{"id":11450,"date":"2026-10-08T20:48:39","date_gmt":"2026-10-08T19:48:39","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11450"},"modified":"2026-10-08T20:48:39","modified_gmt":"2026-10-08T19:48:39","slug":"nao-facas-da-queixa-o-teu-lar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11450","title":{"rendered":"N\u00c3O FA\u00c7AS DA QUEIXA O TEU LAR"},"content":{"rendered":"<p><em>(Poema sobre a fragilidade humana e a sabedoria do quotidiano)<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o fa\u00e7as da queixa uma cantiga de realejo<br \/>\nque toca a desventura a cada ensejo;<br \/>\nnem d\u00eas ao desgosto tamanho poder<br \/>\nque at\u00e9 a alegria esque\u00e7a de se erguer.<\/p>\n<p>O c\u00e9rebro escuta, ret\u00e9m o que lhe chega,<br \/>\nrepete o que ouve e ao que ouve se apega;<br \/>\nse o nutres de sombras, de fel e amargura,<br \/>\nat\u00e9 a manh\u00e3 se torna noite escura.<\/p>\n<p>Quem de tudo e de todos se queixa a cada hora<br \/>\nd\u00e1 aos dias a isca que os r\u00f3i por dentro e os devora;<br \/>\ne de tanto contar a dor sem se cansar,<br \/>\nfaz do desgosto um destino que o vem a cativar.<\/p>\n<p>A queixa \u00e9 fumo que sobe e se espalha,<br \/>\nentra na alma, que turva e atrapalha;<br \/>\nquem dela se nutre, sem se aperceber,<br \/>\naos outros s\u00f3 deixa mais cuidados a haver.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem erga \u00e0 m\u00e1goa um altar para durar<br \/>\ne obrigue quem passa a ficar a escutar;<br \/>\nn\u00e3o v\u00ea que o amigo, por mais que o estime,<br \/>\ntamb\u00e9m tem um peito que sofre e se oprime.<\/p>\n<p>N\u00e3o nego que a vida nos fira e magoe,<br \/>\nnem pe\u00e7o que a dor se esconda ou se escoe;<br \/>\nmas uma coisa \u00e9 chorar para se erguer,<br \/>\noutra \u00e9 fazer do pranto um modo de viver.<\/p>\n<p>O passado n\u00e3o muda por ser remexido,<br \/>\nnem o presente cresce por ser mal-querido;<br \/>\nquem as feridas de ontem ainda vai polindo<br \/>\nperde o sol que hoje lhe bate \u00e0 porta, sorrindo.<\/p>\n<p>Pensar \u00e9 trabalho, pede coragem,<br \/>\nquebra preconceitos, transforma a paisagem;<br \/>\n\u00e9 mais c\u00f3modo dar ao mundo inteiro a culpa<br \/>\ndo que p\u00f4r ordem no pr\u00f3prio quintal, sem desculpa.<\/p>\n<p>Amar o pr\u00f3ximo n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 estender a m\u00e3o,<br \/>\n\u00e9 n\u00e3o lhe despejar o entulho do cora\u00e7\u00e3o;<br \/>\n\u00e9 partilhar o peso e a ternura com tento,<br \/>\nsem fazer da amizade um sombrio aposento.<\/p>\n<p>Ama-te tamb\u00e9m, d\u00e1 ao teu esp\u00edrito repouso,<br \/>\nn\u00e3o fa\u00e7as do desgosto um h\u00f3spede teimoso;<br \/>\nque a dor seja ouvida, mas nunca coroada,<br \/>\nnem reine sobre a vida que te foi confiada.<\/p>\n<p>Se a sombra te visita, n\u00e3o lhe d\u00eas a coroa,<br \/>\nnem fa\u00e7as de um inverno uma eternidade que ecoa;<br \/>\nabre uma janela, deixa o ar entrar,<br \/>\npois certa luz s\u00f3 volta se a deixarmos passar.<\/p>\n<p>E lembra-te, ao falar, desta simples verdade:<br \/>\ncada palavra semeia tristeza ou claridade;<br \/>\nquem na paz interior encontra o primeiro abrigo<br \/>\nleva menos tempestades ao cora\u00e7\u00e3o do amigo.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><br \/>\n<em>Pegadas do Tempo \u00a9<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Poema sobre a fragilidade humana e a sabedoria do quotidiano) N\u00e3o fa\u00e7as da queixa uma cantiga de realejo que toca a desventura a cada ensejo; nem d\u00eas ao desgosto tamanho poder que at\u00e9 a alegria esque\u00e7a de se erguer. 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