{"id":1148,"date":"2007-11-17T10:46:00","date_gmt":"2007-11-17T09:46:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1148"},"modified":"2007-11-17T10:46:00","modified_gmt":"2007-11-17T09:46:00","slug":"gunter-grass-%e2%80%93-um-filho-do-seu-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1148","title":{"rendered":"G\u00fcnter Grass \u2013 Um Filho do seu Tempo"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"texto\"><b>Com a mentira da sua vida conseguiu reabilitar a sua pessoa<\/b><\/p>\n<p>Atempadamente, antes de ser publicado o seu \u00faltimo livro auto-biogr\u00e1fico, G\u00fcnter Grass confessou que tamb\u00e9m ele tinha servido na \u201c10\u00aa Divis\u00e3o Blindada da SS \u201d e que at\u00e9 ao fim acreditara na vit\u00f3ria final. Deixada a Divis\u00e3o Blindada da SS continua a sua luta, n\u00e3o j\u00e1 com as armas reais mas com as armas do esp\u00edrito. Afinal, n\u00e3o foi um her\u00f3i da guerra, mas atrav\u00e9s dela um her\u00f3i da literatura.<br \/>Ele que justamente atacou tanta gente que tinha servido o terror de Hitler, confessa tardiamente o seu pecado de inf\u00e2ncia. Naturalmente que foi um pecado venial, porque na idade de 17 anos n\u00e3o se pode exigir dum jovem aquela maturidade e esperteza que conduziu Grass ao pr\u00e9mio Nobel.<br \/>Com a sua confiss\u00e3o, na Alemanha, o seu rosto, que era uma inst\u00e2ncia, uma autoridade moral da esquerda, sofreu uns arranh\u00f5es fortes.<br \/>Uns condenam-no por durante tanto tempo ter atacado muitos outros por se terem envolvido no \u201cDrittes Reich\u201d e ele ter calado o seu envolvimento.<br \/>Outros atacam-no por ter, com aquela encena\u00e7\u00e3o maquiav\u00e9lica em entrevista sobre a sua autobiografia, motivado o p\u00fablico a comprar o livro e assim ganhar milh\u00f5es atrav\u00e9s duma propaganda gratuita.<br \/>Outros querem viver em paz com o seu Grass que \u00e9 realmente um grande poeta independentemente dalgum nevoeiro da sua vida que para outros n\u00e3o passa de oportunismo e hipocrisia por tr\u00e1s das m\u00e1scaras.<br \/>Outros ainda reconhecem nele um poeta do estado ou simplesmente um homem com tantas contradi\u00e7\u00f5es como \u00e9 comum na nossa \u00e9poca. \u00c9 toda uma gera\u00e7\u00e3o de intelectuais (confronte-se a gera\u00e7\u00e3o dos anos 60\/70 hoje dominante a n\u00edvel pol\u00edtico e cultural em toda a Europa) que atrav\u00e9s do seu moralismo, da sua voz contra a burguesia se tornou a nova burguesia apoderando-se da cultura e do Estado.<br \/>Ele que sempre criticou a burguesia, que questionou a gera\u00e7\u00e3o dos seus pais, polarizando e desacreditando o seu advers\u00e1rio, com uma consci\u00eancia de guru ser\u00e1 agora questionado. O seu valor liter\u00e1rio n\u00e3o poder\u00e1 ser contestado embora haja vozes que contestam o seu pr\u00e9mio Nobel por n\u00e3o ter ocultado ao j\u00fari o seu passado. Filho do seu tempo, n\u00e3o superou a dial\u00e9tica, s\u00f3 sabe pintar o mundo a preto e branco. \u00d3ptimo estilista, na arena p\u00fablica e pol\u00edtica n\u00e3o diferencia, mas sabe bem onde quer chegar. Pol\u00e9mico e auto-consciente, viveu sempre \u00e0 sombra da sua inoc\u00eancia podendo atacar (mesmo indefesos) sem ricochete. Por isso reconhece a revista alem\u00e3 \u201cDer Spiegel\u201d (n\u00ba. 34\/Agosto) que <b>Grass n\u00e3o poderia ter representado o papel que representou de escritor da Alemanha, se tivesse revelado mais cedo o seu passado<\/b>. Neste caso teria de ter sido mais diferenciado no trato, nos discursos e nos escritos. Assim serviu interesses servindo-se.<br \/>Tamb\u00e9m ele se tornou v\u00edtima dum esp\u00edrito de luta cultural intercut\u00e2nea que leva ainda indiscriminadamente a considerar diab\u00f3lico tudo o que tem a ver com o \u201cDrittes Reich\u201d. Al\u00e9m disso a instrumentaliza\u00e7\u00e3o da n\u00f3doa do nacional-socialismo prometia muitos dividendos para a esquerda socialista. Grass foi um dos seus fomentadores nos seus ataques aos do partido contr\u00e1rio. Para ele o governo de Kohl era uma m\u00e1fia. Grass n\u00e3o queria construir pontes, do seu trono queria ter raz\u00e3o e seguidores.<br \/>A inoc\u00eancia que para ele reclama n\u00e3o a concede aos outros. Tal como a generalidade da gera\u00e7\u00e3o mais velha tamb\u00e9m ele passa ao largo daqueles tristes anos. O medo e a culpa s\u00e3o alheados e projectados na Alemanha ocidental na continua\u00e7\u00e3o duma filosofia meramente dial\u00e9ctica e ideol\u00f3gica como se estes instrumentos disciplinadores fossem suficientes para encurralar o rebanho. Este agir levou mesmo uma gera\u00e7\u00e3o nova a ter vergonha de ser alem\u00e3: o lado extremo da vertente hitleriana. Finalmente tamb\u00e9m o grande Grass \u00e9 abrangido pelo tal pecado original que com a gera\u00e7\u00e3o de 68 queria que todo o povo alem\u00e3o confessasse de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o. Demasiada f\u00e9 para se poder tornar realidade.<br \/>A atitude de Grass \u00e9 bem compreens\u00edvel tendo em conta que o ambiente paterno e a propaganda oficial fomentavam o entusiasmo de qualquer jovem. A filosofia, a estrat\u00e9gia e a din\u00e2mica nazi era de tal ordem que n\u00e3o podia deixar ningu\u00e9m indiferente. Alguns n\u00e3o perderam o entusiasmo e souberam, tardiamente mas ainda a tempo em termos hist\u00f3ricos, canaliz\u00e1-lo para campos de ac\u00e7\u00e3o mais nobres. De facto, ao ler-se os discursos de Hitler e \u201cMein Kampf\u201d ser\u00e1 dif\u00edcil, a qualquer jovem ou pessoa simples ou n\u00e3o esclarecida, n\u00e3o se deixar entusiasmar pela ret\u00f3rica escrita de Hitler. Quem ler um pouco, apesar das blasf\u00e9mias como a sua teoria da ra\u00e7a, o exterm\u00ednio dos judeus, etc., compreende o entusiasmo de ent\u00e3o, porque se apresenta muito l\u00f3gico e aut\u00eantico defensor do seu povo dentro do seu nacionalismo socialista.<br \/>Grass ter\u00e1 sido um sequaz irreflectido como outros o foram por convic\u00e7\u00e3o. O sistema de Hitler era de tal maneira coeso que convencia qualquer incauto ou inocente. Por isso s\u00f3 quem conhece apenas o aspecto diab\u00f3lico de Hitler mas n\u00e3o conhece a realidade de ent\u00e3o e o aspecto \u201cprof\u00e9tico\u201d de Hitler poder\u00e1 colocar todos os outros no banco dos r\u00e9us.<br \/>Oxal\u00e1 esta confiss\u00e3o tardia de Grass sirva para desideologizar as frontes e a abordagem dos tempos do holocausto. Houve muita gente bem intencionada que foi arrastada a cometer o desumano. A ideia pura e racional pode chegar ao extremo de negar o pr\u00f3prio homem. Uma ideologia n\u00e3o pode ser combatida \u00e0 base de culpabiliza\u00e7\u00e3o. Ela tem de compreender porque \u00e9 que os actuantes agiram assim e n\u00e3o diferentemente, doutro modo s\u00f3 se fomenta a amn\u00e9sia, a auto defesa ou a presun\u00e7\u00e3o. As faltas dos outros criam a ilus\u00e3o das pr\u00f3prias serem mais leves. A vergonha n\u00e3o leva a lado nenhum. No mundo h\u00e1 ainda muita gente que hipocritamente aponta o dedo contra os alem\u00e3es querendo-os tornar cativos dum passado inglorioso. Seria fr\u00edvolo querer-se ser ilibado da vida \u00e0 custa do denegrir os erros dos outros como \u00e9 pr\u00e1tica entre as ideologias.<br \/>Tamb\u00e9m as \u00e9pocas do 25 de Abril e de Salazar est\u00e3o por descrever e continuam a ser instrumentalizadas a bel-prazer. A lei e o costume est\u00e3o sempre do lado dos usufrutu\u00e1rios. A hist\u00f3ria socorre-se da hipocrisia no respeito pelos seus actores e beneficiados. S\u00f3 depois da sua morte lhe far\u00e1 um pouco de justi\u00e7a. Primeiro ter\u00e3o de morrer os \u201cdestronados\u201d e os seus \u201cherdeiros\u201d \u2013 os revolucion\u00e1rios e apoiantes \u2013 para se poder depois chegar a um certo equil\u00edbrio na avalia\u00e7\u00e3o. Neste contexto, o falar mal dos outros \u00e9 o manto que se veste para encobrir os males pr\u00f3prios.<br \/>Por tr\u00e1s de cada pacifista encobre-se um guerreiro. A hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 para se julgar mas para se compreender. A mentira encontra-se tanto nas fileiras dos combatentes contra a direita como na dos combatentes contra a esquerda. Eles n\u00e3o conhecem pessoas, s\u00f3 conhecem ideias. Entre eles se recrutam e escondem os oportunos da vida. A hist\u00f3ria s\u00f3 se interessa pelo global e n\u00e3o pelo particular ou individual. Do individual apoderam-se os actores da hist\u00f3ria, da cultura e da economia. Nesta din\u00e2mica ningu\u00e9m est\u00e1 disposto a morrer pelo povo. O povo \u00e9 que ter\u00e1 de morrer pela na\u00e7\u00e3o e pelos seus protagonistas.<br \/>Macabro \u00e9 o facto de vivermos numa sociedade de tal maneira hip\u00f3crita e desumana que se o jovem autor G\u00fcnter Grass tivesse dito logo a verdade, ele nunca chegaria a ser o que foi nem teria a chance de se reabilitar. Grass com a mentira da sua vida conseguiu reabilitar a sua pessoa e entusiasmar muita juventude a singrar nas fileiras socialistas. \u00c9 um poeta moralista que vive das realidades e que \u00e0 sombra do pecado original movimenta e serve muitos interesses.<br \/>Os \u201chomens bons\u201d s\u00f3 brilham na escurid\u00e3o da noite por isso n\u00e3o ser\u00e1 correcto falar-se da parte do dia da Hist\u00f3ria. Esta seria menos dial\u00e9ctica e mais polar.<br \/>Quer queiram quer n\u00e3o Grass venceu ao servi\u00e7o duma causa social. Ele como \u201chomem bom\u201d tem raz\u00e3o: a hist\u00f3ria s\u00f3 se lembra dos vencedores, que do povo n\u00e3o reza a Hist\u00f3ria!<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo                   <\/p>\n<div align=\"right\"> <b>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/b> <\/div>\n<p><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com a mentira da sua vida conseguiu reabilitar a sua pessoa Atempadamente, antes de ser publicado o seu \u00faltimo livro auto-biogr\u00e1fico, G\u00fcnter Grass confessou que tamb\u00e9m ele tinha servido na \u201c10\u00aa Divis\u00e3o Blindada da SS \u201d e que at\u00e9 ao fim acreditara na vit\u00f3ria final. 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