{"id":1205,"date":"2007-11-17T11:16:00","date_gmt":"2007-11-17T10:16:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1205"},"modified":"2007-11-17T11:16:00","modified_gmt":"2007-11-17T10:16:00","slug":"ajuda-ao-suicidio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1205","title":{"rendered":"Ajuda ao Suic\u00eddio"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"texto\">                    <b>Autonomia e autodetermina\u00e7\u00e3o como estupefacientes<\/b><\/p>\n<p>\u201eA vida \u00e9 minha, posso suicidar-me e ningu\u00e9m tem nada com isso!\u201d<br \/>Cada vez se fala mais da necessidade de ajuda ao suic\u00eddio, naturalmente com outros eufemismos. Um deles poder\u00e1 vir a ser: ajuda \u00e0 boa morte! Tamb\u00e9m a palavra liberdade j\u00e1 est\u00e1 gasta por ser proclamada como panaceia por todo o bicho, mesmo pelo mais explorado.<\/p>\n<p>Numa sociedade que vive de subterf\u00fagios e de slogans como liberdade, autonomia e autodetermina\u00e7\u00e3o torna-se cada vez mais dif\u00edcil manter a cabe\u00e7a fria \u00e0 hora de tomar decis\u00f5es mais conscientes e adultas. Neste contexto fala-se de autonomia e liberdade falsificada pela perspectiva unilateral individual e situacional. Declara-se um valor abstracto contra outros valores como o da responsabilidade e da assist\u00eancia, o do cuidado pelos outros.<\/p>\n<p>A autonomia que os defensores da eutan\u00e1sia propagam \u00e9 ilus\u00f3ria. A autodetermina\u00e7\u00e3o que na vida social e c\u00edvica \u00e9 t\u00e3o marginal e espezinhada torna-se para esta fase prec\u00e1ria da vida o argumento! E numa sociedade de culpa an\u00f3nima para simplificar o inc\u00f3modo da despedida colocam-se autom\u00e1ticos de injec\u00e7\u00e3o mort\u00edfera em que o candidato \u00e0 morte poder\u00e1 num acto de grande autonomia e liberdade decidir. Para isso bastar\u00e1 o esfor\u00e7o dum m\u00fasculo l\u00facido ainda com for\u00e7a capaz para pressionar o dispositivo!<\/p>\n<p>Seria um grande retrocesso no desenvolvimento \u00e9tico se a pr\u00e1tica da ajuda ao suic\u00eddio fosse institucionalizada. O problema n\u00e3o est\u00e1 na possibilidade de uma pessoa se suicidar mas da institui\u00e7\u00e3o se arrogar o direito de regular a morte. Isto corresponderia a entregar \u00e0 institui\u00e7\u00e3o e \u00e0 pol\u00edtica o direito de determinar quem deve viver. Como se a vida n\u00e3o fosse um interrelacionamento nem uma cadeia de depend\u00eancia uns dos outros.<\/p>\n<p>O exemplo j\u00e1 o tivemos com o nacional-socialismo sendo j\u00e1 bem conhecido o que acontecia com os que tinham \u201cuma vida menos v\u00e1lida\u201d. O Estado n\u00e3o se deve aproveitar dum momento da crise para interferir no que pertence ao foro individual. \u00c9 ir\u00f3nico falar-se de autonomia para poder decidir em momentos extremos de doen\u00e7as incur\u00e1veis, que interferem tanto na capacidade de decis\u00e3o. Esta est\u00e1 totalmente sujeita a cadeias e press\u00f5es psicol\u00f3gicas, sociais, econ\u00f3micas, pol\u00edticas e morais. Estas s\u00e3o de tal ordem determinantes que seria uma fal\u00e1cia falar de autonomia. Por vezes vai-se tendo a impress\u00e3o que o Estado prece estar interessado em que as pessoas idosas se matem o mais depressa poss\u00edvel; parece que pensa em poupar dinheiros de reforma e de tratamento. Al\u00e9m disso certas ideologias tamb\u00e9m ganhariam com isso porque pessoas idosas geralmente d\u00e3o mais votos aos conservadores. Numa sociedade prolet\u00e1ria o princ\u00edpio supremo da \u00e9tica \u00e9 o trabalho, a produ\u00e7\u00e3o. O seu esp\u00edrito \u00e9 o euro! O prolet\u00e1rio n\u00e3o tem alma, esta reduz-se ao seu trabalho! O extremo contr\u00e1rio do esp\u00edrito crist\u00e3o em que o ser humano \u00e9 divino e por isso mesmo um absoluto em comunh\u00e3o e inter-rela\u00e7\u00e3o. Um ser \u00fanico e completo que n\u00e3o pode ser dissecado em fases mais ou menos v\u00e1lidas.<\/p>\n<p>O povo \u00e9 \u00e1gua para ser conduzido por todas as levadas porque n\u00e3o tem exerc\u00edcio reflexivo. N\u00e3o h\u00e1 consci\u00eancia de si sem reflex\u00e3o moral. Uma sociedade que marginaliza a filosofia infantiliza o povo porque atrav\u00e9s dela \u00e9 que a humanidade toma consci\u00eancia de si. A tentativa de construir o futuro negando a experi\u00eancia da vida \u00e9 matar o futuro. De facto um ser para a morte que desconhece o outro n\u00e3o tem horizonte!<\/p>\n<p>Falar de autonomia neste contexto \u00e9 sarc\u00e1stico e irrespons\u00e1vel porque significa ao mesmo tempo desresponsabiliza\u00e7\u00e3o para com o doente. Atira-se assim para o paciente\/parente\/amigo a responsabilidade de continuar a sofrer e o descaramento de ainda nos provocar sentimentos desagrad\u00e1veis com a sua situa\u00e7\u00e3o. \u201cSe sofre a culpa \u00e9 dele\u201d. Para tudo h\u00e1 um rem\u00e9dio, tamb\u00e9m para a morte! Obrigam assim o paciente incur\u00e1vel \u00e0 solid\u00e3o, ao desespero. N\u00e3o se lhes reconhece a necessidade de relacionamento, de proximidade e carinho. A morte \u00e9 um abuso a uma sociedade que s\u00f3 conhece as idades entre 20 e 40 anos. Querem a morte an\u00f3nima l\u00e1 nos corredores escuros dos hospitais para se poder depois vestir o fato limpo do funeral se \u00e9 que a sociedade ainda ter\u00e1 disposi\u00e7\u00e3o para isso. Por experi\u00eancia conhe\u00e7o a aridez e o deserto frio de muitos momentos que acompanham moribundos. Ao deix\u00e1-los s\u00f3s tornamos o mundo mais gelado ainda, atrai\u00e7oamo-nos a n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>Um m\u00e9dico n\u00e3o mata! M\u00e9dicos ajudam a vida, ajudam a viver! Precisam \u00e9 de maior apoio tamb\u00e9m na medicina de paliativos para poderem ajudar os moribundos a morrer com dignidade!<br \/>Trata-se de ajudar a morrer e n\u00e3o apenas de medidas de prolongamento da vida.<\/p>\n<p>Uma sociedade em que o valor do cifr\u00e3o \u00e9 sagrado, exerce cada vez maior press\u00e3o sobre moribundos e pessoas com doen\u00e7as muito dispendiosas. Ent\u00e3o os doentes, com o medo de sobrecarregar as Caixas de provid\u00eancia e para poupar a dor aos familiares, decidir-se-\u00e3o \u201cautonomamente\u201d pela injec\u00e7\u00e3o da morte.<\/p>\n<p>Falta aqui o esp\u00edrito religioso de se re-ligar. Quem destr\u00f3i a rela\u00e7\u00e3o destr\u00f3i a ordem porque a rela\u00e7\u00e3o \u00e9 o \u00fanico suporte da ordem. O resto \u00e9 escraviza\u00e7\u00e3o objectivante numa sociedade desorientada que n\u00e3o sabe o que faz e se autodestr\u00f3i.<\/p>\n<p>Um Estado que destr\u00f3i o esp\u00edrito contamina o cidad\u00e3o e reduz-lhe o horizonte.<br \/>Uma Na\u00e7\u00e3o s\u00e3 vive da inter-subjectividade e interrelacionamento de cidad\u00e3os cada vez mais livres e adultos e n\u00e3o de ideologias meramente pragm\u00e1ticas. Estas precisam de ser interpretadas e reflectidas.<\/p>\n<p>A virtude e a moral tornam-se, por vezes, empecilhos do neg\u00f3cio\u2026<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Justo                   <\/span><\/p>\n<div align=\"right\"> <span class=\"texto\"><b>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/b> <\/span><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Autonomia e autodetermina\u00e7\u00e3o como estupefacientes \u201eA vida \u00e9 minha, posso suicidar-me e ningu\u00e9m tem nada com isso!\u201dCada vez se fala mais da necessidade de ajuda ao suic\u00eddio, naturalmente com outros eufemismos. Um deles poder\u00e1 vir a ser: ajuda \u00e0 boa morte! 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