{"id":11411,"date":"2026-09-22T22:36:46","date_gmt":"2026-09-22T21:36:46","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11411"},"modified":"2026-09-22T22:41:21","modified_gmt":"2026-09-22T21:41:21","slug":"a-alemanha-partida-e-partidaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11411","title":{"rendered":"A ALEMANHA PARTIDA E PARTID\u00c1RIA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>A rutura de setembro de 2026 deixar\u00e1 vest\u00edgios fortes na geografia pol\u00edtico-cultural<\/strong><\/p>\n<p><strong>As elei\u00e7\u00f5es regionais alem\u00e3s de setembro de 2026 deixaram de ser um simples teste de meio mandato para se tornarem no retrato de uma Alemanha partida, cansada e ideologicamente inquieta.<\/strong> <strong>Entre Berlim, Mecklemburgo-Pomer\u00e2nia Ocidental e Sax\u00f3nia-Anhalt, o velho arco de poder formado pela CDU, SPD, Verdes e liberais aparece em decomposi\u00e7\u00e3o, enquanto os extremos, \u00e0 direita e \u00e0 esquerda, se afirmam como int\u00e9rpretes do descontentamento e de uma nova pol\u00edtica.<\/strong> O resultado \u00e9 simultaneamente um sintoma e um aviso: a democracia alem\u00e3 j\u00e1 n\u00e3o se deixa explicar apenas pelo centro, porque o centro perdeu a capacidade de mobilizar, convencer e proteger a confian\u00e7a dos eleitores.<\/p>\n<p><strong>Em Berlim, o Die Linke alcan\u00e7ou uma vit\u00f3ria hist\u00f3rica com 25,7% dos votos, tornando-se a principal for\u00e7a pol\u00edtica da Cidade-Estado. A CDU, que liderava o governo local, caiu para cerca de 19% a 20%, e a AfD subiu para 16,2%. O dado mais simb\u00f3lico \u00e9 a possibilidade de Elif Eralp, uma jovem pol\u00edtica de origem turca, vir a assumir a presid\u00eancia da C\u00e2mara de Berlim, procurando formar governo com o SPD e os Verdes<\/strong>. <strong>Isso representa uma transforma\u00e7\u00e3o profunda porque a esquerda radical deixa de ser apenas protesto e passa a reivindicar poder executivo. Em Mecklemburgo-Pomer\u00e2nia Ocidental, o cen\u00e1rio inverte-se. A AfD venceu com 37,9% a 38,3% dos votos, superando por margem estreita o SPD, que ficou pelos 35,5%. A CDU sofreu uma derrota hist\u00f3rica, caindo para 4,9%, abaixo da cl\u00e1usula de barreira de 5%, ficando sem representa\u00e7\u00e3o parlamentar. Na Sax\u00f3nia-Anhalt, a AfD consolidou a sua subida com 43,8%, legitimando-se nas urnas para reivindicar o governo, embora o chamado cord\u00e3o sanit\u00e1rio continue a tentar impedi-lo.<\/strong><\/p>\n<p><strong>O que est\u00e1 em causa n\u00e3o \u00e9 apenas uma mudan\u00e7a de governos regionais. \u00c9 uma mudan\u00e7a de mentalidades, de geografia eleitoral e de legitimidade democr\u00e1tica.<\/strong> Durante d\u00e9cadas, a Alemanha organizou-se em torno de partidos que se apresentavam como garantes da estabilidade. Hoje, esses partidos est\u00e3o a ser castigados pela insatisfa\u00e7\u00e3o social, pela perda de poder de compra, pela inseguran\u00e7a energ\u00e9tica, pela imigra\u00e7\u00e3o mal gerida e malquerida e por uma elite pol\u00edtica que parece falar mais para Bruxelas, para os jornais e para si pr\u00f3pria do que para os cidad\u00e3os. <strong>A coliga\u00e7\u00e3o conservadora-social-democrata de Friedrich Merz encontra-se gr\u00e1vida de descontentamento, mas<\/strong> <strong>n\u00e3o parece capaz de parir um substituto cred\u00edvel. Merz, antigo lobista e homem de Bruxelas, sabe apreciar o sabor do poder; a sua perman\u00eancia como chanceler s\u00f3 agravar\u00e1 os danos no pr\u00f3prio partido e no pa\u00eds. A CDU precisa de renova\u00e7\u00e3o, n\u00e3o de teimosia.<\/strong><\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, seria intelectualmente desonesto tratar os extremos como se fossem sim\u00e9tricos em tudo. N\u00e3o s\u00e3o. <strong>A extrema-direita da AfD carrega consigo riscos hist\u00f3ricos, constitucionais e civilizacionais que n\u00e3o podem ser minimizados. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o se pode fingir que a extrema-esquerda, quando governa ou disputa o poder, \u00e9 automaticamente moderada s\u00f3 porque usa uma linguagem mais aceit\u00e1vel nos c\u00edrculos medi\u00e1ticos.<\/strong> <strong>O problema mais grave \u00e9 o enviesamento da informa\u00e7\u00e3o: quase todos os jornais falam do perigo da extrema-direita, mas quase nenhum fala do perigo da extrema-esquerda.<\/strong> Esta assimetria n\u00e3o \u00e9 pluralismo porque corresponde a uma forma t\u00f3xica de orientar o debate, sob apar\u00eancia de an\u00e1lise s\u00e9ria. Sem entrar no neg\u00f3cio s\u00f3rdido entre pol\u00edtica e informa\u00e7\u00e3o, \u00e9 leg\u00edtimo exigir coer\u00eancia. <strong>Quem respeita a democracia deve respeitar todos os votantes, do centro, da esquerda, da direita e n\u00e3o apenas os que confirmam a narrativa dominante. Em democracia n\u00e3o deve haver senhores nem propriet\u00e1rios.<\/strong><\/p>\n<p><strong>O caso da Sax\u00f3nia-Anhalt \u00e9 particularmente revelador. A AfD venceu com 43,8%, mas o arco do poder partid\u00e1rio tradicional far\u00e1 tudo para impedir que Ulrich Siegmund, linha-dura do partido, chegue a primeiro-ministro. <\/strong>N\u00e3o est\u00e1 exclu\u00eddo que o BSW ou deputados individuais da CDU possam viabilizar essa elei\u00e7\u00e3o, o que mostraria at\u00e9 que ponto o cord\u00e3o sanit\u00e1rio \u00e9 mais fr\u00e1gil do que se diz<strong>. Em Berlim, pelo contr\u00e1rio, a extrema-esquerda ganhou e j\u00e1 se prepara para governar com o SPD e os Verdes, sem que isso provoque o mesmo alarme medi\u00e1tico.<\/strong> Esta seletividade mina a confian\u00e7a e alimenta a ideia de que as regras s\u00f3 se aplicam a alguns. O cord\u00e3o sanit\u00e1rio pode ser leg\u00edtimo como defesa constitucional, mas n\u00e3o pode transformar-se numa forma permanente de negar a vontade eleitoral sem custos democr\u00e1ticos. Quando uma maioria vota num partido e esse partido \u00e9 sistematicamente exclu\u00eddo, a democracia n\u00e3o fica mais forte, \u00a0fica \u00e9 mais distante dos cidad\u00e3os.<\/p>\n<p><strong>A Alemanha precisa de uma pol\u00edtica de equil\u00edbrio social e de coes\u00e3o. Precisa de partidos que voltem a ouvir, de uma imprensa que n\u00e3o confunda informa\u00e7\u00e3o com milit\u00e2ncia e de l\u00edderes que n\u00e3o se agarrem ao poder como se este fosse propriedade privada.<\/strong> <strong>O espectro pol\u00edtico est\u00e1 a mudar; os partidos que tradicionalmente formavam o arco do poder est\u00e3o em decomposi\u00e7\u00e3o, enquanto os extremos se afirmam.<\/strong> <strong>Isto corresponde, em parte, ao extremismo que domina a informa\u00e7\u00e3o na Uni\u00e3o Europeia e \u00e0 incapacidade das elites de se reformarem.<\/strong> Se o centro n\u00e3o reagir com ideias, coragem e proximidade, ser\u00e3o os extremos a ditar o futuro.<\/p>\n<p><strong>A mudan\u00e7a de mentalidades n\u00e3o vir\u00e1 de Bruxelas nem dos est\u00fadios de televis\u00e3o! A mudan\u00e7a vir\u00e1 da rua, do trabalho, da escola, da habita\u00e7\u00e3o, da seguran\u00e7a e da dignidade de quem se sente abandonado. \u00c9 a\u00ed que se joga a verdadeira pol\u00edtica muito embora a nova pol\u00edtica latifundi\u00e1ria se tente afirmar por algum tempo.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><br \/>\nPegadas do Tempo\u00a0 \u00a9<br \/>\nORCID: https:\/\/orcid.org\/0009-0003-6251-1578<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A rutura de setembro de 2026 deixar\u00e1 vest\u00edgios fortes na geografia pol\u00edtico-cultural As elei\u00e7\u00f5es regionais alem\u00e3s de setembro de 2026 deixaram de ser um simples teste de meio mandato para se tornarem no retrato de uma Alemanha partida, cansada e ideologicamente inquieta. 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