express\u00e3o com a \u201c coisa em si\u201d. Uma coisa \u00e9 a dor em si e outra coisa o seu conceito expresso na palavra dor. Seria ing\u00e9nuo e desumano querer eliminar os antropomorfismos da nossa realidade humana.<\/p>\n<p>O antropomorfismo, o s\u00edmbolo, a imagem faz parte da religi\u00e3o como a palavra faz parte da l\u00edngua falada. O facto de n\u00e3o podermos identificar a ideia, a palavra com o objecto que a ideia interpreta n\u00e3o podemos renunciar \u00e0 palavra pelo facto de ela n\u00e3o ser a realidade mas apenas a ideia dela.<\/p>\n<p>O ser humano n\u00e3o pode atingir a Realidade, a Verdade de forma imediata mas apenas mediatamente. Seria pensar em curto-circuito se exig\u00edssemos do ser humano outras formas de abordar a Realidade que n\u00e3o atrav\u00e9s dos sentidos e das capacidades que nos est\u00e3o \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o. O ser \u00e9 mais do que o que os sentidos possam apreender e expressar dele; para l\u00e1 do ser criado\u201dexistente\u201d h\u00e1 o transcendente, o mist\u00e9rio. N\u00f3s estamos condicionados a viver na esfera espacio-temporal na ten\u00e7\u00e3o entre a Realidade e a Ideia ou experi\u00eancia que possamos ter dela. J\u00e1 Plat\u00e3o nos chamava a aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sua maneira para n\u00e3o identificarmos o mundo da realidade com o mundo das ideias. H\u00e1 muito sofrimento no mundo pelo facto de vivermos no mundo das ideias e ideologias que nos impedem de ver a realidade.<\/p>\n<p>Se consegu\u00edssemos a identifica\u00e7\u00e3o existencial da ideia com o objecto alcan\u00e7ar\u00edamos a felicidade, tornar-nos-\u00edamos divinos. Sombras desta realidade s\u00e3o j\u00e1 os tais momentos m\u00edsticos.<\/p>\n<p>Quem ridiculariza os antropomorfismos e segue este caminho para atacar a religi\u00e3o ou para ridicularizar a teologia n\u00e3o percebeu nada do aspecto esot\u00e9rico da realidade, da religi\u00e3o, isto \u00e9, reduz a realidade \u00e0 linguagem n\u00e3o se dando conta da correla\u00e7\u00e3o \u2013 distin\u00e7\u00e3o entre ideia e objecto, nem t\u00e3o-pouco da dial\u00e9ctica subjacente. O ser do Homem \u00e9 determinado pela palavra. O falar humano ser\u00e1 sempre antropom\u00f3rfico o que religiosamente inclui a consci\u00eancia do discernimento! A distin\u00e7\u00e3o entre \u201cDeus\u201d e a \u201cpalavra de Deus\u201d s\u00e3o pressupostos elementares, tal como \u00e9 elementar a distin\u00e7\u00e3o entre o objecto e a ideia que o descreve! A realidade, Deus tamb\u00e9m n\u00e3o pode ser reduzida a uma experi\u00eancia subjectiva, por mais iluminados ou esclarecidos que possamos ser individualmente.<\/p>\n<p>A identifica\u00e7\u00e3o da palavra de Deus com Deus na pessoa de Jesus Cristo, \u00e9 percebida como mist\u00e9rio. O inexprim\u00edvel nome de Deus (ser de Deus) expressa-se (toma forma) em Cristo. No processo trinit\u00e1rio manifesta-se a rela\u00e7\u00e3o completa, a Realidade actuante. Isto por\u00e9m j\u00e1 assume o car\u00e1cter m\u00edstico do cristianismo, a que se n\u00e3o chega sem uma caminhada.<\/p>\n<p>Na proibi\u00e7\u00e3o b\u00edblica de se fazerem imagens de Deus j\u00e1 est\u00e1 bem subjacente a experi\u00eancia dum Deus vivo para l\u00e1 das imagens, para l\u00e1 da percep\u00e7\u00e3o ou dos conceitos. Assim distingue-se entre o aspecto c\u00faltico e o aspecto lit\u00fargico. No culto foi sempre proibido a forma, a imagem de Deus. A\u00ed h\u00e1 realiza\u00e7\u00e3o, acontecer e n\u00e3o mera recorda\u00e7\u00e3o, projec\u00e7\u00e3o ou introspec\u00e7\u00e3o. A proibi\u00e7\u00e3o por Deus de O representar sob qualquer forma n\u00e3o quer dizer que Ele, aquele que d\u00e1 forma care\u00e7a de forma. Na tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica, babil\u00f3nica, grega e romana encontra-se a ideia de Homem como a \u201cimago dei\u201d.<\/p>\n<p>Na B\u00edblia s\u00f3 a voz de Deus pode constituir a ponte com a transcend\u00eancia com o consequente problema de tamb\u00e9m o ouvido ser sensorial. \u201cDeus \u00e9 indescrit\u00edvel por palavras\u201d diz Isa\u00edas, 6. Deus \u00e9 puro esp\u00edrito e portanto sem corpo e sem forma. Os antropomorfismos mant\u00eam sempre o seu car\u00e1cter metaf\u00f3rico n\u00e3o excluem o esp\u00edrito incorporal divino. Ele permanece como o outro, o termo comparativo vizinho. As express\u00f5es b\u00edblicas referem-se mais \u00e0 ac\u00e7\u00e3o de Deus e n\u00e3o ao conceito. Quanto ao aspecto conceptual, os especialistas eram os gregos!<\/p>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 conhece duas vias especiais na abordagem de Deus, al\u00e9m de outras: uma via d\u00e1-se atrav\u00e9s da palavra, da revela\u00e7\u00e3o, procurando assim ascender \u00e0 transcend\u00eancia; a outra \u00e9 a via da experi\u00eancia m\u00edstica, atrav\u00e9s da experi\u00eancia de Deus imanente.<\/p>\n<p>Interessante \u00e9 o facto de, segundo a B\u00edblia, Deus ter proibido imagens c\u00falticas de Deus, tendo criado o homem \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a. A \u00fanica imagem de Deus passa a ser o Homem. Deste modo j\u00e1 se diz muito sobre o ser humano, a realidade e a verdade. Al\u00e9m da procura e do sentimento de se estar a caminho tudo permanece mist\u00e9rio. Querer materializar a realidade, a verdade numa opini\u00e3o, numa senten\u00e7a seria meter o carro \u00e0 frente dos bois.<\/p>\n<p>Para l\u00e1 das defini\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas de Deus como o \u201csou o que sou\u201d e do Homem como \u201cpenso logo sou\u201d de caracter\u00edstica mais helenista h\u00e1 muitos caminhos que levam a Roma. Entre outras vias do reconhecimento poder\u00edamos adiantar \u201csinto logo existo\u201d, \u201cactuo logo existo\u201d, \u201crelaciono-me logo existo\u201d. De novo entre Deus e o Homem, entre a realidade e o Homem, a \u201cimagem\u201d. A imagem da imagem \u00e9 proibida de adorar imagens da \u201cimagem\u201d. Uma rela\u00e7\u00e3o como luz e sombra. A\u00ed est\u00e1 a semelhan\u00e7a. Assim a proibi\u00e7\u00e3o das imagens tem a ver com a necessidade dum ser sujeito dum ser rela\u00e7\u00e3o. O fundamental \u00e9 o entrarmos em rela\u00e7\u00e3o e n\u00e3o nos ficarmos pelos conceitos que s\u00e3o quando muito sombras da realidade que nos podem indicar o sentido da caminhada.<br \/>Ant\u00f3nio Justo.                   <\/span><\/p>\n<div align=\"right\"> <span class=\"texto\"><b>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/b> <\/span><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Atendendo a alguma cr\u00edtica, que agrade\u00e7o, feita ao meu artigo \u201cM\u00edstica \u2013 O Futuro da Religi\u00e3o e da Sociedade\u201d de 29.12.06 em que alguns comentadores relegando Deus exclusivamente para o foro subjectivo m\u00edstico negavam compet\u00eancia \u00e0 religi\u00e3o para falar do divino, pretendo acrescentar algumas considera\u00e7\u00f5es leves ao assunto come\u00e7ando com analogias. 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