{"id":11322,"date":"2026-08-15T13:46:46","date_gmt":"2026-08-15T12:46:46","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11322"},"modified":"2026-08-15T13:46:46","modified_gmt":"2026-08-15T12:46:46","slug":"a-senhora-da-assuncao-e-simbolo-religioso-e-existencial-da-dignidade-da-mulher-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11322","title":{"rendered":"A SENHORA DA ASSUN\u00c7\u00c3O \u00c9 S\u00cdMBOLO RELIGIOSO E EXISTENCIAL DA DIGNIDADE DA MULHER"},"content":{"rendered":"<p>A solenidade de Nossa Senhora da Assun\u00e7\u00e3o \u00e9 uma das express\u00f5es mais belas da esperan\u00e7a crist\u00e3. Na sua aparente simplicidade, a f\u00e9 na eleva\u00e7\u00e3o de Maria \u00e0 gl\u00f3ria celeste cont\u00e9m uma profunda teologia do ser humano, do corpo, da mulher e do destino \u00faltimo da cria\u00e7\u00e3o. Celebrar Maria assunta ao C\u00e9u n\u00e3o significa afast\u00e1-la da condi\u00e7\u00e3o humana, colocando-a numa esfera inacess\u00edvel; significa, pelo contr\u00e1rio, contemplar nela aquilo a que a humanidade inteira \u00e9 chamada: a comunh\u00e3o plena com Deus.<\/p>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 confessa que Maria, terminada a sua vida terrena, foi elevada em corpo e alma \u00e0 gl\u00f3ria celeste. A Assun\u00e7\u00e3o, mais do que uma afirma\u00e7\u00e3o sobre Maria, \u00e9 uma proclama\u00e7\u00e3o acerca do destino do ser humano. Nela, a esperan\u00e7a da ressurrei\u00e7\u00e3o aparece antecipada. Aquilo que a f\u00e9 espera para todos no fim dos tempos encontra-se j\u00e1 realizado, por gra\u00e7a, naquela que acolheu inteiramente o Verbo de Deus.<\/p>\n<p><strong>Maria \u00e9, assim, \u00edcone da humanidade redimida e antecipa\u00e7\u00e3o daquilo que a Igreja \u00e9 chamada a tornar-se.<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 aqui uma dimens\u00e3o particularmente significativa para a compreens\u00e3o crist\u00e3 da mulher. A f\u00e9 crist\u00e3 nasceu e desenvolveu-se historicamente em sociedades predominantemente patriarcais e a pr\u00f3pria estrutura institucional da Igreja adquiriu, ao longo dos s\u00e9culos, uma configura\u00e7\u00e3o marcadamente masculina. Contudo, no centro da sua experi\u00eancia espiritual permanece uma mulher.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de opor o feminino ao masculino nem de transformar Maria num argumento ideol\u00f3gico contra a estrutura eclesial. Trata-se de reconhecer uma complementaridade que a pr\u00f3pria tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 testemunha de modo que a dimens\u00e3o mariana recorda continuamente \u00e0 (Igreja Petrina) dimens\u00e3o institucional da Igreja que a autoridade crist\u00e3 s\u00f3 encontra a sua verdade quando permanece ligada \u00e0 escuta, ao acolhimento, ao servi\u00e7o, \u00e0 fecundidade e \u00e0 entrega.<\/p>\n<p><strong>A devo\u00e7\u00e3o mariana representa, nesse sentido, uma poderosa presen\u00e7a do feminino no cora\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia cat\u00f3lica. Pedro simboliza particularmente o minist\u00e9rio e a responsabilidade institucional e Maria representa a Igreja que escuta, acolhe, concebe, d\u00e1 \u00e0 luz, acompanha e permanece fiel.<\/strong> Ambos pertencem ao mist\u00e9rio eclesial. Uma Igreja reduzida apenas \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o, ao poder e \u00e0 administra\u00e7\u00e3o empobreceria a sua pr\u00f3pria natureza; uma Igreja verdadeiramente mariana sabe que antes de fazer deve receber, antes de ensinar deve escutar e antes de governar deve servir.<\/p>\n<h2>Maria, a nova Eva<\/h2>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o patr\u00edstica viu muito cedo em Maria a nova Eva. O paralelismo n\u00e3o pretende responsabilizar a mulher pela queda humana, interpreta\u00e7\u00e3o que tantas injusti\u00e7as alimentou ao longo da hist\u00f3ria, mas mostrar teologicamente que aquilo que foi ferido pela liberdade humana pode ser restaurado por uma liberdade que se abre \u00e0 gra\u00e7a.<\/p>\n<p>Como Cristo \u00e9 apresentado como novo Ad\u00e3o, Maria aparece como nova Eva. O seu fiat, \u00abfa\u00e7a-se em mim segundo a tua palavra\u00bb, n\u00e3o \u00e9 submiss\u00e3o servil, mas exerc\u00edcio soberano de uma liberdade que confia. Deus n\u00e3o invade Maria: chama-a e Maria responde.<\/p>\n<p>Neste ponto encontra-se uma das mensagens mais profundas da figura mariana para a dignidade feminina. A grandeza de Maria n\u00e3o consiste numa passividade anuladora da personalidade; pelo contr\u00e1rio, encontramos no Evangelho uma mulher capaz de perguntar, discernir, decidir, partir, acompanhar, sofrer e permanecer.<\/p>\n<p>No Magnificat, ent\u00e3o, a jovem silenciosa de Nazar\u00e9 revela uma extraordin\u00e1ria consci\u00eancia prof\u00e9tica. O Deus que ela proclama derruba os poderosos dos seus tronos e exalta os humildes; enche de bens os famintos e despede os ricos de m\u00e3os vazias<strong>. Maria n\u00e3o \u00e9 apenas a mulher da ternura, \u00e9 tamb\u00e9m a mulher da palavra prof\u00e9tica, da resist\u00eancia espiritual e da esperan\u00e7a hist\u00f3rica.<\/strong><\/p>\n<h2>O corpo feminino chamado \u00e0 gl\u00f3ria<\/h2>\n<p><strong>A Assun\u00e7\u00e3o cont\u00e9m ainda uma extraordin\u00e1ria teologia do corpo. Durante s\u00e9culos, e em culturas muito diferentes, o corpo feminino foi simultaneamente desejado, temido, controlado, explorado e humilhado. Tamb\u00e9m ambientes religiosos nem sempre conseguiram libertar-se inteiramente dessa ambiguidade. A Assun\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, afirma algo radical: o corpo n\u00e3o \u00e9 um obst\u00e1culo \u00e0 salva\u00e7\u00e3o; o corpo pertence \u00e0 pessoa e est\u00e1 chamado \u00e0 transfigura\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p><strong>A mat\u00e9ria n\u00e3o \u00e9 desprezada por Deus. O cristianismo \u00e9 a religi\u00e3o da Encarna\u00e7\u00e3o: \u00abo Verbo fez-se carne\u00bb e essa carne foi recebida por uma mulher.<\/strong><\/p>\n<p><strong>O corpo de Maria, que gerou, alimentou e acompanhou Jesus, torna-se na Assun\u00e7\u00e3o sinal escatol\u00f3gico da dignidade de toda a corporeidade humana.<\/strong> <strong>N\u00e3o \u00e9 apenas a \u00abalma\u00bb de Maria que \u00e9 glorificada mas sim Maria inteira. A Assun\u00e7\u00e3o constitui tamb\u00e9m uma contesta\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica de todas as formas de desprezo pelo corpo e, de modo particularmente eloquente, de toda a viol\u00eancia, mercantiliza\u00e7\u00e3o e instrumentaliza\u00e7\u00e3o do corpo feminino.<\/strong><\/p>\n<p><strong>O corpo da mulher n\u00e3o \u00e9 objeto nem<\/strong> propriedade de ningu\u00e9m. N\u00e3o \u00e9 mercadoria, \u00e9 express\u00e3o de uma pessoa cuja dignidade procede de Deus. A mulher glorificada na Assun\u00e7\u00e3o proclama silenciosamente essa dignidade.<\/p>\n<h2>Da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o \u00e0 Assun\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>A Assun\u00e7\u00e3o deve ser contemplada no conjunto do mist\u00e9rio de Maria. A Imaculada Concei\u00e7\u00e3o fala da primazia da gra\u00e7a; a Anuncia\u00e7\u00e3o, da liberdade que responde a essa gra\u00e7a; a maternidade divina, da disponibilidade para oferecer carne ao Verbo; o Calv\u00e1rio, da fidelidade que permanece mesmo quando tudo parece perdido; a Assun\u00e7\u00e3o, finalmente, manifesta o destino dessa exist\u00eancia inteiramente aberta a Deus.<\/p>\n<p>Existe, portanto, uma linha interior que atravessa toda a vida de Maria no seu \u201csim\u201d (Fiat). N\u00e3o se trata de um \u00fanico instante em Nazar\u00e9. <strong>O fiat prolonga-se durante toda a exist\u00eancia: no nascimento e no ex\u00edlio, na vida escondida, nas incompreens\u00f5es, em Can\u00e1, no caminho de Jesus, aos p\u00e9s da cruz, na comunidade reunida e, finalmente, na plenitude de Deus.<\/strong><\/p>\n<p><strong>A santidade crist\u00e3 n\u00e3o consiste em abandonar a humanidade para alcan\u00e7ar Deus, mas em permitir que Deus transforme profundamente a humanidade.<\/strong> Maria n\u00e3o \u00e9 glorificada apesar de ter sido mulher, corpo, m\u00e3e e criatura. \u00c9 glorificada na totalidade concreta da sua exist\u00eancia.<\/p>\n<h2>A Assun\u00e7\u00e3o e a dignidade da mulher<\/h2>\n<p>\u00c9 precisamente aqui que a solenidade adquire uma for\u00e7a cultural e human\u00edstica particular. <strong>Num mundo que continua a discutir e tantas vezes a violar, a dignidade e o lugar da mulher, a imagem de uma mulher elevada \u00e0 gl\u00f3ria constitui um poderoso contra-s\u00edmbolo. <\/strong>No imagin\u00e1rio crist\u00e3o, a criatura humana mais exaltada depois de Cristo n\u00e3o \u00e9 um imperador, um guerreiro, um fil\u00f3sofo, um sacerdote ou um homem poderoso, mas sim uma mulher de Nazar\u00e9.<\/p>\n<p>Isto deveria dar que pensar tamb\u00e9m \u00e0 pr\u00f3pria Igreja. <strong>A venera\u00e7\u00e3o de Maria n\u00e3o pode servir de compensa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica para a desvaloriza\u00e7\u00e3o concreta das mulheres. Seria contradit\u00f3rio coroar Maria nos altares e diminuir as mulheres na vida quotidiana; cantar a dignidade da M\u00e3e de Deus e n\u00e3o reconhecer suficientemente a voz, a intelig\u00eancia, os carismas, a experi\u00eancia e a responsabilidade das mulheres na comunidade crist\u00e3 e na sociedade. <\/strong>A verdadeira devo\u00e7\u00e3o mariana conduz necessariamente ao respeito pela mulher concreta.<\/p>\n<p>Quem honra Maria deve aprender a reconhecer a dignidade da m\u00e3e e da filha, da esposa e da mulher solteira, da jovem e da idosa, da intelectual e da trabalhadora, da mulher pobre, migrante, esquecida, explorada ou violentada. <strong>N\u00e3o porque cada mulher seja uma reprodu\u00e7\u00e3o de Maria, mas porque cada pessoa possui uma dignidade que nenhuma estrutura social, econ\u00f3mica, pol\u00edtica ou religiosa tem o direito de diminuir.<\/strong><\/p>\n<h2>Maria n\u00e3o substitui Cristo: conduz a Cristo<\/h2>\n<p>Importa, contudo, preservar o centro cristol\u00f3gico da f\u00e9. Maria n\u00e3o \u00e9 uma divindade feminina acrescentada ao cristianismo nem uma alternativa a Cristo. Toda a sua grandeza procede da rela\u00e7\u00e3o com Deus e aponta para Cristo.<\/p>\n<p>Ela pr\u00f3pria o diz no Magnificat: \u00abA minha alma glorifica o Senhor\u00bb. Maria n\u00e3o ret\u00e9m o olhar sobre si; remete-o para Deus.<\/p>\n<p>Por isso, uma mariologia teologicamente madura n\u00e3o diviniza Maria, mas tamb\u00e9m n\u00e3o a reduz a personagem secund\u00e1ria. <strong>Ela \u00e9 criatura, mas criatura plenamente aberta \u00e0 gra\u00e7a; disc\u00edpula, mas disc\u00edpula singular; m\u00e3e de Cristo e, precisamente por isso, imagem da Igreja e sinal da humanidade reconciliada.<\/strong><\/p>\n<p>A Assun\u00e7\u00e3o \u00e9 obra de Deus em Maria. Cristo ressuscita pelo poder divino e Maria \u00e9 elevada \u00e0 gl\u00f3ria pela gra\u00e7a de Deus. Esta distin\u00e7\u00e3o preserva simultaneamente a centralidade absoluta de Cristo e a extraordin\u00e1ria dignidade concedida a Maria.<\/p>\n<h2>Mulher, Igreja e esperan\u00e7a<\/h2>\n<p>Talvez seja precisamente aqui que a dimens\u00e3o feminina do cristianismo tenha algo decisivo a dizer ao nosso tempo.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma racionalidade necess\u00e1ria \u00e0s institui\u00e7\u00f5es: organiza\u00e7\u00e3o, normas, estruturas, autoridade e continuidade. Tamb\u00e9m a Igreja precisa delas. Mas nenhuma institui\u00e7\u00e3o vive apenas de estruturas. Necessita igualmente de rela\u00e7\u00e3o, cuidado, escuta, interioridade, fecundidade, miseric\u00f3rdia e capacidade de gerar vida.<\/p>\n<p>Essas qualidades n\u00e3o pertencem exclusivamente \u00e0s mulheres nem os atributos de for\u00e7a e autoridade pertencem exclusivamente aos homens. <strong>A linguagem simb\u00f3lica do feminino pode recordar \u00e0 Igreja dimens\u00f5es que uma estrutura historicamente masculina corre o risco de secundarizar.<\/strong><\/p>\n<p>Maria introduz no cora\u00e7\u00e3o da Igreja uma l\u00f3gica diferente da l\u00f3gica do poder: a l\u00f3gica da fecundidade.<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o conquista, mas acolhe; n\u00e3o domina, mas gera; n\u00e3o se imp\u00f5e, mas oferece-se. <strong>Maria n\u00e3o ocupa o centro pois abre espa\u00e7o para que Outro possa nascer.<\/strong><\/p>\n<p>E, paradoxalmente, nessa aparente fragilidade manifesta-se uma for\u00e7a extraordin\u00e1ria. Maria permanece junto \u00e0 cruz quando muitos fogem. A mulher do fiat \u00e9 tamb\u00e9m a mulher do \u201cStabat\u201d: aquela que sabe estar de p\u00e9 diante do sofrimento e a sua for\u00e7a n\u00e3o \u00e9 a for\u00e7a da imposi\u00e7\u00e3o, mas a for\u00e7a da fidelidade.<\/p>\n<h2><strong>A mulher vestida de sol<\/strong><\/h2>\n<p><strong>A tradi\u00e7\u00e3o lit\u00fargica relacionou tamb\u00e9m a Assun\u00e7\u00e3o com a grandiosa imagem do Apocalipse na mulher vestida de sol, com a lua debaixo dos p\u00e9s e uma coroa de estrelas.<\/strong><\/p>\n<p>Essa mulher possui uma dimens\u00e3o simultaneamente mariana, eclesial e escatol\u00f3gica. <strong>Nela podemos contemplar Maria, mas tamb\u00e9m a Igreja e, simbolicamente, a humanidade que atravessa as dores da hist\u00f3ria sem perder a promessa da vit\u00f3ria de Deus.<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00c9 significativo que uma das grandes imagens b\u00edblicas da esperan\u00e7a final seja precisamente uma mulher que d\u00e1 \u00e0 luz.<\/strong><\/p>\n<p><strong>A hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o n\u00e3o culmina na esterilidade do poder, mas na fecundidade da vida. <\/strong>Por isso, a Assun\u00e7\u00e3o n\u00e3o convida \u00e0 fuga do mundo. Pelo contr\u00e1rio, devolve-nos ao mundo com maior responsabilidade. Se o corpo est\u00e1 destinado \u00e0 gl\u00f3ria, deve ser respeitado agora. Se os pobres ser\u00e3o exaltados, a sua dignidade deve ser defendida agora. Se Deus glorifica aquilo que o mundo despreza, o crist\u00e3o n\u00e3o pode conformar-se com estruturas que humilham. A escatologia crist\u00e3 transforma-se, assim, em \u00e9tica.<\/p>\n<h2>Maria, irm\u00e3 e m\u00e3e na esperan\u00e7a<\/h2>\n<p>Quando o povo crist\u00e3o dirige os olhos para Nossa Senhora da Assun\u00e7\u00e3o, n\u00e3o contempla uma rainha distante da experi\u00eancia humana. Contempla uma mulher que conheceu a precariedade, a maternidade, a migra\u00e7\u00e3o, a preocupa\u00e7\u00e3o, a perda, a incompreens\u00e3o e a dor.<\/p>\n<p>Antes da coroa houve Nazar\u00e9. Antes da gl\u00f3ria houve o caminho. Antes da Assun\u00e7\u00e3o houve o Calv\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que a devo\u00e7\u00e3o popular encontra nela tanta proximidade. O povo reconhece em Maria n\u00e3o apenas a M\u00e3e de Deus glorificada, mas algu\u00e9m que atravessou a condi\u00e7\u00e3o humana e agora representa a esperan\u00e7a de que nenhuma l\u00e1grima, nenhuma fidelidade e nenhum amor se perdem em Deus.<\/p>\n<p>Maria precede-nos. <strong>A sua Assun\u00e7\u00e3o diz \u00e0 humanidade: o vosso destino \u00faltimo n\u00e3o \u00e9 a decomposi\u00e7\u00e3o, mas a comunh\u00e3o; n\u00e3o \u00e9 o nada, mas a plenitude; n\u00e3o \u00e9 a humilha\u00e7\u00e3o, mas a dignidade transfigurada.<\/strong><\/p>\n<p>E diz algo particularmente belo \u00e0 mulher: nenhuma forma hist\u00f3rica de discrimina\u00e7\u00e3o possui a \u00faltima palavra sobre aquilo que \u00e9s.<\/p>\n<h2>A festa da humanidade chamada \u00e0 gl\u00f3ria<\/h2>\n<p><strong>A Assun\u00e7\u00e3o \u00e9, finalmente, uma festa de Maria que se transforma numa festa da humanidade. <\/strong>Ao glorificar Maria, Deus revela aquilo que deseja realizar na cria\u00e7\u00e3o redimida. Ela \u00e9 aquilo que a tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 gosta de chamar \u201cfigura Ecclesiae\u201d: imagem e antecipa\u00e7\u00e3o da Igreja na sua plenitude.<\/p>\n<p><strong>Nela contemplamos a criatura reconciliada com o Criador, o corpo reconciliado com o esp\u00edrito, a liberdade reconciliada com a gra\u00e7a, o feminino libertado da humilha\u00e7\u00e3o e a humanidade finalmente reconciliada consigo pr\u00f3pria.<\/strong><\/p>\n<p>Por isso, Nossa Senhora da Assun\u00e7\u00e3o pode ser <strong>compreendida como s\u00edmbolo religioso e existencial da dignidade da mulher e, atrav\u00e9s dela, da dignidade de todo o ser humano.<\/strong><\/p>\n<p>A devo\u00e7\u00e3o a Maria n\u00e3o deveria alimentar uma espiritualidade sentimental que afaste os crist\u00e3os da realidade. Deveria torn\u00e1-los mais atentos \u00e0 dignidade humana. Quanto mais elevada contemplamos Maria no C\u00e9u, mais dever\u00edamos aprender a reconhecer a dignidade daqueles que permanecem esquecidos na Terra.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o basta colocar coroas sobre as imagens de Nossa Senhora se permitimos coroas de espinhos sobre mulheres vivas. N\u00e3o basta proclamar a gl\u00f3ria do corpo de Maria se toleramos a explora\u00e7\u00e3o do corpo humano. N\u00e3o basta chamar-lhe Rainha se continuamos a tratar tantas mulheres como servas.<\/strong><\/p>\n<p>A verdadeira devo\u00e7\u00e3o transforma o olhar e, transformando o olhar, deve transformar tamb\u00e9m as rela\u00e7\u00f5es humanas.<\/p>\n<p>Nossa Senhora da Assun\u00e7\u00e3o \u00e9, deste modo, simultaneamente mem\u00f3ria, promessa e apelo: mem\u00f3ria da fidelidade de Deus, promessa da glorifica\u00e7\u00e3o humana e apelo \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de um mundo onde a dignidade que celebramos liturgicamente seja reconhecida existencialmente.<\/p>\n<p>Em Maria, mulher de Nazar\u00e9 elevada \u00e0 gl\u00f3ria, o cristianismo contempla a grandeza que Deus pode realizar numa criatura que livremente se abre ao seu mist\u00e9rio. E em cada rosto humano, \u00a0particularmente nos rostos femininos que a hist\u00f3ria tantas vezes silenciou, somos convidados a reconhecer antecipadamente algo dessa dignidade destinada \u00e0 transfigura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Nossa Senhora da Assun\u00e7\u00e3o n\u00e3o nos manda simplesmente olhar para o C\u00e9u, porque nos ensina a olhar de outra maneira para a Terra.<\/strong><\/p>\n<p>Porque, se uma mulher da nossa humanidade j\u00e1 participa plenamente da gl\u00f3ria prometida, ent\u00e3o nenhuma mulher pode ser considerada inferior, nenhum corpo pode ser tratado como coisa e nenhuma exist\u00eancia humana pode ser julgada insignificante.<\/p>\n<p>Na mulher assunta ao C\u00e9u resplandece, afinal, a promessa feita a todos n\u00f3s: a mat\u00e9ria pode tornar-se gl\u00f3ria, a fragilidade pode tornar-se for\u00e7a, o servi\u00e7o pode revelar grandeza e a morte n\u00e3o ter\u00e1 a \u00faltima palavra e tamb\u00e9m o corpo \u00e9 glorificado.<\/p>\n<p>Nossa Senhora da Assun\u00e7\u00e3o, mulher do \u201csim\u201d, mulher que permaneceu de p\u00e9 junto \u00e0 cruz e mulher revestida de gl\u00f3ria, \u00e9 \u00edcone de uma humanidade reconciliada e sinal luminoso da dignidade da mulher. Nela, a Igreja contempla aquilo que espera vir a ser; e a humanidade entrev\u00ea, como numa aurora, aquilo para que foi criada.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<br \/>\nPegadas do Tempo<br \/>\nORCID: <a href=\"https:\/\/orcid.org\/0009-0003-6251-1578\">https:\/\/orcid.org\/0009-0003-6251-1578<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A solenidade de Nossa Senhora da Assun\u00e7\u00e3o \u00e9 uma das express\u00f5es mais belas da esperan\u00e7a crist\u00e3. Na sua aparente simplicidade, a f\u00e9 na eleva\u00e7\u00e3o de Maria \u00e0 gl\u00f3ria celeste cont\u00e9m uma profunda teologia do ser humano, do corpo, da mulher e do destino \u00faltimo da cria\u00e7\u00e3o. Celebrar Maria assunta ao C\u00e9u n\u00e3o significa afast\u00e1-la da &hellip; <a href=\"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11322\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">A SENHORA DA ASSUN\u00c7\u00c3O \u00c9 S\u00cdMBOLO RELIGIOSO E EXISTENCIAL DA DIGNIDADE DA MULHER<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[3,15,8,16],"tags":[],"class_list":["post-11322","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-arte","category-cultura","category-religiao","category-sociedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/11322","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=11322"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/11322\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11323,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/11322\/revisions\/11323"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=11322"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=11322"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=11322"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}