{"id":11382,"date":"2026-09-05T18:58:43","date_gmt":"2026-09-05T17:58:43","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11382"},"modified":"2026-09-05T18:58:43","modified_gmt":"2026-09-05T17:58:43","slug":"a-primazia-do-acontecimento-e-a-necessidade-da-forma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11382","title":{"rendered":"A PRIMAZIA DO ACONTECIMENTO E A NECESSIDADE DA FORMA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><strong>Mem\u00f3ria, institui\u00e7\u00e3o e promessa na exist\u00eancia hist\u00f3rica do cristianismo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/p>\n<p><strong>Resumo<\/strong><br \/>\nO cristianismo n\u00e3o se funda num sistema cultual, mas num acontecimento, a vida, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus de Nazar\u00e9. Esse acontecimento, por\u00e9m, para perdurar na hist\u00f3ria, transforma\u2011se em mem\u00f3ria e esta, para ser comunicada e vivida, encarna\u2011se em ritos, institui\u00e7\u00f5es e tradi\u00e7\u00f5es. Este ensaio percorre a tens\u00e3o entre a irrepetibilidade do evento fundador e a repetibilidade necess\u00e1ria das formas lit\u00fargicas, mostrando que o rito n\u00e3o \u00e9 um acr\u00e9scimo acidental nem o fundamento \u00faltimo, mas media\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel. A partir de autores como Halbwachs, Guardini, Ratzinger, de Lubac, Congar, Newman, Chauvet e Schillebeeckx, defende\u2011se que a exist\u00eancia hist\u00f3rica do cristianismo se sustenta numa tr\u00edplice dimens\u00e3o, mem\u00f3ria, presen\u00e7a e promessa, que impede tanto a absolutiza\u00e7\u00e3o ritualista como a dissolu\u00e7\u00e3o numa subjectividade sem forma. A liturgia \u00e9, assim, lugar de constitui\u00e7\u00e3o eclesial e de abertura escatol\u00f3gica, onde a Palavra e o sacramento se exigem reciprocamente.<\/p>\n<ol>\n<li><strong> A preced\u00eancia do acontecimento<\/strong><br \/>\nO cristianismo n\u00e3o come\u00e7ou com um sistema de ritos, mas com Jesus de Nazar\u00e9, com a sua prega\u00e7\u00e3o, a comunidade dos disc\u00edpulos, a morte e o testemunho da ressurrei\u00e7\u00e3o. Antes da doutrina sistematizada e da liturgia plenamente configurada, h\u00e1 um acontecimento reconhecido como portador de um sentido que o ultrapassa.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Esta afirma\u00e7\u00e3o exige um cuidado: Jesus participava na tradi\u00e7\u00e3o ritual de Israel e os primeiros crist\u00e3os celebraram desde cedo o baptismo, a frac\u00e7\u00e3o do p\u00e3o e a reuni\u00e3o semanal. A preced\u00eancia do acontecimento sobre o rito n\u00e3o \u00e9 cronol\u00f3gica, mas teol\u00f3gica pois o rito n\u00e3o \u00e9 a raz\u00e3o de ser do acontecimento, mas sim que o acontecimento que d\u00e1 origem ao rito e lhe confere sentido. Se esta preced\u00eancia for esquecida, o cristianismo arrisca\u2011se a fechar\u2011se num sistema autorreferencial. Mas tamb\u00e9m seria erro concluir que o rito \u00e9 mero revestimento dispens\u00e1vel, a hist\u00f3ria mostra que sem ritualidade a f\u00e9 dificilmente se transmite.<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li><strong> O acontecimento que se torna mem\u00f3ria<\/strong><br \/>\nTodo o acontecimento hist\u00f3rico passa; as testemunhas desaparecem e as circunst\u00e2ncias mudam. O evento crist\u00e3o tamb\u00e9m est\u00e1 sujeito a esta condi\u00e7\u00e3o. Se dependesse apenas da experi\u00eancia imediata dos primeiros disc\u00edpulos, ter\u2011se\u2011ia extinguido com a primeira gera\u00e7\u00e3o. \u00c9 aqui que a mem\u00f3ria se torna constitutiva.<\/li>\n<\/ol>\n<p>A mem\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 uma reprodu\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica do passado, \u00e9 uma recep\u00e7\u00e3o interpretativa a partir do presente, integrada na identidade de uma comunidade. Maurice Halbwachs mostrou que a mem\u00f3ria tem dimens\u00e3o colectiva, o indiv\u00edduo recorda dentro de quadros sociais que lhe fornecem linguagem, lugares e formas de interpreta\u00e7\u00e3o. Uma comunidade que deseja conservar uma mem\u00f3ria precisa de narrativas, calend\u00e1rios, s\u00edmbolos e pr\u00e1ticas. O cristianismo oferece um exemplo denso: a mem\u00f3ria de Cristo n\u00e3o atravessou dois mil\u00e9nios apenas por esfor\u00e7o individual, mas gra\u00e7as a textos, f\u00f3rmulas de f\u00e9, minist\u00e9rios, festas e ritos que presencializam a a\u00e7\u00e3o salv\u00edfica.<\/p>\n<p>Contudo, para a consci\u00eancia crist\u00e3, a comunidade n\u00e3o produz soberanamente a mem\u00f3ria que decide conservar; considera\u2011se, antes, constitu\u00edda por uma mem\u00f3ria que recebeu. N\u00e3o \u00e9 apenas a Igreja que conserva a mem\u00f3ria de Cristo, porque \u00e9 tamb\u00e9m a mem\u00f3ria de Cristo que continuamente constitui a Igreja.<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li><strong> \u00abFazei isto em mem\u00f3ria de mim\u00bb como a mem\u00f3ria encarnada<\/strong>O mandato da \u00daltima Ceia, \u00abfazei isto em mem\u00f3ria de mim\u00bb, \u00e9 extraordin\u00e1rio porque associa mem\u00f3ria e ac\u00e7\u00e3o. Cristo n\u00e3o diz apenas \u00abrecordai\u2011vos\u00bb, porque deixa um gesto a realizar. A mem\u00f3ria crist\u00e3 n\u00e3o fica confinada \u00e0 interioridade; torna\u2011se palavra pronunciada, p\u00e3o partido, vinho partilhado, comunidade reunida. O homem recorda n\u00e3o s\u00f3 intelectualmente, mas tamb\u00e9m corporalmente.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Esta corporeidade da mem\u00f3ria corresponde \u00e0 estrutura encarnacional do cristianismo: se o Verbo se fez carne, a mat\u00e9ria e o corpo n\u00e3o s\u00e3o exteriores \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o religiosa. \u00c1gua, p\u00e3o, vinho, \u00f3leo, m\u00e3os, voz \u2013 entram na linguagem da f\u00e9. Louis\u2011Marie Chauvet recorda\u2011nos que a media\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma imperfei\u00e7\u00e3o inevit\u00e1vel porque o homem encontra e exprime sentido atrav\u00e9s da linguagem, do corpo e do s\u00edmbolo. A pr\u00f3pria f\u00e9, para existir historicamente, necessita de media\u00e7\u00f5es. Por isso, dizer que o cristianismo precisa de ritos apenas porque a mem\u00f3ria humana \u00e9 fr\u00e1gil seria insuficiente; a necessidade do rito tem raiz antropol\u00f3gica e coer\u00eancia encarnacional.<\/p>\n<ol start=\"4\">\n<li><strong> A repetibilidade do rito e a irrepetibilidade do acontecimento<\/strong><br \/>\nencontramo-nos aqui num paradoxo: o acontecimento fundador \u00e9 irrepet\u00edvel, a vida de Jesus, a \u00daltima Ceia, a Cruz, a Ressurrei\u00e7\u00e3o n\u00e3o se repetem. O rito, por\u00e9m, repete\u2011se. A Eucaristia celebra\u2011se ontem, hoje e amanh\u00e3.<\/li>\n<\/ol>\n<p>A chave est\u00e1 em que o rito \u00e9 repet\u00edvel precisamente porque o acontecimento que celebra \u00e9 irrepet\u00edvel. A repeti\u00e7\u00e3o ritual n\u00e3o multiplica o evento; permite que sucessivas gera\u00e7\u00f5es se relacionem com o que aconteceu uma vez. Na compreens\u00e3o cat\u00f3lica, o sacrif\u00edcio de Cristo n\u00e3o se repete; repete\u2011se a celebra\u00e7\u00e3o sacramental mediante a qual a comunidade participa na mem\u00f3ria desse acontecimento \u00fanico. A categoria de <em>anamnesis<\/em> \u00e9 decisiva: n\u00e3o se trata de mera evoca\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica de uma aus\u00eancia, mas de actualiza\u00e7\u00e3o sacramental, em que o Ressuscitado est\u00e1 presente. A mem\u00f3ria eucar\u00edstica ultrapassa a sociologia da mem\u00f3ria porque pretende ser presen\u00e7a real, embora n\u00e3o repeti\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica (engloba o processual).<\/p>\n<ol start=\"5\">\n<li><strong> A liturgia como forma recebida (Guardini e Ratzinger)<\/strong><br \/>\nRomano Guardini ajuda a compreender que a liturgia introduz o indiv\u00edduo numa forma que ele n\u00e3o inventou. Numa cultura que associa autenticidade \u00e0 espontaneidade, esta objectividade pode parecer limitadora, mas Guardini inverte a quest\u00e3o ao constatar que a forma recebida liberta o indiv\u00edduo da pris\u00e3o da subjectividade. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio inventar continuamente a express\u00e3o da f\u00e9 nem sentir intensamente para que o gesto tenha sentido; a liturgia retira a f\u00e9 da depend\u00eancia do estado psicol\u00f3gico moment\u00e2neo. Tal como ningu\u00e9m inventa a l\u00edngua em que fala, receb\u00ea\u2011la \u00e9 condi\u00e7\u00e3o para exprimir algo verdadeiramente seu. A liturgia tem tamb\u00e9m uma gratuidade pr\u00f3pria porque \u00e9 culto, louvor e ac\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as, que impede uma interpreta\u00e7\u00e3o meramente funcionalista.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Joseph Ratzinger retoma esta intui\u00e7\u00e3o e insiste que a liturgia n\u00e3o pode ser entendida como produto da comunidade. Se o grupo se re\u00fane apenas para expressar a sua identidade, a celebra\u00e7\u00e3o torna\u2011se autorrepresenta\u00e7\u00e3o colectiva. A liturgia rompe esse c\u00edrculo porque remete para algo que a comunidade n\u00e3o produziu; ela recebe antes de criar, responde antes de dispor. A institui\u00e7\u00e3o lit\u00fargica resiste \u00e0 soberania do presente, recordando a cada gera\u00e7\u00e3o que o cristianismo n\u00e3o come\u00e7a com ela.<\/p>\n<ol start=\"6\">\n<li><strong> Da mem\u00f3ria \u00e0 institui\u00e7\u00e3o e \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nUma mem\u00f3ria que pretende atravessar gera\u00e7\u00f5es precisa de alguma forma de institucionaliza\u00e7\u00e3o: textos fixados, minist\u00e9rios, calend\u00e1rios, crit\u00e9rios de perten\u00e7a. Sem isso, a mem\u00f3ria colectiva fragmenta\u2011se. Mas a institui\u00e7\u00e3o encerra um paradoxo semelhante ao do rito, sendo necess\u00e1ria para conservar o acontecimento, mas pode correr o risco de ocupar o seu lugar. A forma destinada a transmitir pode tornar\u2011se autorreferencial.<\/li>\n<\/ol>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre acontecimento e institui\u00e7\u00e3o n\u00e3o se resolve eliminando um dos polos: sem institui\u00e7\u00e3o, o evento dificilmente atravessa a hist\u00f3ria; sem refer\u00eancia cont\u00ednua ao acontecimento, a institui\u00e7\u00e3o conserva a forma ap\u00f3s ter perdido a for\u00e7a que lhe deu origem. Henri de Lubac aprofunda esta reciprocidade ao mostrar que a Igreja n\u00e3o \u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o que, entre outras actividades, celebra a Eucaristia; antes, \u00aba Igreja faz a Eucaristia e a Eucaristia faz a Igreja\u00bb. A comunidade \u00e9 constitu\u00edda pelo mist\u00e9rio que celebra.<\/p>\n<p>A institui\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, existe no tempo, as suas formas desenvolvem\u2011se e acumulam hist\u00f3ria. Surge a quest\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o. Yves Congar distingue a Tradi\u00e7\u00e3o das suas m\u00faltiplas express\u00f5es hist\u00f3ricas: nem tudo o que \u00e9 antigo \u00e9 essencial, nem toda a forma hist\u00f3rica \u00e9 contingente e livremente dispon\u00edvel para reconstru\u00e7\u00e3o. A tradi\u00e7\u00e3o viva situa\u2011se entre estas simplifica\u00e7\u00f5es. John Henry Newman, por seu lado, mostra que o desenvolvimento doutrinal n\u00e3o \u00e9 reinven\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria, mas explicita\u00e7\u00e3o e aprofundamento de uma realidade recebida. As novas quest\u00f5es obrigam a tradi\u00e7\u00e3o a responder sem simplesmente repetir o passado nem transformar o presente em crit\u00e9rio absoluto.<\/p>\n<ol start=\"7\">\n<li><strong> Continuidade e reforma<\/strong><br \/>\nA reforma aut\u00eantica n\u00e3o \u00e9 ruptura, mas recondu\u00e7\u00e3o das formas hist\u00f3ricas \u00e0 realidade que lhes d\u00e1 sentido. Isso aplica\u2011se particularmente \u00e0 liturgia porque reconhecer a historicidade das formas n\u00e3o significa que a gera\u00e7\u00e3o presente tenha soberania absoluta sobre elas. A pergunta central n\u00e3o \u00e9 apenas devemos conservar ou mudar?, mas o que deve permanecer para que a identidade n\u00e3o se perca, e o que pode ou deve mudar para que essa identidade continue viva, intelig\u00edvel e transmiss\u00edvel? Bento XVI, ao falar de uma \u00abhermen\u00eautica da reforma\u00bb, mostrou que a aut\u00eantica reforma cont\u00e9m continuidade nos princ\u00edpios e transforma\u00e7\u00e3o em configura\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, a tradi\u00e7\u00e3o permanece viva atrav\u00e9s dessa tens\u00e3o.<\/li>\n<li><strong> Palavra e sacramento: reciprocidade fundamental<\/strong><br \/>\nA estrutura da Eucaristia, Liturgia da Palavra e Liturgia Eucar\u00edstica, oferece uma express\u00e3o clara desta reciprocidade. A Palavra proclama e interpreta; o sacramento corporiza e actualiza. Sem Palavra, o gesto pode tornar\u2011se opaco e cair no formalismo ou na magia; sem a dimens\u00e3o sacramental, a Palavra reduz\u2011se a mera doutrina ou recorda\u00e7\u00e3o intelectual. O cristianismo recusa ambas as redu\u00e7\u00f5es: a Palavra precisa de corpo, o corpo precisa de Palavra.<\/li>\n<\/ol>\n<p>O sacramento \u00e9 profundamente simb\u00f3lico, mas n\u00e3o no sentido d\u00e9bil de um sinal convencional que apenas recorda uma realidade ausente; \u00e9 sinal eficaz, aquilo que significa n\u00e3o permanece exterior ao acto sacramental. <strong>Distingue\u2011se, assim, da magia: nesta, o rito pretende colocar for\u00e7as \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de quem o executa correctamente; na l\u00f3gica sacramental, o que \u00e9 recebido n\u00e3o \u00e9 produzido pela comunidade nem submetido ao seu dom\u00ednio, \u00e9 dom antes de ser posse.<\/strong> Edward Schillebeeckx refor\u00e7a esta vis\u00e3o ao pensar o sacramento a partir do encontro: Cristo \u00e9 o sacramento primordial do encontro com Deus e a Igreja \u00e9 sacramento derivado. A materialidade do sacramento n\u00e3o \u00e9 obst\u00e1culo, mas lugar de media\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<ol start=\"9\">\n<li><strong> O perigo do ritualismo e a persist\u00eancia do rito<\/strong><br \/>\nReconhecer a necessidade do rito exige reconhecer tamb\u00e9m a possibilidade da sua degenera\u00e7\u00e3o. <strong>O cristianismo cont\u00e9m uma cr\u00edtica profunda ao ritualismo, os profetas de Israel denunciaram o culto separado da justi\u00e7a e Jesus inscreve\u2011se nessa tradi\u00e7\u00e3o. Mas a cr\u00edtica do ritualismo n\u00e3o \u00e9 cr\u00edtica do rito; \u00e9 defesa da sua verdade.<\/strong> <strong>O ritualismo come\u00e7a quando o meio se transforma em fim, quando o sinal deixa de remeter para o significado.<\/strong> O rito \u00e9 necess\u00e1rio, enquanto o ritualismo absolutiza o necess\u00e1rio e transforma\u2011o desse modo em suficiente.<\/li>\n<\/ol>\n<p>A modernidade secularizou grande parte da vida p\u00fablica, mas n\u00e3o eliminou o rito, cerim\u00f3nias pol\u00edticas, comemora\u00e7\u00f5es, funerais, rituais acad\u00e9micos mostram que o homem continua a ritualizar o que lhe \u00e9 importante<strong>. Isto sugere que o rito n\u00e3o \u00e9 inven\u00e7\u00e3o religiosa, mas dimens\u00e3o profunda da exist\u00eancia humana.<\/strong> <strong>A quest\u00e3o crist\u00e3 n\u00e3o \u00e9 escolher entre rito e aus\u00eancia de rito, mas perguntar que rela\u00e7\u00e3o existe entre o rito e aquilo que ele pretende significar.<\/strong><\/p>\n<ol start=\"10\">\n<li><strong> Mem\u00f3ria, presen\u00e7a e promessa<\/strong><br \/>\n<strong>O cristianismo n\u00e3o vive apenas do passado e do presente, transcende-o no kair\u00f3s e vive tamb\u00e9m do futuro.<\/strong> <strong>A Eucaristia recorda um acontecimento passado e celebra uma presen\u00e7a, mas permanece orientada para uma promessa: \u00abat\u00e9 que Ele venha\u00bb.<\/strong> <strong>A liturgia tem, pois, uma estrutura escatol\u00f3gica porque \u00e9 mem\u00f3ria, presen\u00e7a e promessa.<\/strong> Esta tr\u00edade impede que a mem\u00f3ria crist\u00e3 seja nostalgia porque o passado n\u00e3o \u00e9 procurado para regressar, mas porque cont\u00e9m uma promessa ainda n\u00e3o consumada. Tamb\u00e9m a presen\u00e7a n\u00e3o significa posse; o sacramento n\u00e3o encerra o mist\u00e9rio. <strong>A promessa preserva a transcend\u00eancia: nenhuma forma hist\u00f3rica \u00e9 o Reino, nenhuma liturgia esgota o mist\u00e9rio.<\/strong> A escatologia exerce uma fun\u00e7\u00e3o cr\u00edtica sobre a institui\u00e7\u00e3o, lembrando que o cristianismo \u00e9 maior do que os seus ritos.<\/li>\n<\/ol>\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><br \/>\nO cristianismo n\u00e3o nasceu de um sistema ritual, mas de um acontecimento. Esse acontecimento, porque entrou na hist\u00f3ria, gerou mem\u00f3ria e a mem\u00f3ria, para ser humana, comunit\u00e1ria e transmiss\u00edvel, adquiriu palavra, gesto, corpo e institui\u00e7\u00e3o. O rito n\u00e3o \u00e9 um acr\u00e9scimo acidental nem o fundamento \u00faltimo, o acontecimento precede\u2011o. Sem acontecimento, o rito esvazia\u2011se; sem mem\u00f3ria, o acontecimento perde\u2011se; sem rito, a mem\u00f3ria torna\u2011se abstracta; sem institui\u00e7\u00e3o, a transmiss\u00e3o fragmenta\u2011se; sem tradi\u00e7\u00e3o, cada gera\u00e7\u00e3o recome\u00e7aria do zero e sem discernimento e reforma, a continuidade degenera em imobilidade ou reinven\u00e7\u00e3o. A Palavra e o sacramento exigem\u2011se mutuamente e a esperan\u00e7a impede que mem\u00f3ria e presen\u00e7a se fechem sobre si mesmas.<\/p>\n<p>A liturgia \u00e9, assim, o lugar em que uma comunidade hist\u00f3rica se deixa constituir por uma mem\u00f3ria que n\u00e3o inventou, recebe no presente o que confessa como dom e se orienta para um futuro que n\u00e3o pode produzir. <strong>Mem\u00f3ria, presen\u00e7a e promessa s\u00e3o as tr\u00eas dimens\u00f5es que explicam por que o cristianismo n\u00e3o se reduz ao rito, mas tamb\u00e9m n\u00e3o pode existir historicamente sem ele.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<br \/>\n<\/strong>Te\u00f3logo<br \/>\nPegadas do Tempo \u00a9<br \/>\nORCID: https:\/\/orcid.org\/0009-0003-6251-1578<\/p>\n<p><strong>Notas bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<ol>\n<li>Maurice Halbwachs, <em>On Collective Memory<\/em> (1992) &#8211; sobre os quadros sociais da mem\u00f3ria.<\/li>\n<li>Romano Guardini, <em>Vom Geist der Liturgie<\/em> (1918) &#8211; a liturgia como forma objectiva e l\u00fadica.<\/li>\n<li>Joseph Ratzinger, <em>The Spirit of the Liturgy<\/em> &#8211; continuidade com Guardini; liturgia como recebida, n\u00e3o como autorrepresenta\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<li>Louis\u2011Marie Chauvet, <em>Symbol and Sacrament<\/em> (1995) &#8211; media\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica e corporeidade.<\/li>\n<li>Henri de Lubac, <em>Corpus Mysticum<\/em> (2006) &#8211; reciprocidade entre Eucaristia e Igreja.<\/li>\n<li>Edward Schillebeeckx, <em>Christ, the Sacrament of the Encounter with God<\/em> (1963) &#8211; sacramento como encontro.<\/li>\n<li>Yves Congar, <em>Vraie et fausse r\u00e9forme dans l\u2019\u00c9glise<\/em> &#8211; tradi\u00e7\u00e3o e reforma aut\u00eantica.<\/li>\n<li>John Henry Newman, <em>An Essay on the Development of Christian Doctrine<\/em> (1845\/1878) &#8211; desenvolvimento doutrinal.<\/li>\n<li>Conc\u00edlio Vaticano II, <em>Sacrosanctum Concilium<\/em>, n.\u00ba 56 &#8211; unidade entre Palavra e Eucaristia.<\/li>\n<\/ol>\n<p><strong>Bibliografia essencial<\/strong><br \/>\nCHAUVET, L.\u2011M. <em>Symbol and Sacrament<\/em>. Collegeville: Liturgical Press, 1995.<br \/>\nCONGAR, Y. <em>Vraie et fausse r\u00e9forme dans l\u2019\u00c9glise<\/em>. Paris: Cerf.<br \/>\nDE LUBAC, H. <em>Corpus Mysticum<\/em>. Notre Dame: University of Notre Dame Press, 2006.<br \/>\nGUARDINI, R. <em>Vom Geist der Liturgie<\/em>. 1918.<br \/>\nHALBWACHS, M. <em>On Collective Memory<\/em>. Chicago: University of Chicago Press, 1992.<br \/>\nNEWMAN, J. H. <em>An Essay on the Development of Christian Doctrine<\/em>. 1845\/1878.<br \/>\nRATZINGER, J. <em>The Spirit of the Liturgy<\/em>. San Francisco: Ignatius Press.<br \/>\nRATZINGER, J. <em>The Feast of Faith<\/em>. San Francisco: Ignatius Press, 1986.<br \/>\nSCHILLEBEECKX, E. <em>Christ, the Sacrament of the Encounter with God<\/em>. New York: Sheed and Ward, 1963.<br \/>\nCONC\u00cdLIO VATICANO II. <em>Sacrosanctum Concilium<\/em>, 1963.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mem\u00f3ria, institui\u00e7\u00e3o e promessa na exist\u00eancia hist\u00f3rica do cristianismo Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo Resumo O cristianismo n\u00e3o se funda num sistema cultual, mas num acontecimento, a vida, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus de Nazar\u00e9. Esse acontecimento, por\u00e9m, para perdurar na hist\u00f3ria, transforma\u2011se em mem\u00f3ria e esta, para ser comunicada e vivida, encarna\u2011se em ritos, &hellip; <a href=\"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11382\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">A PRIMAZIA DO ACONTECIMENTO E A NECESSIDADE DA FORMA<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[3,15,4,7,8,16],"tags":[],"class_list":["post-11382","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-arte","category-cultura","category-educacao","category-politica","category-religiao","category-sociedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/11382","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=11382"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/11382\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11383,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/11382\/revisions\/11383"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=11382"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=11382"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=11382"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}