{"id":1201,"date":"2007-11-17T11:14:00","date_gmt":"2007-11-17T10:14:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1201"},"modified":"2007-11-17T11:14:00","modified_gmt":"2007-11-17T10:14:00","slug":"divorcio-%e2%80%93-oportunidade-ou-fracasso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1201","title":{"rendered":"Div\u00f3rcio \u2013 Oportunidade ou Fracasso?"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"texto\">                    <b>Aprender a Ser<\/b><\/p>\n<p>Ao ar polu\u00eddo da atmosfera que respiramos vem juntar-se o stress miudinho que imperceptivelmente inalamos da sociedade moderna.<\/p>\n<p>Desde o irritante vizinho at\u00e9 aos problemas de trabalho, tudo se acarreta para casa. Uma vez em casa l\u00e1 est\u00e1 o barulho da rua na televis\u00e3o \u00e0 nossa espera, al\u00e9m doutros barulhos. Uma pessoa que se distraia e n\u00e3o seja sens\u00edvel e resistente facilmente perder\u00e1 a vis\u00e3o de conjunto deixando-se enredar nas teias da loucura di\u00e1ria. Mais um ru\u00eddo a juntar ao barulho no desencontro do dia a dia.<\/p>\n<p>Muitos dos problemas da rela\u00e7\u00e3o de casais s\u00e3o importados ou tamb\u00e9m trabalhos de casa da vida individual deixados por fazer. O stress importado e as influ\u00eancias exteriores fazem-se sentir. Ao barulho de fundo do existir junta-se por vezes o ru\u00eddo familiar!<\/p>\n<p>Para ajudar aparecem ainda situa\u00e7\u00f5es que podem levar mesmo a uma grande crise: uma mudan\u00e7a, um novo lugar de trabalho, uma doen\u00e7a, um objectivo alcan\u00e7ado, a reforma, etc. Tudo isto nos pode questionar sobre o sentido da vida at\u00e9 ent\u00e3o vivida.<\/p>\n<p>Para enredar mais a meada, vem juntar-se o facto de hoje n\u00e3o haver projectos de vida nem pap\u00e9is de comportamento fixos. Isto exigiria maior capacidade reflexiva para se n\u00e3o andar \u00e0 deriva ou n\u00e3o seguir na enxurrada. Tudo isto exige do casal um esfor\u00e7o especial, um cont\u00ednuo balan\u00e7ar e ponderar entre desejos e planos individuais e comuns, na pr\u00e1tica dum dar e receber m\u00fatuos.<\/p>\n<p>O stress leva muitas vezes aquele processo a encurtar-se e em vez de se discutir e negociar apenas se resiste ao outro. J\u00e1 n\u00e3o se age, reage-se: \u201c\u00c9s insuport\u00e1vel!\u201d Ent\u00e3o a pr\u00f3pria insatisfa\u00e7\u00e3o vital \u00e9 imputada ao c\u00f4njuge: \u201cFazes de mim um escravo!\u201d Em vez de se considerarem as circunst\u00e2ncias exteriores e individuais espec\u00edficas \u201cresolve-se\u201d o problema atribuindo-o ao outro. Este \u00e9 ent\u00e3o enroupado com m\u00e1s inten\u00e7\u00f5es e com toda a categoria de qualidades negativas. Passa a falar o inconsciente da crian\u00e7a ferida e desiludida que tudo tinha apostado no outro!&#8230;<\/p>\n<p>A vida familiar passa a ser uma estrada cada vez mais minada. A capacidade de reconhecer conex\u00f5es e contextos chega mesmo a zero. Os dois c\u00f4njuges descobrem-se v\u00edtimas um do outro. A satura\u00e7\u00e3o impede a capacidade de ver que tamb\u00e9m o outro \u00e9 v\u00edtima. Duas v\u00edtima de si mesmos!&#8230;<\/p>\n<p>Uma predisposi\u00e7\u00e3o para partilhar o bem e o mal comum e pr\u00f3prio simplificaria quer a caminhada comum, quer uma decis\u00e3o de cada um recome\u00e7ar nova vida por caminhos diferentes. As crises de casais, tal como as trovoadas na natureza, servem para purificar a polui\u00e7\u00e3o, todo o smog atmosf\u00e9rico, existencial e ps\u00edquico. As crises s\u00e3o oportunidades para o desenvolvimento. A natureza \u00e9 assim. Crises, tal como doen\u00e7as s\u00e3o a voz do inconsciente a avisar que algo n\u00e3o vai bem, que \u00e9 tempo de mudar algo na vida n\u00e3o chegando seguir a ordem do dia.<\/p>\n<p>H\u00e1 pouco tempo tive um contacto espor\u00e1dico com um casal (duas pessoas individualmente fant\u00e1sticas e ricas), que se encontrava numa grande crise. Isto leva-me a fazer esta leve e r\u00e1pida reflex\u00e3o no sentido do meu interesse por eles e por quantos vivem em circunst\u00e2ncias iguais ou parecidas. Resolvi escrever em vez de falar porque notei que, tanto um como outro, t\u00eam grande dificuldade em ouvir-se e em escutar atendendo a energias e frustra\u00e7\u00f5es acumuladas. Penso que tamb\u00e9m na rela\u00e7\u00e3o entre si poderiam, para j\u00e1, optar por cada um escrever ao outro tudo o que o perturba: os ferimentos e as frustra\u00e7\u00f5es bem como os desejos escondidos ou n\u00e3o realizados. Escrevam tamb\u00e9m o que admiram um no outro n\u00e3o deixando de fazer tamb\u00e9m refer\u00eancia \u00e0s pr\u00f3prias mazelas.<\/p>\n<p>Neste caso, como em muitos outros, o drama conjugal parece-me esconder, a n\u00edvel inconsciente, a continua\u00e7\u00e3o da luta entre as m\u00e3es do marido e da esposa, a luta invis\u00edvel entre duas fam\u00edlias, a luta entre o meu ego e a minha ipseidade. A m\u00e3e est\u00e1 presente e ocupa cada um sob a capa do eu. Um c\u00f4njuge encarna em si a m\u00e3e procurando-a na esposa, o outro conjugue encarna tamb\u00e9m ele a pr\u00f3pria m\u00e3e repetindo o agir da sua m\u00e3e contra o c\u00f4njuge. Os dois encontram-se prisioneiros do inconsciente tendo de continuar a fazer valer a pr\u00f3pria fam\u00edlia sem possibilidade de serem eles mesmos, reduzidos a mercen\u00e1rios duma armada estranha. V\u00eaem-se obrigados e reduzidos a um papel de repeti\u00e7\u00e3o ou supera\u00e7\u00e3o da m\u00e3e mas para que falta o alcance e a vis\u00e3o dos motivos mais profundos do pr\u00f3prio agir. Na reflex\u00e3o e introspec\u00e7\u00e3o que acompanha toda a pessoa interessada em tornar-se adulta \u00e9 de import\u00e2ncia cada pessoa analisar-se e verificar a percentagem de m\u00e3e, de pai e de si mesmo expressa no comportamento individual. At\u00e9 que ponto no meu actuar o meu comportamento n\u00e3o se reduz a um combate ou a uma repeti\u00e7\u00e3o do pai e da m\u00e3e. At\u00e9 que ponto sou eu a agir e n\u00e3o os outros em mim. S\u00f3 ent\u00e3o poderei realmente mudar no sentido da plenitude. Ent\u00e3o reconhecerei que o problema est\u00e1 principalmente em mim. S\u00f3 depois de me aceitar e de aceitar as minhas circunst\u00e2ncias crescerei e ajudarei outros a crescer. Geralmente o que combato nos outros \u00e9 o que ainda n\u00e3o descobri em mim. Depois passo a vingar-me de mim mesmo em mim. Sou destru\u00eddo, agora por mim, \u00e0 sombra da \u201cconsola\u00e7\u00e3o\u201d duma acusa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>                            <b>Separa\u00e7\u00e3o \u2013 Uma Chance?<\/b><br \/>Segundo investiga\u00e7\u00f5es cient\u00edficas as pessoas casadas vivem mais tempo que as n\u00e3o casadas. Entretanto por volta dos 40-50 anos observam-se muitas crises em muitos lares. Os filhos j\u00e1 est\u00e3o criados e tamb\u00e9m a pergunta pelo sentido da vida se torna agora mais oportuna.<\/p>\n<p>A vida em comum n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil atendendo \u00e0s diferentes estruturas de personalidade. Al\u00e9m disso a mulher e o homem, embora se complementem, s\u00e3o seres muito diferentes na sua maneira de estar. Por outro lado o indiv\u00edduo s\u00f3, isolado, sem liga\u00e7\u00e3o, \u00e9 infeliz e fomenta a infelicidade.<\/p>\n<p>Independentemente dos problemas do dia a dia h\u00e1 fases da vida a eles mais propensas. A vida \u00e9 uma cont\u00ednua tentativa de solu\u00e7\u00e3o de problemas. \u00c9 ensaio, um processo din\u00e2mico a ser assumido por cada pessoa individualmente. \u00c9 resposta e n\u00e3o acusa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Naturalmente, que cada pessoa arrasta os pr\u00f3prios problemas e os de outros. A carga \u00e9 por vezes t\u00e3o pesada que impede o seu desenvolvimento e o desenvolvimento dos outros. Por isso mesmo tamb\u00e9m a separa\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa o acabar do sofrimento nem quer significar uma solu\u00e7\u00e3o. A separa\u00e7\u00e3o do outro tem primeiramente a ver connosco mesmos e com o n\u00edvel do nosso desenvolvimento.<\/p>\n<p>Por outro lado a vida terrena de que dispomos \u00e9 t\u00e3o curta que ningu\u00e9m se deveria conformar com a infelicidade. No processo de desenvolvimento individual e social n\u00e3o deve haver tabus, sejam eles de car\u00e1cter altru\u00edsta ou ego\u00edsta.<\/p>\n<p>O extremo da dor pode tornar-se numa oportunidade que ajude a dar um passo aberto a novas possibilidades. A mudan\u00e7a, a metan\u00f3ia \u00e9 como um parto. A\u00ed temos que nos dar \u00e0 luz a n\u00f3s mesmos e connosco aos outros. Mesmo aqui, por muito iluminados que sejamos a luz e a escurid\u00e3o continuar\u00e3o a acompanhar-nos como o Sol durante o dia e a Lua durante a noite.<\/p>\n<p>             <b>O casamento n\u00e3o \u00e9 um fim em si mesmo<\/b><br \/>Nem toda a rela\u00e7\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es para se manter. H\u00e1 casais que apesar de infelizes n\u00e3o conseguem separar-se ao contr\u00e1rio de outros que exageram pelo outro extremo.<\/p>\n<p>Uns n\u00e3o conseguem separar-se por raz\u00f5es externas: dinheiro, crian\u00e7as, religi\u00e3o, conven\u00e7\u00e3o, etc. Ent\u00e3o o casamento torna-se numa pris\u00e3o, torna-se num fim em si.<\/p>\n<p>Outros n\u00e3o conseguem a separa\u00e7\u00e3o por motivos internos: o ideal da bondade e do altru\u00edsmo, o desejo de realizar o outro colocando as pr\u00f3prias necessidades e desejos num segundo plano.<\/p>\n<p>Noutros casos o que mant\u00e9m o casamento \u00e9 o sadismo, o sentimento de superioridade, o sustento.<\/p>\n<p>H\u00e1 casais que desejando embora a separa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o conseguem dar o passo decisivo. Mant\u00eam-se na uni\u00e3o da inseguran\u00e7a cont\u00ednua. A experi\u00eancia de inseguran\u00e7a e a falta de liga\u00e7\u00e3o\/amor na inf\u00e2ncia fortalece mais tarde o medo da separa\u00e7\u00e3o ou de ser abandonado. Neste sentido para muitos a dor da separa\u00e7\u00e3o seria mais forte do que a dor no casamento. Tamb\u00e9m pode haver de permeio a compaix\u00e3o pelo sofrimento do outro como pode ser o caso em uni\u00f5es tipo assistente social ou religioso.<\/p>\n<p>A fixa\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00e3e, \u00e0 m\u00e3e galinha, ou a experi\u00eancia duma m\u00e3e ego\u00edsta, criam depend\u00eancia e medo de separa\u00e7\u00e3o. O afastamento seria ent\u00e3o sentido como culposo. Por outro lado a separa\u00e7\u00e3o poderia ser sentida como uma amea\u00e7a a valores interiorizados como lealdade, bondade, sintonia, gratid\u00e3o. H\u00e1 casos de pessoas depressivas que embora j\u00e1 n\u00e3o sintam amor pelo\/a parceiro\/a continuam a ter medo da separa\u00e7\u00e3o ou baseiam a continuidade da uni\u00e3o no sentimento de serem necess\u00e1rias para ajudar. Muitas vezes h\u00e1 disfuncionalidade e falsa percep\u00e7\u00e3o dos problemas: a consci\u00eancia de dom\u00ednio, o esp\u00edrito de v\u00edtima, o medo da mudan\u00e7a, o querer a seguran\u00e7a a todo o custo, a necessidade de percorrer sempre a rotina dos mesmos caminhos. A falta de orienta\u00e7\u00e3o dificulta a auto-avalia\u00e7\u00e3o e a capacidade de notar as raz\u00f5es da pr\u00f3pria insatisfa\u00e7\u00e3o. Esta chega a tornar-se mesmo familiar. A familiaridade da inseguran\u00e7a doentia torna-se assim em factor e experi\u00eancia de continuidade na vida. Tamb\u00e9m h\u00e1 rela\u00e7\u00f5es doentias que se estabilizam com o sentimento de culpa. Esta pervers\u00e3o pode tornar-se num sentimento de mais valia para a vida em comum. Recorde-se a anedota que descreve a vi\u00fava infeliz por lhe faltar a viol\u00eancia do seu falecido!&#8230; \u00c9 como que uma fidelidade negativa. Um inimigo do desenvolvimento \u00e9 o h\u00e1bito, a rotina, a resigna\u00e7\u00e3o, a leviandade! A verdadeira fidelidade pressup\u00f5e a exist\u00eancia dum pacto social entre indiv\u00edduos com capacidade de se relacionar, um viver em processo.<\/p>\n<p>A uni\u00e3o do casal, tamb\u00e9m pode ser inadequadamente estabilizada pelo medo ou pelo \u00f3dio. A pessoa adaptada, t\u00edmida n\u00e3o ousa expressar os sentimentos verdadeiros, n\u00e3o se consegue afirmar. Para evitar discuss\u00e3o subjuga-se \u00e0 ideia dos outros. Neste momento os dois c\u00f4njuges abdicam de ser sujeitos. Tornaram-se dois objectos ao sabor das ondas do destino.<\/p>\n<p>No caso de \u00f3dio falta a vis\u00e3o de conjunto, a perspectiva ambiental. O mais agressivo \u00e9 geralmente o mais fraco e dependente. A sua necessidade de seguran\u00e7a \u00e9 tal que n\u00e3o se poupa a humilha\u00e7\u00f5es ou confirma fatalmente a confirmar a m\u00e1 imagem que tem de si mesmo. Por vezes a experi\u00eancia duma proximidade negativa \u00e9 mais \u201csatisfat\u00f3ria\u201d do que nenhuma. Esta, ao contr\u00e1rio da indiferen\u00e7a une. Falta a criatividade e a coragem para ser.<\/p>\n<p>Outros optam por adiar os problemas apostando na realiza\u00e7\u00e3o duma miss\u00e3o ainda n\u00e3o cumprida mas que se poder\u00e1 vir a realizar. Vivem na esperan\u00e7a de melhores dias, na expectativa daquilo a que julgam ter direito mas que nunca chegar\u00e1.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m pode haver o caso da incerteza, de n\u00e3o se saber o que se quer. Optar por se entrar no processo da maturidade exige muita energia e coragem. Muitas vezes criamos mundos paralelos em que se deixa viver artificialmente: um deles \u00e9 o das ideias. A ideia \u00e9 t\u00e3o forte que me n\u00e3o deixa viver, \u00e9 ela que vive em mim. Ent\u00e3o a percep\u00e7\u00e3o da realidade \u00e9 mais distorcida ainda. Ent\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o encontro o meu parceiro apenas me encontro com a ideia que tenho dele ou com a ideia que tenho de mim. H\u00e1 muitas vidas assim em v\u00e3o passadas, vidas no desencontro, no desencontro consigo mesmo, no desencontro com o outro, no desencontro com a realidade: uma vida desaferida passada no mundo paralelo da ideia, uma vida em segunda m\u00e3o!<\/p>\n<p>Em todos estes casos s\u00e3o muito importantes bons contactos, e amigos com quem se fale abertamente. Aqui o maior problema dos amigos ser\u00e1 a identifica\u00e7\u00e3o e as projec\u00e7\u00f5es. Tamb\u00e9m a consulta de terapeutas de casais com uma terapia em conjunta ou uma conversa com um sacerdote poderia tornar-se muito \u00fatil. Pressup\u00f5e-se abertura e sinceridade dum relacionamento adulto sem as peias de moralismos e h\u00e1bitos nem hipocrisias ou leviandades.<\/p>\n<p>Uma pessoa totalmente envolvida na crise merece a plena aten\u00e7\u00e3o e respeito no seu calv\u00e1rio que \u00e9 tamb\u00e9m um momento da gra\u00e7a para o interlocutor e a questionar-nos a n\u00f3s mesmos!<\/p>\n<p>Uma ocupa\u00e7\u00e3o gratificante (trabalho, hobby, desporto, associa\u00e7\u00e3o ou grupo) pode ajudar a evitar ideias fixas e a criar distanciamento em rela\u00e7\u00e3o a si e ao problema. Na vida \u00e9 sempre indispens\u00e1vel o acompanhamento dum sentimento de sucesso, de reconhecimento e de aceita\u00e7\u00e3o. Muitos casais fecham-se no labirinto dos seus problemas agravando assim a situa\u00e7\u00e3o. Cada um procure dar oportunidades \u00e0s qualidades art\u00edsticas que possui. O mesmo se diga para a descoberta duma espiritualidade. Esta d\u00e1-lhe a protec\u00e7\u00e3o que lhe permite distanciar-se da liga\u00e7\u00e3o infantil \u00e0 m\u00e3e.<\/p>\n<p>Uma separa\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa automaticamente fracasso!&#8230;<\/p>\n<p>A op\u00e7\u00e3o pela separa\u00e7\u00e3o deveria constituir uma oportunidade para o desenvolvimento pessoal e n\u00e3o apenas uma fuga a uma situa\u00e7\u00e3o embara\u00e7osa. \u00c9 um passo a ser bem ponderado depois duma reflex\u00e3o, a n\u00edvel individual, psicol\u00f3gico, social, econ\u00f3mico e espiritual. A ambival\u00eancia \u00e9 destrutiva. Deixar uma depend\u00eancia para se meter noutra poderia significar que a decis\u00e3o anterior n\u00e3o ter\u00e1 sido consciente. O sofrimento da crise teria sido em v\u00e3o se a decis\u00e3o tomada n\u00e3o fosse no sentido de maior maturidade pessoal. Numa separa\u00e7\u00e3o bem ponderada n\u00e3o haver\u00e1 estragos. Como adulto n\u00e3o preciso de desculpar ou esconder as minhas fraquezas. Ao chegar a este momento pressup\u00f5e-se que j\u00e1 falei de caras com os meus caprichos e emo\u00e7\u00f5es, tal como com os do outro.<\/p>\n<p>O \u201ccasamento feliz\u201d pressup\u00f5e a realiza\u00e7\u00e3o de duas diferen\u00e7as num processo dialogal de ipseidade e de alteridade, na express\u00e3o do eu-tu-n\u00f3s. A\u00ed processa-se um balancear de necessidades e sonhos, num ambiente prop\u00edcio ao desenvolvimento da autonomia, compet\u00eancia e sociabilidade, pressupostos fundamentais para a auto-realiza\u00e7\u00e3o. A auto-realiza\u00e7\u00e3o depende da autodetermina\u00e7\u00e3o, compet\u00eancia, sucesso, e sentimento de perten\u00e7a. Uma pessoa que se sinta aceite e estimada entre as pessoas de rela\u00e7\u00e3o, torna-se mais est\u00e1vel e adquire maior capacidade de toler\u00e2ncia. A vida comunit\u00e1ria precisa de espa\u00e7o para oscila\u00e7\u00f5es do bem-estar. A vida \u00e9 como um p\u00eandulo. Seria mau sinal se cedesse \u00e0 lei da in\u00e9rcia interrompida apenas por rituais estere\u00f3tipos. Importa ter-se a consci\u00eancia de que com o pr\u00f3prio agir se consegue mover algo e se \u00e9 reconhecido no meio ambiente. Na uni\u00e3o conjugal cada c\u00f4njuge constitui uma oportunidade para o desenvolvimento do outro. A vida \u00e9 cont\u00ednua mudan\u00e7a. Se n\u00e3o entrarmos neste processo seremos ultrapassados por ela. Muitas vezes a mulher est\u00e1 mais predisposta \u00e0 mudan\u00e7a o que provoca desenvolvimentos diferentes com consequentes desequil\u00edbrios e conflitos.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o precisa de proximidade, ternura, sexualidade, carinho, apoio e lealdade. Se algo disto falta interv\u00e9m a lei da in\u00e9rcia, a perca da vontade, o alheamento, a resigna\u00e7\u00e3o, o esgotamento.<\/p>\n<p>              <b>Sem\u00e1foros com sinal vermelho cont\u00ednuo<\/b><br \/>O desequil\u00edbrio causa doen\u00e7as f\u00edsicas e ps\u00edquicas. Trag\u00e9dias tornam-se mais abundantes em ambientes fechados, onde o mundo relacional e o horizonte da vida se deixam reduzir ao lar. Muitos casais guardam em segredo para eles os conflitos, dando mais import\u00e2ncia \u00e0 vergonha que teriam ao manifest\u00e1-los do que em resolv\u00ea-los. Contentam-se em desabafar com este e com aquele amigo ou amiga que muitas vezes por deslealdade ou por medo de pensar na precariedade da pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o tomam uma posi\u00e7\u00e3o leviana. Assim se v\u00e3o passando anos de vida sem qualidade, assim se adia irresponsavelmente a vida. Muitos n\u00e3o atingem o alcance das palavras ditas no momento do casamento:\u201dFicaremos juntos at\u00e9 que a morte nos separe\u201d! N\u00e3o h\u00e1 s\u00f3 a morte f\u00edsica! A vida n\u00e3o espera. Ela precisa \u00e9 de sinais verdes!<\/p>\n<p>Muitos lares transformam-se em pris\u00f5es onde se n\u00e3o encontra uma porta de sa\u00edda nem t\u00e3o pouco uma janela. O dia a dia transforma-se numa trag\u00e9dia, numa marcha f\u00fanebre, uma vida em luto. Nesse ambiente \u00e9 costume trocarem-se \u201cmimos\u201d destrutivos. Vive-se no equ\u00edvoco de que dizendo \u201cas verdades\u201d o outro se abre e melhora. Acontece por\u00e9m o contr\u00e1rio porque quem \u00e9 depreciado sente-se sem valor e como tal num estado depressivo. De dois esp\u00edritos sombrios n\u00e3o se pode esperar luz. Para haver luz ter\u00e1 que haver mudan\u00e7a de atitude nos dois.<\/p>\n<p>Se imaginamos mais o lado soalheiro do c\u00f4njuge, o seu aspecto bom, er\u00f3tico, simp\u00e1tico certamente que observaremos uma mudan\u00e7a em n\u00f3s e nele. Infelizmente a nossa aten\u00e7\u00e3o est\u00e1 mais orientada para o que n\u00e3o funciona, sem registar o positivo. Se a autoconfian\u00e7a diminui e a auto-estima abranda as nuvens da solid\u00e3o v\u00e3o-se apoderando da rela\u00e7\u00e3o e as trovoadas passam a repetir-se com intervalos cada vez mais curtos. Por vezes domina a frieza da indiferen\u00e7a, ou a t\u00e1ctica de ignorar o outro. Paulatinamente a vida passa a desenrolar-se em vias paralelas onde as fumaradas favorecem os instintos mais fracos, a caminho dos medos, da depress\u00e3o, da coac\u00e7\u00e3o, da frustra\u00e7\u00e3o e do desespero.<\/p>\n<p>O bem cresce num solo do reconhecimento. Quem se ama a si mesmo j\u00e1 tem uma maior margem para poder amar os outros. Quando o amor tem uma dimens\u00e3o espiritual ent\u00e3o na vida dos dois \u00e9 mais f\u00e1cil descobrir uma linha cont\u00ednua comum. A dimens\u00e3o espiritual fomenta a comunh\u00e3o e a viv\u00eancia do sentido. A rela\u00e7\u00e3o entre os dois pode alcan\u00e7ar maior qualidade. \u201cEu estava nu\u2026, abandonado\u2026, eu tinha sede e v\u00f3s destes-me de beber\u2026\u201d. Quem tem f\u00e9, mesmo no mais negro dos desertos, nunca est\u00e1 sozinho!<\/p>\n<p>                  <b>Aprender a amar e n\u00e3o a castigar-se<\/b><br \/>Conflitos constituem uma oportunidade para o aprofundamento da rela\u00e7\u00e3o do par e para o desenvolvimento individual. Uma rela\u00e7\u00e3o \u00edntima a dois pressup\u00f5e a abertura ao desenvolvimento interior. N\u00e3o chegam os aspectos folcloristas! A princ\u00edpio chega-se a perder muito tempo! Passa-se a vida \u00e0 procura do restabelecimento da intimidade original ou da sua restaura\u00e7\u00e3o na procura do pai ou da m\u00e3e. Por vezes, na rela\u00e7\u00e3o a dois desenvolvem-se mecanismos numa troca de pap\u00e9is ora de crian\u00e7a ora de pai ou m\u00e3e. Quem n\u00e3o se der conta disto, passados os foguetes da festa, estar\u00e1 mais predisposto para uma vida emocional e sexual frustrada.<\/p>\n<p>Cada um reivindica para si o estado de adulto mas na posi\u00e7\u00e3o de chefe mas mantendo recursos infantis a n\u00e3o desiludir. A crise cria a oportunidade para se sair dum processo de rela\u00e7\u00e3o infantil, ela corresponde muitas vezes ao alcance dum estado de maior maturidade: uma plataforma para um salto qualitativo. Naturalmente que permanecer\u00e1 uma certa nostalgia pela despreocupa\u00e7\u00e3o infantil e pelo estado simbi\u00f3tico. O \u201cEgo\u201d \u00e9 c\u00f3modo n\u00e3o querendo desenvolver-se porque o desenvolvimento vai na direc\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria ao comodismo e exige criatividade, esp\u00edrito reflexivo e vontade. A crise \u00e9 como a doen\u00e7a um toque a rebate anunciando que \u00e9 tempo de mudar de atitude e de comportamento. A vida quer-nos adultos, da\u00ed a dor a acompanh\u00e1-la. A crian\u00e7a em n\u00f3s que n\u00e3o quer dar lugar ao adulto procura continuamente encontrar respons\u00e1veis ou culpados pela dor que julga estranha. O indiv\u00edduo est\u00e1 em cont\u00ednua transforma\u00e7\u00e3o o que implica mudan\u00e7a na rela\u00e7\u00e3o de casal. A crise \u00e9 tamb\u00e9m uma oportunidade para os dois se mexerem na entreajuda na metamorfose pr\u00f3pria ao desenvolvimento. Quem coloca a rela\u00e7\u00e3o como o problema central da sua vida n\u00e3o tem medo de conflitos e tem confian\u00e7a que aquela se melhorar\u00e1. Sem se mortificar a si pr\u00f3prio na observa\u00e7\u00e3o do parceiro. A mudan\u00e7a pertence ao processo, aos dois. Quanto mais nos aproximarmos um do outro mais descobrimos em n\u00f3s mesmos e no outro.<\/p>\n<p>N\u00e3o chega amar, \u00e9 preciso que o outro note que \u00e9 amado, era a filosofia do pedagogo Jo\u00e3o Bosco. Por outro lado a verdadeira rela\u00e7\u00e3o come\u00e7a nas intemp\u00e9ries. \u00c9 preciso a coragem de se p\u00f4r a caminho e de abandonar o para\u00edso terreal aceitando o medo e a culpa. N\u00e3o chega a auto-realiza\u00e7\u00e3o emocional e vegetativa. \u00c9 preciso a consci\u00eancia de que se est\u00e1 a caminho. Quem parou morreu e pode tornar-se num empecilho para os outros.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos reduzir o nosso agir \u00e0 cumplicidade ou \u00e0 vinganca &#8211; atrav\u00e9s do nosso agir &#8211; do agir dos nossos pais por n\u00f3s internalizado inconscientemente. N\u00e3o chega reagir, \u00e9 preciso agir conscientemente. N\u00e3o chega uma vontade inconsciente de remir os nossos pais no sacrif\u00edcio inconsciente em n\u00f3s latente, renunciando ao pr\u00f3prio viver. Por vezes as pessoas castigam em si mesmas as faltas do pai e da m\u00e3e; castigam-se em representa\u00e7\u00e3o ou substitui\u00e7\u00e3o do pai e da m\u00e3e. A tradi\u00e7\u00e3o do pecado original e da remiss\u00e3o de todos os males por Cristo \u00e9, al\u00e9m do mais, um recordar que o ser humano n\u00e3o tem de se imolar pelo outro. Pelo contr\u00e1rio, \u00e9 chamado \u00e0 consciencializa\u00e7\u00e3o de si mesmo e \u00e0 participa\u00e7\u00e3o na pr\u00f3pria salva\u00e7\u00e3o e na salva\u00e7\u00e3o dos outros numa perspectiva de plena liberdade e amor..<\/p>\n<p>Se a chama do amor com que vemos o outro se chega a apagar em n\u00f3s surgem ent\u00e3o outras presen\u00e7as que nos acompanham na noite. \u00c9 ent\u00e3o a altura de deixar falar em n\u00f3s o s\u00e1bio que fala da profundidade da dor. Esta ajuda-nos a ver a realidade com os olhos do universo. A\u00ed, depois de apagadas as velas da cobi\u00e7a, da c\u00f3lera e do desespero pelo vento da dor, talvez se torne mais f\u00e1cil reconhecer a pr\u00f3pria natureza e o chamamento \u00e0 unidade e a oportunidade da chamada a resolver a dualidade na uni\u00e3o e na unisson\u00e2ncia com a natureza do mestre da Galileia, com o mestre a descobrir em n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<br \/>In \u201cPegadas do Tempo\u201d                   <\/span><\/p>\n<div align=\"right\"> <span class=\"texto\"><b>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/b> <\/span><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aprender a Ser Ao ar polu\u00eddo da atmosfera que respiramos vem juntar-se o stress miudinho que imperceptivelmente inalamos da sociedade moderna. Desde o irritante vizinho at\u00e9 aos problemas de trabalho, tudo se acarreta para casa. Uma vez em casa l\u00e1 est\u00e1 o barulho da rua na televis\u00e3o \u00e0 nossa espera, al\u00e9m doutros barulhos. 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