{"id":11386,"date":"2026-09-08T23:31:56","date_gmt":"2026-09-08T22:31:56","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11386"},"modified":"2026-09-09T00:21:33","modified_gmt":"2026-09-08T23:21:33","slug":"os-desabrigados-da-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11386","title":{"rendered":"OS DESABRIGADOS DA POL\u00cdTICA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>O esc\u00e2ndalo da democracia, quando o povo se atreve a querer algo diferente dos seus defensores!<\/strong><\/p>\n<p><strong>Em tempos de humor negro e de f\u00e9 vermelha, as elei\u00e7\u00f5es europeias revelam-se o c\u00famulo do humor<\/strong>: uns apresentam-se em defesa do povo, outros em defesa do seu povo e alguns, mais modestos, em defesa do seu povinho. <strong>No fim, todos procuram abrigo debaixo da mesma palavra m\u00e1gica \u201cdemocracia\u201d, mas o bus\u00edlis da quest\u00e3o \u00e9 que \u00a0cada qual parece trazer a escritura de propriedade no bolso.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Curiosamente, o t\u00e3o censurado discurso do \u00abn\u00f3s e dos outros\u00bb n\u00e3o \u00e9 exclusivo daqueles que dividem o mundo entre nacionais e estrangeiros. Tamb\u00e9m os autoproclamados guardi\u00f5es da democracia gostam do seu \u201cn\u00f3s\u201d, do \u201c n\u00f3s, os democratas\u201d, \u201cn\u00f3s, os esclarecidos\u201d, \u201cn\u00f3s, os europeus de bem\u201d e consideram do outro lado, \u201celes, os populistas\u201d, \u201cos enganados\u201d, \u201cos atrasados\u201d, \u201cos perigosos\u201d, etc&#8230; Enfim, muda a fronteira, conserva-se a alf\u00e2ndega moral.<\/strong><br \/>\n<strong>Assim, enquanto uns proclamam \u00abn\u00f3s, os nacionais, contra os estrangeiros\u00bb, outros respondem \u00abn\u00f3s, os democratas, contra eles\u00bb. A gram\u00e1tica \u00e9 assustadoramente parecida e o que muda \u00e9 apenas o dicion\u00e1rio.<\/strong> E cada campo, naturalmente, garante possuir a verdade, porque a d\u00favida, em per\u00edodo eleitoral, d\u00e1 poucos votos e ainda menos lugares no Parlamento.<br \/>\n<strong>Assiste-se ent\u00e3o ao espet\u00e1culo dos que se consideram do lado bom da democracia contra os habitantes do lado mau,<\/strong> <strong>como se a democracia tivesse bancada VIP e porteiro \u00e0 entrada.<\/strong> <strong>A argumenta\u00e7\u00e3o cede lugar \u00e0 narrativa, a an\u00e1lise \u00e0 indigna\u00e7\u00e3o e o \u00f3dio, devidamente penteado e perfumado, apresenta-se em p\u00fablico com o respeit\u00e1vel nome de \u201cconsci\u00eancia democr\u00e1tica\u201d que em dicion\u00e1rio adverso significa \u201coportunista\u201d.<\/strong><br \/>\nDe um lado est\u00e3o os que vivem da perda; do outro, os que vivem do proveito. <strong>Uns prometem mundos e fundos; outros, mais pragm\u00e1ticos, vivem dos fundos.<\/strong> E todos juram representar o cidad\u00e3o, sobretudo aquele cidad\u00e3o abstrato que nunca telefona, nunca protesta e convenientemente, cabe inteiro num comunicado de imprensa.<br \/>\n<strong>Entretanto, os senhores da realidade erguem-se contra ela. Espantam-se com o crescimento dos partidos a que chamam populistas, mas raramente perguntam quanto desse crescimento foi adubado pelas pol\u00edticas que eles pr\u00f3prios defenderam.<\/strong> Bruxelas transforma-se, assim, numa curiosa f\u00e1brica pol\u00edtica: produz decis\u00f5es, distribui virtudes e nas horas vagas, fabrica os advers\u00e1rios que depois denuncia.<\/p>\n<p>Talvez o problema seja mais simples e por isso mesmo, mais inc\u00f3modo: durante demasiado tempo governou-se para uma clientela pol\u00edtica que, entretanto, foi ultrapassada pela realidade. <strong>O velho pieguismo partid\u00e1rio j\u00e1 n\u00e3o comove como antes. E quando a realidade deixa de votar como previsto, h\u00e1 sempre quem conclua que o defeito est\u00e1 na realidade.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Em muitos governantes e funcion\u00e1rios da liturgia europeia, mais do que compet\u00eancia, come\u00e7a a notar-se atrevimento, que se expressa naquele admir\u00e1vel talento de explicar aos eleitores por que raz\u00e3o estes votaram mal.<\/strong><\/p>\n<p>A democracia, por\u00e9m, conserva um sentido de humor particularmente negro: de tempos a tempos entrega o boletim de voto precisamente \u00e0queles de quem os seus autoproclamados propriet\u00e1rios menos gostam.<\/p>\n<p>E a\u00ed come\u00e7a o verdadeiro esc\u00e2ndalo democr\u00e1tico: o povo atreve-se a n\u00e3o obedecer aos seus defensores.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<br \/>\nPegadas do Tempo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O esc\u00e2ndalo da democracia, quando o povo se atreve a querer algo diferente dos seus defensores! 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