{"id":1159,"date":"2007-11-17T10:52:00","date_gmt":"2007-11-17T09:52:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1159"},"modified":"2007-11-17T10:52:00","modified_gmt":"2007-11-17T09:52:00","slug":"futebol-um-simbolo-uma-forca-uma-oportunidade%e2%80%a6","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1159","title":{"rendered":"Futebol um S\u00edmbolo, uma For\u00e7a, uma Oportunidade\u2026"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"texto\">                    <b>Refugiados da vida entram no relvado<\/b><br \/>O campeonato do Mundo na Alemanha atrair\u00e1 3 milh\u00f5es de visitantes a 64 jogos entre as 32 na\u00e7\u00f5es participantes. O resto fica atado aos ecr\u00e3s da TV, \u00e0 R\u00e1dio e aos jornais.<br \/>Como na religi\u00e3o tamb\u00e9m no futebol h\u00e1 fi\u00e9is, devotos, fan\u00e1ticos, indiferentes e tamb\u00e9m os her\u00e9ticos, os agn\u00f3sticos, e mesmo os ateus da bola. N\u00e3o faltam tamb\u00e9m os comerciantes de artigos devocionais e os padres que se preocupam com a consci\u00eancia da na\u00e7\u00e3o.<br \/>Como na igreja, a alma do futebol une as gera\u00e7\u00f5es e as camadas sociais; pequenos e grandes sentem-se unidos por uma for\u00e7a misteriosa; a\u00ed a alma liberta-se e quando h\u00e1 golos acontece mesmo salva\u00e7\u00e3o.<br \/>De facto, o futebol como prot\u00f3tipo e simula\u00e7\u00e3o da vida mostra-nos como se vive, como se domina e como se vence. As regras s\u00e3o claras e os limites tamb\u00e9m. Nesta liturgia social d\u00e1-se a presencializa\u00e7\u00e3o aut\u00eantica da realidade da arena. No jogo o homem realiza-se, chegando a viv\u00eancia do acontecimento a transcender a pr\u00f3pria realidade: sem consequ\u00eancias pr\u00e1ticas satisfaz os mais profundos instintos. A pura esperan\u00e7a de que algo aconte\u00e7a, de que aconte\u00e7a o melhor, transporta a comunidade futebol\u00edstica para uma dimens\u00e3o dum real sem verdades complicadas. Futebol torna-se simplesmente o ponto de encontro de todas as esperan\u00e7as, a pot\u00eancia em si. Neste potencial circula tamb\u00e9m a seiva social do n\u00e3o estar s\u00f3, a comunh\u00e3o!<br \/>No Est\u00e1dio, ou no ecr\u00e3, longe das peias e dos muros da sociedade, num campo neutro e verde \u00e0 volta duma bola prenhe, vazia de sentido e de significa\u00e7\u00f5es complicadoras, re\u00fane-se a comunidade universal que irmanada reza, chora, rejubila e grita, projectando de cora\u00e7\u00e3o inocente e puro, a ac\u00e7\u00e3o e o sentido que os jogadores realizam. Neste est\u00e1dio n\u00e3o h\u00e1 moralismos nem verdades partid\u00e1rias; reina o sentimento, a afectividade global. Nesta festa da vida s\u00f3 parece haver uma sombra: o \u00e1rbitro (que os pre\u00e7os dos bilhetes e os ordenados escandalosos s\u00e3o para se considerarem com humor! Os pre\u00e7os altos dos bilhetes at\u00e9 servem para os pol\u00edticos justificarem o aumento dos impostos: quem, n\u00e3o sendo rico, tem tanto dinheiro para ir \u00e0 festa tamb\u00e9m pode dispensar algum para o desgoverno estatal!). Para o adepto, ao declinar do pr\u00f3prio sentido, j\u00e1 n\u00e3o conta a identidade, chega apenas a identifica\u00e7\u00e3o: mais que uma sublima\u00e7\u00e3o, uma esp\u00e9cie de sacerd\u00f3cio. Este, espantado da vida, refugia-se no relvado verde por 90 minutos e, depois da cerim\u00f3nia real do est\u00e1dio, passa ao jogo do dia a dia em que as ru\u00ednas duma sociedade cada vez se tornam mais presentes e a \u00e2nsia por um novo dia mais \u00f3bvia. As nuvens da semana s\u00e3o dissipadas pelo sol do fim-de-semana. Sonho e realidade, dois p\u00f3los da mesma ilus\u00e3o! A desobriga de fim-de-semana nos est\u00e1dios e televis\u00f5es pode muito\u2026 Ela alivia e liberta a na\u00e7\u00e3o do povo e o povo da na\u00e7\u00e3o!<br \/>O jogo de futebol \u00e9 um reflexo da nossa vida resumida em 90 minutos. \u00c9 um jogo verdadeiro em que se joga em nome de regras mas em que estas s\u00e3o continuamente infringidas. Como na vida h\u00e1 bons e maus e o jogo \u00e9 aberto: n\u00e3o se sabe quem ganha; certamente o melhor! A f\u00e9 na vit\u00f3ria cimenta e d\u00e1 consist\u00eancia. N\u00e3o faltam a dramaturgia, o sucesso, a derrota, o sofrimento, o gozo, as l\u00e1grimas nem t\u00e3o-pouco as preces e urras al\u00e9m dum Happy End. Na vit\u00f3ria abra\u00e7am-se estranhos, na derrota consolam-se tamb\u00e9m. L\u00e1grimas de sofrimento e de alegria, o subterr\u00e2neo da vida aflora. A solidariedade levanta as m\u00e3os. \u00c9 uma celebra\u00e7\u00e3o que aproxima, que liberta de complexos, de etiquetas e de todos os cabrestos sociais.<br \/>Nesta liga em vez de santos h\u00e1 her\u00f3is. Como numa comunidade religiosa tamb\u00e9m j\u00e1 se nasce portista ou benfiquista. O clube \u00e9 a par\u00f3quia onde se \u00e9 iniciado. Prociss\u00f5es e romarias est\u00e3o na ordem do dia. Quando o ambiente o pede tamb\u00e9m se d\u00e3o convers\u00f5es. Express\u00f5es de simpatia por um outro clube podem levar \u00e0 excomunh\u00e3o. O futebol al\u00e9m dalgumas mazelas tamb\u00e9m tem as suas virtudes, tais como: persist\u00eancia, autodisciplina, for\u00e7a de vontade, esp\u00edrito de grupo, intelig\u00eancia, solidariedade, etc.<br \/>No altar da televis\u00e3o, o lembrar e reviver com devo\u00e7\u00e3o os actos lit\u00fargicos dos jogos e estrelas do passado fazem parte da magia da celebra\u00e7\u00e3o. No recordar comum de actos her\u00f3icos contra os exclu\u00eddos, os leprosos da hora, irmanam-se povos. Supera-se a dicotomia de gera\u00e7\u00f5es e at\u00e9 j\u00e1 de sexos! Diria mesmo, se n\u00e3o fosse a car\u00eancia do esp\u00edrito seria a melhor religi\u00e3o porque sintetizaria o sagrado e o profano!<br \/>No est\u00e1dio, ac\u00f3litos, vestidos \u00e0 maneira, com bandeiras e amplificadores, n\u00e3o faltando o coro, criam a atmosfera necess\u00e1ria para o acto. Ali, em campo, haver\u00e1 o julgamento final em que a comunidade dos justos vencer\u00e1 sobre a dos injustos. \u00c0 entrada dos oficiantes entoa-se o hino, os hinos que d\u00e3o transcend\u00eancia ao acto lit\u00fargico, \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o do n\u00f3s, da na\u00e7\u00e3o, do clube. Depois da liturgia do ofert\u00f3rio seguem-se as express\u00f5es da comunidade, e tamb\u00e9m os pedidos dos fi\u00e9is nos momentos de dor e penit\u00eancia. Por fim \u00e9 a hora dos comentadores e dos contabilistas.<br \/>Na Alemanha a pol\u00edtica e a economia predispuseram 20 milh\u00f5es de euros para que a imagem alem\u00e3 brilhe. Se Portugal no \u201cEuropeu\u201d queria fazer passar a imagem dum Portugal como jardim \u00e0 beira mar plantado, a Alemanha pretende estar na ribalta do \u201cMundial\u201d como o jardim das ideias. Com o futebol o mundo l\u00e1 fora deve admirar a na\u00e7\u00e3o com a sua fatiota domingueira e o povo dentro das muralhas da na\u00e7\u00e3o deve esquecer tristezas e despertar para as riquezas nele adormecidas.<br \/>Se h\u00e1 muita coisa boa no futebol tamb\u00e9m h\u00e1 muita coisa a questionar. O significado do futebol, o seu financiamento ou apoio pelo Estado. Se por um lado se investem milh\u00f5es em est\u00e1dios com relvados magn\u00edficos, por outro alargam-se as relvas onde se l\u00ea: proibido pisara relva! Onde est\u00e3o os lugares para as crian\u00e7as brincarem ao lado das casas? As crian\u00e7as s\u00e3o relegadas para o rect\u00e2ngulo do computador.<br \/>Em futebol tudo parece ser equacionado sob o molde dum divertimento anestesiador do presente. O que importa \u00e9 conversa e fazer conversar, n\u00e3o importa o qu\u00ea. \u00c0 volta disto vive a pol\u00edtica, a economia, os Media, a alma do povo. Enfim, um conversar sobre terceiros em que o eu e o n\u00f3s s\u00e3o envolvidos e atados num n\u00f3 cada vez mais cego \u00e0 volta do Futebol. Este torna-se num Show encenado onde o s\u00f3cio funciona como cen\u00e1rio, como alimento das c\u00e2maras de TV, para criar autenticidade nos est\u00fadios. O jogo de Futebol como tal deixou de ser o centro das aten\u00e7\u00f5es para passar a ser compreendido como fen\u00f3meno pol\u00edtico-social.<br \/>(Alguns leitores querer\u00e3o saber qual a minha filia\u00e7\u00e3o futebol\u00edstica. Sim, tamb\u00e9m eu sou mortal e portanto adepto dum clube: sou adepto do clube que perde. Melhor, para ser redondo como a bola e universal como o mundo, sou adepto de todos, dos que perdem e dos que ganham, dos masculinos e dos femininos, dos bons e dos maus!)<br \/>Como fen\u00f3meno universal, o futebol tem uma relev\u00e2ncia mundial. Nos clubes h\u00e1 vedetas de todo o mundo. Tem grande potencial inter-cultural a caminho dum universalismo sadio. S\u00f3 falta encher a bola de conte\u00fados mais integrais na constru\u00e7\u00e3o dum mundo menos dial\u00e9ctico e dualista do \u201cou\u2026 ou\u201d para passarmos para uma consci\u00eancia integral do \u201cn\u00e3o s\u00f3\u2026 mas tamb\u00e9m\u201d\u2026.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<br \/>a.c.justo@t-online.de                   <\/span><\/p>\n<div align=\"right\"> <span class=\"texto\"><b>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/b> <\/span><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Refugiados da vida entram no relvadoO campeonato do Mundo na Alemanha atrair\u00e1 3 milh\u00f5es de visitantes a 64 jogos entre as 32 na\u00e7\u00f5es participantes. 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