{"id":11339,"date":"2026-08-22T16:26:40","date_gmt":"2026-08-22T15:26:40","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11339"},"modified":"2026-08-22T17:07:51","modified_gmt":"2026-08-22T16:07:51","slug":"a-instrumentalizacao-da-pobreza-e-a-cegueira-selectiva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11339","title":{"rendered":"A INSTRUMENTALIZA\u00c7\u00c3O DA POBREZA E A CEGUEIRA SELECTIVA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\">A Pobreza n\u00e3o \u00e9 Moeda pol\u00edtica dos de Ontem nem dos de Hoje<\/p>\n<p>Observa-se, no debate p\u00fablico portugu\u00eas a tend\u00eancia preocupante da utiliza\u00e7\u00e3o da pobreza do passado como arma de arremesso pol\u00edtico. Fotografias de mis\u00e9ria de outrora s\u00e3o ciclicamente recuperadas para, por contraste, glorificar o presente ou desacreditar o regime anterior. Esta estrat\u00e9gia, no entanto, peca por uma omiss\u00e3o gritante que \u00e9 o esquecimento dos pobres de hoje.<\/p>\n<p>A l\u00f3gica \u00e9 perversa. Ao fixar o olhar na fome de antigamente, desvia-se a aten\u00e7\u00e3o da fome que ainda existe, dos sem-abrigo que pernoitam nas nossas cidades, das fam\u00edlias que recorrem aos bancos alimentares. Ser\u00e1 que a cr\u00edtica ao passado mata a fome do presente? Certamente que n\u00e3o porque os que fazem uso disso n\u00e3o s\u00e3o os pobres, mas sim os que se aproveitam do atual sistema. Trata-se, pura e simplesmente, de instrumentaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Falar mal do ontem serve para branquear as m\u00e1culas do hoje e justificar os benefici\u00e1rios do sistema atual, criando uma cortina de fuma\u00e7a que impede a an\u00e1lise cr\u00edtica da realidade contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>Esta abordagem revela uma pobreza intelectual e moral. Ao reduzir a Hist\u00f3ria a um jogo de &#8220;n\u00f3s contra eles&#8221;, esquece-se que tanto ontem como hoje o mundo serve as elites. A diferen\u00e7a reside na forma, n\u00e3o na ess\u00eancia da explora\u00e7\u00e3o ou do esquecimento. Enquanto os partid\u00e1rios de um regime apontam o dedo ao advers\u00e1rio, os verdadeiros problemas estruturais, como seja a precariedade laboral, o custo de vida, a emigra\u00e7\u00e3o qualificada, permanecem na sombra. \u00c9 necess\u00e1rio um exerc\u00edcio de honestidade que consta em reconhecer as luzes e as sombras de todos os ciclos pol\u00edticos, sem cair na armadilha de discutir quem foi pior, mas sim como podemos melhorar a vida de todos hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>A Armadilha da Mem\u00f3ria e a Necessidade de Esp\u00edrito cr\u00edtico<\/strong><\/p>\n<p>A repeti\u00e7\u00e3o exaustiva das mazelas do passado que se observa em narrativas partid\u00e1rias tem um objetivo claro: criar uma narrativa bin\u00e1ria que divide o pa\u00eds entre &#8220;bons&#8221; e &#8220;maus&#8221;, servindo interesses partid\u00e1rios leg\u00edtimos, mas n\u00e3o o povo. Ao transformar a pobreza num cart\u00e3o de visita pol\u00edtico, distrai-se a popula\u00e7\u00e3o do naco de p\u00e3o que recebe dos senhores de ontem e de hoje. A inten\u00e7\u00e3o subjacente a estas fotos e discursos \u00e9 fazer com que nos distraiamos do mal presente, aquele que deveria realmente importar-nos e de que seria oportuno falar.<\/p>\n<p>Custa ver tantas refer\u00eancias aos pobres de antigamente e t\u00e3o poucas refer\u00eancias aos pobres de hoje. A realidade mostra que, apesar do crescimento econ\u00f3mico, a pobreza persistiu e adaptou-se. Os bairros de barracas de Lisboa ou Almada s\u00e3o a prova viva de que a fotografia social s\u00f3 difere nas pessoas, n\u00e3o na exclus\u00e3o. No entanto, a energia necess\u00e1ria para observar a pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o e procurar mud\u00e1-la \u00e9 desviada para debates est\u00e9reis sobre a terra de cada um ou a qualidade de vida no Alentejo de 1960 ou imagens da emigra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 important\u00edssimo que as pessoas acordem para esta manipula\u00e7\u00e3o. Compara\u00e7\u00f5es cr\u00edticas s\u00e3o positivas se servirem o povo, mas s\u00e3o nefastas se estiverem ao servi\u00e7o de uma op\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria. Precisamos de mais esp\u00edritos cr\u00edticos em servi\u00e7o de toda a na\u00e7\u00e3o e menos soldados de causas alheias, que marcham ao som de interesses que n\u00e3o s\u00e3o os seus. A pobreza mental, que nos torna repetidores de slogans, \u00e9 o maior obst\u00e1culo \u00e0 mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>Precisa-se de valentia, como se p\u00f4de observar nos emigrantes que para o serem tiveram a coragem de quererem melhorar a vida; tamb\u00e9m para melhorar o pa\u00eds, \u00e9 preciso ter a coragem de ver para al\u00e9m da propaganda e exigir pol\u00edticas para os pobres de hoje, n\u00e3o apenas lamentos pelos pobres de ontem.<\/p>\n<p><strong>A<\/strong><strong>nt\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><br \/>\nPegadas do Tempo<br \/>\nORCID: <a href=\"https:\/\/orcid.org\/0009-0003-6251-1578\">https:\/\/orcid.org\/0009-0003-6251-1578<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Pobreza n\u00e3o \u00e9 Moeda pol\u00edtica dos de Ontem nem dos de Hoje Observa-se, no debate p\u00fablico portugu\u00eas a tend\u00eancia preocupante da utiliza\u00e7\u00e3o da pobreza do passado como arma de arremesso pol\u00edtico. 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