{"id":11330,"date":"2026-08-19T22:43:50","date_gmt":"2026-08-19T21:43:50","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11330"},"modified":"2026-08-19T22:43:50","modified_gmt":"2026-08-19T21:43:50","slug":"o-iferno-a-linguagem-da-eternidade-e-a-esperanca-da-reconciliacao-universal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11330","title":{"rendered":"O IFERNO, A LINGUAGEM DA ETERNIDADE E A ESPERAN\u00c7A DA RECONCILIA\u00c7\u00c3O UNIVERSAL"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Entre a fidelidade \u00e0s Escrituras, a responsabilidade hermen\u00eautica e o primado do amor<\/strong><\/p>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Poucas representa\u00e7\u00f5es religiosas exerceram sobre a consci\u00eancia ocidental uma influ\u00eancia t\u00e3o profunda como a imagem do inferno. Durante s\u00e9culos, o fogo, as trevas, o julgamento e a condena\u00e7\u00e3o foram utilizados n\u00e3o apenas como s\u00edmbolos escatol\u00f3gicos, mas tamb\u00e9m como instrumentos pedag\u00f3gicos destinados a despertar a consci\u00eancia moral. N\u00e3o se pode negar que essas imagens pertencem \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica e crist\u00e3. Mas outra quest\u00e3o, bem mais complexa, consiste em saber o que significam, de onde procedem e se autorizam a constru\u00e7\u00e3o de uma doutrina segundo a qual Deus manteria criaturas humanas em sofrimento consciente e intermin\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u00c9 precisamente aqui que a exegese contempor\u00e2nea exige prud\u00eancia. A pergunta decisiva n\u00e3o deveria ser simplesmente: \u00abExiste o inferno?\u00bb, mas antes: que realidade designam as diferentes palavras que as tradu\u00e7\u00f5es acabaram por reunir sob a \u00fanica palavra \u201cinferno\u201d? E, mais profundamente ainda: como podem as afirma\u00e7\u00f5es b\u00edblicas acerca do ju\u00edzo ser compreendidas \u00e0 luz do centro da revela\u00e7\u00e3o crist\u00e3 que \u00e9 Jesus Cristo crucificado e ressuscitado, no qual Deus reconcilia o mundo consigo?<\/p>\n<p>Uma teologia respons\u00e1vel n\u00e3o elimina os textos dif\u00edceis. Tamb\u00e9m n\u00e3o constr\u00f3i sobre eles uma metaf\u00edsica do terror. Interpreta-os dentro do conjunto das Escrituras, da hist\u00f3ria das ideias religiosas, dos g\u00e9neros liter\u00e1rios e, sobretudo, da revela\u00e7\u00e3o de Deus em Cristo.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o existe uma \u00fanica palavra b\u00edblica correspondente ao nosso \u201cinferno\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Um primeiro problema \u00e9 lingu\u00edstico. Aquilo que muitas tradu\u00e7\u00f5es antigas reuniram sob palavras equivalentes a \u201cinferno\u201d corresponde, nos textos b\u00edblicos, a conceitos diferentes: Sheol, Hades, Gehenna, al\u00e9m de outras imagens como fogo, trevas exteriores, perdi\u00e7\u00e3o e segunda morte.<\/p>\n<p>Confundi-los produz inevitavelmente confus\u00e3o teol\u00f3gica. O Sheol hebraico designa, sobretudo nas camadas mais antigas do Antigo Testamento, a morada dos mortos.<\/p>\n<p>N\u00e3o corresponde simplesmente ao posterior inferno crist\u00e3o entendido como lugar de tortura dos condenados. \u00c9 o dom\u00ednio da morte, do sil\u00eancio, da aus\u00eancia da vida tal como esta \u00e9 experimentada sobre a terra.<\/p>\n<p>O termo grego Hades, utilizado inclusive pela Septuaginta para traduzir Sheol, desempenha frequentemente fun\u00e7\u00e3o semelhante. \u00c9 significativo que a pr\u00f3pria tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica reconhe\u00e7a esta distin\u00e7\u00e3o: ao explicar a express\u00e3o do Credo segundo a qual Cristo \u00abdesceu aos infernos\u00bb, o Catecismo identifica esses \u00abinfernos\u00bb com o Sheol hebraico e o Hades grego, isto \u00e9, a morada dos mortos e n\u00e3o com o inferno dos condenados.<\/p>\n<p>Temos aqui uma distin\u00e7\u00e3o fundamental.<\/p>\n<p>Quando confessamos que Cristo \u201cdesceu aos infernos\u201d, n\u00e3o confessamos que Jesus tenha sido condenado por Deus. Confessamos que entrou verdadeiramente na morte humana e que nenhuma profundidade da exist\u00eancia permaneceu exterior \u00e0 a\u00e7\u00e3o salvadora de Deus.<\/p>\n<p>A antiga imagem crist\u00e3 da \u201cdescensus ad \u00ednferos\u201d possui, portanto, uma extraordin\u00e1ria for\u00e7a teol\u00f3gica: Cristo procura o ser humano precisamente onde este parece definitivamente perdido. A P\u00e1scoa come\u00e7a, paradoxalmente, no fundo da morte.<\/p>\n<p><strong>Gehenna n\u00e3o \u00e9 Hades<\/strong><\/p>\n<p>Outra palavra decisiva \u00e9 Gehenna (g\u00e9enna). A palavra deriva do hebraico Ge-Hinnom, o vale de Hinnom, situado junto de Jerusal\u00e9m e associado, no Antigo Testamento, a pr\u00e1ticas religiosas condenadas pelos profetas, incluindo sacrif\u00edcios de crian\u00e7as. Progressivamente, o nome adquiriu uma significa\u00e7\u00e3o escatol\u00f3gica e tornou-se s\u00edmbolo do julgamento divino.<\/p>\n<p>Nos Evangelhos, portanto, quando Jesus fala da Gehenna, n\u00e3o est\u00e1 simplesmente a utilizar outra palavra para Sheol ou Hades. Est\u00e1 a recorrer a uma poderosa imagem judaica de julgamento.<\/p>\n<p>Isto obriga-nos simultaneamente a evitar dois extremos. O primeiro seria dizer que Jesus nunca falou seriamente de julgamento, porque falou. O segundo extremo seria concluir que cada imagem de fogo utilizada por Jesus constitui uma descri\u00e7\u00e3o literal da geografia do al\u00e9m. Isso tamb\u00e9m ultrapassa aquilo que os textos permitem afirmar.<\/p>\n<p>Jesus emprega hip\u00e9rbole, par\u00e1bola, imagens apocal\u00edpticas e linguagem simb\u00f3lica. O fogo pode representar julgamento, destrui\u00e7\u00e3o, purifica\u00e7\u00e3o, manifesta\u00e7\u00e3o da verdade ou consuma\u00e7\u00e3o. O contexto e que deve decidir o seu significado.<\/p>\n<p>Consequentemente, a alternativa n\u00e3o \u00e9 entre acreditar literalmente num gigantesco espa\u00e7o subterr\u00e2neo de combust\u00e3o eterna e eliminar qualquer realidade do ju\u00edzo divino.<\/p>\n<p>Existe uma possibilidade, teologicamente muito mais fecunda que \u00e9 tomar absolutamente a s\u00e9rio o ju\u00edzo sem transformar a sua imag\u00e9tica numa f\u00edsica do al\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>O juda\u00edsmo do tempo de Jesus n\u00e3o possu\u00eda uma \u00fanica doutrina sobre o al\u00e9m<\/strong><\/p>\n<p>O juda\u00edsmo antigo n\u00e3o era uniforme. No per\u00edodo do Segundo Templo coexistiam conce\u00e7\u00f5es diversas sobre morte, ressurrei\u00e7\u00e3o, julgamento e destino dos \u00edmpios. Encontramos imagens de aniquila\u00e7\u00e3o, castigo, purifica\u00e7\u00e3o, ressurrei\u00e7\u00e3o, vida futura e tamb\u00e9m, em determinados textos, puni\u00e7\u00e3o duradoura ou definitiva. A literatura de Enoque, por exemplo, desenvolve imagens de Gehenna e de julgamento que v\u00e3o bastante al\u00e9m do antigo conceito de Sheol.<\/p>\n<p>Posteriormente, a tradi\u00e7\u00e3o rab\u00ednica tamb\u00e9m n\u00e3o apresentou uma \u00fanica doutrina. Encontram-se tradi\u00e7\u00f5es nas quais a perman\u00eancia na Gehenna \u00e9 limitada, por exemplo, a doze meses, juntamente com tradi\u00e7\u00f5es que reservam um destino mais grave a determinadas categorias de pecadores.<\/p>\n<p>A doutrina sistem\u00e1tica de uma tortura consciente, uniforme e intermin\u00e1vel de todos os condenados n\u00e3o pode simplesmente ser projetada sobre todo o juda\u00edsmo b\u00edblico ou sobre o juda\u00edsmo do tempo de Jesus.<\/p>\n<p><strong>Ai\u014dnios \u00e9 uma palavra mais complexa do que permitem certas tradu\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>No centro da discuss\u00e3o encontra-se o adjetivo grego \u03b1\u1f30\u03ce\u03bd\u03b9\u03bf\u03c2 (ai\u014dnios), particularmente importante em Mateus 25,46: \u201cE ir\u00e3o estes para o castigo ai\u014dnios e os justos para a vida ai\u014dnios.\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 tentador resolver toda a quest\u00e3o recorrendo ao dicion\u00e1rio: ai\u014dnios viria de ai\u014dn, \u00abera\u00bb, portanto, significaria exclusivamente \u00abdurante uma era\u00bb e nunca \u00abeterno\u00bb. Linguisticamente n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil a quest\u00e3o devido \u00e0 complexidade lexical da palavra ai\u014dnios.<\/p>\n<p>Os l\u00e9xicos do grego antigo atribuem a ai\u014dnios uma gama sem\u00e2ntica que inclui duradouro, pertencente a uma era, perp\u00e9tuo e eterno, dependendo do contexto. O pr\u00f3prio termo pode ser aplicado a Deus. N\u00e3o seria cientificamente correto declarar que ai\u014dnios significa necessariamente \u00abtempor\u00e1rio\u00bb, mas tamb\u00e9m \u00e9 excessivo proceder no sentido contr\u00e1rio e imaginar que a simples presen\u00e7a de ai\u014dnios resolve automaticamente toda a quest\u00e3o filos\u00f3fica acerca de uma dura\u00e7\u00e3o temporal infinita.<\/p>\n<p>As palavras adquirem significado dentro das frases, dos textos e dos universos culturais. A quest\u00e3o de Mateus 25,46 n\u00e3o pode, portanto, ser resolvida apenas por etimologia.<\/p>\n<p>Ai\u014dnios pode possuir uma dimens\u00e3o qualitativa e escatol\u00f3gica: aquilo que pertence ao ai\u014dn vindouro, ao mundo definitivo de Deus.<\/p>\n<p>Assim, \u00abvida eterna\u00bb n\u00e3o significa apenas uma vida cronologicamente intermin\u00e1vel. No Evangelho de Jo\u00e3o, a vida eterna come\u00e7a j\u00e1 na comunh\u00e3o com Deus. \u00c9 uma qualidade de exist\u00eancia antes de ser simplesmente uma quantidade infinita de tempo.<\/p>\n<p>Isto aconselha grande prud\u00eancia quando se transforma o adjetivo ai\u014dnios numa esp\u00e9cie de cron\u00f3metro metaf\u00edsico.<\/p>\n<p><strong>A quest\u00e3o maior n\u00e3o \u00e9 lexical, mas cristol\u00f3gica<\/strong><\/p>\n<p>Mesmo que consegu\u00edssemos estabelecer com absoluta precis\u00e3o o significado de cada termo, permaneceria a quest\u00e3o decisiva: Quem \u00e9 o Deus que julga?<\/p>\n<p>Para o cristianismo, Deus n\u00e3o \u00e9 uma hip\u00f3tese metaf\u00edsica acerca da qual Jesus nos fornece posteriormente algumas informa\u00e7\u00f5es. Deus revela-se em Jesus Cristo e por isso, toda a escatologia crist\u00e3 deve ser cristol\u00f3gica.<\/p>\n<p>E aqui encontramos textos cuja amplitude n\u00e3o pode ser diminu\u00edda sem viol\u00eancia hermen\u00eautica.<\/p>\n<p>Paulo escreve que aprouve a Deus \u00abreconciliar consigo todas as coisas\u00bb por Cristo, \u00abpacificando pelo sangue da sua cruz tanto as coisas da terra como as dos c\u00e9us\u00bb (Cl 1,19-20).<\/p>\n<p>Em 1 Cor\u00edntios, depois de apresentar Cristo como o novo Ad\u00e3o, Paulo conduz a hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o para uma extraordin\u00e1ria conclus\u00e3o: \u201cpara que Deus seja tudo em todos\u201d (1 Cor 15,28).<\/p>\n<p>A Primeira Carta a Tim\u00f3teo afirma que Deus \u00abquer que todos sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade\u00bb (1 Tm 2,4).<\/p>\n<p>A Segunda Carta de Pedro declara que Deus n\u00e3o deseja \u00abque algu\u00e9m pere\u00e7a, mas que todos cheguem \u00e0 convers\u00e3o\u00bb (2 Pe 3,9).<\/p>\n<p>E a carta aos Romanos desenvolve uma impressionante simetria entre Ad\u00e3o e Cristo: se a humanidade \u00e9 atingida pela solidariedade do pecado, muito mais radical \u00e9 a gra\u00e7a manifestada no novo Ad\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel construir honestamente uma teologia do destino humano considerando apenas os textos de julgamento e silenciando estes textos de universalidade.<\/p>\n<p>O problema hermen\u00eautico nasce precisamente da coexist\u00eancia dos dois conjuntos. Existem textos de advert\u00eancia radical e existem textos de esperan\u00e7a universal. Uma teologia madura n\u00e3o mutila nenhum deles.<\/p>\n<p><strong>Or\u00edgenes e a apokatastasis<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 neste horizonte que Or\u00edgenes de Alexandria permanece uma testemunha incontorn\u00e1vel.<br \/>\nOr\u00edgenes desenvolveu a ideia da \u1f00\u03c0\u03bf\u03ba\u03b1\u03c4\u03ac\u03c3\u03c4\u03b1\u03c3\u03b9\u03c2 (apokatastasis), a restaura\u00e7\u00e3o ou consuma\u00e7\u00e3o final, procurando pensar uma vit\u00f3ria de Deus suficientemente radical para alcan\u00e7ar toda a cria\u00e7\u00e3o. A interpreta\u00e7\u00e3o exata do pensamento origeniano continua a ser discutida pela investiga\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea, pelo que n\u00e3o \u00e9 prudente reduzi-lo simplesmente \u00e0 f\u00f3rmula moderna \u00abtodos ser\u00e3o automaticamente salvos\u00bb.<\/p>\n<p>Uma intui\u00e7\u00e3o, permanece teologicamente provocadora. Se Deus \u00e9 realmente Deus, poder\u00e1 o mal possuir a \u00faltima palavra sobre uma parte da cria\u00e7\u00e3o? Se Cristo veio vencer o pecado e a morte, ser\u00e1 a vit\u00f3ria escatol\u00f3gica de Cristo apenas parcial? Se Deus \u00e9 amor, em que sentido deve ser compreendida a justi\u00e7a divina?<\/p>\n<p>Para Or\u00edgenes, o fogo divino pode ser compreendido pedagogicamente e medicinalmente: n\u00e3o simplesmente como vingan\u00e7a infligida de fora, mas como encontro doloroso da criatura com a verdade. Esta imagem possui uma for\u00e7a extraordin\u00e1ria. O \u00abfogo\u00bb de Deus n\u00e3o seria o contr\u00e1rio do seu amor, mas sim o pr\u00f3prio amor experimentado como fogo por tudo aquilo que em n\u00f3s se op\u00f5e ao amor. Nesse sentido, o ju\u00edzo n\u00e3o seria a suspens\u00e3o da miseric\u00f3rdia, mas a sua forma dolorosamente purificadora.<\/p>\n<p><strong>O inferno como encontro com a verdade<\/strong><\/p>\n<p>Esta interpreta\u00e7\u00e3o permite preservar aquilo que a linguagem tradicional do inferno pretendia defender: a seriedade da liberdade humana.<\/p>\n<p>O universalismo crist\u00e3o n\u00e3o pode significar que o mal seja irrelevante. A v\u00edtima e o carrasco n\u00e3o podem simplesmente chegar \u00e0 eternidade como se nada tivesse acontecido. A gra\u00e7a que eliminasse a verdade seria apenas amn\u00e9sia divina.<\/p>\n<p>A reconcilia\u00e7\u00e3o exige justi\u00e7a, mas a justi\u00e7a de Deus n\u00e3o necessita de ser concebida segundo a l\u00f3gica humana da vingan\u00e7a.<\/p>\n<p>Na cruz, Deus n\u00e3o derrota os inimigos, tornando-se semelhante a eles. Cristo vence o \u00f3dio suportando-o sem devolver \u00f3dio; responde \u00e0 viol\u00eancia sem reproduzir a viol\u00eancia; entra na morte e transforma-a a partir de dentro.<\/p>\n<p>A cruz \u00e9, portanto, a cr\u00edtica crist\u00e3 definitiva de qualquer representa\u00e7\u00e3o de Deus como vingador.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa que Deus diga indiferentemente: \u201cTudo \u00e9 permitido.\u201d<\/p>\n<p>Significa algo muito mais exigente: nada ficar\u00e1 escondido do amor e tudo ser\u00e1 trazido \u00e0 luz. Toda a mentira ter\u00e1 de cair. Toda a injusti\u00e7a ter\u00e1 de ser reconhecida e todo o ser humano ter\u00e1 de encontrar a verdade acerca de si pr\u00f3prio, acerca das v\u00edtimas e acerca de Deus.<\/p>\n<p>Tal encontro poder\u00e1 ser experimentado como fogo. Mas um fogo pode destruir a pessoa ou destruir aquilo que impede a pessoa de finalmente ser aquilo para que foi criada.<\/p>\n<p>\u00c9 precisamente nesta diferen\u00e7a que se joga grande parte da discuss\u00e3o entre infernalismo eterno, aniquilacionismo e esperan\u00e7a universalista.<\/p>\n<p><strong>Pode o amor obrigar algu\u00e9m a ser salvo?<\/strong><\/p>\n<p>A obje\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica ao universalismo \u00e9 a liberdade. Deus oferece amor, mas o ser humano pode recus\u00e1-lo. Se Deus obrigasse finalmente todos a aceit\u00e1-lo, n\u00e3o destruiria a liberdade que ele pr\u00f3prio criou?<\/p>\n<p>Esta obje\u00e7\u00e3o \u00e9 s\u00e9ria, mas pressup\u00f5e uma determinada defini\u00e7\u00e3o de liberdade: ser livre significaria possuir eternamente a possibilidade de escolher contra o pr\u00f3prio bem.<\/p>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 oferece outra possibilidade. Quanto mais algu\u00e9m conhece a verdade e ama o bem, mais livre se torna. Mas deste modo, Deus n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria entre outras, porque se Deus \u00e9 o Bem absoluto, a Verdade e o fundamento do nosso ser, ent\u00e3o afastar-se definitivamente de Deus n\u00e3o seria a perfei\u00e7\u00e3o da liberdade, mas a sua trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>O pecado \u00e9 entendido precisamente como liberdade ferida porque escolhemos contra n\u00f3s pr\u00f3prios pois n\u00e3o vemos plenamente e somos dominados pelo medo, pelo ego\u00edsmo, pela ignor\u00e2ncia ou pelas nossas feridas.<\/p>\n<p>Da\u00ed nasce uma pergunta extraordinariamente profunda: que aconteceria se uma criatura encontrasse Deus finalmente sem m\u00e1scaras, sem ilus\u00f5es, sem ignor\u00e2ncia e descobrisse que Aquele que julgava ser seu inimigo sempre a amou?<\/p>\n<p>A esperan\u00e7a universalista responde que ent\u00e3o a liberdade talvez n\u00e3o seja anulada, mas finalmente libertada.<\/p>\n<p><strong>O inferno e a pedagogia do medo<\/strong><\/p>\n<p>A quest\u00e3o deixa aqui de ser apenas exeg\u00e9tica para se tornar pastoral. A hist\u00f3ria religiosa mostra como a amea\u00e7a da condena\u00e7\u00e3o p\u00f4de ser utilizada para disciplinar consci\u00eancias. Isso n\u00e3o significa que toda a prega\u00e7\u00e3o do julgamento tenha sido manipula\u00e7\u00e3o consciente. Muitas gera\u00e7\u00f5es transmitiram sinceramente aquilo que julgavam ser a verdade.<\/p>\n<p>Mas uma verdade religiosa pode transformar-se em mecanismo de poder quando o medo ocupa o lugar da consci\u00eancia. Por isso a pr\u00f3pria Igreja confessa a consci\u00eancia individual como soberana<\/p>\n<p>Sempre que uma institui\u00e7\u00e3o religiosa necessita de aterrorizar para convencer, a pr\u00f3pria forma da evangeliza\u00e7\u00e3o deve ser examinada criticamente.<\/p>\n<p>Jesus advertiu, certamente, mas tamb\u00e9m repetiu: \u201cN\u00e3o tenhais medo\u201d e Evangelho significa literalmente Boa Nova.<\/p>\n<p>Uma mensagem cujo n\u00facleo psicol\u00f3gico fosse \u00abama Deus porque, se n\u00e3o o amares, ele atormentar-te-\u00e1 eternamente\u00bb produziria uma contradi\u00e7\u00e3o quase insol\u00favel.<\/p>\n<p>O medo pode produzir submiss\u00e3o, n\u00e3o pode produzir amor, como refere Jo\u00e3o: \u00abno amor n\u00e3o h\u00e1 temor; o perfeito amor lan\u00e7a fora o temor, porque o temor sup\u00f5e castigo\u00bb (1 Jo 4,18).<\/p>\n<p>Nenhum texto ser\u00e1 pastoralmente mais importante para esta discuss\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Kierkegaard: quando a culpa religiosa atravessa gera\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>A fam\u00edlia de S\u00f8ren Kierkegaard constitui um caso particularmente impressionante da for\u00e7a psicol\u00f3gica que a culpa religiosa pode adquirir.<\/p>\n<p>Michael Pedersen Kierkegaard, pai do fil\u00f3sofo, crescera em condi\u00e7\u00f5es pobres na Jutl\u00e2ndia. A tradi\u00e7\u00e3o biogr\u00e1fica, que deve ser relatada com alguma cautela hist\u00f3rica, conta que, ainda rapaz e entregue ao pastoreio, atormentado pelo frio, pela fome e pela solid\u00e3o, amaldi\u00e7oou Deus. Mais tarde interpretou esse acontecimento como uma culpa terr\u00edvel e acreditou que uma esp\u00e9cie de maldi\u00e7\u00e3o pairava sobre a fam\u00edlia. A morte de v\u00e1rios dos seus filhos refor\u00e7ou essa leitura providencial sombria. A investiga\u00e7\u00e3o sobre Kierkegaard confirma a profunda influ\u00eancia da religiosidade melanc\u00f3lica do pai sobre o filho, embora alguns pormenores da narrativa familiar permane\u00e7am objeto de interpreta\u00e7\u00e3o biogr\u00e1fica.<\/p>\n<p>Nesta hist\u00f3ria encontramos algo pastoralmente decisivo. Uma crian\u00e7a que aprende que Deus observa os seus pensamentos para puni-la pode tornar-se adulta e continuar interiormente diante de um tribunal. A imagem de Deus converte-se ent\u00e3o numa voz interior acusadora e pode atravessar gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Kierkegaard transformaria o desespero numa das categorias centrais da sua antropologia. Para ele, o infernal pode come\u00e7ar j\u00e1 na incapacidade de o eu se reconciliar consigo pr\u00f3prio diante de Deus.<\/p>\n<p>Independentemente das conclus\u00f5es escatol\u00f3gicas do fil\u00f3sofo, permanece uma advert\u00eancia: a maneira como falamos de Deus entra na estrutura ps\u00edquica das pessoas e por isso, a linguagem nunca \u00e9 inocente. Quem prega possui uma responsabilidade enorme.<\/p>\n<p><strong>Deus \u00e9 Pai e transcende a masculinidade<\/strong><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m merece aten\u00e7\u00e3o a linguagem de Deus como Pai; o aramaico Abba significa linguisticamente \u00abpai\u00bb e exprime rela\u00e7\u00e3o filial e proximidade.<\/p>\n<p>Mas da\u00ed n\u00e3o se segue que Deus seja masculino. A teologia crist\u00e3 cl\u00e1ssica nunca poderia identificar simplesmente Deus com um sexo biol\u00f3gico. Deus transcende masculino e feminino e ambos pertencem \u00e0 cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a pr\u00f3pria B\u00edblia utiliza imagens maternas para falar de Deus: Deus consola como uma m\u00e3e (Is 66,13); n\u00e3o esquece o filho do seu ventre (Is 49,15); Jesus compara o seu desejo de reunir Jerusal\u00e9m ao de uma ave que recolhe os pintainhos debaixo das asas (Mt 23,37).<\/p>\n<p>Portanto, \u00e9 teologicamente leg\u00edtimo falar da dimens\u00e3o paternal e maternal do amor divino.<\/p>\n<p>Deus \u00e9 chamado Pai n\u00e3o porque seja homem, mas porque \u00e9 origem, rela\u00e7\u00e3o, dom e amor e at\u00e9 a palavra \u00abPai\u00bb permanece uma analogia. Deus \u00e9 sempre maior do que os nossos nomes para Deus e o nosso falar sobre Deus \u00e9 sempre de caracter humano.<\/p>\n<p><strong>&#8220;N\u00e3o julgueis&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>Jesus encontra pecadores sem negar o pecado, o que \u00e9 fundamental.<\/p>\n<p>Na tradi\u00e7\u00e3o dos evangelhos, miseric\u00f3rdia n\u00e3o significa relativismo moral. Significa que a verdade sobre uma pessoa nunca se reduz ao seu pecado.<\/p>\n<p>\u00abN\u00e3o julgueis, para n\u00e3o serdes julgados\u00bb (Mt 7,1) n\u00e3o elimina o discernimento moral. Elimina a pretens\u00e3o de ocuparmos o lugar \u00faltimo de Deus perante outra consci\u00eancia.<\/p>\n<p>Existe aqui uma ironia hist\u00f3rica particularmente grave.<\/p>\n<p>A doutrina do inferno deve recordar ao ser humano que Deus \u00e9 o juiz, n\u00e3o podendo declarar quem estaria condenado.<\/p>\n<p>A escatologia n\u00e3o se pode converter em arrog\u00e2ncia religiosa. Nenhum crist\u00e3o recebeu de Cristo a miss\u00e3o de povoar o inferno. Recebeu a miss\u00e3o de anunciar o Evangelho.<\/p>\n<p><strong>A posi\u00e7\u00e3o tradicional da Igreja n\u00e3o deve ser ocultada<\/strong><\/p>\n<p>A doutrina oficial da Igreja Cat\u00f3lica continua a afirmar a exist\u00eancia e a eternidade do inferno, entendido fundamentalmente como \u201csepara\u00e7\u00e3o eterna de Deus\u201d. Afirma igualmente que Deus n\u00e3o predestina ningu\u00e9m ao inferno e relaciona a perdi\u00e7\u00e3o com a recusa livre e definitiva da miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>A reconcilia\u00e7\u00e3o universal n\u00e3o \u00e9 doutrina oficial cat\u00f3lica. Mas a pr\u00f3pria tradi\u00e7\u00e3o mant\u00e9m uma tens\u00e3o extremamente significativa: a Igreja que afirma a possibilidade da perdi\u00e7\u00e3o definitiva \u00e9 a mesma que confessa que Deus \u201cquer que todos os homens sejam salvos\u201d e reza para que ningu\u00e9m se perca.<\/p>\n<p>Essa tens\u00e3o n\u00e3o deve ser resolvida artificialmente porque nela \u00e9 que a esperan\u00e7a crist\u00e3 deva habitar.<\/p>\n<p>O crist\u00e3o n\u00e3o necessita de afirmar dogmaticamente: \u201cEu sei que todos ser\u00e3o salvos.\u201d E tamb\u00e9m n\u00e3o tem qualquer obriga\u00e7\u00e3o espiritual de desejar que algu\u00e9m seja condenado. Pode e deve esperar contra toda a esperan\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>Esperar a salva\u00e7\u00e3o de todos n\u00e3o significa declarar antecipadamente o resultado<\/strong><\/p>\n<p>Aqui torna-se preciosa uma distin\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica. Existe diferen\u00e7a entre universalismo dogm\u00e1tico e esperan\u00e7a universal. O universalismo dogm\u00e1tico afirmaria possuir conhecimento antecipado do destino final de todas as criaturas. A esperan\u00e7a universal entrega esse destino ao mist\u00e9rio de Deus, mas atreve-se a esperar que a miseric\u00f3rdia consiga aquilo que n\u00f3s julgamos imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>A esperan\u00e7a n\u00e3o elimina o julgamento, porque espera que o julgamento perten\u00e7a \u00e0 miseric\u00f3rdia.<br \/>\nN\u00e3o elimina o inferno, mas espera que o inferno n\u00e3o tenha a \u00faltima palavra. N\u00e3o elimina a liberdade, esperando que a gra\u00e7a possa finalmente libertar toda a liberdade escravizada. Tamb\u00e9m n\u00e3o chama bem ao mal, na esperan\u00e7a que Deus ven\u00e7a o mal sem perder eternamente aquele que o praticou.<\/p>\n<p>Esta esperan\u00e7a encontra a sua imagem mais radical na cruz. Jesus n\u00e3o morre pedindo ao Pai que os condenasse. Morre entregando-se ao Pai e pedindo perd\u00e3o pelos seus perseguidores.<\/p>\n<p>Sendo Cristo a revela\u00e7\u00e3o definitiva de Deus, ent\u00e3o a cruz n\u00e3o \u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o ao car\u00e1ter de Deus. \u00c9 a sua manifesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>&#8220;Para que Deus seja tudo em todos&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>A frase mais audaciosa de toda a escatologia crist\u00e3 permanece certamente a de Paulo: \u201cPara que Deus seja tudo em todos.\u201d (1 Cor 15,28).<\/p>\n<p>N\u00e3o \u201ctudo em alguns\u201d nem \u201ctudo nos vencedores. Paulo contempla uma consuma\u00e7\u00e3o c\u00f3smica, que Teilhard de Chardin consagrou na teologia do Alfa e do Omega.<\/p>\n<p>Paulo na carta aos Colossenses emprega linguagem semelhante quando fala da reconcilia\u00e7\u00e3o de \u00abtodas as coisas\u00bb em Cristo. Isto n\u00e3o permite resolver mecanicamente todos os textos b\u00edblicos de julgamento, mas impede-nos de transformar a condena\u00e7\u00e3o numa esp\u00e9cie de segundo princ\u00edpio eterno ao lado da reden\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O cristianismo \u00e9 radicalmente monote\u00edsta: no princ\u00edpio, Deus e no fim, Deus. O pecado n\u00e3o \u00e9 eterno, a morte n\u00e3o \u00e9 eterna e o mal n\u00e3o possui exist\u00eancia pr\u00f3pria. Paulo diz que o \u00faltimo inimigo a ser destru\u00eddo \u00e9 precisamente a morte (1 Cor 15,26).<\/p>\n<p>Da\u00ed nasce a pergunta que atravessa toda a teologia da esperan\u00e7a: Se existisse eternamente uma regi\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o definitivamente entregue \u00e0 morte, ao \u00f3dio e ao desespero, em que sentido poderia dizer-se que \u201ca morte foi destru\u00edda\u201d e que Deus \u00e9 \u00abtudo em todos\u00bb?<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 uma pergunta ret\u00f3rica que autorize respostas f\u00e1ceis, porque \u00e9 uma pergunta que deve permanecer diante da Igreja.<\/p>\n<p><strong>O inferno talvez deva ser pregado de outra maneira<\/strong><\/p>\n<p>Uma pastoral contempor\u00e2nea respons\u00e1vel n\u00e3o necessita de apagar a palavra inferno; o que necessita \u00e9 de purific\u00e1-la.<\/p>\n<p>Existe inferno onde uma pessoa destr\u00f3i outra. Existe inferno nos campos de exterm\u00ednio, na tortura, na guerra, no abuso de crian\u00e7as, no tr\u00e1fico humano, na solid\u00e3o absoluta, no \u00f3dio cultivado durante d\u00e9cadas. Existe algo infernal sempre que o ser humano diz ao outro: \u201cPara mim, tu n\u00e3o existes.\u201d<\/p>\n<p>O Evangelho leva esse inferno absolutamente a s\u00e9rio, mas anuncia uma coisa espantosa: Deus desce at\u00e9 l\u00e1. Esta \u00e9 uma vis\u00e3o profunda do \u201cdescensus ad \u00ednferos\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe regi\u00e3o humana t\u00e3o escura que Cristo n\u00e3o possa atravessar. N\u00e3o existe sepultura onde Deus n\u00e3o possa entrar. N\u00e3o existe passado que Deus n\u00e3o possa visitar. N\u00e3o existe culpa que esteja fora do alcance da verdade, nem existe v\u00edtima esquecida.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel esperar, sem transformar a esperan\u00e7a em arrog\u00e2ncia dogm\u00e1tica, que tamb\u00e9m n\u00e3o exista criatura que o Amor abandone facilmente \u00e0 eternidade do seu pr\u00f3prio desespero.<\/p>\n<p><strong>Do medo \u00e0 esperan\u00e7a respons\u00e1vel<\/strong><\/p>\n<p>A cr\u00edtica \u00e0 doutrina tradicional do inferno n\u00e3o deve apoiar-se em simplifica\u00e7\u00f5es lingu\u00edsticas. Sheol, Hades e Gehenna n\u00e3o s\u00e3o sin\u00f3nimos perfeitos; ai\u014dnios n\u00e3o significa simplesmente \u00abtempor\u00e1rio\u00bb nem pode ser traduzido mecanicamente, em todos os contextos, como \u00abinfinito\u00bb; o juda\u00edsmo antigo conheceu diferentes conce\u00e7\u00f5es do destino dos mortos e a tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 desenvolveu igualmente interpreta\u00e7\u00f5es diversas.<\/p>\n<p>Precisamente esta complexidade hist\u00f3rica impede-nos de absolutizar as representa\u00e7\u00f5es populares do inferno.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00faltima \u00e9 cristol\u00f3gica. O Deus dos crist\u00e3os possui o rosto daquele que come com pecadores, toca leprosos, procura a ovelha perdida, conta a par\u00e1bola do pai que corre ao encontro do filho antes que este consiga terminar a sua confiss\u00e3o, perdoa os inimigos e entra na pr\u00f3pria morte para a vencer.<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o torna o pecado pequeno e torna a gra\u00e7a imensa. Uma Igreja que esquece o ju\u00edzo transforma a gra\u00e7a em banalidade. Mas uma Igreja que esquece a gra\u00e7a transforma Deus num tirano. A mensagem crist\u00e3 encontra-se para al\u00e9m dessas duas deforma\u00e7\u00f5es. O ju\u00edzo significa que a nossa vida importa eternamente e a miseric\u00f3rdia significa que o nosso pecado n\u00e3o \u00e9 maior do que Deus.<\/p>\n<p>Por isso, talvez a pergunta pastoral mais crist\u00e3 n\u00e3o seja: \u201cQuem ir\u00e1 para o inferno?\u201d Mais adequada seria: \u201cAt\u00e9 onde est\u00e1 Deus disposto a ir para encontrar aquilo que se perdeu?\u201d<\/p>\n<p>A resposta crist\u00e3 encontra-se numa cruz, num sepulcro vazio e na profiss\u00e3o de f\u00e9: desceu ao reino dos mortos. Desceu at\u00e9 ao fundo e voltou.<\/p>\n<p>E por isso o crist\u00e3o pode contemplar at\u00e9 o mais profundo abismo humano sem negar o julgamento e simultaneamente, sem desesperar de ningu\u00e9m. A \u00faltima palavra do Evangelho n\u00e3o \u00e9 inferno, \u00e9 Cristo e Cristo n\u00e3o \u00e9 condena\u00e7\u00e3o, mas sim ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 medo. \u00c9 aquela esperan\u00e7a pascal segundo a qual a cria\u00e7\u00e3o inteira geme esperando a sua liberta\u00e7\u00e3o e caminha para o mist\u00e9rio que Paulo ousou exprimir numa das mais belas frases da Escritura: \u201cPara que Deus seja tudo em todos.\u201d<\/p>\n<p>A f\u00e9, quando finalmente se liberta do desejo humano de condenar, descobre que n\u00e3o lhe compete estabelecer os limites da miseric\u00f3rdia divina, mas sim anunci\u00e1-la, viv\u00ea-la e esper\u00e1-la. Se Deus \u00e9 verdadeiramente Amor, a esperan\u00e7a na salva\u00e7\u00e3o do outro nunca poder\u00e1 ser um pecado contra Deus.<\/p>\n<p>Poder\u00e1 ser, pelo contr\u00e1rio, uma das formas mais profundas de acreditar n\u2019Ele.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><br \/>\nPegadas do Tempo \u00a9<br \/>\nORCID: https:\/\/orcid.org\/0009-0003-6251-1578<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre a fidelidade \u00e0s Escrituras, a responsabilidade hermen\u00eautica e o primado do amor Introdu\u00e7\u00e3o Poucas representa\u00e7\u00f5es religiosas exerceram sobre a consci\u00eancia ocidental uma influ\u00eancia t\u00e3o profunda como a imagem do inferno. Durante s\u00e9culos, o fogo, as trevas, o julgamento e a condena\u00e7\u00e3o foram utilizados n\u00e3o apenas como s\u00edmbolos escatol\u00f3gicos, mas tamb\u00e9m como instrumentos pedag\u00f3gicos destinados &hellip; <a href=\"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11330\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">O IFERNO, A LINGUAGEM DA ETERNIDADE E A ESPERAN\u00c7A DA RECONCILIA\u00c7\u00c3O UNIVERSAL<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[3,15,4,8,16],"tags":[],"class_list":["post-11330","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-arte","category-cultura","category-educacao","category-religiao","category-sociedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/11330","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=11330"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/11330\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11331,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/11330\/revisions\/11331"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=11330"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=11330"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=11330"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}