{"id":11490,"date":"2026-11-08T21:45:20","date_gmt":"2026-11-08T20:45:20","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11490"},"modified":"2026-11-08T21:55:13","modified_gmt":"2026-11-08T20:55:13","slug":"grande-premio-de-literatura-portuguesa-na-diaspora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11490","title":{"rendered":"Grande Pr\u00e9mio de Literatura Portuguesa na Di\u00e1spora"},"content":{"rendered":"<p><em>Entre a mem\u00f3ria da emigra\u00e7\u00e3o e a literatura: \u00abA Corda e a Mala Migrante\u00bb, uma narrativa sobre a identidade, a perten\u00e7a e a condi\u00e7\u00e3o humana entre culturas.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/antonio-justo.eu\/wp-content\/uploads\/Certificado-de-vencedor.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-11492\" src=\"https:\/\/antonio-justo.eu\/wp-content\/uploads\/Certificado-de-vencedor-269x300.png\" alt=\"\" width=\"269\" height=\"300\" 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e Poesia realizou-se a 6 de novembro de 2026, no Carnegie Room, em Thetford, Inglaterra, integrando as comemora\u00e7\u00f5es do 20.\u00ba anivers\u00e1rio daquele jornal.<\/p>\n<p>O pr\u00e9mio pretende reconhecer a cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria em l\u00edngua portuguesa produzida por autores residentes fora de Portugal, valorizando a mem\u00f3ria da emigra\u00e7\u00e3o e a express\u00e3o cultural de comunidades que, dispersas pelo mundo, continuam a encontrar na l\u00edngua portuguesa um espa\u00e7o de identidade e cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>A p\u00e1tria que cresce dentro da mem\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p>A narrativa <em>\u00abA Corda e a Mala Migrante\u00bb<\/em> come\u00e7a em Kassel, num lugar concreto da hist\u00f3ria da imigra\u00e7\u00e3o portuguesa na Alemanha: a chamada Casa Verde, na Frankfurter Stra\u00dfe 111.<\/p>\n<p>O in\u00edcio do conto apresenta uma atmosfera em que a paisagem exterior e a experi\u00eancia interior da personagem se entrela\u00e7am:<\/p>\n<p><em>\u00abNa Casa Verde, na Frankfurter Stra\u00dfe 111, em Kassel, o outono entrava pelas frestas das janelas duplas como um viajante que n\u00e3o tivesse encontrado porta aberta.\u00bb<\/em><\/p>\n<p>Neste cen\u00e1rio surge Mateus Soares, professor portugu\u00eas que dedicou grande parte da sua vida ao ensino da l\u00edngua materna aos filhos de emigrantes.<\/p>\n<p>Diante de um mapa-mundo, contempla Portugal, pequena mancha verde na extremidade ocidental da Europa, quase inteiramente coberta pelos dedos dos alunos quando procuram localiz\u00e1-lo.<\/p>\n<p>\u00c9 ent\u00e3o que a narrativa introduz uma reflex\u00e3o sobre a rela\u00e7\u00e3o entre a dist\u00e2ncia geogr\u00e1fica e a presen\u00e7a afetiva da terra natal:<\/p>\n<p><em>\u00ab\u00c0s vezes, Mateus pensava que era essa a primeira ironia da emigra\u00e7\u00e3o: quanto mais pequena ficava a p\u00e1tria no mapa, maior se tornava dentro da mem\u00f3ria.\u00bb<\/em><\/p>\n<p>Nesta imagem concentra-se uma das tens\u00f5es fundamentais da experi\u00eancia migrat\u00f3ria: a dist\u00e2ncia que separa os lugares e a mem\u00f3ria que os aproxima.<\/p>\n<p>A p\u00e1tria deixa de ser apenas uma realidade geogr\u00e1fica para se tornar tamb\u00e9m uma constru\u00e7\u00e3o interior, feita de l\u00edngua, recorda\u00e7\u00f5es, afetos e experi\u00eancias partilhadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Envelhecer entre duas terras<\/strong><\/p>\n<p>A figura de Mateus Soares permite abordar uma condi\u00e7\u00e3o humana que ultrapassa as circunst\u00e2ncias particulares da emigra\u00e7\u00e3o portuguesa.<\/p>\n<p>O emigrante vive frequentemente entre diferentes perten\u00e7as: a terra de origem, que permanece na mem\u00f3ria e a terra de acolhimento, onde constr\u00f3i o quotidiano e estabelece novos v\u00ednculos.<\/p>\n<p>A narrativa exprime essa experi\u00eancia numa frase de particular densidade simb\u00f3lica:<\/p>\n<p><em>\u00abHavia homens que envelheciam numa terra e Mateus envelhecera entre duas.\u00bb<\/em><\/p>\n<p>O envelhecimento entre duas terras n\u00e3o representa necessariamente uma divis\u00e3o da identidade. Pode tamb\u00e9m traduzir o seu alargamento, atrav\u00e9s da conviv\u00eancia entre l\u00ednguas, culturas e formas diferentes de compreender o mundo.<\/p>\n<p>\u00c9 neste horizonte que a literatura da di\u00e1spora encontra uma das suas express\u00f5es mais significativas e que \u00e9 transformar a experi\u00eancia individual da desloca\u00e7\u00e3o numa reflex\u00e3o sobre a condi\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Da experi\u00eancia intercultural \u00e0 cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria<\/strong><\/p>\n<p>A liga\u00e7\u00e3o de Ant\u00f3nio Justo a estas tem\u00e1ticas n\u00e3o se limita \u00e0 fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Durante muitos anos, al\u00e9m da sua accao pastoral em Lisboa e Paris, exerceu fun\u00e7\u00f5es docentes na regi\u00e3o de Kassel, lecionando L\u00edngua e Cultura Portuguesas e \u00c9tica, e desenvolveu atividades culturais, educativas e c\u00edvicas relacionadas com a integra\u00e7\u00e3o e o di\u00e1logo intercultural.<\/p>\n<p>Foi presidente do Conselho de Estrangeiros de Kassel (<em>Ausl\u00e4nderbeirat<\/em>) e chefe de reda\u00e7\u00e3o da revista multicultural <em>\u00abGemeinsam\u00bb<\/em>, que chegou a ter uma tiragem de 5.000 exemplares.<\/p>\n<p>Na Casa Verde, espa\u00e7o de encontro de trabalhadores migrantes e suas fam\u00edlias, elaborou o jornal escolar portugu\u00eas <em>\u00abO Farol\u00bb<\/em>, utilizando as impressoras da Caritas.<\/p>\n<p>No ano letivo de 1986\/87, coordenou, em colabora\u00e7\u00e3o com os alunos, a publica\u00e7\u00e3o bilingue de 86 p\u00e1ginas <em>\u00abBr\u00fccken in eine gemeinsame Zukunft \u2013 Pontes para um Futuro Comum\u00bb<\/em>, distinguida com o primeiro pr\u00e9mio num concurso escolar da Hessische Landeszentrale f\u00fcr politische Bildung.<\/p>\n<p>Quase quatro d\u00e9cadas separam esse reconhecimento pedag\u00f3gico da distin\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria agora recebida. Entre ambos, permanece uma continuidade tem\u00e1tica: a l\u00edngua, a cultura, a emigra\u00e7\u00e3o e a constru\u00e7\u00e3o de pontes entre comunidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>A literatura como lugar de encontro<\/strong><\/p>\n<p>A literatura produzida na di\u00e1spora ocupa um espa\u00e7o particular na cultura portuguesa.<\/p>\n<p>Nascida frequentemente da experi\u00eancia da dist\u00e2ncia, alimenta-se de encontros e desencontros, de mem\u00f3rias e transforma\u00e7\u00f5es, de perten\u00e7as que n\u00e3o se anulam, mas se interrogam mutuamente.<\/p>\n<p>A l\u00edngua portuguesa, transportada atrav\u00e9s de continentes e gera\u00e7\u00f5es, torna-se um lugar de encontro entre o passado e o presente, entre a mem\u00f3ria pessoal e a experi\u00eancia coletiva.<\/p>\n<p>Neste contexto, <em>\u00abA Corda e a Mala Migrante\u00bb<\/em> inscreve-se numa reflex\u00e3o sobre a identidade e o destino humano, partindo da experi\u00eancia migrat\u00f3ria para abordar quest\u00f5es mais amplas de perten\u00e7a, temporalidade e sentido da exist\u00eancia.<\/p>\n<p>O reconhecimento da obra pelo Grande Pr\u00e9mio de Literatura Portuguesa na Di\u00e1spora 2026 constitui, assim, uma ocasi\u00e3o para valorizar n\u00e3o apenas um percurso liter\u00e1rio individual, mas tamb\u00e9m a cria\u00e7\u00e3o cultural de comunidades cuja experi\u00eancia hist\u00f3rica contribui para alargar os horizontes da l\u00edngua portuguesa.<\/p>\n<p>Porque a literatura, tal como a mem\u00f3ria, n\u00e3o conhece fronteiras definitivas. E talvez uma das suas voca\u00e7\u00f5es mais profundas seja precisamente esta: construir pontes onde a geografia desenhou dist\u00e2ncias.<\/p>\n<p><strong>Sobre o autor<\/strong><\/p>\n<p>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo \u00e9 escritor e ensa\u00edsta portugu\u00eas, residente em Kassel, Alemanha. Antigo professor de L\u00edngua e Cultura Portuguesas e de \u00c9tica, desenvolveu uma longa atividade pedag\u00f3gica, cultural e intercultural. Colabora em v\u00e1rios jornais e mantem tamb\u00e9m o espa\u00e7o de reflex\u00e3o <em>Pegadas do Tempo<\/em>.<\/p>\n<p><strong>\u00a0Pegadas do Tempo<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre a mem\u00f3ria da emigra\u00e7\u00e3o e a literatura: \u00abA Corda e a Mala Migrante\u00bb, uma narrativa sobre a identidade, a perten\u00e7a e a condi\u00e7\u00e3o humana entre culturas. 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