{"id":1167,"date":"2007-11-17T10:57:00","date_gmt":"2007-11-17T09:57:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1167"},"modified":"2007-11-17T10:57:00","modified_gmt":"2007-11-17T09:57:00","slug":"juizes-no-papel-de-maus-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1167","title":{"rendered":"Ju\u00edzes no papel de maus pais"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"texto\">                    <b>Um Dia Negro para o Supremo Tribunal da Justi\u00e7a<\/b><\/p>\n<p>Uma educadora acusada de maltratar menores deficientes com palmadas nas crian\u00e7as e de as fechar em quartos escuros quando se recusavam a comer, foi absolvida pelo Supremo Tribunal da Justi\u00e7a em Portugal. A decis\u00e3o do tribunal \u00e9 question\u00e1vel. O fundamento da decis\u00e3o \u00e9 vergonhoso e anacr\u00f3nico. O tribunal parece partir do equ\u00edvoco de que poder, for\u00e7a \u00e9 igual a direito, justi\u00e7a<br \/>O tribunal abusa do direito ao recorrer a uma generaliza\u00e7\u00e3o ofensiva para muitos pais portugueses para justificarem a sua decis\u00e3o, com como se viv\u00eassemos numa sociedade repressiva, no Portugal do s\u00e9culo XIX. O Supremo Tribunal ao legitimar castigos corporais com argumentos pedag\u00f3gicos duma \u201c pedagogia negra\u201d esquece o direito \u00e0 dignidade da pessoa humana, ignora a psicologia da crian\u00e7a e n\u00e3o tem em conta a sua honra.<br \/>O ac\u00f3rd\u00e3o do Supremo tribunal vai longe demais ao afirmar: \u201cQual \u00e9 o bom pai de fam\u00edlia que, por uma ou duas vezes, n\u00e3o d\u00e1 palmadas no rabo dum filho que se recusa a ir para a escola, que n\u00e3o d\u00e1 uma bofetada a um filho\u2026ou que n\u00e3o manda um filho de castigo para o quarto quando ele n\u00e3o quer comer?\u201d O Supremo perdeu uma boa ocasi\u00e3o para estar calado. N\u00e3o se trata aqui de se defender uma pedagogia repressiva ou permissiva. Aqui estar\u00e3o em quest\u00e3o o \u00e2nimo leve com que se argumenta, uma mentalidade problem\u00e1tica, a falta de informa\u00e7\u00e3o de profissionais que nas suas decis\u00f5es deveriam recorrer ao parecer de peritos.<br \/>Bater \u00e9 grave. Bater no rabo pode conduzir a fixa\u00e7\u00f5es sexuais ou levar a cr\u00f3nicas tens\u00f5es musculares e mais tarde a sofrimento de dores nas cruzes e a perturba\u00e7\u00f5es sexuais. O rabo est\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o com o sexo. A reac\u00e7\u00e3o de contrac\u00e7\u00e3o do rabo por medo tem consequ\u00eancias psicossom\u00e1ticas.<br \/>A decis\u00e3o est\u00e1 na linha de comportamento do bater porque tem que ser sem considerar as m\u00e1s consequ\u00eancias que da\u00ed adv\u00eam.<br \/>Uma crian\u00e7a, e mais ainda, uma crian\u00e7a deficiente mental n\u00e3o v\u00ea a conex\u00e3o entre o seu agir e o castigo. Pais e educadores que se vejam na necessidade de castigar deveriam primeiro reflectir se essa necessidade lhes vem da raiva, da vingan\u00e7a ou da fraqueza. A maior parte das vezes actuam sob o sentimento da raiva ou da vingan\u00e7a. Os castigos t\u00eam um valor muito limitado porque a crian\u00e7as n\u00e3o reagem por compreens\u00e3o mas por medo. Uma crian\u00e7a em situa\u00e7\u00e3o de castigo n\u00e3o reflecte, apenas reage emotivamente e sente o sentimento do castigador. Por isso o castigo n\u00e3o pode actuar adequadamente. Em vez de se castigar deve-se levar a crian\u00e7a a sofrer as consequ\u00eancias do seu agir. Quem se recusa a comer n\u00e3o deve tomar alimento at\u00e9 \u00e0 pr\u00f3xima refei\u00e7\u00e3o.<br \/>O castigo fomenta o medo e at\u00e9 a teimosia e pode refor\u00e7ar a atitude porque a crian\u00e7a atrav\u00e9s do castigo cria uma rela\u00e7\u00e3o com o educador. O educador, ausente e ignorador do outro, passa assim a estar presente embora de forma negativa. A dedica\u00e7\u00e3o negativa \u00e9 melhor que nenhuma dedica\u00e7\u00e3o.<br \/>Certamente que j\u00e1 observaram a cena em que amigos ou familiares adultos se divertem e conversam \u00e0 mesa esquecendo-se das crian\u00e7as ao lado. De repente uma crian\u00e7a deixa cair um copo sem querer. Os adultos reagem mal, criticando ou compreendendo. Esta ac\u00e7\u00e3o inconsciente da crian\u00e7a pretende castigar a atitude dos adultos que a ignoraram. Estes por\u00e9m, em vez de compreenderem a inten\u00e7\u00e3o que est\u00e1 por baixo daquela ac\u00e7\u00e3o, reagem s\u00f3 emotivamente ao castigo sem compreenderem a mensagem que estava naquela ac\u00e7\u00e3o. Tal como o copo que caiu sem inten\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m o comportamento indesejado, por exemplo, mentir roubar, fazer xixi na cama, agressividade, etc. tem sempre motivos inconscientes. A atitude das crian\u00e7as que actuam inadaptadamente t\u00eam um sentido mais profundo e por isso o castigo \u00e9, em princ\u00edpio, inconveniente. Castigos s\u00e3o de uma maneira geral desresoponsabilizadores para as duas partes. Em vez de proporcionarem um relacionamento pessoal e de levarem ao auto-dom\u00ednio fomentam o distanciamento e a superficialidade. Ningu\u00e9m se leva a s\u00e9rio. Isto tem consequ\u00eancias catastr\u00f3ficas para a nossa vida social. N\u00e3o se age, apenas se reage! O mais forte leva o outro apenas a calar mas depois de ter perdido a raz\u00e3o. Passou-se a uma rela\u00e7\u00e3o de objecto-objecto, contra qualquer identifica\u00e7\u00e3o. Da situa\u00e7\u00e3o surge apenas a experi\u00eancia de que for\u00e7a e direito se identificam. O verdadeiro educador prescinde da for\u00e7a. Esta despersonaliza e provoca agressividade ou hipocrisia ou uma sociedade de adaptados de potencialidades criativas apagadas. O mau educador reage ao acto mas n\u00e3o \u00e0 verdade que est\u00e1 por tr\u00e1s desse mesmo acto. A crian\u00e7a sente-se abandonada e incorrespondida. Educador e educando assumem os pap\u00e9is de objectos que n\u00e3o os de sujeitos. Segue-se uma cadeia de reac\u00e7\u00f5es despersonalizadoras. As crian\u00e7as refugiam-se no seu cativeiro da imagina\u00e7\u00e3o, da solid\u00e3o\u2026e reagem segundo a sua personalidade e a sua rela\u00e7\u00e3o com os interlocutores. O amor e a estima, fundamento de toda a educa\u00e7\u00e3o s\u00e3o ignorados. O amor e a admira\u00e7\u00e3o adquirem-se por identifica\u00e7\u00e3o e n\u00e3o por castigo. D\u00e3o-se por internaliza\u00e7\u00e3o e imita\u00e7\u00e3o das atitudes e dos valores do outro, compreens\u00e3o.<br \/>O infractor procura aten\u00e7\u00e3o que s\u00f3 pode ser mantida no di\u00e1logo. Uma educa\u00e7\u00e3o adequada pressup\u00f5e uma consci\u00eancia forjada n\u00e3o no medo mas na confian\u00e7a, na autodisciplina e na pr\u00f3pria dignidade. O educador tem de partir do princ\u00edpio de que o educando actuou como actuou porque pensava agir bem. H\u00e1 imensas raz\u00f5es para agir assim. Talvez tenha sido levado mais por um sentimento do que por uma raz\u00e3o esclarecida. Para fomentarmos a voz da consci\u00eancia na crian\u00e7a temos que seguir as pegadas t\u00e9nues da raz\u00e3o e esta acontece longe de qualquer afectividade e na resist\u00eancia \u00e0 c\u00f3lera pr\u00f3pria que turva a nossa capacidade de ju\u00edzo. Esta forma-se sem moralismos, sem serm\u00f5es nem exig\u00eancias inoportunas e fora do lugar e do tempo, no distanciamento aos pr\u00f3prios medos e receios em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s potencialidades futuras. A c\u00f3lera do educador e o medo do educando embora irmanados no mesmo equ\u00edvoco desencaminham e n\u00e3o reagem a argumentos. Para a crian\u00e7a chega-lhe o peso do presente n\u00e3o estando aberto ao futuro; o educador sucumbe ao peso do futuro n\u00e3o compreendendo o presente.<br \/>O educando procura muitas vezes o castigo inconscientemente por sentir que os educadores n\u00e3o o amam suficientemente. Para educadores a pena serve para descarga da c\u00f3lera, de sentimentos negativos e de sentimentos de culpa e de frustra\u00e7\u00f5es. O castigo desobriga o infractor conduzindo ao equil\u00edbrio entre pais e filhos, entre educadores e educandos. O medo do castigo evita e reprime o sentimento de culpa e os remorsos de consci\u00eancia, os verdadeiros meios de escaramento. Por um lado o castigo liberta ou cria reconcilia\u00e7\u00e3o por outro lado faz parte dos actos convencionais que levam as pessoas a n\u00e3o se levarem a s\u00e9rio e a estabelecerem um relacionamento impessoal (embora de car\u00e1cter emocional positivo ou negativo).<br \/>O exemplo de vida dado pelos familiares ou educadores e a confian\u00e7a neles s\u00e3o fundamentais para a determina\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o. O educando sabe que o grau de amor dos educadores depende tamb\u00e9m do seu comportamento e de desenganos. A crian\u00e7a n\u00e3o quer renunciar ao amor pondo-se na disposi\u00e7\u00e3o de mudar. O distanciamento corporal tempor\u00e1rio dum educador d\u00e1 tempo para reflectir e tem grande efeito no educando. Aqui os pais n\u00e3o castigam mas sentem amorosamente. A priva\u00e7\u00e3o (pouco tempo) moment\u00e2nea de amor (distanciamento local da pessoa para que as duas partes dominem os seus sentimentos negativos) \u00e9 extremamente efectiva porque se realiza na manifesta\u00e7\u00e3o de sentimentos feridos. Aqui a crian\u00e7a recorda a n\u00edvel inconsciente o medo da separa\u00e7\u00e3o dos pais no per\u00edodo de aleita\u00e7\u00e3o movendo nela mecanismos compensat\u00f3rios e reac\u00e7\u00f5es gratificantes. Cada um, educando e educador \u00e9 um ser condicionado \u00e0s necessidades interiores e inconscientes. Muitas vezes os educandos pagam a factura de incapacidades, insatisfa\u00e7\u00f5es e fracassos da vida.<br \/>Louvor, como manifesta\u00e7\u00e3o de amor e simpatia em combina\u00e7\u00e3o com a priva\u00e7\u00e3o moment\u00e2nea de amor s\u00e3o os melhores meios de educa\u00e7\u00e3o e tornam o castigo sup\u00e9rfluo. Aqui funciona a rela\u00e7\u00e3o pessoal de Eu-Tu-N\u00f3s e n\u00e3o a de pseudosujeito-objecto. Todos n\u00f3s somos mendigos de amor e al\u00e9rgicos \u00e0 cr\u00edtica e ao castigo. O amor cria proximidade corporal e afectiva.<br \/>A falta de objectividade e de dist\u00e2ncia emocional e talvez a falta de pessoal e de forma\u00e7\u00e3o profissional ser\u00e3o motivos para desculpar a educadora em causa. A compreens\u00e3o duma situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode por\u00e9m acontecer \u00e0 custa da outra.<br \/>Neste julgamento do Supremo Tribunal tenho a impress\u00e3o que os ju\u00edzes se comportaram como bons pais para com a educadora e argumentaram emocionalmente em desfavor da crian\u00e7a tal como fazem maus pais.<br \/>Ama verdadeiramente e ent\u00e3o podes fazer o que quiseres!<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<br \/>Pedagogo e te\u00f3logo                   <\/span><\/p>\n<div align=\"right\"> <span class=\"texto\"><b>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/b> <\/span><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um Dia Negro para o Supremo Tribunal da Justi\u00e7a Uma educadora acusada de maltratar menores deficientes com palmadas nas crian\u00e7as e de as fechar em quartos escuros quando se recusavam a comer, foi absolvida pelo Supremo Tribunal da Justi\u00e7a em Portugal. A decis\u00e3o do tribunal \u00e9 question\u00e1vel. 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