{"id":11312,"date":"2026-08-13T13:41:46","date_gmt":"2026-08-13T12:41:46","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11312"},"modified":"2026-08-13T13:57:19","modified_gmt":"2026-08-13T12:57:19","slug":"a-luta-pelo-poder-na-futura-ordem-mundial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11312","title":{"rendered":"A LUTA PELO PODER NA FUTURA ORDEM MUNDIAL"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Do que se trata realmente na Ucr\u00e2nia e em Gaza<\/strong><\/p>\n<p>O equil\u00edbrio global de poder est\u00e1 a sofrer uma transforma\u00e7\u00e3o profunda e irrevers\u00edvel. A ascens\u00e3o de novas pot\u00eancias econ\u00f3micas como a China, a \u00cdndia, a R\u00fassia e uma Europa em rearmamento estrat\u00e9gico, aliada ao aumento das tens\u00f5es no sistema financeiro internacional, desgastou fundamentalmente a domin\u00e2ncia bipolar que definiu a era p\u00f3s-Guerra Fria. Os Estados Unidos e a extinta Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica j\u00e1 n\u00e3o exercem a mesma influ\u00eancia central sobre os seus antigos Estados sat\u00e9lites. Esta mudan\u00e7a tect\u00f3nica na din\u00e2mica geopol\u00edtica criou um vazio e nesse vazio emerge uma nova competi\u00e7\u00e3o multipolar por influ\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00c9 neste contexto mais amplo que devemos compreender a guerra na Ucr\u00e2nia. Mais do que um conflito regional, ela \u00e9 um teatro de opera\u00e7\u00f5es numa luta maior: uma batalha para moldar a futura ordem mundial e definir as suas esferas de influ\u00eancia. Para a Uni\u00e3o Europeia, o conflito \u00e9 enquadrado como uma defesa de um sistema internacional baseado em regras e de valores democr\u00e1ticos. No entanto, numa perspetiva realista, \u00e9 igualmente um concurso para ganhar poder pol\u00edtico num cen\u00e1rio multipolar emergente. As narrativas de justi\u00e7a e democracia obscurecem frequentemente uma quest\u00e3o mais fundamental: onde ser\u00e3o tra\u00e7ados os novos limites do poder depois de os canh\u00f5es calarem? A guerra \u00e9, na sua ess\u00eancia, uma disputa de posicionamento dentro de uma hierarquia global ainda por definir.<\/p>\n<p>Esta realidade geopol\u00edtica subjacente torna as posi\u00e7\u00f5es da R\u00fassia e da Uni\u00e3o Europeia fundamentalmente irreconcili\u00e1veis. O Ocidente, liderado pela UE e pelos EUA, exige a retirada completa e incondicional das for\u00e7as russas de todos os territ\u00f3rios ocupados, incluindo a Crimeia. A R\u00fassia, por seu turno, deixou inequivocamente claro que n\u00e3o tenciona abdicar dessas conquistas territoriais. No centro deste lit\u00edgio intrat\u00e1vel est\u00e1 o controlo do Mar Negro e do seu acesso estrat\u00e9gico, um n\u00f3 decisivo no tabuleiro geopol\u00edtico global. Este \u00e9 o cerne n\u00e3o declarado do conflito, mas raramente \u00e9 o foco do discurso p\u00fablico. Em vez disso, somos alimentados com narrativas de interesses e de seguran\u00e7a, muitas vezes movidas pela ambi\u00e7\u00e3o descarada de garantir um lugar de destaque na ordem que se avizinha.<\/p>\n<p>\u00c9 um jogo perigoso e c\u00ednico. Os verdadeiros interesses da Europa n\u00e3o residem numa guerra prolongada e de desgaste, justificada unicamente por um posicionamento estrat\u00e9gico, mas sim numa estabilidade de longo prazo alcan\u00e7ada atrav\u00e9s da negocia\u00e7\u00e3o. Os l\u00edderes europeus deveriam ter previsto que a geografia \u00e9 um destino; a proximidade entre a R\u00fassia e a Europa sugere que, mais cedo ou mais tarde, os seus interesses m\u00fatuos, particularmente nos dom\u00ednios da energia e do com\u00e9rcio, acabar\u00e3o por impor uma coexist\u00eancia cooperativa. O caminho atual de conflito indefinido s\u00f3 serve para enganar o p\u00fablico e perpetuar um impasse que enfraquece todas as partes envolvidas. Uma paz pol\u00edtica duradoura n\u00e3o se forja no campo de batalha, mas sim \u00e0 mesa das negocia\u00e7\u00f5es. O p\u00fablico merece um reconhecimento honesto desta realidade, em vez de ser alimentado com uma dieta constante de narrativas unilaterais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o no M\u00e9dio Oriente, particularmente no conflito que envolve Israel, \u00e9 uma extens\u00e3o da mesma luta multipolar pelo poder. Trata-se de uma teia complexa de reivindica\u00e7\u00f5es e contraposi\u00e7\u00f5es. Por um lado, envolve a afirma\u00e7\u00e3o da influ\u00eancia isl\u00e2mica no Norte de \u00c1frica e em toda a regi\u00e3o. Por outro, abrange a determina\u00e7\u00e3o do Ocidente em manter uma posi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica consolidada, ao mesmo tempo que disputa influ\u00eancia com a R\u00fassia. Al\u00e9m disso, o conflito est\u00e1 profundamente emaranhado com as divis\u00f5es internas do mundo isl\u00e2mico, nomeadamente a rivalidade entre as pot\u00eancias sunita e xiita pela domina\u00e7\u00e3o regional. Cada uma destas fac\u00e7\u00f5es, as pot\u00eancias ocidentais, a R\u00fassia e os hegem\u00f3nicos regionais, disputam influ\u00eancia, utilizando conflitos locais como campos de batalha por procura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que \u00e9 apresentado ao mundo como uma s\u00e9rie de guerras localizadas, muitas vezes sect\u00e1rias, \u00e9, na realidade, a manifesta\u00e7\u00e3o de um concurso global mais vasto. A dimens\u00e3o geopol\u00edtica \u00e9 o motor principal, mas \u00e9 deliberadamente obscurecida por detr\u00e1s de uma cortina de fumo de fric\u00e7\u00f5es religiosas e \u00e9tnicas. Os povos, tanto nas zonas de conflito como nas na\u00e7\u00f5es que alimentam estas guerras, s\u00e3o arrastados por ondas de sentimentos manipulados e narrativas cuidadosamente constru\u00eddas. S\u00e3o pe\u00f5es num jogo oculto e hip\u00f3crita de poder, onde a verdadeira aposta \u00e9 a pr\u00f3pria configura\u00e7\u00e3o da futura ordem mundial. Devemos olhar para al\u00e9m dos t\u00edtulos dos jornais e reconhecer estes conflitos pelo que eles realmente s\u00e3o: n\u00e3o trag\u00e9dias isoladas, mas batalhas interligadas numa guerra global por influ\u00eancia a n\u00edvel das grandes pot\u00eancias.<\/p>\n<p>Os povos e os pa\u00edses menos potentes s\u00e3o atirados para o ringue de uma luta que n\u00e3o \u00e9 sua, servindo de marionetas num xadrez de gigantes. As elites, numa coreografia pol\u00edtica quase perfeita, abra\u00e7am-se transversalmente em torno de interesses sat\u00e9lites que, por uma estranha coincid\u00eancia, caminham sempre contra a paz e contra o povo. E o restante discurso p\u00fablico? Esse \u00e9 o grande circo montado para nos entreter, palha\u00e7adas ret\u00f3ricas que nos desviam o olhar do essencial, ao mesmo tempo que, numa pirueta ir\u00f3nica, v\u00e3o servindo, em bandeja, os interesses de segunda ordem que ningu\u00e9m tem a coragem de chamar pelo nome, at\u00e9 porque h\u00e1 imensa gente a beneficiar da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<br \/>\nPegadas do Tempo<br \/>\nORCID: <a href=\"https:\/\/orcid.org\/0009-0003-6251-1578\">https:\/\/orcid.org\/0009-0003-6251-1578<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Do que se trata realmente na Ucr\u00e2nia e em Gaza O equil\u00edbrio global de poder est\u00e1 a sofrer uma transforma\u00e7\u00e3o profunda e irrevers\u00edvel. 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