{"id":11477,"date":"2026-10-26T15:41:26","date_gmt":"2026-10-26T14:41:26","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11477"},"modified":"2026-10-26T15:41:26","modified_gmt":"2026-10-26T14:41:26","slug":"um-futuro-previsivel-para-portugal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11477","title":{"rendered":"UM FUTURO PREVIS\u00cdVEL PARA PORTUGAL"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Para al\u00e9m do medo generalizado de um colapso democr\u00e1tico<\/strong><\/p>\n<p>O medo sempre desempenhou um papel importante na organiza\u00e7\u00e3o das sociedades e na estabilidade dos sistemas pol\u00edticos. Paradoxalmente, mesmo quando os governos revelam graves insufici\u00eancias, a inseguran\u00e7a perante o desconhecido leva frequentemente os cidad\u00e3os a preferirem a continuidade \u00e0 mudan\u00e7a. O receio do novo acaba, assim, por funcionar como um mecanismo de conserva\u00e7\u00e3o do poder.<\/p>\n<p>Este fen\u00f3meno n\u00e3o se limita \u00e0 pol\u00edtica nacional. Encontramos comportamentos semelhantes tanto na sociedade portuguesa como na ordem internacional, particularmente no processo de transi\u00e7\u00e3o de um mundo dominado por duas grandes pot\u00eancias para uma realidade multipolar, mais complexa e menos previs\u00edvel.<\/p>\n<p>Portugal atravessa uma transforma\u00e7\u00e3o significativa do seu sistema partid\u00e1rio. O tradicional bipolarismo, assente na altern\u00e2ncia entre PS e PSD, est\u00e1 a dar lugar a um tripolarismo em forma\u00e7\u00e3o, marcado pela consolida\u00e7\u00e3o do Chega como for\u00e7a relevante \u00e0 direita, pela reconfigura\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o pol\u00edtico tradicional e pela crescente fragmenta\u00e7\u00e3o da esquerda.<\/p>\n<p>Tr\u00eas factores contribuem especialmente para esta mudan\u00e7a: o cansa\u00e7o eleitoral, a centralidade crescente da imigra\u00e7\u00e3o no debate p\u00fablico e a influ\u00eancia da desinforma\u00e7\u00e3o pelas redes sociais. e pelas narrativas difundidas pelo sistema. A estes factores junta-se uma crescente simplifica\u00e7\u00e3o do discurso pol\u00edtico, num contexto de complexidade social e de empobrecimento do debate cultural, que favorece respostas emocionais e discursos de confronto.<\/p>\n<p>Neste cen\u00e1rio, a direita de contesta\u00e7\u00e3o tem encontrado condi\u00e7\u00f5es particularmente favor\u00e1veis para crescer.<\/p>\n<p>Contudo, ao contr\u00e1rio dos que receiam um colapso iminente da democracia portuguesa, considero mais prov\u00e1vel outro desenvolvimento que se expressar\u00e1 na normaliza\u00e7\u00e3o de uma instabilidade pol\u00edtica permanente, caracterizada por governos minorit\u00e1rios, dificuldades na forma\u00e7\u00e3o de maiorias est\u00e1veis e press\u00f5es crescentes para altera\u00e7\u00f5es constitucionais, caso se consolidem as condi\u00e7\u00f5es parlamentares necess\u00e1rias.<\/p>\n<p>A esquerda, se pretender inverter esta tend\u00eancia, ter\u00e1 de ultrapassar as suas divis\u00f5es internas e reconstruir um projecto econ\u00f3mico e social convincente, capaz de mobilizar os cidad\u00e3os para al\u00e9m da simples oposi\u00e7\u00e3o aos advers\u00e1rios.<\/p>\n<p>Na realidade, grande parte da pol\u00edtica portuguesa parece cada vez mais orientada para a desvaloriza\u00e7\u00e3o do outro. Os partidos procuram afirmar a sua identidade n\u00e3o tanto pela apresenta\u00e7\u00e3o de projectos pr\u00f3prios, mas pela cr\u00edtica sistem\u00e1tica, que se expressa at\u00e9 na\u00a0 difama\u00e7\u00e3o, daqueles com quem disputam o poder.<\/p>\n<p>Esta tend\u00eancia n\u00e3o constitui, por\u00e9m, uma particularidade portuguesa. A teoria pol\u00edtica e a sociologia mostram-nos que a oposi\u00e7\u00e3o desempenha um papel estrutural na forma\u00e7\u00e3o das identidades pol\u00edticas: frequentemente, os actores definem-se tanto por aquilo que defendem como por aquilo que rejeitam.<\/p>\n<p>\u00c9 precisamente esta l\u00f3gica que importa compreender.<\/p>\n<ol>\n<li><strong> A luta pol\u00edtica e a necessidade de um advers\u00e1rio<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Uma das caracter\u00edsticas mais persistentes da vida pol\u00edtica \u00e9 a tend\u00eancia de cada partido para desenvolver os seus pr\u00f3prios mecanismos de defesa e ataque, recorrendo a figuras que se poderiam designar, metaforicamente, como os seus \u00abc\u00e3es de guarda\u00bb.<\/p>\n<p>Estes assumem a fun\u00e7\u00e3o de proteger a identidade partid\u00e1ria, denunciar os advers\u00e1rios e mobilizar os apoiantes atrav\u00e9s da confronta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o do pensamento pol\u00edtico oferece instrumentos importantes para compreender este fen\u00f3meno.<\/p>\n<p><strong>Carl Schmitt<\/strong> identificou na distin\u00e7\u00e3o entre amigo e inimigo uma das caracter\u00edsticas fundamentais do pol\u00edtico. N\u00e3o se tratava necessariamente de uma classifica\u00e7\u00e3o moral entre bons e maus, mas de reconhecer que a intensidade da oposi\u00e7\u00e3o pode determinar a pr\u00f3pria natureza do conflito pol\u00edtico.<\/p>\n<p><strong>Pierre Bourdieu<\/strong>, por sua vez, demonstrou que os actores sociais procuram afirmar-se dentro de um determinado campo atrav\u00e9s da diferencia\u00e7\u00e3o. O reconhecimento e a influ\u00eancia conquistam-se tamb\u00e9m pela capacidade de estabelecer dist\u00e2ncias relativamente aos concorrentes.<\/p>\n<p><strong>Ren\u00e9 Girard<\/strong>, atrav\u00e9s da sua teoria mim\u00e9tica, acrescentou outra dimens\u00e3o a esta an\u00e1lise: os rivais n\u00e3o s\u00e3o apenas advers\u00e1rios, mas tamb\u00e9m modelos uns dos outros. Frequentemente, desejam o mesmo objecto, neste caso, o poder e, precisamente por isso, tornam-se obst\u00e1culos rec\u00edprocos.<\/p>\n<p>Deste modo, a cr\u00edtica ao advers\u00e1rio transforma-se num instrumento particularmente eficaz de mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p><strong>O chamado \u00abc\u00e3o de guarda partid\u00e1rio\u00bb n\u00e3o representa, portanto, uma simples anomalia do sistema democr\u00e1tico. Constitui uma express\u00e3o, por vezes excessiva, da pr\u00f3pria l\u00f3gica competitiva da pol\u00edtica.<\/strong><\/p>\n<p>Este padr\u00e3o manifesta-se em diferentes n\u00edveis da organiza\u00e7\u00e3o humana:<\/p>\n<p><strong>&#8211; No indiv\u00edduo<\/strong>, quando a identidade pessoal se constr\u00f3i por diferencia\u00e7\u00e3o relativamente aos outros.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Nos partidos<\/strong>, quando o advers\u00e1rio se transforma no principal recurso de afirma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Na sociedade<\/strong>, quando a coes\u00e3o de determinados grupos se fortalece perante uma amea\u00e7a real ou imaginada.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Na geopol\u00edtica<\/strong>, quando Estados e alian\u00e7as consolidam a sua identidade atrav\u00e9s da oposi\u00e7\u00e3o a pot\u00eancias rivais.<\/p>\n<p>Encontramos aqui uma semelhan\u00e7a estrutural entre o comportamento individual, a competi\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria e as rela\u00e7\u00f5es internacionais.<\/p>\n<p>Esta repeti\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es em diferentes escalas pode ser entendida, em sentido metaf\u00f3rico, como uma esp\u00e9cie de l\u00f3gica fractal ou autossemelhante porque aquilo que observamos nas pequenas unidades sociais reaparece, sob formas mais complexas, nas grandes estruturas pol\u00edticas.<\/p>\n<p>N\u00e3o significa que o indiv\u00edduo e o Estado sejam realidades id\u00eanticas, mas que certos mecanismos de rivalidade, identifica\u00e7\u00e3o e afirma\u00e7\u00e3o se reproduzem em diferentes n\u00edveis.<\/p>\n<p>Conservadores e progressistas participam desta din\u00e2mica. Nenhuma corrente ideol\u00f3gica est\u00e1, por natureza, imune \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de transformar o advers\u00e1rio num inimigo ou de se apresentar como detentora exclusiva do bem.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o decisiva n\u00e3o est\u00e1, portanto, apenas na exist\u00eancia do conflito, mas na maneira como ele \u00e9 institucionalmente organizado e limitado.<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li><strong> O mesmo tipo de disputa pelo poder em regimes profundamente diferentes<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Reconhecer que a luta pelo poder apresenta caracter\u00edsticas semelhantes em diferentes sistemas pol\u00edticos n\u00e3o significa colocar todos os regimes no mesmo plano.<\/p>\n<p>Uma an\u00e1lise s\u00e9ria deve evitar tanto a idealiza\u00e7\u00e3o da democracia como a relativiza\u00e7\u00e3o da ditadura.<\/p>\n<p><strong>A oposi\u00e7\u00e3o ao advers\u00e1rio existe em ambos os regimes, mas os instrumentos utilizados e as consequ\u00eancias para os cidad\u00e3os s\u00e3o profundamente diferentes (O mesmo se diga dos m\u00e9todos de agress\u00e3o contra o sistema).<\/strong><\/p>\n<p><strong>Durante o Estado Novo, sob Salazar, a repress\u00e3o da oposi\u00e7\u00e3o constitu\u00eda uma componente estrutural do pr\u00f3prio regime. A censura, a pol\u00edcia pol\u00edtica, os tribunais plen\u00e1rios, a aus\u00eancia de elei\u00e7\u00f5es livres e a persegui\u00e7\u00e3o dos opositores comunistas impediam a competi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica. A guerra colonial viria ainda a agravar as contradi\u00e7\u00f5es e os custos humanos do sistema tamb\u00e9m devido \u00e0s contradi\u00e7\u00f5es inerentes que se equacionariam em servir o imperialismo portugu\u00eas ou servir os imperialismos dos EUA e o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica.<\/strong><\/p>\n<p><strong>O advers\u00e1rio pol\u00edtico n\u00e3o era apenas criticado ou desacreditado porque podia ser vigiado, preso, silenciado e privado da liberdade.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Com o 25 de Abril de 1974, estabeleceu-se uma arquitectura institucional radicalmente diferente.<\/strong><\/p>\n<p><strong>A liberdade de imprensa, o pluralismo partid\u00e1rio, as elei\u00e7\u00f5es livres, a altern\u00e2ncia governativa e as garantias constitucionais passaram a permitir que os conflitos pol\u00edticos fossem resolvidos atrav\u00e9s de mecanismos democr\u00e1ticos (embora o pre\u00e7o pago tenha sido a subjuga\u00e7\u00e3o aos actores da geopol\u00edtica).<\/strong><\/p>\n<p>Isto n\u00e3o significa que tenham desaparecido a manipula\u00e7\u00e3o informativa, a propaganda, a difama\u00e7\u00e3o ou a tentativa de controlar as narrativas dominantes. Significa, por\u00e9m, que os cidad\u00e3os disp\u00f5em de instrumentos legais e pol\u00edticos para contestar o poder, defender os seus direitos e substituir os governantes.<\/p>\n<p><strong>Existe, por isso, uma diferen\u00e7a fundamental entre um sistema em que perder uma disputa pol\u00edtica pode significar perder a liberdade e outro em que significa perder elei\u00e7\u00f5es.<\/strong><\/p>\n<p>A estrutura competitiva da luta pelo poder pode apresentar semelhan\u00e7as, mas <strong>a arquitectura institucional que regula essa luta \u00e9 incompar\u00e1vel dado cada regime ter a sua arquitetura precedente \u00e0 \u201cengenharia\u201d<\/strong>.<\/p>\n<p>\u00c9 neste ponto que a reflex\u00e3o sobre o bem e o mal adquire particular import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Ambas as possibilidades fazem parte da condi\u00e7\u00e3o humana e manifestam-se nas diferentes formas de organiza\u00e7\u00e3o social. Nenhum grupo pol\u00edtico possui o monop\u00f3lio da virtude, tal como nenhum est\u00e1 condenado, por natureza, \u00e0 perversidade.<\/p>\n<p>O que distingue os regimes n\u00e3o \u00e9 a exist\u00eancia ou aus\u00eancia dessas tend\u00eancias, mas a capacidade das institui\u00e7\u00f5es para conter os abusos, limitar o poder e proteger a dignidade humana.<\/p>\n<p><strong>A democracia n\u00e3o elimina os conflitos nem transforma os pol\u00edticos em pessoas moralmente superiores. A sua grande conquista consiste em impedir que a disputa pelo poder se converta legitimamente em persegui\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia.<\/strong><\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li><strong> Da pol\u00edtica portuguesa \u00e0 geopol\u00edtica com a repeti\u00e7\u00e3o de um padr\u00e3o<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>A transforma\u00e7\u00e3o do sistema partid\u00e1rio portugu\u00eas encontra um paralelo interessante na evolu\u00e7\u00e3o da ordem internacional.<\/p>\n<p>Durante a Guerra Fria, o mundo encontrava-se organizado em torno de dois grandes blocos, liderados pelos Estados Unidos e pela Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica.<\/p>\n<p>Tratava-se de uma estrutura bipolar, marcada por antagonismos ideol\u00f3gicos profundos, mas tamb\u00e9m por uma relativa clareza na distribui\u00e7\u00e3o do poder e na identifica\u00e7\u00e3o dos principais advers\u00e1rios.<\/p>\n<p>Os riscos eram enormes, incluindo a possibilidade de uma guerra nuclear, mas as rela\u00e7\u00f5es entre os blocos obedeciam a determinados mecanismos de dissuas\u00e3o e a regras de comportamento relativamente reconhec\u00edveis.<\/p>\n<p>Com o desaparecimento da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, abriu-se um per\u00edodo de predomin\u00e2ncia norte-americana. Entretanto, a ascens\u00e3o da China, a reafirma\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica da R\u00fassia e o crescente protagonismo de pot\u00eancias regionais contribu\u00edram para uma distribui\u00e7\u00e3o mais complexa do poder mundial.<\/p>\n<p><strong>A ordem internacional encontra-se hoje num processo de reorganiza\u00e7\u00e3o, em que a influ\u00eancia deixa de estar concentrada exclusivamente em dois grandes centros de decis\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p>Neste contexto, as alian\u00e7as tornam-se mais flex\u00edveis, os interesses mais diversificados e os alinhamentos menos permanentes.<\/p>\n<p><strong>Uma pot\u00eancia pode cooperar economicamente com determinado pa\u00eds e, simultaneamente, confront\u00e1-lo no plano estrat\u00e9gico.<\/strong><\/p>\n<p><strong>A afirma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica faz-se, muitas vezes, atrav\u00e9s da rejei\u00e7\u00e3o de uma ordem considerada dominante, isto \u00e9, contra uma hegemonia, contra um rival regional ou contra normas internacionais vistas como desfavor\u00e1veis.<\/strong><\/p>\n<p>Esta din\u00e2mica apresenta semelhan\u00e7as com aquilo que observamos na pol\u00edtica portuguesa.<\/p>\n<p><strong>Tal como um partido emergente procura conquistar espa\u00e7o denunciando as insufici\u00eancias dos partidos tradicionais, tamb\u00e9m uma pot\u00eancia ascendente pode procurar afirmar-se contestando as regras estabelecidas pelas pot\u00eancias dominantes.<\/strong><\/p>\n<p>Em ambos os casos, a oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ordem existente transforma-se num instrumento de constru\u00e7\u00e3o de identidade e de conquista de influ\u00eancia (como se observa nas diferentes narrativas orquestradas pelos diferentes sistemas no sentido de criarem identidades coesas).<\/p>\n<p>Naturalmente, n\u00e3o podemos confundir a competi\u00e7\u00e3o eleitoral com os conflitos entre Estados. As escalas, os instrumentos e as consequ\u00eancias s\u00e3o diferentes.<\/p>\n<p>Existe por\u00e9m uma l\u00f3gica comum que se resume nisto: <strong>quem pretende conquistar poder come\u00e7a frequentemente por questionar a legitimidade de quem o det\u00e9m<\/strong>.<\/p>\n<p>\u00c9 neste sentido que a analogia entre a pol\u00edtica interna e a geopol\u00edtica se torna particularmente esclarecedora.<\/p>\n<ol start=\"4\">\n<li><strong> O que se poder\u00e1 prever num mundo multipolar?<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>A teoria da transi\u00e7\u00e3o de poder nas rela\u00e7\u00f5es internacionais chama a aten\u00e7\u00e3o para um fen\u00f3meno importante: os per\u00edodos de maior perigo podem n\u00e3o ser aqueles em que uma determinada ordem j\u00e1 se encontra consolidada, mas os momentos em que essa ordem est\u00e1 a ser substitu\u00edda.<\/p>\n<p>\u00c9 nessa fase que as pot\u00eancias ascendentes procuram ampliar a sua influ\u00eancia, enquanto as pot\u00eancias estabelecidas tentam preservar posi\u00e7\u00f5es que se tornam progressivamente mais dif\u00edceis de sustentar.<\/p>\n<p><strong>A tens\u00e3o resulta precisamente do desajustamento entre as ambi\u00e7\u00f5es dos novos actores e a capacidade dos antigos centros de poder para manterem as regras existentes.<\/strong><\/p>\n<p>Por isso, a pr\u00f3xima d\u00e9cada poder\u00e1 caracterizar-se por uma instabilidade internacional persistente, embora n\u00e3o seja poss\u00edvel afirmar com seguran\u00e7a que ser\u00e1 globalmente mais perigosa do que a Guerra Fria.<\/p>\n<p>O que \u00e9 certamente mais prov\u00e1vel \u00e9 o aumento da complexidade estrat\u00e9gica.<\/p>\n<p>Em vez de dois blocos rigidamente organizados, assistiremos \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de coliga\u00e7\u00f5es tempor\u00e1rias, estabelecidas em fun\u00e7\u00e3o de interesses espec\u00edficos.<\/p>\n<p><strong>Em vez de confrontos militares directos entre grandes pot\u00eancias, no futuro \u00a0multiplicar-se-\u00e3o \u00a0conflitos indirectos, guerras por procura\u00e7\u00e3o, press\u00f5es econ\u00f3micas, ataques cibern\u00e9ticos e disputas pelo controlo de recursos estrat\u00e9gicos.<\/strong><\/p>\n<p>A competi\u00e7\u00e3o pela defini\u00e7\u00e3o das narrativas pol\u00edticas e morais tornar-se-\u00e1 igualmente importante.<\/p>\n<p><strong>Quem tem legitimidade para definir o significado de conceitos como \u00abdemocracia\u00bb, \u00absoberania\u00bb, \u00abseguran\u00e7a\u00bb ou \u00abordem internacional\u00bb conquista tamb\u00e9m uma forma de poder.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Num sistema internacional sem uma autoridade superior capaz de impor universalmente as regras, a disputa pelo significado das palavras torna-se parte integrante da disputa pela influ\u00eancia.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Portugal perante a nova ordem internacional<\/strong><\/p>\n<p>Para Portugal, esta transforma\u00e7\u00e3o coloca desafios particularmente delicados.<\/p>\n<p><strong>Sendo um Estado de dimens\u00e3o relativamente pequena, com recursos estrat\u00e9gicos limitados, a sua capacidade de interven\u00e7\u00e3o internacional depende em larga medida da participa\u00e7\u00e3o em estruturas de coopera\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a, nomeadamente a Uni\u00e3o Europeia e a NATO (sem esquecer a tradi\u00e7\u00e3o do enquadramento com os pa\u00edses da Lusofonia e deste modo continuar Portugal a ser um pa\u00eds com car\u00e1cter geopol\u00edtico mediador).<\/strong><\/p>\n<p>Num mundo multipolar, estas alian\u00e7as poder\u00e3o tornar-se simultaneamente mais necess\u00e1rias e mais sujeitas a tens\u00f5es internas e externas.<\/p>\n<p><strong>A seguran\u00e7a e a influ\u00eancia de Portugal depender\u00e3o, por isso, n\u00e3o apenas da solidez dessas organiza\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m da sua capacidade para manter uma orienta\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica coerente.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 precisamente aqui que a instabilidade pol\u00edtica interna pode adquirir consequ\u00eancias externas.<\/p>\n<p><strong>Um sistema partid\u00e1rio excessivamente fragmentado, incapaz de produzir consensos duradouros sobre quest\u00f5es estrat\u00e9gicas fundamentais, corre o risco de enfraquecer a continuidade da pol\u00edtica externa. Este facto implica uma uni\u00e3o coesa de toda a direita e uma uni\u00e3o coesa de toda a esquerda para se poder criar um sistema mais est\u00e1vel. A altern\u00e2ncia democr\u00e1tica \u00e9 saud\u00e1vel e necess\u00e1ria. O problema surge quando a rivalidade partid\u00e1ria impede a defini\u00e7\u00e3o de interesses nacionais que deveriam ultrapassar os ciclos eleitorais. O discurso pol\u00edtico portugu\u00eas revela-se ainda de car\u00e1cter demasiadamente \u00a0provinciano n\u00e3o tendo em conta o desenvolvimento geopol\u00edtico e as cautelas da\u00ed necess\u00e1rias atendendo tamb\u00e9m ao surgir do bloco econ\u00f3mico BRICS.<\/strong><\/p>\n<p>Portugal necessita, portanto, de combinar pluralismo democr\u00e1tico com estabilidade institucional e capacidade de compromisso interno e externo..<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de eliminar diverg\u00eancias, mas de impedir que a competi\u00e7\u00e3o pelo poder comprometa os interesses permanentes do pa\u00eds.<\/p>\n<ol start=\"5\">\n<li><strong> O verdadeiro perigo n\u00e3o \u00e9 o conflito, mas a fragilidade das institui\u00e7\u00f5es<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>A reflex\u00e3o desenvolvida permite-nos regressar \u00e0 quest\u00e3o inicial: dever\u00e1 Portugal recear um colapso democr\u00e1tico ou preparar-se para uma transforma\u00e7\u00e3o prolongada do seu sistema pol\u00edtico?<\/p>\n<p>Na minha an\u00e1lise de observador pol\u00edtico, o cen\u00e1rio mais plaus\u00edvel n\u00e3o ser\u00e1 o desaparecimento imediato da democracia, mas a consolida\u00e7\u00e3o de uma instabilidade pol\u00edtica que poder\u00e1 tornar mais dif\u00edcil governar, estabelecer compromissos e responder aos problemas estruturais da sociedade.<\/p>\n<p><strong>O medo da mudan\u00e7a continuar\u00e1 a favorecer, em determinados momentos, a conserva\u00e7\u00e3o do sistema. Mas o desgaste dos partidos tradicionais poder\u00e1, simultaneamente, alimentar for\u00e7as pol\u00edticas que se apresentam como alternativas \u00e0 ordem existente.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Estas duas tend\u00eancias n\u00e3o s\u00e3o contradit\u00f3rias. Pelo contr\u00e1rio, podem coexistir e refor\u00e7ar-se mutuamente, como se observa j\u00e1 na Alemanha onde interesses cruzados se juntam na colgacao do Partido AfD (Alternativa para a Alemanha ) e do BSW<\/strong><strong> (<\/strong><strong>Alian\u00e7a pela Justi\u00e7a Social e Raz\u00e3o Econ\u00f3mica).<\/strong><\/p>\n<p><strong>O momento que atravessamos na Europa e especificamente em Portugal \u00e9 alimentado pelo medo que conserva o poder enquanto a insatisfa\u00e7\u00e3o prepara a contesta\u00e7\u00e3o e o arco do poder se defende com unhas e dentes impedindo deste modo uma transi\u00e7\u00e3o mais equilibrada.<\/strong><\/p>\n<p>A grande quest\u00e3o ser\u00e1 saber se as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas conseguir\u00e3o transformar essa tens\u00e3o numa renova\u00e7\u00e3o pol\u00edtica construtiva ou se permitir\u00e3o que ela se degrade numa confronta\u00e7\u00e3o permanente.<\/p>\n<p><strong>A hist\u00f3ria ensina-nos que a luta pelo poder acompanha todas as formas de organiza\u00e7\u00e3o humana. N\u00e3o pertence exclusivamente \u00e0 direita ou \u00e0 esquerda, aos conservadores ou aos progressistas.<\/strong><\/p>\n<p>Em cada pessoa, em cada grupo e em cada sociedade coexistem possibilidades de coopera\u00e7\u00e3o e conflito, solidariedade e ego\u00edsmo, constru\u00e7\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o. O que varia \u00e9 a maneira como essas for\u00e7as s\u00e3o orientadas e limitadas.<\/p>\n<p><strong>Onde o poder n\u00e3o encontra limites institucionais, a rivalidade pode transformar-se em persegui\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia. Onde existem institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas s\u00f3lidas, o conflito pode ser canalizado para a palavra, o voto, a negocia\u00e7\u00e3o e a altern\u00e2ncia.<\/strong><\/p>\n<p><strong>O verdadeiro problema do nosso tempo n\u00e3o \u00e9, portanto, a exist\u00eancia da luta pol\u00edtica, mas o enfraquecimento dos mecanismos que permitem regul\u00e1-la.<\/strong><\/p>\n<p>No plano interno, esse enfraquecimento manifesta-se atrav\u00e9s da polariza\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria, da desinforma\u00e7\u00e3o, da eros\u00e3o da confian\u00e7a p\u00fablica e da crescente dificuldade em estabelecer compromissos.<\/p>\n<p><strong>No plano internacional, revela-se na contesta\u00e7\u00e3o das regras existentes, na fragmenta\u00e7\u00e3o das alian\u00e7as e na competi\u00e7\u00e3o entre pot\u00eancias que procuram redefinir a distribui\u00e7\u00e3o do poder mundial. <\/strong>\u00c9 aqui que a imagem do fractal ganha particular significado.<\/p>\n<p><strong>A mesma tend\u00eancia natural humana para construir identidades atrav\u00e9s da oposi\u00e7\u00e3o ao outro pode manifestar-se numa discuss\u00e3o individual, numa campanha eleitoral ou numa rivalidade geopol\u00edtica<\/strong>.<\/p>\n<p>As consequ\u00eancias, contudo, n\u00e3o s\u00e3o equivalentes. Dependem da escala, dos meios dispon\u00edveis e, sobretudo, das institui\u00e7\u00f5es que regulam o confronto.<\/p>\n<p>A passagem do insulto partid\u00e1rio para o conflito internacional n\u00e3o \u00e9 autom\u00e1tica nem inevit\u00e1vel, mas ambos podem revelar uma disposi\u00e7\u00e3o comum para transformar o advers\u00e1rio num obst\u00e1culo a eliminar, em vez de um interlocutor com quem \u00e9 necess\u00e1rio coexistir.<\/p>\n<p>Da\u00ed a import\u00e2ncia de preservar as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas e de fortalecer uma cultura pol\u00edtica que reconhe\u00e7a a legitimidade da diferen\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>O futuro de Portugal n\u00e3o ser\u00e1 determinado apenas por quem vencer as pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es, mas pela capacidade colectiva de impedir que a disputa pelo poder destrua as condi\u00e7\u00f5es que tornam poss\u00edvel a conviv\u00eancia democr\u00e1tica (esse factor ser\u00e1 ainda acentuado por ONGs internacionais.<\/strong><\/p>\n<p>A democracia n\u00e3o exige a aus\u00eancia de advers\u00e1rios. Exige que os advers\u00e1rios n\u00e3o se transformem em inimigos absolutos como tem acontecido \u00a0na Alemanha.<\/p>\n<p>E talvez seja esta a principal li\u00e7\u00e3o de uma \u00e9poca em que tanto Portugal como o mundo procuram novos equil\u00edbrios: a estabilidade n\u00e3o nasce da elimina\u00e7\u00e3o do conflito, mas da exist\u00eancia de institui\u00e7\u00f5es suficientemente fortes para o conter e suficientemente abertas para permitir a mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>O futuro n\u00e3o est\u00e1 escrito. Mas os padr\u00f5es que hoje observamos permitem antecipar os seus riscos e reconhecer as responsabilidades do presente.<\/p>\n<p><strong>O maior perigo para Portugal poder\u00e1 n\u00e3o ser uma ruptura democr\u00e1tica repentina, mas a habitua\u00e7\u00e3o gradual a uma democracia cada vez mais conflituosa, menos dialogante e menos capaz de resolver os problemas dos cidad\u00e3os.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Evitar esse destino exige mais do que vencer elei\u00e7\u00f5es. Exige recuperar a consci\u00eancia de que a pol\u00edtica deve ser, antes de tudo, uma forma de construir o bem comum, e n\u00e3o apenas uma t\u00e9cnica de conquistar e conservar o poder.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<br \/>\nPegadas do Tempo \u00a9<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para al\u00e9m do medo generalizado de um colapso democr\u00e1tico O medo sempre desempenhou um papel importante na organiza\u00e7\u00e3o das sociedades e na estabilidade dos sistemas pol\u00edticos. Paradoxalmente, mesmo quando os governos revelam graves insufici\u00eancias, a inseguran\u00e7a perante o desconhecido leva frequentemente os cidad\u00e3os a preferirem a continuidade \u00e0 mudan\u00e7a. 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