{"id":11480,"date":"2026-11-03T18:13:40","date_gmt":"2026-11-03T17:13:40","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11480"},"modified":"2026-11-03T18:13:40","modified_gmt":"2026-11-03T17:13:40","slug":"procura-se-saude-mental","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11480","title":{"rendered":"PROCURA-SE SA\u00daDE MENTAL"},"content":{"rendered":"<p><em>A crise do nosso tempo n\u00e3o reside na pluralidade das narrativas, mas na incapacidade de as submeter a uma realidade comum, onde a raz\u00e3o reconhe\u00e7a os seus limites, a justi\u00e7a transcenda a mera legalidade e a dignidade humana permane\u00e7a superior aos interesses que pretendem represent\u00e1-la<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>A humanidade entre as narrativas do poder e o ex\u00edlio da realidade<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 uma enfermidade silenciosa a percorrer as sociedades contempor\u00e2neas. N\u00e3o se manifesta necessariamente nos hospitais, nem se deixa diagnosticar pelos instrumentos habituais da medicina. Instala-se no pensamento coletivo, infiltra-se nas institui\u00e7\u00f5es, alimenta-se das linguagens pol\u00edticas e prospera onde a raz\u00e3o deixa de procurar a verdade para se colocar ao servi\u00e7o da perten\u00e7a, da conveni\u00eancia e do poder, enfim, uma enfermidade que parece penetrar a nossa ess\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 uma esp\u00e9cie de desorienta\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia p\u00fablica, na qual as sociedades, embora cada vez mais informadas, parecem compreender-se cada vez menos.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Nunca tivemos tantas palavras para explicar o mundo e talvez nunca tenhamos tido t\u00e3o pouca disponibilidade para o escutar.<\/strong><\/p>\n<p>Os povos e os seus governos constroem narrativas destinadas a conferir identidade, continuidade e legitimidade \u00e0 pr\u00f3pria exist\u00eancia hist\u00f3rica. Nenhuma comunidade nasce no vazio. Cada uma respira num determinado bi\u00f3topo cultural, alimentado pela geografia, pelo clima, pela mem\u00f3ria dos antepassados, pelos trabalhos quotidianos e at\u00e9 pelos ventos dominantes que, durante s\u00e9culos, modelaram os h\u00e1bitos, os temperamentos e as formas de imaginar a vida.<\/p>\n<p>A paisagem n\u00e3o \u00e9 apenas o cen\u00e1rio da hist\u00f3ria; ela participa silenciosamente na forma\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia. H\u00e1 uma sabedoria das montanhas, uma inquieta\u00e7\u00e3o das fronteiras, uma abertura dos mares e uma intimidade dos vales. A cultura nasce tamb\u00e9m desta conviv\u00eancia prolongada entre o ser humano e o lugar <strong>(N\u00e3o \u00e9 sem raz\u00e3o que as noites prolongadas de povos n\u00f3rdicos os levam a procurar a luz nos livros que n\u00e3o encontram fora!).<\/strong><\/p>\n<p>O problema come\u00e7a quando essa experi\u00eancia situada, leg\u00edtima na sua singularidade, se transforma numa narrativa fechada que pretende possuir a interpreta\u00e7\u00e3o definitiva da realidade.<\/p>\n<ol>\n<li><strong> Quando os factos deixam de dialogar<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>No regime contempor\u00e2neo das narrativas, os factos correm frequentemente o risco de perder a sua autonomia. J\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o necessariamente acolhidos pela sua capacidade de esclarecer a realidade, mas pela utilidade que oferecem \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma determinada vis\u00e3o do mundo (ou narrativa).<\/p>\n<p><strong>Cada narrativa seleciona os acontecimentos que a confirmam, organiza-os segundo a sua l\u00f3gica interna e tende a desvalorizar aqueles que a poderiam contrariar.<\/strong><\/p>\n<p>Assim se constituem universos paralelos de interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que para uns representa liberta\u00e7\u00e3o, para outros constitui amea\u00e7a; aquilo que um governo apresenta como defesa da seguran\u00e7a, outro denuncia como agress\u00e3o; o que uma comunidade celebra como fidelidade \u00e0 sua hist\u00f3ria pode ser vivido por outra como exclus\u00e3o ou injusti\u00e7a.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de afirmar que todas as interpreta\u00e7\u00f5es possuem o mesmo valor ou que os factos deixam de existir independentemente delas. <strong>Pelo contr\u00e1rio,<\/strong> \u00a0<strong>\u00e9 precisamente porque existe uma realidade que n\u00e3o depende das nossas conveni\u00eancias que as narrativas precisam de ser confrontadas, corrigidas e responsabilizadas.<\/strong><\/p>\n<p>Uma narrativa que se torna imune \u00e0 experi\u00eancia deixa de ser instrumento de compreens\u00e3o para se transformar em mecanismo de autopreserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A verdade deixa ent\u00e3o de ser uma procura e passa a funcionar como propriedade de grupo. E quando a verdade \u00e9 tratada como propriedade, o outro deixa de ser interlocutor para se tornar intruso.<\/p>\n<p><strong>2. O abstrato contra o situado<\/strong><\/p>\n<p>Uma das contradi\u00e7\u00f5es mais inquietantes do nosso tempo reside na dist\u00e2ncia crescente entre a abstra\u00e7\u00e3o dos discursos e a concretude da vida.<\/p>\n<p>Fala-se de humanidade enquanto se ignoram seres humanos. Invoca-se a paz enquanto se alimentam mecanismos de hostilidade. <strong>Proclamam-se direitos universais enquanto se relativiza o sofrimento daqueles que se encontram fora do per\u00edmetro das nossas2 simpatias pol\u00edticas ou culturais.<\/strong><\/p>\n<p><strong>O abstrato, que deveria ajudar a compreender e a dignificar o concreto, converte-se frequentemente numa inst\u00e2ncia que o subordina.<\/strong><\/p>\n<p><strong>A pessoa real, com a sua biografia, o seu medo, a sua esperan\u00e7a e a sua vulnerabilidade, desaparece por detr\u00e1s de categorias como povo, na\u00e7\u00e3o, civiliza\u00e7\u00e3o, bloco, sistema ou interesse estrat\u00e9gico.<\/strong><\/p>\n<p><strong>A linguagem torna-se progressivamente mais grandiosa \u00e0 medida que a experi\u00eancia humana se torna menos vis\u00edvel.<\/strong><\/p>\n<p>Mas nenhuma ideia de humanidade pode ser moralmente superior \u00e0 pessoa concreta que sacrifica em seu nome.<\/p>\n<p>A universalidade aut\u00eantica n\u00e3o nasce da elimina\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as. Nasce da capacidade de reconhecer, em cada exist\u00eancia situada, uma dignidade que ultrapassa as fronteiras da perten\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>O universal que n\u00e3o sabe ajoelhar-se diante do particular acaba por se transformar numa abstra\u00e7\u00e3o desumana.<\/strong><\/p>\n<p>3.<strong>A mem\u00f3ria sepultada pela velocidade<\/strong><\/p>\n<p>A acelera\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica agrava esta fragmenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os acontecimentos sucedem-se com tal rapidez que raramente dispomos do tempo necess\u00e1rio para compreender as suas origens. <strong>Uma not\u00edcia enterra a anterior; uma indigna\u00e7\u00e3o substitui outra; uma explica\u00e7\u00e3o instala-se antes de a experi\u00eancia ter amadurecido.<\/strong><\/p>\n<p><strong>A mem\u00f3ria deixa de ser uma continuidade interpretativa e converte-se num dep\u00f3sito de fragmentos mobiliz\u00e1veis.<\/strong><\/p>\n<p>Torna-se ent\u00e3o dif\u00edcil reconstituir a terra que alimentou as ra\u00edzes de um conflito, de uma cultura ou de uma decis\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>As causas profundas desaparecem sob a acumula\u00e7\u00e3o dos efeitos imediatos.<\/p>\n<p><strong>A sociedade come\u00e7a a viver numa esp\u00e9cie de presente perp\u00e9tuo, saturado de informa\u00e7\u00e3o e empobrecido de consci\u00eancia hist\u00f3rica.<\/strong><\/p>\n<p>Contudo, compreender n\u00e3o significa desculpar, tal como recordar n\u00e3o significa permanecer prisioneiro do passado.<\/p>\n<p><strong>Compreender \u00e9 restituir aos acontecimentos a sua espessura humana, reconhecer os encadeamentos que os produziram e impedir que a simplifica\u00e7\u00e3o transforme a hist\u00f3ria numa sucess\u00e3o de culpados absolutos e inocentes perfeitos.<\/strong><\/p>\n<p>Uma civiliza\u00e7\u00e3o que perde a capacidade de recordar criticamente corre o risco de repetir aquilo que j\u00e1 n\u00e3o consegue compreender <strong>Muitas refer\u00eancias \u00e0 hist\u00f3ria passam a ser desenraizadas e atrai\u00e7oadas para se tornarem em pedras mortas possibilitadoras ao caminhar de pessoas com andarilhos!&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>4. O direito, a justi\u00e7a e a consci\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m o direito participa desta tens\u00e3o.<\/p>\n<p>Enquanto ordem normativa, o direito estabelece procedimentos, compet\u00eancias, obriga\u00e7\u00f5es e limites. A sua for\u00e7a reside precisamente na possibilidade de regular a conviv\u00eancia sem depender exclusivamente dos sentimentos individuais ou das convic\u00e7\u00f5es morais particulares.<\/p>\n<p>Mas o direito n\u00e3o se identifica automaticamente com a justi\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Uma norma pode ser formalmente v\u00e1lida e, ainda assim, produzir consequ\u00eancias profundamente injustas.<\/strong> Uma decis\u00e3o pode respeitar os procedimentos e deixar sem resposta a dor daqueles que por ela s\u00e3o atingidos<strong> (E o principal bus\u00edlis da quest\u00e3o \u00e9 que tamb\u00e9m aqui subsiste o hiato entre consci\u00eancia pr\u00f3pria e fun\u00e7\u00e3o).<\/strong><\/p>\n<p><strong>O direito, considerado apenas como sistema, n\u00e3o possui alma. A alma pertence aos seres humanos que o criam, interpretam, aplicam e contestam.<\/strong><\/p>\n<p>Por isso, a justi\u00e7a n\u00e3o pode reduzir-se \u00e0 legalidade, embora tamb\u00e9m n\u00e3o possa dispensar as garantias que o direito proporciona.<\/p>\n<p>A justi\u00e7a exige uma permanente vigil\u00e2ncia da consci\u00eancia sobre a ordem institu\u00edda.<\/p>\n<p>O mesmo se aplica \u00e0 moral. <strong>Nenhuma tradi\u00e7\u00e3o moral particular esgota a experi\u00eancia humana do justo. A consci\u00eancia amadurece quando reconhece que os seus pr\u00f3prios crit\u00e9rios precisam de ser expostos \u00e0 experi\u00eancia do outro.<\/strong><\/p>\n<p><strong>O direito sem consci\u00eancia arrisca tornar-se administra\u00e7\u00e3o da for\u00e7a; a consci\u00eancia sem direito arrisca tornar-se arbitrariedade.<\/strong><\/p>\n<p>A tarefa civilizacional consiste em manter viva a tens\u00e3o fecunda entre ambos.<\/p>\n<ol start=\"5\">\n<li><strong> A doen\u00e7a da raz\u00e3o instrumentalizada<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>O <strong>sinal mais preocupante da nossa \u00e9poca n\u00e3o \u00e9 certamente \u00a0a exist\u00eancia de conflitos, inevit\u00e1veis numa humanidade plural, mas a crescente incapacidade de os pensar sem converter o advers\u00e1rio em inimigo existencial.<\/strong><\/p>\n<p>A raz\u00e3o, em vez de constituir um espa\u00e7o de encontro, \u00e9 frequentemente convocada para justificar decis\u00f5es previamente determinadas por interesses econ\u00f3micos, geopol\u00edticos, ideol\u00f3gicos ou identit\u00e1rios. Por isso deixa de perguntar \u00abO que \u00e9 verdadeiro?\u00bb para perguntar \u00abQue argumentos servem melhor a nossa posi\u00e7\u00e3o?\u00bb.<\/p>\n<p><strong>A intelig\u00eancia \u00e9 pervertida e \u00a0transformada em instrumento de legitima\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Surge assim uma racionalidade aparentemente rigorosa, mas interiormente empobrecida porque conhece os meios, calcula as vantagens, organiza os discursos e perde de vista os fins humanos que deveriam orientar a sua atividade.<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o estamos perante uma aus\u00eancia de intelig\u00eancia, mas perante uma poss\u00edvel dissocia\u00e7\u00e3o entre intelig\u00eancia e sabedoria.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel possuir enormes capacidades t\u00e9cnicas e permanecer incapaz de reconhecer o sofrimento provocado pelas pr\u00f3prias decis\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel defender apaixonadamente valores universais e aplic\u00e1-los seletivamente. <strong>\u00c9 poss\u00edvel vencer todas as discuss\u00f5es e perder a capacidade de conviv\u00eancia.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Esta \u00e9 uma das grandes patologias metaf\u00f3ricas da vida p\u00fablica que consiste na transforma\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o em advogada permanente de interesses que raramente se deixam interrogar.<\/p>\n<p><\/strong><\/p>\n<ol start=\"6\">\n<li><strong>A sa\u00fade mental como responsabilidade civilizacional<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Falar de sa\u00fade mental neste contexto n\u00e3o significa confundir diverg\u00eancia pol\u00edtica com doen\u00e7a psiqui\u00e1trica, nem atribuir diagn\u00f3sticos cl\u00ednicos a povos ou governos.<\/p>\n<p><strong>Sa\u00fade mental, significa interrogar, em sentido filos\u00f3fico e \u00e9tico, a qualidade da nossa rela\u00e7\u00e3o coletiva com a realidade.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Uma cultura intelectualmente saud\u00e1vel deve ser capaz de distinguir os factos das interpreta\u00e7\u00f5es, os princ\u00edpios dos interesses, a fidelidade \u00e0s ra\u00edzes da hostilidade perante o diferente.<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00c9 necess\u00e1rio reconhecer a possibilidade do erro pr\u00f3prio sem considerar essa admiss\u00e3o uma derrota.<\/strong><\/p>\n<p>Precisa de cultivar uma mem\u00f3ria que n\u00e3o seja instrumento de vingan\u00e7a, uma identidade que n\u00e3o necessite de inimigos e uma raz\u00e3o que n\u00e3o tenha vergonha de reconhecer os seus limites. Acima de tudo, precisa de recuperar a capacidade de escutar.<\/p>\n<p>Escutar n\u00e3o significa concordar. Significa admitir que o outro pode revelar dimens\u00f5es da realidade que a nossa experi\u00eancia n\u00e3o alcan\u00e7ou.<\/p>\n<p>A verdadeira inclus\u00e3o n\u00e3o consiste em dissolver as diferen\u00e7as numa narrativa uniforme, mas em criar condi\u00e7\u00f5es para que narrativas distintas possam encontrar-se perante factos verific\u00e1veis, princ\u00edpios discut\u00edveis e uma dignidade humana que nenhuma delas tenha o direito de monopolizar.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o precisamos de um mundo sem narrativas; o que precisamos \u00e9 de narrativas capazes de reconhecer que n\u00e3o s\u00e3o o mundo inteiro.<\/p>\n<p><\/strong><\/p>\n<ol start=\"7\">\n<li><strong>Regresso \u00e0 terra comum que pisamos<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Talvez a reconstru\u00e7\u00e3o de uma raz\u00e3o verdadeiramente humana (para al\u00e9m das l\u00f3gicas) tenha de come\u00e7ar por um gesto de humildade que \u00e9 o de olhar para a terra e \u00a0regressar ela (nela encontramos o esp\u00edrito e a mat\u00e9ria que em Bel\u00e9m se tornou prot\u00f3ptipo do ser e do tornar-se.).<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e0 terra entendida como propriedade exclusiva de uma identidade, mas \u00e0 terra enquanto condi\u00e7\u00e3o partilhada da exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Todos nascemos situados. Todos recebemos uma l\u00edngua antes de podermos escolher as palavras. Todos herdamos mem\u00f3rias, afetos, preconceitos e horizontes que n\u00e3o constru\u00edmos sozinhos.<\/p>\n<p>E todos, apesar dessas diferen\u00e7as, partilhamos a fragilidade de um corpo, a necessidade de reconhecimento, a experi\u00eancia da perda e a consci\u00eancia, por vezes silenciosa, da pr\u00f3pria finitude. \u00c9 nessa vulnerabilidade comum que a raz\u00e3o pode reencontrar a sua voca\u00e7\u00e3o mais profunda.<\/p>\n<p><strong>A paz n\u00e3o nasce da vit\u00f3ria definitiva de uma narrativa sobre todas as outras. Nasce da constru\u00e7\u00e3o exigente de condi\u00e7\u00f5es em que a diferen\u00e7a n\u00e3o precise de se converter em amea\u00e7a.<\/strong><\/p>\n<p>A justi\u00e7a n\u00e3o come\u00e7a quando todos pensam do mesmo modo, mas quando ningu\u00e9m \u00e9 privado da sua humanidade por pensar de maneira diferente.<\/p>\n<p>E a verdade n\u00e3o se torna mais fraca por aceitar o confronto; pelo contr\u00e1rio, encontra nele a possibilidade de se libertar das nossas ilus\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Procura-se sa\u00fade mental.<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o apenas nos indiv\u00edduos, mas na qualidade do discurso p\u00fablico, na responsabilidade das institui\u00e7\u00f5es e na consci\u00eancia daqueles que transformam palavras em decis\u00f5es que afetam vidas.<\/p>\n<p><strong>Procura-se uma raz\u00e3o que n\u00e3o humilhe o sentimento, uma identidade que n\u00e3o sufoque a alteridade, uma lei que n\u00e3o esque\u00e7a a justi\u00e7a e uma pol\u00edtica que n\u00e3o confunda a grandeza dos seus projetos com a dignidade das pessoas.<\/strong><\/p>\n<p>Procura-se, afinal, a humanidade que se foi perdendo entre as palavras pronunciadas em seu nome. E isto porque uma civiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o se mede apenas pela intelig\u00eancia com que organiza o poder, mas sobretudo pela sabedoria com que impede que esse poder destrua aquilo que deveria servir.<\/p>\n<p>Certamente a primeira manifesta\u00e7\u00e3o de sa\u00fade se expressa em reconhecer que nenhuma narrativa vale mais do que a vida que pretende explicar.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A crise do nosso tempo n\u00e3o reside na pluralidade das narrativas, mas na incapacidade de as submeter a uma realidade comum, onde a raz\u00e3o reconhe\u00e7a os seus limites, a justi\u00e7a transcenda a mera legalidade e a dignidade humana permane\u00e7a superior aos interesses que pretendem represent\u00e1-la. 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