{"id":11359,"date":"2026-08-27T11:33:23","date_gmt":"2026-08-27T10:33:23","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11359"},"modified":"2026-08-27T11:33:23","modified_gmt":"2026-08-27T10:33:23","slug":"251-aniversario-de-hegel-entre-a-razao-sistematica-e-o-misterio-do-real","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11359","title":{"rendered":"251\u00b0 ANIVERS\u00c1RIO DE HEGEL: ENTRE A RAZ\u00c3O SISTEM\u00c1TICA E O MIST\u00c9RIO DO REAL"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>O legado de um pensador em processo<\/strong> <strong>para al\u00e9m do &#8220;ou&#8230; ou&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>Georg Wilhelm Friedrich Hegel nasceu h\u00e1 251 anos, a 27 de agosto de 1770, em Estugarda, e a sua sombra ou brilho ainda se alonga sobre a filosofia contempor\u00e2nea. Mais do que celebrar um monumento intelectual, importa reconhecer nele um pensador que fez da contradi\u00e7\u00e3o o motor do pensamento, li\u00e7\u00e3o que permanece extraordinariamente viva.<\/p>\n<p>Hegel ensinou-nos que &#8220;tudo o que \u00e9 racional \u00e9 real e tudo o que \u00e9 real \u00e9 racional&#8221;, f\u00f3rmula tantas vezes mal compreendida como defesa do status quo, quando na verdade constitui um chamamento \u00e0 inteligibilidade do mundo. O seu grande contributo foi resgatar a filosofia do pensamento bin\u00e1rio do &#8220;ou\u2026 ou&#8221; para a elevar \u00e0 tens\u00e3o fecunda do &#8220;e\u2026 e&#8221;: a realidade n\u00e3o se esgota em op\u00e7\u00f5es excludentes, mas revela-se no movimento dial\u00e9tico que inclui a contradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O pensamento hegeliano \u00e9, antes de mais, um pensamento em processo. Esta intui\u00e7\u00e3o, que a verdade n\u00e3o \u00e9 uma posse, mas uma caminhada, repercute profundamente a espiritualidade crist\u00e3, nomeadamente na sua compreens\u00e3o trinit\u00e1ria da rela\u00e7\u00e3o como categoria \u00faltima do real. O Professor Dr. Joaquim Teixeira, com a lucidez que lhe \u00e9 pr\u00f3pria, aponta contudo para o calcanhar de Aquiles hegeliano, porque ao tematizar o Esp\u00edrito fora do elemento da consci\u00eancia, Hegel teria tra\u00eddo a fenomenologia pela l\u00f3gica, sacrificando a pessoa singular, descont\u00ednua e irredut\u00edvel, ao altar do Sistema.<\/p>\n<p><strong>Uma cr\u00edtica \u00e0 ontologia grega que aprisiona o divino<\/strong><\/p>\n<p>Esta tens\u00e3o leva-me a uma reflex\u00e3o que gostaria de acrescentar. A ontologia hegeliana, na sua g\u00e9nese, permanece presa a uma arquitetura filos\u00f3fica de raiz grega, nomeadamente \u00e0 heran\u00e7a de Parm\u00e9nides e de Arist\u00f3teles, que privilegia o ser como presen\u00e7a, como identidade, como fundamento est\u00e1vel. O &#8220;Sistema&#8221; hegeliano \u00e9 a apoteose dessa heran\u00e7a: tudo deve encontrar o seu lugar, tudo deve ser reconduzido \u00e0 coer\u00eancia da Ideia.<\/p>\n<p>Mas ser\u00e1 esta a \u00fanica forma de arquitectar o pensamento? Haver\u00e1 modos de abordagem \u00e0 realidade que escapem ao primado da identidade e \u00e0 viol\u00eancia da s\u00edntese?<\/p>\n<p>Creio que sim. H\u00e1 uma tradi\u00e7\u00e3o, que poder\u00edamos chamar, com cautela, &#8220;m\u00edstica&#8221;, que nos ensina a habitar a realidade de modo distinto. N\u00e3o se trata de abandonar a raz\u00e3o, mas de reconhecer que o real nos ultrapassa, que h\u00e1 um excesso que o conceito n\u00e3o captura, que a verdade se manifesta tanto na apophasis (na nega\u00e7\u00e3o que abre) como na cataphasis (na afirma\u00e7\u00e3o que delimita).<\/p>\n<p>O elemento m\u00edstico, que frequentemente associamos ao &#8220;feminino&#8221;, n\u00e3o no sentido biol\u00f3gico, mas simb\u00f3lico (necess\u00e1rio na nossa matriz antropol\u00f3gica que deveria ser uma matriz antropoginel\u00f3gica): abertura, acolhimento, rela\u00e7\u00e3o, n\u00e3o-domina\u00e7\u00e3o, oferece-nos uma chave hermen\u00eautica mais universal do que a dial\u00e9ctica hegeliana o faria supor. A m\u00edstica n\u00e3o se op\u00f5e \u00e0 raz\u00e3o; antes, recorda-lhe os seus limites. Onde Hegel constr\u00f3i pir\u00e2mides conceptuais, a m\u00edstica reside nas grutas de sil\u00eancio. Onde Hegel procura a totalidade, a m\u00edstica celebra o fragmento que remete para o Todo sem o pretender conter.<\/p>\n<p>Pensemos em autores como Pseudo-Dion\u00edsio, Mestre Eckhart, ou mesmo, no nosso tempo, Eugen Drewermann, Karl Rahner, Raimon Panikkar, Simone Weil, todos eles nos lembram que o acesso ao real se faz tamb\u00e9m por uma epistemologia do n\u00e3o-saber, por uma raz\u00e3o que se abre \u00e0 transcend\u00eancia sem a reduzir a conceito. Esta tradi\u00e7\u00e3o, infelizmente, permaneceu marginal no grande edif\u00edcio hegeliano, precisamente porque nele o Esp\u00edrito \u00e9 pensado fora da consci\u00eancia viva, como se a verdade se realizasse nas entrelinhas da hist\u00f3ria, independentemente da experi\u00eancia concreta das pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Hegel revisitado sugere a necessidade de uma raz\u00e3o encarnada<\/p>\n<p>N\u00e3o pretendo, com isto, rejeitar Hegel. Seria ingratid\u00e3o e cegueira. Dele aprendemos que o pensamento \u00e9 hist\u00f3rico, que a verdade se faz no tempo, que a contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 fecunda, que a realidade \u00e9 a-perspectiva e , nesse sentido, pass\u00edvel de ser sempre observada de um ponto de vista renovado. O que proponho \u00e9 uma releitura: uma apropria\u00e7\u00e3o cr\u00edtica que saiba integrar a m\u00edstica como dimens\u00e3o indispens\u00e1vel do pensar.<\/p>\n<p>O Professor Joaquim Teixeira tem raz\u00e3o ao afirmar que Hegel &#8220;n\u00e3o soube pensar a pessoa como descont\u00ednua, singular e \u00fanica&#8221;. Talvez lhe tenha faltado precisamente essa sensibilidade m\u00edstica que reconhece no outro uma alteridade inassimil\u00e1vel, um rosto que n\u00e3o cabe na totalidade do conceito. Talvez o seu sistema seja demasiado masculino,\u00a0 no sentido de arquitect\u00f3nico, vertical, de dom\u00ednio conceptual e demasiado pouco feminino, pouco religioso no sentido de acolhedor, horizontal, relacional.<\/p>\n<p>Husserl, ao colocar no seu gabinete o letreiro &#8220;Aqui n\u00e3o entra a Dial\u00e9ctica&#8221;, n\u00e3o negava a import\u00e2ncia de Hegel; antes, reivindicava um espa\u00e7o para a experi\u00eancia vivida, para a consci\u00eancia intencional, para aquilo que escapa \u00e0 engrenagem conceptual. \u00c9 esse espa\u00e7o que tamb\u00e9m n\u00f3s devemos preservar.<\/p>\n<p><strong>O verdadeiro \u00e9 tamb\u00e9m o n\u00e3o-dito<\/strong><\/p>\n<p>Celebrar Hegel aos 251 anos \u00e9 reconhecer que o seu pensamento, como tudo o que \u00e9 vivo, continua em processo. A dial\u00e9ctica n\u00e3o se esgota na obra do mestre de Estugarda; ela exige ser continuada, repensada, talvez mesmo tra\u00edda para ser fiel ao seu esp\u00edrito mais profundo.<\/p>\n<p>O &#8220;verdadeiro \u00e9 o todo&#8221;, mas o todo s\u00f3 o \u00e9 se incluir tamb\u00e9m o que n\u00e3o se deixa dizer, o que permanece misterioso, o que s\u00f3 se revela na rela\u00e7\u00e3o e no sil\u00eancio. A filosofia futura ter\u00e1 de aprender a dialogar com a m\u00edstica, a integrar o elemento feminino na arquitectura do pensar, a reconhecer que a realidade tem tantos rostos quantos os humanos que a contemplam e talvez ainda mais.<\/p>\n<p>Nesse sentido, Hegel continua a ser um companheiro indispens\u00e1vel, desde que saibamos ler nele tamb\u00e9m o que ele n\u00e3o disse, ou n\u00e3o p\u00f4de dizer. A sua grandeza est\u00e1 em nos ter aberto o caminho do processo; a nossa responsabilidade est\u00e1 em continu\u00e1-lo, com a humildade de quem sabe que a verdade n\u00e3o se possui, mas se procura e que a procura, ela mesma, j\u00e1 \u00e9 parte da verdade.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Pegadas do Tempo \u00a9<\/p>\n<p>ORCID: https:\/\/orcid.org\/0009-0003-6251-1578<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O legado de um pensador em processo para al\u00e9m do &#8220;ou&#8230; ou&#8221; Georg Wilhelm Friedrich Hegel nasceu h\u00e1 251 anos, a 27 de agosto de 1770, em Estugarda, e a sua sombra ou brilho ainda se alonga sobre a filosofia contempor\u00e2nea. 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