{"id":1213,"date":"2007-11-17T11:20:00","date_gmt":"2007-11-17T10:20:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1213"},"modified":"2007-11-17T11:20:00","modified_gmt":"2007-11-17T10:20:00","slug":"arte-moderna-e-pos-moderna-ao-servico-da-ideologia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1213","title":{"rendered":"Arte Moderna e P\u00f3s-Moderna ao Servi\u00e7o da Ideologia"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"texto\"><b>Saber L\u00f3gico contra Saber Figurativo<\/b><\/p>\n<p>A Documenta 12 continua a tradi\u00e7\u00e3o duma arte intelectual que nasce e morre na cabe\u00e7a. Uma arte pl\u00e1stica para ser explicada. Como se a explica\u00e7\u00e3o n\u00e3o tivesse outras disciplinas pr\u00f3prias na literatura e na filosofia. Deste modo a arte atrai\u00e7oa os pr\u00f3prios artistas porque se autonomiza para ser explicada pelo olhar limitado do pensamento e dos que se ornamentam com ele instrumentalizando-a em benef\u00edcio do discurso pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Assim se violam as belas artes subjugando-as ao pensamento, ao discurso. Por tr\u00e1s disto est\u00e1 o interesse em reduzir a percep\u00e7\u00e3o da realidade ao pensamento. Este n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o complicado revelando-se no melhor meio manipulador das massas. O interesse em extinguir a capacidade de percep\u00e7\u00e3o da linguagem por imagens n\u00e3o \u00e9 inocente. A ditadura das ideias consegue assim recalcar outras formas de abordagem da realidade.<\/p>\n<p>A arte pl\u00e1stica torna-se escrava dum \u00f3rg\u00e3o selectivo, restringidor. J\u00e1 Pascal sabia que o cora\u00e7\u00e3o conhece raz\u00f5es que a raz\u00e3o desconhece! As novas elites, especialmente a partir do s\u00e9culo XIX, est\u00e3o interessadas no pensamento conceptual. O universo por\u00e9m \u00e9 mais que um acto narrativo a querer-se explicitar, ele \u00e9 tamb\u00e9m manifesta\u00e7\u00e3o, cria\u00e7\u00e3o n\u00e3o totalmente explic\u00e1vel pela raz\u00e3o. Quem mede a realidade com o texto, com a raz\u00e3o, talvez a resuma mas mata-a. O pensamento \u00e9 como o autopsiador, trabalha com cad\u00e1veres, sem uma refer\u00eancia anterior. Fazem com a arte o que tentam fazer com a religi\u00e3o reduzindo-as a conceitos.<\/p>\n<p>O pensamento racionalista e materialista procuram acabar com o saber figurativo que \u00e9 espec\u00edfico da religi\u00e3o e da arte. O saber religioso e art\u00edstico (a experi\u00eancia) \u00e9 imediato enquanto que o saber conceptual \u00e9 mediato. Pol\u00edticos e iluministas para se apoderarem do poder e da cena discriminam o saber religioso e art\u00edstico proclamando o saber conceptual como a \u00fanica forma do conhecimento arrumando assim com os rivais instituindo-se eles em mediadores hegem\u00f3nicos da pol\u00edtica e da vida, declarando outros modos do conhecimento como ileg\u00edtimos. Declaram o pensamento como um absoluto para assim poderem apoderar-se do poder e do povo que n\u00e3o possui o saber conceptual. D\u00e1-se um reducionismo absoluto n\u00e3o reconhecedor da finitude e da limita\u00e7\u00e3o do conhecimento. Assim o povo duma s\u00f3 cajadada passa a ser considerado est\u00fapido, n\u00e3o lhe sendo reconhecidas outras formas de abordagem da realidade. \u00c9 a ditadura das ci\u00eancias naturais contra as ci\u00eancias humanas que relegam outros modos do de abordar a realidade para o mundo da fantasia. As virtudes sinais no caminho n\u00e3o se querem num mundo prolet\u00e1rio. Este quer-se pronto a seguir, sem energia pr\u00f3pria, sem vontade, quando muito ecl\u00e9tico. O povo, e os acad\u00e9micos, cada vez perdem mais o acesso \u00e0 imagem vivendo na e da subservi\u00eancia ao discurso.<\/p>\n<p>O saber da arte foi subjugado ao saber conceptual e posto ao servi\u00e7o da ordinarice do factual nas m\u00e3os de fan\u00e1ticos do saber conceptual. Assim constroem a democracia com alicerces sobre a areia em vez de a consolidarem. Continuam a querer um povo distra\u00eddo a viver apenas na \u00e1gora ao som dos seus altifalantes, sem acesso \u00e0 pr\u00f3pria vida, sem imagens interiores nem transcendentes. Muitos continuam a correr atr\u00e1s das cansados foguetes da modernidade ou da P\u00f3s-modernidade, esquecendo que esta \u00e9poca j\u00e1 est\u00e1 a passar. Repetem-se e acabaram por se desviarem do \u00e2mago da arte, da observa\u00e7\u00e3o viva do mundo e da sua tradu\u00e7\u00e3o para se entregarem a apresenta\u00e7\u00f5es da arte ao servi\u00e7o da pol\u00edtica, da sociologia e da filosofia sem reconhecer a sua ess\u00eancia.<\/p>\n<p>A qualidade da arte passa a ser ditada por homens do intelecto e do dinheiro que se organizam internacionalmente em cart\u00e9is e organiza\u00e7\u00f5es de interesses. \u00c9 o que constata o c\u00e9lebre artista Dieter Asmus ao afirmar que uma casta de te\u00f3ricos \u201cvigia internacionalmente sobre uma Modernidade j\u00e1 morta h\u00e1 muito tempo\u201d. Tamb\u00e9m acha sintom\u00e1tico que uma arquitectura ainda al\u00e9rgica ao ornamento do estilo Bauhaus de h\u00e1 90 anos \u201ccontinua a valer como o Nonplusultra do avantgardismo\u201d.<\/p>\n<p>Quem n\u00e3o estiver ao servi\u00e7o do progresso e se atrever a um estilo pr\u00f3prio, diferente \u00e9 apelidado de reaccion\u00e1rio. Os nossos \u201cdoutores da lei\u201d s\u00e3o muito mais perigosos que os seus predecessores; eles n\u00e3o s\u00f3 nos querem apenas obedientes mas tamb\u00e9m limitados e triviais como o seu modo do conhecimento reduzido \u00e0 ordem l\u00f3gica e \u00e0 ret\u00f3rica em servi\u00e7o duma media\u00e7\u00e3o pol\u00edtica pr\u00f3pria. Naturalmente que a reflex\u00e3o deve ser um acompanhante atento e pressuposto na raz\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o e que os saberes abstracto, experimental e intuitivo se complementam.<br \/>.<br \/>Dieter Klaus critica a arte da p\u00f3s-modernidade afirmando: \u201cos artistas permaneceram durante um s\u00e9culo inactivos observando como lhe foi tirada a compet\u00eancia de interpreta\u00e7\u00e3o e decis\u00e3o sobre as suas obras. Abri a boca!\u201d De facto o saber do artista e do homo religiosos \u00e9 imediato podendo ser auxiliado pelo saber conceptual j\u00e1 em segunda m\u00e3o. Eduard Beaucamp afirma no FAZ: \u201cHoje parece faltar a for\u00e7a para despedir a Modernidade e descobrir de novo contra ela uma outra hist\u00f3ria da arte\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1 iniciativas como a do \u201cGruppe Zebra\u201d que j\u00e1 desde os anos sessenta critica a arte moderna. Muitos deles consideram a Documenta como senil pelo facto de continuar o credo da modernidade. Eduard Beaucamp refere que, apesar da vitalidade dos artistas, os especialistas t\u00eam medo do novo e da cr\u00edtica maliciosa dos colegas, optando por manter a mentira da vida para n\u00e3o perderem os benef\u00edcios.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso libertar a arte da pris\u00e3o do discurso. Ela tornou-se arbitr\u00e1ria como se pode constatar tamb\u00e9m na Documenta 12. Chega-lhe a esperteza da interpreta\u00e7\u00e3o \u00e0 luz de interesses muito imediatos. \u00c9 o problema fundamental dum sistema que se estabilizou especialmente num racionalismo materialista que s\u00f3 conhece o mundo das ideias adulterando assim o mundo da realidade. A arte \u00e9 a \u00fanica inst\u00e2ncia no hemisf\u00e9rio ocidental que cria sentido atrav\u00e9s dos sentidos e da forma, n\u00e3o apenas como ideias atrav\u00e9s do intelecto. Este problema da intelectualiza\u00e7\u00e3o observou-se tamb\u00e9m na religi\u00e3o. Na \u00e9poca das ideologias absolutas o exagero te\u00f3rico, a ret\u00f3rica \u00e9 que conta, n\u00e3o o conte\u00fado, muito menos a procura da verdade.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Justo                   <\/p>\n<div align=\"right\"> <b>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/b> <\/div>\n<p><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Saber L\u00f3gico contra Saber Figurativo A Documenta 12 continua a tradi\u00e7\u00e3o duma arte intelectual que nasce e morre na cabe\u00e7a. Uma arte pl\u00e1stica para ser explicada. Como se a explica\u00e7\u00e3o n\u00e3o tivesse outras disciplinas pr\u00f3prias na literatura e na filosofia. 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