{"id":1143,"date":"2007-11-17T10:43:00","date_gmt":"2007-11-17T09:43:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1143"},"modified":"2007-11-17T10:43:00","modified_gmt":"2007-11-17T09:43:00","slug":"bento-xvi-%e2%80%93-o-homem-corajoso-da-europa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1143","title":{"rendered":"BENTO XVI \u2013 O HOMEM CORAJOSO DA EUROPA"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"texto\">                    <b> \u201cO sangue n\u00e3o agrada a Deus\u201d<\/b><\/p>\n<p>A li\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria pronunciada na universidade de Ratisbona (Regensburg) sob o tema \u201crela\u00e7\u00e3o entre raz\u00e3o e f\u00e9\u201d ficar\u00e1 na hist\u00f3ria e iniciar\u00e1 um per\u00edodo de maior coragem e transpar\u00eancia no di\u00e1logo intercultural.<br \/>O mundo precisa urgentemente duma resposta \u00e0 quest\u00e3o: qual \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o do Isl\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 paz? O Papa est\u00e1 interessado num di\u00e1logo s\u00e9rio que aposte na concilia\u00e7\u00e3o de raz\u00e3o e religi\u00e3o, na complementaridade de ci\u00eancias humanas e de ci\u00eancias naturais. Tamb\u00e9m n\u00e3o chega que a Europa se limite a viver duma ind\u00fastria de opini\u00f5es que abusa da liberdade de opini\u00e3o. Por isso coloca a sua argumenta\u00e7\u00e3o a um n\u00edvel hist\u00f3rico-teol\u00f3gico na tentativa duma discuss\u00e3o clarificadora das diferen\u00e7as e do que \u00e9 comum \u00e0s religi\u00f5es e \u00e0s culturas. Ele pretende com isto provocar um rep\u00fadio geral duma motiva\u00e7\u00e3o religiosa da viol\u00eancia por parte de todos os dignit\u00e1rios de todas as religi\u00f5es. Para isso necessita-se dum instrumento v\u00e1lido comum a todos, a raz\u00e3o, o logos.<br \/>O mundo e a Europa cada vez se tornam mais ref\u00e9ns dum terrorismo que se legitima religiosamente. Por outro lado os representantes religiosos n\u00e3o tomam posi\u00e7\u00e3o contra a viol\u00eancia. \u00c0 sombra desta vive muita gente poderosa sem escr\u00fapulos sem se preocuparem com destinos individuais e de povos nem com o desenvolvimento hist\u00f3rico. Para a constru\u00e7\u00e3o duma sociedade do futuro n\u00e3o \u00e9 suficiente apostar s\u00f3 na lei natural e na estrat\u00e9gia do sil\u00eancio sobre a guerra santa e a viol\u00eancia. Atrav\u00e9s da hist\u00f3ria, a viol\u00eancia tem sido encarada como meio leg\u00edtimo para se afirmar e dominar! Dos bons n\u00e3o reza a hist\u00f3ria&#8230;<br \/>O mundo isl\u00e2mico radical sente-se provocado por um modernismo demasiado grego que o contradiz na ess\u00eancia e o paralisa. Assim, na sua ac\u00e7\u00e3o prefere continuar a estrat\u00e9gia de expans\u00e3o para o exterior atrav\u00e9s da aquisi\u00e7\u00e3o de direitos e de sabotagem e de bloqueio interior. Segundo ele o modernismo seguido nos pa\u00edses de cultura crist\u00e3 tornou-se no exemplo de como uma cultura se autodestr\u00f3i. Preferem o homem a\u00e7aimado \u00e0 cultura fechada passando ao rep\u00fadio incondicional do individualismo diletante da cultura aberta ocidental e do seu materialismo. Aqui enfrentam-se dois par\u00e2metros imperfeitos e auto-suficientes sem perspectivas de encontro. Por outro lado o mundo ocidental encontra-se em crise, sem saber o que quer nem para onde vai. O problema demogr\u00e1fico europeu leva-nos \u00e0 situa\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio romano entre o s\u00e9culo III e V.<br \/>Em momentos de crise o Papado revelou-se como defensor da Europa no seu todo. Se antigamente eram as rivalidades senhoriais e de na\u00e7\u00f5es que punham em perigo a Europa hoje s\u00e3o as rivalidades ideol\u00f3gicas fechadas nelas mesmas, os egoismos e a consequente crise de identidade. A Europa, inconsciente e esbanjadora dos seus recursos culturais vive j\u00e1 dos rendimentos e n\u00e3o tem energia nem autoridade para dar resposta \u00e0s quest\u00f5es e aos problemas colocados pela sociedade isl\u00e2mica com uma grande espiritualidade e vitalidade.<br \/>A reac\u00e7\u00e3o do mundo ocidental ao mundo mu\u00e7ulmano tem-se situado entre perplexidade, ignor\u00e2ncia e descr\u00e9dito. Este expande no meio daquele e imp\u00f5e-lhe os seus costumes. Em contrapartida na Turquia e no mundo isl\u00e2mico as outras culturas s\u00e3o totalmente discriminadas segundo a divisa: em casa assimilamos e no estrangeiro constru\u00edmos gettos. Sabem o que querem e n\u00e3o se deixam comprar, na consci\u00eancia de que o futuro est\u00e1 do seu lado. Vivem com Deus na consci\u00eancia de que quem O respeita se respeita a si pr\u00f3prio porque Este no idi\u00e1rio cultural \u00e9 o pr\u00f3prio reflexo, o alter-ego de pessoas e culturas\u2026 No Ocidente a indiferen\u00e7a e o ego\u00edsmo p\u00f4s tudo \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o em troca do Mamon; estamos de volta aos tempos b\u00e1rbaros\u2026 Se o Ocidente tem dominado com a for\u00e7a econ\u00f3mica e militar o Isl\u00e3o dominar\u00e1 com a sua for\u00e7a religiosa e com a consci\u00eancia de \u201cpovo\u201d. Ambos ter\u00e3o um denominador comum, n\u00e3o o respeito mas o medo. O Isl\u00e3o sabe que n\u00e3o \u00e9 respeitado, que a sua presen\u00e7a se torna constante no medo que j\u00e1 reina em toda a Europa. Se outrora a sua melhor arma eram os cavalos hoje \u00e9 o medo.<br \/>Se \u00e9 verdade que a aceita\u00e7\u00e3o da liberdade religiosa e do pluralismo \u00e9 algo que as religi\u00f5es t\u00eam de aprender tamb\u00e9m \u00e9 verdade que o secularismo n\u00e3o se pode apenas afirmar na incrimina\u00e7\u00e3o das religi\u00f5es.<br \/>Em geral no Isl\u00e3o a discuss\u00e3o teol\u00f3gica n\u00e3o \u00e9 conhecida. A discuss\u00e3o teol\u00f3gica sobre o Cor\u00e3o e sobre Maom\u00e9 \u00e9 mesmo proibida. Maom\u00e9 e o Cor\u00e3o s\u00e3o declarados tabus bem como a sua an\u00e1lise hist\u00f3rico-cultural cr\u00edtica. Mais que te\u00f3logos s\u00e3o juristas com as suas escolas de interpreta\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria. Deus enlibrou-se no Cor\u00e3o e a \u00fanica coisa que h\u00e1 a fazer \u00e9 discutir a aplica\u00e7\u00e3o e as tradi\u00e7\u00f5es, isto \u00e9 pode-se falar sobre \u00e9tica e pol\u00edtica familiar, etc., isto por\u00e9m no sector do direito isl\u00e2mico, da scharia.<br \/>A ignor\u00e2ncia crassa \u00e9 constrangedora no que toca \u00e0 discuss\u00e3o p\u00fablica sobre as religi\u00f5es e na maneira como agora se distorce a realidade dum discurso papal sem conhecimento do documento. S\u00f3 interessam t\u00edtulos de jornais, o resto \u00e9 preenchido pela f\u00e9rtil fantasia superficial. O stress dos jornalistas n\u00e3o lhes permite mais que a leitura duma p\u00e1gina DIN4.<br \/>Naturalmente que as amea\u00e7as infundadas do mundo isl\u00e2mico n\u00e3o se fizeram esperar com ataques incendi\u00e1rios a igrejas, assass\u00ednio duma freira e seu assistente num hospital na Som\u00e1lia, o propagado \u201cataque ao Vaticano\u201d pelo grupo terrorista \u201cArmada dos Mudschahedin\u201d do Iraque, sindicalistas na Turquia, etc. A reac\u00e7\u00e3o s\u00f3 vem dar raz\u00e3o ao discurso do Papa. A sua aula universit\u00e1ria era dirigida \u00e0queles que apelam \u00e0 viol\u00eancia e \u00e0queles que n\u00e3o t\u00eam coragem de iniciar uma discuss\u00e3o s\u00e9ria para l\u00e1 da hipocrisia e do oportunismo que tem dominado nas rela\u00e7\u00f5es inter-culturais entre os contraentes. Ele queria iniciar \u201cum di\u00e1logo s\u00e9rio e aberto no respeito m\u00fatuo\u201d. Naturalmente que uma leitura completa do documento e a discuss\u00e3o s\u00e9ria viria perturbar aqueles que dum lado e do outro esperam mais da for\u00e7a da viol\u00eancia do que da for\u00e7a dos argumentos. N\u00e3o querem passar \u00e0 an\u00e1lise dos factos e das doutrinas e preferem ficar-se pela censura e na irracionalidade dos preconceitos.<br \/>Na sua aula acad\u00e9mica na universidade de Ratisbona sobre a rela\u00e7\u00e3o entre raz\u00e3o e f\u00e9, Bento XVI come\u00e7a o seu discurso com uma cita\u00e7\u00e3o marginal do Imperador Manuel II em 1391 em que este discute com um intelectual da P\u00e9rsia sobre a Guerra Santa (Dschiadd): O Papa refere que o Imperador estava interessado na quest\u00e3o central da rela\u00e7\u00e3o entre f\u00e9 e Viol\u00eancia e n\u00e3o apenas na discuss\u00e3o entre o diferente trato entre crentes (monote\u00edstas) e infi\u00e9is e por isso na sua argumenta\u00e7\u00e3o ter\u00e1 partido da Sura 2, 256 do Cor\u00e3o que diz \u201cn\u00e3o haja coac\u00e7\u00e3o em quest\u00f5es da f\u00e9\u201d , uma das suras mais antigas do tempo em que Maom\u00e9 ainda se \u201cencontrava numa situa\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia e amea\u00e7ado\u201d e por outro lado o imperador sabia que mais tarde foram introduzidas no Cor\u00e3o as determina\u00e7\u00f5es sobre a \u201cguerra santa\u201d passando por isso directamente ao problema da quest\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o entre religi\u00e3o e viol\u00eancia, afirmando de maneira rude \u201cmostra-me, o que \u00e9 que Maom\u00e9 trouxe de novo, e a\u00ed s\u00f3 encontrar\u00e1s coisas m\u00e1s e desumanas, ao pregar e prescrever o espalhar a f\u00e9 atrav\u00e9s da espada\u201d. O imperador continuou argumentando que o espalhar a f\u00e9 com viol\u00eancia era absurdo e que essa f\u00e9 se torna uma contradi\u00e7\u00e3o e afirma: \u201cEla est\u00e1 em contradi\u00e7\u00e3o com o ser de Deus e com o ser da alma\u201d\u2026 \u201cO sangue n\u00e3o agrada a Deus\u201d e \u201cn\u00e3o agir segundo a raz\u00e3o \u00e9 contr\u00e1rio ao ser de Deus\u201d\u2026\u201dQuem quiser levar algu\u00e9m \u00e0 f\u00e9 precisa da capacidade de falar bem e dum pensar justo e n\u00e3o de viol\u00eancia e amea\u00e7as\u201d\u2026E Bento XVI continua a sua aula e diz \u201ca frase decisiva da argumenta\u00e7\u00e3o contra a convers\u00e3o pela viol\u00eancia \u00e9: central no di\u00e1logo citado: &#8220;A frase decisiva nesta argumenta\u00e7\u00e3o contra a convers\u00e3o pela viol\u00eancia \u00e9: &#8220;N\u00e3o agir segundo a raz\u00e3o \u00e9 contr\u00e1rio ao ser (natureza) de Deus\u201d. O Papa quer um di\u00e1logo s\u00e9rio entre as religi\u00f5es e as ci\u00eancias e para isso precisa-se do instrumento comum da raz\u00e3o. Bento XVI cita o Professor Theodore Khoury de Munster que afirma que para o imperador, um bizantino crescido com a filosofia grega isto \u00e9 evidente, para a doutrina isl\u00e2mica esta frase n\u00e3o \u00e9 evidente porque \u201cpara o Isl\u00e3o Deus \u00e9 absolutamente transcendente e a sua vontade n\u00e3o est\u00e1 ligada a nenhuma das nossas categorias nem mesmo a da racionalidade\u201d.<br \/>          Nesta aula Bento XVI tira a legitima\u00e7\u00e3o religiosa aos islamistas, o que os representantes do Isl\u00e3o n\u00e3o fazem.<br \/>Por outro lado o Santo Padre ao questionar algumas determina\u00e7\u00f5es do Cor\u00e3o sobre a \u201cGuerra Santa\u201d coloca indirectamente a quest\u00e3o se o Isl\u00e3o poder\u00e1 conciliar f\u00e9 e raz\u00e3o.<br \/>O Papa pretende que a discuss\u00e3o sobre o di\u00e1logo das religi\u00f5es se inicie a s\u00e9rio a n\u00edvel intelectual e acad\u00e9mico dado que a que a pol\u00edtica por quest\u00f5es \u00f3bvias s\u00f3 tem estado interessada em fazer das religi\u00f5es uma papa-a\u00e7orda e em instrumentaliz\u00e1-las para os seus fins.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo                   <\/span><\/p>\n<div align=\"right\"> <span class=\"texto\"><b>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/b> <\/span><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO sangue n\u00e3o agrada a Deus\u201d A li\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria pronunciada na universidade de Ratisbona (Regensburg) sob o tema \u201crela\u00e7\u00e3o entre raz\u00e3o e f\u00e9\u201d ficar\u00e1 na hist\u00f3ria e iniciar\u00e1 um per\u00edodo de maior coragem e transpar\u00eancia no di\u00e1logo intercultural.O mundo precisa urgentemente duma resposta \u00e0 quest\u00e3o: qual \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o do Isl\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 paz? &hellip; <a href=\"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1143\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">BENTO XVI \u2013 O HOMEM CORAJOSO DA EUROPA<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-1143","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1143","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1143"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1143\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1143"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1143"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1143"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}