{"id":11414,"date":"2026-09-23T21:26:19","date_gmt":"2026-09-23T20:26:19","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11414"},"modified":"2026-09-23T21:26:19","modified_gmt":"2026-09-23T20:26:19","slug":"a-ambiguidade-entre-sociedade-aberta-e-identidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11414","title":{"rendered":"A AMBIGUIDADE ENTRE SOCIEDADE ABERTA E IDENTIDADE"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Sobre a irresponsabilidade de pol\u00edticas que n\u00e3o se pautam pela reciprocidade cultural entre Estados<\/strong><\/p>\n<p><strong>Numa Europa contradit\u00f3ria, h\u00e1 palavras que, de tanto serem repetidas, come\u00e7am a dispensar a realidade. \u201cSociedade aberta\u201d \u00e9 uma delas. \u201cDiversidade\u201d, \u201cidentidade\u201d, \u201cintegra\u00e7\u00e3o\u201d e \u201ctoler\u00e2ncia\u201d entram no mesmo rol. Foram transformadas em vocabul\u00e1rio obrigat\u00f3rio do discurso p\u00fablico, deixaram de servir para interrogar a realidade e passar simplesmente a tranquilizar quem governa sobre a bondade das suas inten\u00e7\u00f5es que se satisfazem ao constatar que o povo e os media se deixam embrulhar no enredo delas.<\/strong> <strong>A pol\u00edtica migrat\u00f3ria \u00e9 praticamente da compet\u00eancia de Bruxelas.<\/strong><\/p>\n<p><strong>O problema \u00e9 real e lan\u00e7a perguntas mais que inc\u00f3modas, pois, como pode uma sociedade permanecer aberta sem perder a consci\u00eancia daquilo que \u00e9? Como pode acolher o outro sem considerar suspeito o desejo dos que j\u00e1 nela vivem de preservarem uma continuidade hist\u00f3rica, cultural e espiritual? E at\u00e9 onde pode ir a toler\u00e2ncia quando em pol\u00edtica a reciprocidade deixa de fazer parte da equa\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>Este \u00e9 o calcanhar de Aquiles europeu e um dos grandes dilemas do nosso tempo.<\/p>\n<p>Atendendo \u00e0s realidades criadas por uma pol\u00edtica europeia diletante a n\u00edvel de imigra\u00e7\u00e3o uma resposta f\u00e1cil consistiria em escolher um dos extremos. <strong>De um lado, a nostalgia de uma Europa culturalmente homog\u00e9nea que o curso da Hist\u00f3ria j\u00e1 transformou e do outro, a fantasia de uma sociedade p\u00f3s-hist\u00f3rica, composta por indiv\u00edduos intercambi\u00e1veis, sem ra\u00edzes, sem mem\u00f3ria colectiva e sem necessidade de perten\u00e7a. <\/strong>Esta seria pr\u00f3pria de uma sociedade rob\u00f3tica e nenhuma delas corresponde ao ser humano real.<\/p>\n<p>O homem n\u00e3o vive apenas de direitos. Vive tamb\u00e9m de mem\u00f3ria e n\u00e3o habita somente num territ\u00f3rio administrativo porque vive numa l\u00edngua, em s\u00edmbolos, costumes, narrativas, lugares e recorda\u00e7\u00f5es transmitidas entre gera\u00e7\u00f5es. <strong>Uma sociedade que despreze essa dimens\u00e3o vivencial da exist\u00eancia pode continuar juridicamente organizada, mas come\u00e7ar\u00e1 a sentir-se culturalmente \u00f3rf\u00e3.<\/strong> \u00c9 aqui que a Europa enfrenta a sua contradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O que n\u00e3o pode ser negociado<\/strong><\/p>\n<p>Uma democracia digna desse nome tem de saber aquilo que n\u00e3o est\u00e1 disposta a negociar, ou seja, <strong>Estado de direito, igualdade perante a lei, dignidade humana, liberdade de express\u00e3o, liberdade de consci\u00eancia, igualdade entre homem e mulher e liberdade religiosa, incluindo a liberdade de mudar ou abandonar uma religi\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p>Estes princ\u00edpios n\u00e3o podem ser relativizados em nome da diversidade cultural nem podem ser sacrificados em nome da defesa de uma identidade nacional.<\/p>\n<p><strong>A dificuldade come\u00e7a quando a Europa exige de si pr\u00f3pria uma toler\u00e2ncia que parece n\u00e3o se atrever a exigir aos outros.<\/strong><\/p>\n<p>O problema torna-se particularmente vis\u00edvel na rela\u00e7\u00e3o com sociedades de maioria isl\u00e2mica (Recordo a altura em que era o porta-voz dos estrangeiros em Kassel e prisoneiros isl\u00e2micos da pris\u00e3o de Kassel exigiam um cozinheiro mu\u00e7ulmano para que o seu alimento n\u00e3o se tornasse impuro!).<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de declarar o Isl\u00e3o incompat\u00edvel com a Europa. Tal generaliza\u00e7\u00e3o seria intelectualmente pregui\u00e7osa e politicamente perigosa porque existem mu\u00e7ulmanos secularizados, liberais, conservadores, tradicionalistas, reformistas e in\u00fameras formas culturais de viver a mesma religi\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Seria tamb\u00e9m ingenuidade fingir que n\u00e3o existem correntes pol\u00edtico-religiosas isl\u00e2micas \u00a0com base\u00a0\u00a0 religiosa constitucional, para as quais religi\u00e3o, direito, sociedade e poder pol\u00edtico formam uma unidade extremamente diferente daquela que a Europa construiu, dolorosamente, atrav\u00e9s da separa\u00e7\u00e3o progressiva entre autoridade religiosa e autoridade civil.<\/strong><\/p>\n<p>A verdadeira pergunta n\u00e3o \u00e9, portanto, se o mu\u00e7ulmano pode viver na Europa, porque evidentemente que pode.<\/p>\n<p><strong>A pergunta mais exigente consiste em saber que princ\u00edpios devem reger a casa comum quando diferentes concep\u00e7\u00f5es de sociedade nela passam a coexistir?<\/strong><\/p>\n<p>A resposta deveria ser inequ\u00edvoca: os princ\u00edpios constitucionais democr\u00e1ticos, por\u00e9m o bus\u00edlis da quest\u00e3o vem da concorr\u00eancia entre a constitui\u00e7\u00e3o secular e a constitucionalidade do isl\u00e3o e do Cor\u00e3o que como palavra ditada por Deus n\u00e3o consente propriamente teologia reduzindo-se a uma\u00a0 jurisprud\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>E os sinos de Constantinopla?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 neste ponto que a palavra reciprocidade deixa de ser uma abstra\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica e se transforma numa quest\u00e3o de mem\u00f3ria hist\u00f3rica. (O sil\u00eancio dos pol\u00edticos europeus perante as coordenadas isl\u00e2micas e at\u00e9 quando o presidente turco, Erdogan, transformou a Agia Sofia em mesquita, e esta a\u00e7\u00e3o berra mais alto do que os sinos da velha catedral nos seus tempos gloriosos mas foi apagada pelo sil\u00eancio oportunista).<\/p>\n<p>A Europa considera, justamente, intoler\u00e1vel que um cidad\u00e3o seja discriminado por ser mu\u00e7ulmano. Constr\u00f3i mesquitas, protege a liberdade de culto, combate a discrimina\u00e7\u00e3o religiosa e reconhece \u00e0s comunidades isl\u00e2micas o direito de participarem plenamente na sociedade. <strong>Mas uma civiliza\u00e7\u00e3o segura dos seus princ\u00edpios deveria ser igualmente capaz de perguntar o que acontece aos crist\u00e3os que vivem nos pa\u00edses de proveni\u00eancia migrat\u00f3ria isl\u00e2mica?<\/strong><\/p>\n<p><strong>A Turquia oferece um exemplo particularmente simb\u00f3lico. A catual Rep\u00fablica turca nasceu num territ\u00f3rio onde, durante s\u00e9culos, viveram importantes comunidades crist\u00e3s, gregos ortodoxos, arm\u00e9nios, sir\u00edacos e outras comunidades que participaram profundamente na hist\u00f3ria da Anat\u00f3lia e de Constantinopla. No in\u00edcio do s\u00e9culo XX, os crist\u00e3os constitu\u00edam ainda uma parcela muito significativa da popula\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio (25%) que viria a formar a Turquia moderna. Hoje representam apenas uma frac\u00e7\u00e3o diminuta da popula\u00e7\u00e3o (0,25).<\/strong><\/p>\n<p>Esta transforma\u00e7\u00e3o n\u00e3o aconteceu num \u00fanico momento nem pode ser reduzida a uma \u00fanica causa. Guerras, massacres e persegui\u00e7\u00f5es, desloca\u00e7\u00f5es populacionais, (a troca de popula\u00e7\u00f5es entre a Gr\u00e9cia e a Turquia) e pol\u00edticas discriminat\u00f3rias ao longo de diferentes per\u00edodos contribu\u00edram para alterar profundamente a composi\u00e7\u00e3o religiosa do pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>A pr\u00f3pria hist\u00f3ria administrativa turca com o registo da filia\u00e7\u00e3o religiosa nos documentos e registos de identidade, pr\u00e1tica para discrimina\u00e7\u00e3o das minorias, ilustra como religi\u00e3o e cidadania ao n\u00e3o serem esferas separadas provocam hegemonias.<\/strong> A hist\u00f3ria documenta igualmente que a popula\u00e7\u00e3o mu\u00e7ulmana, ao alcan\u00e7ar uma propor\u00e7\u00e3o significativa na sociedade, tende a gerar movimentos de autoafirma\u00e7\u00e3o e, em alguns casos, de reivindica\u00e7\u00e3o independentista.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o surge uma pergunta que Bruxelas raramente formula com a mesma intensidade com que proclama a diversidade dentro das suas pr\u00f3prias fronteiras:<\/p>\n<p><strong>se a liberdade religiosa \u00e9 universal, por que raz\u00e3o a reciprocidade na sua defesa n\u00e3o faz parte da pol\u00edtica activa europeia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Por que deveria a defesa dos direitos dos crist\u00e3os na Turquia, no M\u00e9dio Oriente ou noutras sociedades ser considerada uma preocupa\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria menor, enquanto a defesa dos direitos das minorias religiosas na Europa \u00e9 apresentada como uma obriga\u00e7\u00e3o moral?<\/strong><\/p>\n<p>Os direitos humanos ou s\u00e3o universais ou reduzem-se a uma prefer\u00eancia geogr\u00e1fica.<\/p>\n<p>Reciprocidade, por\u00e9m, n\u00e3o significa: \u201cse eles n\u00e3o permitem, n\u00f3s tamb\u00e9m n\u00e3o permitimos\u201d. Essa seria a l\u00f3gica infantil da retalia\u00e7\u00e3o e significaria abandonar precisamente os valores que pretendemos defender. A <strong>Europa deve oferecer liberdade porque acredita na liberdade, mas deve tamb\u00e9m exigir liberdade aos seus parceiros porque afirma que essa liberdade pertence a todos.<\/strong><\/p>\n<p>Uma mesquita livre em Berlim n\u00e3o deve implicar uma igreja proibida, condicionada ou socialmente marginalizada noutro lugar. A dignidade humana n\u00e3o pode mudar de defini\u00e7\u00e3o quando atravessa uma fronteira.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O estranho complexo europeu perante o cristianismo<\/strong><\/p>\n<p><strong>H\u00e1 ainda uma quest\u00e3o mais profunda e talvez mais inc\u00f3moda. A Europa contempor\u00e2nea parece sentir-se muito mais confort\u00e1vel a proteger o cristianismo enquanto patrim\u00f3nio art\u00edstico do que a reconhec\u00ea-lo como uma das matrizes vivas da sua civiliza\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p>Conservam-se catedrais, restauram-se mosteiros, financiam-se monumentos e promovem-se caminhos de peregrina\u00e7\u00e3o enquanto patrim\u00f3nio cultural. Mas, quando se passa da pedra para a mem\u00f3ria, da arquitectura para a identidade, instala-se frequentemente um estranho pudor.<\/p>\n<p>Uma elite pol\u00edtica atual de cunho capitalista e socialista parece preferir ter pais an\u00f3nimos, como se reconhecer a influ\u00eancia do cristianismo na forma\u00e7\u00e3o europeia significasse automaticamente diminuir quem n\u00e3o \u00e9 crist\u00e3o.<\/p>\n<p>A Hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 uma profiss\u00e3o de f\u00e9, mas implica reconhecer que Atenas, Roma, Jerusal\u00e9m e o cristianismo participaram decisivamente na forma\u00e7\u00e3o da Europa. \u00a0Uma sociedade pode ser secular sem sofrer de uma amn\u00e9sia provocada por ideologias.<\/p>\n<p><strong>Cidad\u00e3os sentem essa amn\u00e9sia quando observam institui\u00e7\u00f5es extremamente cuidadosas na prote\u00e7\u00e3o das identidades minorit\u00e1rias, mas reticentes perante qualquer afirma\u00e7\u00e3o positiva da tradi\u00e7\u00e3o cultural maiorit\u00e1ria.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Tem-se a sensa\u00e7\u00e3o de que todas as identidades merecem reconhecimento excepto a nossa.<\/strong> <strong>(Ou ser\u00e1 porque a espiritualidade crist\u00e3 se identifica mais com o povo e o carente e legitima a soberania moral ao indiv\u00edduo?)<\/strong> Politicamente as percep\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m produzem realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Integra\u00e7\u00e3o \u00e9 um contrato n\u00e3o um servi\u00e7o de hotelaria<\/strong><\/p>\n<p><strong>Um outro equ\u00edvoco que domina a pol\u00edtica europeia e at\u00e9 mesmo legisla\u00e7\u00f5es vindas da ONU\u00a0 e que urge ser abandonado \u00e9 imaginar a integra\u00e7\u00e3o como obriga\u00e7\u00e3o exclusiva da sociedade que recebe.<\/strong><\/p>\n<p>Uma sociedade democr\u00e1tica deve proporcionar ao rec\u00e9m-chegado aprendizagem da l\u00edngua, educa\u00e7\u00e3o, acesso ao mercado de trabalho, protec\u00e7\u00e3o jur\u00eddica e possibilidade real de ascens\u00e3o social, tal como proporciona ao cidad\u00e3o nativo. Deve proteg\u00ea-lo contra a humilha\u00e7\u00e3o e contra a discrimina\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, o imigrado tamb\u00e9m tem de assumir deveres.<\/p>\n<p><strong>Integra\u00e7\u00e3o \u00e9 hospedagem e quem chega tamb\u00e9m assume responsabilidades e por isso implica aprender a l\u00edngua, conhecer as institui\u00e7\u00f5es, respeitar a ordem constitucional e aceitar que a lei democr\u00e1tica est\u00e1 acima das prescri\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias ou religiosas das regi\u00f5es donde prov\u00eam.<\/strong><\/p>\n<p>Implica igualmente aceitar a liberdade do outro, inclusive daquele que abandona a comunidade, muda de religi\u00e3o, critica uma cren\u00e7a ou escolhe uma forma de vida que essa comunidade desaprova.<\/p>\n<p>A prova mais dif\u00edcil da toler\u00e2ncia n\u00e3o consiste em defender a liberdade de quem pensa como n\u00f3s. Consiste em defender a liberdade daquele cuja escolha nos desagrada.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Quem vigia os guardi\u00f5es da democracia?<\/strong><\/p>\n<p><strong>A Uni\u00e3o Europeia est\u00e1 preocupada com a manipula\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico e por isso criou o Escudo Europeu da Democracia e outras estruturas destinadas a aumentar a resili\u00eancia democr\u00e1tica como resposta a crescentes amea\u00e7as.<\/strong> Estados estrangeiros, redes coordenadas e novas tecnologias possuem hoje instrumentos de influ\u00eancia que nenhuma democracia respons\u00e1vel pode simplesmente ignorar.<\/p>\n<p><strong>O problema \u00e9 que todo o mecanismo criado para proteger a democracia cont\u00e9m uma tenta\u00e7\u00e3o que leva a confundir a protec\u00e7\u00e3o da democracia com a protec\u00e7\u00e3o das narrativas de quem temporariamente administra as suas institui\u00e7\u00f5es.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 uma fronteira perigosamente estreita, at\u00e9 porque facilmente se pode demonizar o vizinho por meros interesses pr\u00f3prios. <strong>Combater uma opera\u00e7\u00e3o estrangeira de manipula\u00e7\u00e3o \u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o do Estado democr\u00e1tico, mas classificar sistematicamente como \u201cdesinforma\u00e7\u00e3o\u201d aquilo que contradiz anu\u00eancias institucionais seria outra coisa.<\/strong><\/p>\n<p><strong>A democracia necessita de factos, mas \u00e9 tamb\u00e9m da sua natureza necessitar tamb\u00e9m de conflito, dissid\u00eancia, irrever\u00eancia e do direito de dizer \u00e0s institui\u00e7\u00f5es que elas podem estar erradas. <\/strong>Caso contr\u00e1rio, acabaremos perante o paradoxo de proteger a sociedade aberta tornando-a progressivamente mais fechada.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m aqui a reciprocidade e a transpar\u00eancia deveriam prevalecer. Financiamentos estrangeiros de organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, culturais ou religiosas, sejam mesquitas, associa\u00e7\u00f5es, ou outras estruturas, devem poder ser escrutinados quando exista o risco de funcionarem como instrumentos de influ\u00eancia de governos externos, como \u00e9 especialmente not\u00e1vel na Alemanha e no Reino Unido.<\/p>\n<p><strong>Nota-se grande inc\u00faria no que toda a bilateralidade contratual de direitos religioso-culturais entre os Estados europeus e os estados de matriz mu\u00e7ulmana. Essa inc\u00faria causa desequil\u00edbrio sist\u00e9micos injustos entre estados e povos favorecendo a posi\u00e7\u00e3o de quem forma guetos e criando problemas sociais com o povo origin\u00e1rio. N\u00e3o por causa da religi\u00e3o que representam, mas por causa do poder inerente que transportam, especialmente pelo facto de a sua defini\u00e7\u00e3o c\u00edvica ser determinado pela Suma (Isl\u00e3o).<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Bruxelas n\u00e3o pode governar do Olimpo<\/strong><\/p>\n<p><strong>O maior erro de Bruxelas \u00e9 certamente pensar determinar e condicionar os povos atrav\u00e9s da concess\u00e3o ou nega\u00e7\u00e3o de verbas e de imaginar que estas batalhas ser\u00e3o decididas nos grandes documentos estrat\u00e9gicos europeus. N\u00e3o ser\u00e3o porque a coes\u00e3o n\u00e3o nasce de uma directiva nem de meras medidas economicistas.<\/strong><\/p>\n<p><strong>As batalhas ser\u00e3o decididas numa escola de periferia; num bairro onde uma mulher regressa sozinha a casa \u00e0 noite<\/strong>; numa fam\u00edlia que procura habita\u00e7\u00e3o; num jovem que n\u00e3o encontra trabalho; numa sala de aula onde crian\u00e7as de cinco origens diferentes descobrem, ou n\u00e3o descobrem, que pertencem \u00e0 mesma sociedade.<\/p>\n<p><strong>A coes\u00e3o nasce da experi\u00eancia quotidiana de uma ordem que funciona.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Uma sociedade aberta \u00e9 relativamente f\u00e1cil de defender num bairro seguro e pr\u00f3spero (ou numa zona alta e exposta ao sol onde habitam as fam\u00edlias bem como na Alemanha). \u00c9 muito mais dif\u00edcil explic\u00e1-la a quem sente que a escola dos filhos piorou, que a habita\u00e7\u00e3o se tornou inacess\u00edvel,<\/strong> que o espa\u00e7o p\u00fablico se degradou ou que ningu\u00e9m lhe perguntou se estava preparado para transforma\u00e7\u00f5es sociais extraordinariamente r\u00e1pidas.<\/p>\n<p>\u00c9 aqui que uma parte das elites europeias comete um erro de linguagem e outro de percep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Bruxelas aparece demasiadas vezes como um Olimpo tecnocr\u00e1tico, distante, convencido da racionalidade das suas decis\u00f5es e surpreendido quando os habitantes da plan\u00edcie n\u00e3o agradecem aos deuses.<\/strong><\/p>\n<p>O bus\u00edlis \u00e9 que as popula\u00e7\u00f5es n\u00e3o vivem em documentos estrat\u00e9gicos nem em lugares privilegiados, vivem nas ruas.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Entre o medo e a ingenuidade<\/strong><\/p>\n<p>A Europa encontra-se presa entre dois perigos.\u00a0 O perigo do medo de transformar cada estrangeiro num suspeito, cada mu\u00e7ulmano numa amea\u00e7a e cada mudan\u00e7a numa decad\u00eancia e o perigo da \u201cingenuidade\u201d que consiste em imaginar que todas as culturas possuem a mesma rela\u00e7\u00e3o com liberdade individual, religi\u00e3o, autoridade, mulher, fam\u00edlia e Estado e que mencionar diferen\u00e7as constitui, por si s\u00f3, intoler\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Uma democracia adulta deveria ser capaz de rejeitar simultaneamente ambos os erros e poder dizer ao imigrado: <strong>\u201c\u00c9s bem-vindo e os teus direitos s\u00e3o os meus e precisamente porque os teus direitos s\u00e3o os meus, os teus deveres tamb\u00e9m o s\u00e3o.\u201d<\/strong><\/p>\n<p><strong>Os respons\u00e1veis pol\u00edticos activos na Uni\u00e3o Europeia n\u00e3o se preocupam com\u00a0 reciprocidade de respeito por costumes religiosos e culturais e menos ainda do\u00a0 antagonismo cuidado pelo isl\u00e3o\u00a0 e por isso os governantes ocidentais mais empenhados no secularismo como substitui\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria religi\u00e3o, d\u00e3o a impress\u00e3o ao cidad\u00e3o nativo de desinteresse pelo destino da pr\u00f3pria cultura e daquilo que lhe possibilitou identidade pr\u00f3pria. Neste sentido deveria ser objecto de pol\u00edtica activa negociar a integra\u00e7\u00e3o como reciprocidades entre estados eculturas.<\/strong><\/p>\n<p>Assim como o Estado protege uma mesquita ou uma sinagoga contra o vandalismo deveria ao mesmo tempo, exigir a Ancara liberdade plena para uma igreja crist\u00e3.<\/p>\n<p>O Estado pode <strong>defender diversidade sem converter a sociedade numa soma de tribos.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Urge uma Europa que saiba quem \u00e9<\/strong><\/p>\n<p>O <strong>problema fundamental da Europa \u00e9 conseguir saber quem \u00e9. S\u00f3 uma sociedade que sabe quem \u00e9 consegue verdadeiramente abrir a porta sem recear desaparecer.<\/strong><\/p>\n<p><strong>A identidade insegura transforma o estrangeiro em inimigo e a sociedade que renuncia \u00e0 pr\u00f3pria identidade acaba por interpretar qualquer afirma\u00e7\u00e3o de continuidade cultural como uma amea\u00e7a.\u00a0 <\/strong>Da\u00ed a necessidade de uma Europa consciente da sua hist\u00f3ria, constitucionalmente firme, culturalmente confiante e humanamente aberta. A abertura cultural europeia deve pressupor uma abertura humana e cultural do imigrante. <strong>Antes de tudo o governante ter\u00e1 que saber discernir entre o que \u00e9, o sentido do ser da sua cultura e saber\u00a0 o que o isl\u00e3o \u00e9 o que quer que a outra cultura seja. <\/strong>Uma Europa descomplexada n\u00e3o pede desculpa por ter ra\u00edzes crist\u00e3s-gregas e romanas, nem transforma essas ra\u00edzes em armas.<\/p>\n<p><strong>A pol\u00edtica ter\u00e1 de defender o crist\u00e3o na Turquia n\u00e3o porque o crist\u00e3o valha mais, mas porque a liberdade que s\u00f3 defendemos para alguns deixaria de ser liberdade universal. <\/strong>O pol\u00edtico ter\u00e1, finalmente, de compreender que reciprocidade n\u00e3o \u00e9 o contr\u00e1rio de toler\u00e2ncia.<\/p>\n<p><strong>Reciprocidade \u00e9 aquilo que impede a toler\u00e2ncia de se transformar em submiss\u00e3o de uns, privil\u00e9gio de outros ou indiferen\u00e7a de todos.<\/strong><\/p>\n<p>A disputa entre sociedade aberta e identidade n\u00e3o ser\u00e1 resolvida nos tratados de filosofia pol\u00edtica. Ser\u00e1 resolvida quando o cidad\u00e3o olhar para a sua rua, para a escola dos filhos, para os tribunais, para as fronteiras e para aqueles que chegaram depois dele e puder dizer: <strong>a lei \u00e9 a mesma para todos, a liberdade \u00e9 a mesma para todos e esta sociedade continua a ser tamb\u00e9m a minha casa sem que haja atitude hegem\u00f3nica de um lado ou do outro.<\/strong><\/p>\n<p><strong>A Europa n\u00e3o pode continuar a viver da ambival\u00eancia e auto desleixo para que abertura e identidade deixem de ser advers\u00e1rias.<\/strong> <strong>Se o n\u00e3o conseguir, os extremos encarregar-se-\u00e3o de convencer cada tribo de que s\u00f3 poder\u00e1 sobreviver contra as outras. Doutro modo a tribaliza\u00e7\u00e3o da sociedade torna-se num fatalidade hist\u00f3rica.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 preciso que o que tantos anunciam como profecia seja impedido de se cumprir.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<br \/>\n<\/strong>Pegadas do Tempo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Sobre a irresponsabilidade de pol\u00edticas que n\u00e3o se pautam pela reciprocidade cultural entre Estados Numa Europa contradit\u00f3ria, h\u00e1 palavras que, de tanto serem repetidas, come\u00e7am a dispensar a realidade. \u201cSociedade aberta\u201d \u00e9 uma delas. \u201cDiversidade\u201d, \u201cidentidade\u201d, \u201cintegra\u00e7\u00e3o\u201d e \u201ctoler\u00e2ncia\u201d entram no mesmo rol. Foram transformadas em vocabul\u00e1rio obrigat\u00f3rio do discurso p\u00fablico, deixaram de servir &hellip; <a href=\"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11414\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">A AMBIGUIDADE ENTRE SOCIEDADE ABERTA E IDENTIDADE<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[3,15,14,4,5,17,6,7,8,16],"tags":[],"class_list":["post-11414","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-arte","category-cultura","category-economia","category-educacao","category-escola","category-filosofia","category-migracao","category-politica","category-religiao","category-sociedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/11414","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=11414"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/11414\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11415,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/11414\/revisions\/11415"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=11414"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=11414"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=11414"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}