{"id":11421,"date":"2026-09-26T00:27:14","date_gmt":"2026-09-25T23:27:14","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11421"},"modified":"2026-09-26T00:37:07","modified_gmt":"2026-09-25T23:37:07","slug":"11421","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11421","title":{"rendered":"UM PAPA SEM &#8220;PAPAS NA L\u00cdNGUA&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Le\u00e3o XIV chegou a Paris (25.09.2026) e n\u00e3o se perdeu nos corredores da diplomacia. No seu primeiro grande discurso em Fran\u00e7a, perante as autoridades, a sociedade civil e o corpo diplom\u00e1tico, o Papa colocou sobre a mesa alguns dos problemas mais prementes da humanidade. <strong>Falou com a cortesia pr\u00f3pria de um chefe de Estado, mas tamb\u00e9m com a liberdade de quem n\u00e3o quer reduzir a palavra crist\u00e3 a ornamento protocolar.<\/strong><\/p>\n<p>Na \u201cCidade Luz\u201d, carregada de hist\u00f3ria e simbolismo, Le\u00e3o XIV recordou as ra\u00edzes crist\u00e3s da Fran\u00e7a e a contribui\u00e7\u00e3o deste pa\u00eds para a cultura europeia e para a afirma\u00e7\u00e3o dos direitos humanos. <strong>No lema republicano, Liberdade, Igualdade, Fraternidade, reconheceu valores que ultrapassam fronteiras pol\u00edticas e nacionais, verdadeiras \u201cexig\u00eancias \u00e9ticas universais\u201d.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 precisamente aqui que come\u00e7a a interpelar o nosso tempo. Perante um progresso cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico que parece n\u00e3o conhecer limites, <strong>torna-se necess\u00e1rio \u201crecolocar a pessoa humana no centro de toda a reflex\u00e3o\u201d. A t\u00e9cnica pode servir o homem, mas tamb\u00e9m pode condicion\u00e1-lo, instrumentaliz\u00e1-lo e, no limite, subjug\u00e1-lo.<\/strong><\/p>\n<p>Da\u00ed a advert\u00eancia particularmente atual sobre a Intelig\u00eancia Artificial. Le\u00e3o XIV recorre a uma imagem feliz e inquietante: o <strong>\u201cpara\u00edso das m\u00e1quinas\u201d<\/strong>. Quanto mais sofisticadas forem as m\u00e1quinas, mais necess\u00e1rio ser\u00e1 perguntar quem as governa, para que finalidade s\u00e3o utilizadas e segundo que crit\u00e9rios. <strong>\u201cPara n\u00e3o perdermos a nossa humanidade no meio do \u2018para\u00edso das m\u00e1quinas\u2019\u201d<\/strong>, adverte o Papa, <strong>\u201c\u00e9 urgente formar os esp\u00edritos para um discernimento \u00e9tico\u201d<\/strong>. A t\u00e9cnica n\u00e3o cont\u00e9m em si mesma a medida do bem.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 de enorme alcance. N\u00e3o basta perguntar o que a tecnologia consegue fazer. \u00c9 preciso perguntar o que deve fazer, o que lhe devemos permitir fazer e aquilo que, mesmo sendo tecnicamente poss\u00edvel, n\u00e3o deveria ser humanamente admiss\u00edvel. Uma civiliza\u00e7\u00e3o pode tornar-se tecnologicamente avan\u00e7ad\u00edssima e, simultaneamente, regredir na considera\u00e7\u00e3o da dignidade da pessoa.<\/p>\n<p>Essa dignidade conduz Le\u00e3o XIV a outro dos grandes temas do discurso: a vida. <strong>Numa sociedade em que at\u00e9 o nascimento e a morte correm o risco de entrar na l\u00f3gica da produ\u00e7\u00e3o, da sele\u00e7\u00e3o e do mercado, o Papa recorda a necessidade de \u201cacolher a vida incondicionalmente\u201d.<\/strong> <strong>Da manipula\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica \u00e0 gesta\u00e7\u00e3o de substitui\u00e7\u00e3o, do com\u00e9rcio de \u00f3rg\u00e3os \u00e0 possibilidade de programar a pr\u00f3pria morte, a quest\u00e3o de fundo permanece a mesma: ser\u00e1 a pessoa um fim em si mesma ou acabar\u00e1 transformada num produto dispon\u00edvel?<\/strong><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m no dom\u00ednio da rela\u00e7\u00e3o entre religi\u00e3o e Estado, Le\u00e3o XIV n\u00e3o fugiu a uma quest\u00e3o particularmente sens\u00edvel em Fran\u00e7a. <strong>\u201cA verdadeira laicidade n\u00e3o exclui a dimens\u00e3o religiosa\u201d<\/strong>. Esta afirma\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa confundir Igreja e Estado nem reclamar privil\u00e9gios para uma religi\u00e3o. <strong>Significa reconhecer que a f\u00e9 e as convic\u00e7\u00f5es religiosas fazem parte da vida dos cidad\u00e3os e podem contribuir para o debate sobre o bem comum.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Neste contexto, ganha especial significado uma afirma\u00e7\u00e3o de Emmanuel Macron dirigida aos bispos franceses:<\/strong> <strong>\u201cuma Igreja que pretenda desinteressar-se das quest\u00f5es temporais n\u00e3o cumpriria plenamente a sua voca\u00e7\u00e3o; e que um Presidente da Rep\u00fablica que pretenda desinteressar-se da Igreja e dos cat\u00f3licos falharia ao seu dever\u201d<\/strong>. \u00c9 uma formula\u00e7\u00e3o que traduz uma \u00a0traduz uma evid\u00eancia democr\u00e1tica: separar institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o significa conden\u00e1-las \u00e0 indiferen\u00e7a m\u00fatua.<\/p>\n<p>E chegamos \u00e0 grande ferida aberta do nosso tempo: a guerra.<\/p>\n<p>Ao referir-se \u00e0 grande ferida aberta do nosso tempo, Le\u00e3o XIV foi expl\u00edcito ao dizer <strong>\u201cA paz n\u00e3o \u00e9 um equil\u00edbrio de for\u00e7as\u201d<\/strong>. N\u00e3o \u00e9 o medo rec\u00edproco, nem a quantidade de armas acumuladas, que pode oferecer \u00e0 humanidade uma seguran\u00e7a verdadeiramente duradoura. Pelo contr\u00e1rio, <strong>\u201cA paz n\u00e3o \u00e9 um equil\u00edbrio de for\u00e7as, mas constr\u00f3i-se dia a dia com o di\u00e1logo e a justi\u00e7a\u201d<\/strong>.<\/p>\n<p>Num mundo que volta a familiarizar-se perigosamente com a linguagem das armas, das amea\u00e7as e do rearmamento, o Papa lan\u00e7a um apelo que deveria ser ouvido muito para al\u00e9m de Paris:<\/p>\n<p><strong>\u201cExorto-vos, portanto, a nunca vos resignardes \u00e0 perspectiva de uma guerra, considerando-a \u2018inevit\u00e1vel\u2019, mas a promover incansavelmente o di\u00e1logo e a diplomacia, a fim de preservar sociedades pac\u00edficas, respeitadoras da dignidade e dos direitos da pessoa e dos povos\u201d.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Esta \u00e9 talvez uma das passagens politicamente mais fortes do discurso. Quando a guerra come\u00e7a a ser apresentada como inevit\u00e1vel, j\u00e1 se deu um passo perigoso para a sua aceita\u00e7\u00e3o. A linguagem prepara mentalidades e as mentalidades acabam por preparar campos de batalha. Contra a resigna\u00e7\u00e3o ao fatalismo b\u00e9lico, Le\u00e3o XIV contrap\u00f5e di\u00e1logo, diplomacia, justi\u00e7a e respeito pelos povos.<\/strong><\/p>\n<p>Por isso, a sua mensagem dirigida \u00e0 Fran\u00e7a adquire dimens\u00e3o europeia e universal: <strong>\u201cPossa a Fran\u00e7a, fiel aos seus valores, abrir caminho para uma paz desarmada e desarmante\u201d<\/strong>.<\/p>\n<p>\u201cDesarmada e desarmante\u201d s\u00e3o \u00a0duas palavras que encerram quase um programa pol\u00edtico. Desarmada, porque a paz n\u00e3o pode depender indefinidamente da amea\u00e7a de destrui\u00e7\u00e3o; desarmante, porque uma paz aut\u00eantica deve ser capaz de diminuir o medo, a hostilidade e a necessidade de transformar o outro em inimigo.<\/p>\n<p><strong>H\u00e1 um fio condutor que atravessa todo o discurso e se resume em recolocar o ser humano no centro.<\/strong> <strong>Antes da m\u00e1quina, a pessoa. Antes do lucro, a dignidade. Antes da for\u00e7a das armas, o di\u00e1logo. Antes da elimina\u00e7\u00e3o de quem sofre, o acolhimento. Antes da uniformiza\u00e7\u00e3o das consci\u00eancias, a liberdade e \u00a0antes dos interesses particulares dos Estados, a fraternidade entre os povos.<\/strong><\/p>\n<p>Num mundo fascinado pelas possibilidades quase ilimitadas da tecnologia e, simultaneamente, assustado com a possibilidade de novas guerras, Le\u00e3o XIV chama a aten\u00e7\u00e3o para um paradoxo: <strong>podemos construir um sofisticad\u00edssimo \u201cpara\u00edso das m\u00e1quinas\u201d e, ao mesmo tempo, preparar um inferno para os homens.<\/strong><\/p>\n<p>Le\u00e3o XIV, no dizer popular portugu\u00eas, mostra-se como Papa \u201csem papas na l\u00edngua\u201d que faz a pergunta \u00e0 Fran\u00e7a, \u00e0 Europa e a cada um de n\u00f3s: de que serve avan\u00e7armos tanto, se pelo caminho perdemos a nossa humanidade?<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><br \/>\nPegadas do Tempo<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Le\u00e3o XIV chegou a Paris (25.09.2026) e n\u00e3o se perdeu nos corredores da diplomacia. 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