{"id":11320,"date":"2026-08-14T15:44:22","date_gmt":"2026-08-14T14:44:22","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11320"},"modified":"2026-08-14T15:44:22","modified_gmt":"2026-08-14T14:44:22","slug":"top-manegers-na-alemanha-e-nos-eua-e-os-milhoes-que-separam-o-olimpo-da-terra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11320","title":{"rendered":"TOP-MANEGERS NA ALEMANHA E NOS EUA E OS MILH\u00d5ES QUE SEPARAM O \u201cOLIMPO\u201d DA TERRA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Dos deuses do Olimpo empresarial e da moral a viajar em classe econ\u00f3mica<\/strong><\/p>\n<p>Os membros dos conselhos de administra\u00e7\u00e3o das empresas do DAX, que \u00e9 o principal \u00edndice bolsista alem\u00e3o, ganham, em m\u00e9dia, uns confort\u00e1veis 3,9 milh\u00f5es de euros por ano, incluindo b\u00f3nus. Confort\u00e1veis, pelo menos, para quem os recebe.<\/p>\n<p>Segundo uma an\u00e1lise da Associa\u00e7\u00e3o Alem\u00e3 de Prote\u00e7\u00e3o dos Acionistas (DSW) e da Universidade T\u00e9cnica de Munique, as remunera\u00e7\u00f5es dos gestores de topo aumentaram cerca de 4% em rela\u00e7\u00e3o ao ano anterior. Em m\u00e9dia, os membros dos conselhos de administra\u00e7\u00e3o das empresas do DAX receberam 42 vezes mais do que os seus trabalhadores.<\/p>\n<p>Mas, como em qualquer campeonato digno desse nome, tamb\u00e9m aqui h\u00e1 quem consiga destacar-se. Na Adidas, a dire\u00e7\u00e3o recebeu 106 vezes mais do que um trabalhador m\u00e9dio; na Volkswagen, 75 vezes mais; e na Fresenius, 70 vezes mais. Aparentemente, quanto mais alto se sobe na escada empresarial, mais pequenos parecem aqueles que ficam l\u00e1 em baixo.<\/p>\n<p>Quando se passa dos membros dos conselhos de administra\u00e7\u00e3o para os presidentes executivos, as alturas tornam-se ainda mais ol\u00edmpicas. Segundo a an\u00e1lise, a remunera\u00e7\u00e3o m\u00e9dia dos dirigentes m\u00e1ximos das empresas do DAX referente a 2025 rondou os 6,14 milh\u00f5es de euros. O presidente da SAP recebeu 10,9 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>E, contudo, o Olimpo alem\u00e3o ainda parece uma modesta colina quando comparado com o americano. <strong>Nos 30 grupos que integram o Dow Jones Industrial Average, a remunera\u00e7\u00e3o m\u00e9dia dos dirigentes atingiu cerca de 30,5 milh\u00f5es de euros.<\/strong> <strong>No topo encontra-se David M. Solomon, da Goldman Sachs, com o equivalente a 105,3 milh\u00f5es de euros, seguido de Satya Nadella, da Microsoft, com 85,5 milh\u00f5es, e Tim Cook, da Apple, com 65,8 milh\u00f5es.<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 n\u00fameros que dispensam coment\u00e1rios; estes, por\u00e9m, quase os exigem.<\/p>\n<p><strong>A palavra m\u00e1gica utilizada para justificar semelhantes remunera\u00e7\u00f5es chama-se concorr\u00eancia.<\/strong> \u00c9 preciso pagar muito para conseguir os melhores, argumenta-se. O sal\u00e1rio transforma-se, assim, numa esp\u00e9cie de medalha atribu\u00edda em fun\u00e7\u00e3o do sucesso empresarial, das expectativas dos mercados e, n\u00e3o raramente, de especula\u00e7\u00f5es sobre aquilo que amanh\u00e3 poder\u00e1 valer mais do que vale hoje.<\/p>\n<p><strong>O problema n\u00e3o est\u00e1 em reconhecer compet\u00eancia, responsabilidade, risco ou m\u00e9rito; est\u00e1 sim na perda da medida.<\/strong><\/p>\n<p>Uma sociedade precisa de diferen\u00e7as para reconhecer responsabilidades e desempenhos diferentes, mas n\u00e3o precisa de abismos. Quando a remunera\u00e7\u00e3o de uns se torna poss\u00edvel \u00e0 custa da crescente desvaloriza\u00e7\u00e3o do trabalho de muitos outros, a diferen\u00e7a deixa de ser apenas econ\u00f3mica e passa a ser tamb\u00e9m uma quest\u00e3o moral e pol\u00edtica.<\/p>\n<p><strong>Por isso, seria leg\u00edtimo discutir limites m\u00e1ximos para remunera\u00e7\u00f5es desta natureza e perguntar se aquilo que ultrapassasse determinados patamares n\u00e3o deveria reverter, pelo menos em parte, para institui\u00e7\u00f5es de utilidade p\u00fablica.<\/strong> N\u00e3o se trata de castigar o sucesso, mas de recordar que nenhuma empresa prospera gra\u00e7as a uma \u00fanica pessoa. Por detr\u00e1s de cada presidente executivo h\u00e1 milhares de trabalhadores, fornecedores, t\u00e9cnicos, investigadores, consumidores e uma sociedade inteira que disponibiliza escolas, universidades, infraestruturas, seguran\u00e7a e estabilidade.<\/p>\n<p>Nenhum deus do Olimpo empresarial construiu sozinho a montanha onde se encontra sentado.<\/p>\n<p>A dist\u00e2ncia entre o \u00abc\u00e9u\u00bb e a \u00abterra\u00bb tornou-se entretanto t\u00e3o grande que, c\u00e1 em baixo, o cidad\u00e3o comum come\u00e7a a sentir tremuras. Enquanto no Olimpo se discutem milh\u00f5es, na plan\u00edcie contam-se euros para a renda, para a eletricidade, para os alimentos e para chegar ao fim do m\u00eas. E, curiosamente, \u00e9 precisamente ao povo que produz grande parte da riqueza que mais frequentemente se recomenda modera\u00e7\u00e3o, conten\u00e7\u00e3o salarial, produtividade, paci\u00eancia e, naturalmente, satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A moral, ao que parece, continua a viajar em classe econ\u00f3mica.<\/p>\n<p>O \u00eaxito econ\u00f3mico \u00e9 necess\u00e1rio e o lucro faz parte da vida empresarial. Mas uma sociedade em que o lucro deixa de ser um instrumento e se transforma no objetivo supremo corre o risco de converter tamb\u00e9m as pessoas em instrumentos. Quando remunera\u00e7\u00f5es milion\u00e1rias coexistem com trabalhadores obrigados a contar cada euro, j\u00e1 n\u00e3o estamos apenas perante uma quest\u00e3o de mercado, para estamos perante uma quest\u00e3o de humanidade e de medida.<\/p>\n<p><strong>Uma economia que perde a medida acaba por perder tamb\u00e9m a legitimidade. E uma pol\u00edtica que contempla estes abismos como se fossem fen\u00f3menos meteorol\u00f3gicos inevit\u00e1veis contribui para o descr\u00e9dito das pr\u00f3prias institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas.<\/strong><\/p>\n<p>Certamente n\u00e3o ser\u00e1 necess\u00e1rio expulsar os deuses do Olimpo. Bastaria recordar-lhes, de vez em quando, que a montanha \u00e9 sustentada por quem trabalha c\u00e1 em baixo.<\/p>\n<p><strong>A riqueza sem medida n\u00e3o compra apenas coisas mas tamb\u00e9m compra influ\u00eancia e quando a influ\u00eancia se torna poder, a oligarquia come\u00e7a por ordenar a vida e acaba por ambicionar definir o homem.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><br \/>\nPegadas do Tempo<br \/>\nORCID: <a href=\"https:\/\/orcid.org\/0009-0003-6251-1578\">https:\/\/orcid.org\/0009-0003-6251-1578<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dos deuses do Olimpo empresarial e da moral a viajar em classe econ\u00f3mica Os membros dos conselhos de administra\u00e7\u00e3o das empresas do DAX, que \u00e9 o principal \u00edndice bolsista alem\u00e3o, ganham, em m\u00e9dia, uns confort\u00e1veis 3,9 milh\u00f5es de euros por ano, incluindo b\u00f3nus. Confort\u00e1veis, pelo menos, para quem os recebe. 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