{"id":11307,"date":"2026-08-12T19:58:09","date_gmt":"2026-08-12T18:58:09","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11307"},"modified":"2026-08-12T20:10:30","modified_gmt":"2026-08-12T19:10:30","slug":"da-ontologia-do-dominio-a-ontologia-da-relacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11307","title":{"rendered":"DA ONTOLOGIA DO DOM\u00cdNIO \u00c0 ONTOLOGIA DA RELA\u00c7\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Para uma gineantropologia da diversidade e do humano<\/strong><\/p>\n<p>A vida n\u00e3o come\u00e7a com um projecto, come\u00e7a com um acontecimento. Antes de qualquer plano existe nascimento; antes da inten\u00e7\u00e3o, emerg\u00eancia; antes do programa conscientemente elaborado est\u00e1 a rela\u00e7\u00e3o. O ser humano recebe uma heran\u00e7a gen\u00e9tica, nasce no interior de uma hist\u00f3ria que n\u00e3o escolheu, encontra uma l\u00edngua que outros falaram antes dele, costumes que o precedem, uma paisagem natural e cultural j\u00e1 marcada pela presen\u00e7a de gera\u00e7\u00f5es anteriores. E, contudo, ao nascer, irrompe nele algo de radicalmente novo.<\/p>\n<p>O primeiro grito da crian\u00e7a pode ser tomado como imagem dessa entrada no indeterminado: recebemos um mundo, mas n\u00e3o recebemos inteiramente determinado aquilo que nele seremos.<\/p>\n<p>Entre heran\u00e7a e novidade come\u00e7a a aventura humana. \u00c9 neste intervalo que talvez tenhamos de procurar os fundamentos de uma nova ontologia e de uma gineantropologia: uma compreens\u00e3o do humano que n\u00e3o absolutize o indiv\u00edduo nem o colectivo, o masculino nem o feminino, natureza nem cultura, determina\u00e7\u00e3o nem liberdade, mas procure compreender a exist\u00eancia como processo relacional de diferencia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>A vida n\u00e3o tem projecto, o humano projecta<\/strong><\/p>\n<p>Dizer que a vida ou a natureza n\u00e3o t\u00eam projecto exige uma distin\u00e7\u00e3o fundamental. A ci\u00eancia pode descrever processos evolutivos sem pressupor uma finalidade previamente inscrita neles. A evolu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica n\u00e3o necessita, enquanto explica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, de imaginar uma meta exterior para a qual todas as formas vivas se encaminhariam.<\/p>\n<p>O ser humano projecta e aqui come\u00e7a um dos seus paradoxos.<\/p>\n<p>Somos natureza capaz de antecipar possibilidades. Recordamos o passado, imaginamos futuros, elaboramos planos, constru\u00edmos cidades, institui\u00e7\u00f5es, tecnologias, religi\u00f5es, sistemas cient\u00edficos e organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. A cultura introduz no presente aquilo que ainda n\u00e3o existe. O projecto \u00e9, portanto, uma extraordin\u00e1ria faculdade humana.<\/p>\n<p>O problema come\u00e7a quando deixamos de utilizar o projecto como instrumento e passamos a viver para o projecto.<\/p>\n<p>A modernidade intensificou extraordinariamente esta orienta\u00e7\u00e3o para o futuro. Desenvolvimento, crescimento, produtividade, progresso, carreira, acumula\u00e7\u00e3o, inova\u00e7\u00e3o e optimiza\u00e7\u00e3o projectam continuamente o indiv\u00edduo e a sociedade para aquilo que ainda n\u00e3o s\u00e3o.<\/p>\n<p>O presente transforma-se, assim, numa esp\u00e9cie de sala de espera do futuro.<\/p>\n<p>Produzimos hoje para consumir amanh\u00e3; sacrificamos o presente em nome da seguran\u00e7a futura; destru\u00edmos equil\u00edbrios naturais existentes prometendo compens\u00e1-los mediante tecnologias futuras; subordinamos a vida concreta \u00e0 promessa de um estado posterior de realiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas o futuro possui uma caracter\u00edstica que frequentemente esquecemos: quando chega, chama-se presente.<\/p>\n<p>Nenhum projecto pode habitar o amanh\u00e3 porque a exist\u00eancia acontece sempre agora.<\/p>\n<p>Da\u00ed n\u00e3o se segue que devamos abandonar projectos. Uma civiliza\u00e7\u00e3o sem capacidade de antecipa\u00e7\u00e3o seria incapaz de ci\u00eancia, educa\u00e7\u00e3o ou responsabilidade intergeracional. O necess\u00e1rio \u00e9 inverter a hierarquia: o projecto deve servir a vida e n\u00e3o a vida servir o projecto.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Do antropocentrismo \u00e0 centralidade da rela\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Uma das consequ\u00eancias mais profundas desta invers\u00e3o diz respeito ao lugar do ser humano no mundo.<\/p>\n<p>O antropocentrismo moderno colocou frequentemente o humano e, mais especificamente, determinado modelo de humano, no centro da realidade. O sujeito racional, aut\u00f3nomo, propriet\u00e1rio, produtor e dominador tornou-se medida das coisas.<\/p>\n<p>Mas o cristianismo, quando interpretado a partir do seu n\u00facleo trinit\u00e1rio, oferece uma possibilidade diferente.<\/p>\n<p>No centro n\u00e3o estaria simplesmente o Homem, estaria a rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A Trindade n\u00e3o deve naturalmente ser convertida numa f\u00f3rmula cient\u00edfica ou matem\u00e1tica. \u201cUm e tr\u00eas\u201d pertence \u00e0 linguagem teol\u00f3gica do mist\u00e9rio da unidade divina na distin\u00e7\u00e3o das Pessoas. Mas justamente por isso pode oferecer \u00e0 filosofia uma poderosa imagem relacional.<\/p>\n<p>Pai, Filho e Esp\u00edrito Santo n\u00e3o representam tr\u00eas indiv\u00edduos isolados que posteriormente decidem relacionar-se. Na linguagem trinit\u00e1ria crist\u00e3, a rela\u00e7\u00e3o pertence \u00e0 pr\u00f3pria compreens\u00e3o das Pessoas.<\/p>\n<p>Particularmente sugestiva \u00e9 a tradi\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica ocidental que compreende o Esp\u00edrito Santo a partir do v\u00ednculo de amor entre Pai e Filho. Tomada filosoficamente, sem reduzir a terceira Pessoa a uma simples fun\u00e7\u00e3o entre duas outras, esta imagem permite pensar uma realidade extraordin\u00e1ria:<\/p>\n<p>a rela\u00e7\u00e3o possui realidade. Entre o Eu e o Tu n\u00e3o existe apenas um vazio. Existe o Entre e esse Entre transforma ambos.<\/p>\n<p>A partir daqui seria poss\u00edvel conceber uma ontologia n\u00e3o fundada exclusivamente na subst\u00e2ncia, mas na subst\u00e2ncia-em-rela\u00e7\u00e3o; n\u00e3o na identidade im\u00f3vel, mas na identidade que permanece enquanto se transforma.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Uma ontologia da perspectiva<\/strong><\/p>\n<p>Se tudo existe em rela\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o toda a realidade conhecida \u00e9 tamb\u00e9m realidade encontrada a partir de alguma perspectiva. Isto n\u00e3o significa que tudo seja subjectivo ou que n\u00e3o exista verdade. Significa algo mais exigente: nenhum observador humano ocupa o ponto de vista da totalidade. Toda a perspectiva revela e simultaneamente limita.<\/p>\n<p>Uma montanha vista do vale n\u00e3o \u00e9 falsa porque existe outra vertente. Uma cultura n\u00e3o se torna absurda porque outra organiza diferentemente a experi\u00eancia. Uma disciplina cient\u00edfica n\u00e3o perde validade porque outra descreve uma dimens\u00e3o diferente do mesmo fen\u00f3meno.<\/p>\n<p>O erro come\u00e7a quando a perspectiva esquece que \u00e9 perspectiva e se declara totalidade. \u00c9 aqui que uma ontologia relacional adquire tamb\u00e9m significado pol\u00edtico.<\/p>\n<p>O imperialismo \u00e9, em certo sentido, uma perspectiva que se proclamou mundo. O patriarcalismo pode ser entendido como uma experi\u00eancia particular do humano apresentada como defini\u00e7\u00e3o universal do humano.<\/p>\n<p>O economicismo transforma uma dimens\u00e3o da exist\u00eancia, produ\u00e7\u00e3o e troca, em medida da sociedade inteira.<\/p>\n<p>O cientismo come\u00e7a quando o extraordin\u00e1rio m\u00e9todo das ci\u00eancias naturais deixa de reconhecer os limites das perguntas \u00e0s quais pode responder e pretende converter-se numa metaf\u00edsica total.<\/p>\n<p>E tamb\u00e9m a religi\u00e3o se perverte quando confunde testemunho da verdade com posse absoluta dela.<\/p>\n<p>A nova ontologia exigiria, portanto, n\u00e3o a aboli\u00e7\u00e3o da verdade, mas uma humildade epistemol\u00f3gica perante a verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Gineantropologia: o humano para al\u00e9m do homem abstracto<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 neste horizonte que proponho o conceito de gineantropologia.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de substituir o antropocentrismo por um ginecocentrismo, nem de declarar o feminino moralmente superior ao masculino.<\/p>\n<p>Isso seria simplesmente inverter os sinais dentro da mesma estrutura bin\u00e1ria.<\/p>\n<p>A gineantropologia pretende antes perguntar se aquilo que durante s\u00e9culos se apresentou como \u201co Homem\u201d n\u00e3o representou, em muitos contextos, uma abstrac\u00e7\u00e3o constru\u00edda a partir de caracter\u00edsticas historicamente associadas ao masculino: autonomia, verticalidade, conquista, racionaliza\u00e7\u00e3o, competi\u00e7\u00e3o, controlo e poder. Mas o humano n\u00e3o se esgota a\u00ed.<\/p>\n<p>A exist\u00eancia humana \u00e9 tamb\u00e9m receptividade, cuidado, gesta\u00e7\u00e3o, depend\u00eancia, coopera\u00e7\u00e3o, vulnerabilidade, corporeidade, horizontalidade e rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estas qualidades n\u00e3o pertencem exclusivamente \u00e0 mulher, assim como for\u00e7a, decis\u00e3o, racionalidade ou autonomia n\u00e3o pertencem exclusivamente ao homem.<\/p>\n<p>Mas uma civiliza\u00e7\u00e3o que desvaloriza sistematicamente um destes conjuntos de capacidades mutila simbolicamente o humano.<\/p>\n<p>A gineantropologia seria, portanto, uma antropologia depois da exclusividade masculina do universal.<\/p>\n<p>O seu objectivo n\u00e3o seria tornar o masculino feminino, mas permitir que homem e mulher participem integralmente das possibilidades humanas.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Masculinidade, poder e hist\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p>Neste ponto \u00e9 necess\u00e1ria especial prud\u00eancia.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos explicar capitalismo, colonialismo, viol\u00eancia, tecnologia ou destrui\u00e7\u00e3o ambiental simplesmente atrav\u00e9s de uma \u201cess\u00eancia masculina\u201d. Uma tal explica\u00e7\u00e3o substituiria a investiga\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica por determinismo sexual.<\/p>\n<p>Mas podemos perguntar se determinadas sociedades n\u00e3o institucionalizaram e premiaram excessivamente caracter\u00edsticas culturalmente codificadas como masculinas: competi\u00e7\u00e3o, acumula\u00e7\u00e3o, conquista, expans\u00e3o, hierarquia e dom\u00ednio. Leg\u00edtima permanece a pergunta: em que ponto da sociedade estar\u00edamos numa sociedade em que masculinidade e feminilidade se equilibrassem.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m a rela\u00e7\u00e3o entre Reforma, individualismo e capitalismo exige diferencia\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Lutero e Calvino n\u00e3o \u201cinventaram\u201d o indiv\u00edduo moderno, nem o capitalismo pode ser deduzido directamente das suas teologias. Max Weber tornou c\u00e9lebre a discuss\u00e3o sobre as afinidades entre determinadas formas de protestantismo asc\u00e9tico e o esp\u00edrito do capitalismo; a tese gerou, por\u00e9m, uma extensa controv\u00e9rsia e m\u00faltiplas revis\u00f5es posteriores.<\/p>\n<p>A Reforma contribuiu para transforma\u00e7\u00f5es profundas da consci\u00eancia europeia, mas estas decorreram juntamente com urbaniza\u00e7\u00e3o, com\u00e9rcio, imprensa, forma\u00e7\u00e3o dos Estados modernos, mudan\u00e7as jur\u00eddicas, descobertas cient\u00edficas e in\u00fameros outros processos. N\u00e3o nos podemos ficar s\u00f3 pela diferencia\u00e7\u00e3o que sirva de respiro para continuar o mesmo modelo. \u00a0E essas transforma\u00e7\u00f5es profundas foram poss\u00edvei tamb\u00e9m pela acentua\u00e7\u00e3o da individualidade em rela\u00e71bo \u00e0 comunidade.<\/p>\n<p>O mesmo deve dizer-se do Iluminismo.<\/p>\n<p>Sem ele dificilmente compreender\u00edamos direitos individuais, cr\u00edtica do absolutismo, liberdade de consci\u00eancia, ci\u00eancia moderna ou universalismo jur\u00eddico. Mas quando a sua confian\u00e7a na raz\u00e3o se transforma em raz\u00e3o instrumental absoluta, o mundo corre o risco de aparecer apenas como objecto calcul\u00e1vel, administr\u00e1vel e tecnicamente dispon\u00edvel.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica fecunda n\u00e3o consiste, portanto, em negar Reforma, Iluminismo ou modernidade. Consiste em prossegui-los para al\u00e9m das suas unilateralidades e o porqu\u00ea destes fen\u00f3menos.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O humano \u00e9 biol\u00f3gico, mas n\u00e3o apenas biol\u00f3gico<\/strong><\/p>\n<p>Uma gineantropologia processual precisa tamb\u00e9m de repensar a rela\u00e7\u00e3o entre natureza e cultura.<\/p>\n<p>Somos animais. Temos corpo, metabolismo, sexualidade, necessidades alimentares, mecanismos neurobiol\u00f3gicos, impulsos de autopreserva\u00e7\u00e3o e uma hist\u00f3ria evolutiva comum \u00e0s outras esp\u00e9cies.<\/p>\n<p>Mas dizer que somos animais n\u00e3o significa afirmar que qualquer comportamento humano possa ser explicado directamente atrav\u00e9s do comportamento animal.<\/p>\n<p>Entre natureza e cultura n\u00e3o existe uma parede, mas tamb\u00e9m n\u00e3o existe identidade.<\/p>\n<p>A agressividade constitui um bom exemplo. Ela possui componentes biol\u00f3gicos, mas no humano pode ser simbolicamente organizada, tecnologicamente ampliada, politicamente mobilizada e institucionalmente legitimada.<\/p>\n<p>Um animal pode atacar outro. O ser humano pode inventar uma ideologia que justifique a elimina\u00e7\u00e3o de milh\u00f5es de seres humanos, criar a burocracia que a organiza e desenvolver a tecnologia que a executa.<\/p>\n<p>A natureza fornece capacidades. A cultura pode amplific\u00e1-las, inibi-las, transform\u00e1-las ou redireccion\u00e1-las. Por isso, transpor directamente para a sociedade categorias de domin\u00e2ncia, competi\u00e7\u00e3o sexual ou selec\u00e7\u00e3o observadas noutras esp\u00e9cies constitui um reducionismo.<\/p>\n<p>O humano \u00e9 natureza que se tornou tamb\u00e9m cultura e cultura que nunca deixou de ser natureza.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>A diversidade como princ\u00edpio de resili\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>Montaigne deixou-nos uma formula\u00e7\u00e3o extraordinariamente sugestiva: \u201cA diversidade \u00e9 a mais universal das qualidades.\u201d A frase cont\u00e9m quase um programa ontol\u00f3gico. Olhemos para a natureza: a vida manifesta-se multiplicando formas, estrat\u00e9gias, rela\u00e7\u00f5es e adapta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Contudo, tamb\u00e9m aqui devemos evitar uma passagem demasiado r\u00e1pida da ecologia para a pol\u00edtica. Uma sociedade humana n\u00e3o \u00e9 literalmente um ecossistema e uma cultura n\u00e3o equivale biologicamente a uma esp\u00e9cie. Mas a analogia pode ser intelectualmente fecunda quando utilizada com cautela.<\/p>\n<p>Na ecologia, diversidade e estabilidade possuem rela\u00e7\u00f5es complexas; n\u00e3o existe uma regra simples segundo a qual qualquer aumento de diversidade produza automaticamente maior estabilidade. Ainda assim, a investiga\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica mostra que a biodiversidade pode favorecer m\u00faltiplas fun\u00e7\u00f5es e dimens\u00f5es da estabilidade dos ecossistemas, embora os efeitos dependam da escala e do contexto. (nature.com)<\/p>\n<p>Isto sugere uma analogia importante para a sociedade: sistemas excessivamente uniformes tornam-se vulner\u00e1veis aos seus pr\u00f3prios pontos cegos.<\/p>\n<p>Uma sociedade plural disp\u00f5e de mais perspectivas, experi\u00eancias, conhecimentos, mem\u00f3rias e possibilidades de resposta. Mas diversidade social n\u00e3o significa simplesmente justaposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma multid\u00e3o de grupos fechados que n\u00e3o comunicam pode produzir fragmenta\u00e7\u00e3o, n\u00e3o resili\u00eancia.<\/p>\n<p>A diversidade necessita da rela\u00e7\u00e3o. E a rela\u00e7\u00e3o necessita de alguma comunidade. Chegamos novamente ao paradigma trinit\u00e1rio: unidade que n\u00e3o destr\u00f3i diferen\u00e7a e diferen\u00e7a que n\u00e3o destr\u00f3i unidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O bi\u00f3topo como met\u00e1fora civilizacional<\/strong><\/p>\n<p>Poder\u00edamos chamar bi\u00f3topo cultural ao espa\u00e7o hist\u00f3rico no qual uma comunidade desenvolve l\u00edngua, s\u00edmbolos, narrativas, rela\u00e7\u00f5es, mem\u00f3rias, pr\u00e1ticas e formas de interpretar a exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Tal como um bi\u00f3topo natural, ele n\u00e3o existe isoladamente. Possui fronteiras perme\u00e1veis. Recebe influ\u00eancias, transforma-se, comunica, migra e mistura-se. Mas necessita tamb\u00e9m de condi\u00e7\u00f5es que permitam a sua continuidade.<\/p>\n<p>Uma globaliza\u00e7\u00e3o puramente uniformizadora pode constituir, neste sentido, uma esp\u00e9cie de arroteamento cultural: diferen\u00e7as locais s\u00e3o niveladas para facilitar circula\u00e7\u00e3o de capitais, mercadorias, informa\u00e7\u00e3o, padr\u00f5es de consumo e estilos de vida.<\/p>\n<p>O problema n\u00e3o \u00e9 a globaliza\u00e7\u00e3o enquanto encontro. O problema \u00e9 a globaliza\u00e7\u00e3o enquanto uniformiza\u00e7\u00e3o. Uma globaliza\u00e7\u00e3o relacional seria diferente.<\/p>\n<p>N\u00e3o perguntaria: \u201cComo tornar todos semelhantes?\u201d Perguntaria: \u201cComo construir uma casa comum na qual as diferen\u00e7as possam permanecer fecundas?\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>A monocultura como advert\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>A agricultura oferece-nos uma met\u00e1fora particularmente importante.<\/p>\n<p>A monocultura possui vantagens evidentes: simplifica processos, facilita mecaniza\u00e7\u00e3o, aumenta previsibilidade e pode elevar determinados rendimentos. Mas a homogeneidade pode tamb\u00e9m aumentar vulnerabilidades.<\/p>\n<p>Algo semelhante pode ocorrer culturalmente. Uma civiliza\u00e7\u00e3o organizada exclusivamente em torno do crescimento econ\u00f3mico, do consumo, da efici\u00eancia, da competi\u00e7\u00e3o e da mensurabilidade pode alcan\u00e7ar enorme produtividade e, simultaneamente, tornar-se pobre na sua capacidade de responder \u00e0s perguntas que n\u00e3o cabem nesses crit\u00e9rios.<\/p>\n<p>Para que serve aquilo que n\u00e3o produz? Qual \u00e9 o valor econ\u00f3mico de contemplar? Quanto vale acompanhar uma pessoa que est\u00e1 a morrer? Que produtividade possui brincar com uma crian\u00e7a? Que retorno financeiro oferece uma floresta que decidimos simplesmente n\u00e3o destruir?<\/p>\n<p>Uma sociedade que s\u00f3 consegue reconhecer aquilo que consegue contabilizar come\u00e7a a tornar invis\u00edvel uma grande parte daquilo que torna a vida digna de ser vivida.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Do crescimento ao florescimento<\/strong><\/p>\n<p>Talvez uma nova ontologia exija tamb\u00e9m uma nova concep\u00e7\u00e3o de desenvolvimento. Desenvolver n\u00e3o pode significar simplesmente ter mais. Desenvolvimento humano significa poder ser mais plenamente.<\/p>\n<p>Uma \u00e1rvore n\u00e3o se desenvolve acumulando indefinidamente mat\u00e9ria. Desenvolve-se realizando possibilidades dentro das rela\u00e7\u00f5es que a sustentam: solo, \u00e1gua, luz, fungos, insectos, atmosfera, outras plantas. Tamb\u00e9m o ser humano n\u00e3o floresce isoladamente. Necessita de autonomia, mas tamb\u00e9m de perten\u00e7a. De liberdade e de responsabilidade. De reconhecimento e de reciprocidade. De ci\u00eancia e de sentido. De t\u00e9cnica e de sabedoria. De inova\u00e7\u00e3o e de mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>A pergunta central de uma sociedade madura n\u00e3o deveria, portanto, ser apenas \u201cquanto produzimos?\u201d, mas tamb\u00e9m: que esp\u00e9cie de seres humanos estamos a produzir atrav\u00e9s da maneira como produzimos?<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Uma ci\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A ci\u00eancia possui aqui um papel decisivo<strong>.<\/strong> Uma nova ontologia n\u00e3o pode ser constru\u00edda contra a ci\u00eancia. Pelo contr\u00e1rio: deve aprender com ela porque \u00e9 processo.<\/p>\n<p>Ecologia, biologia evolutiva, neuroci\u00eancias, teoria dos sistemas, estudos sobre coopera\u00e7\u00e3o, ci\u00eancias sociais e determinadas interpreta\u00e7\u00f5es relacionais da f\u00edsica mostram, cada uma no seu dom\u00ednio e sem poderem ser fundidas numa \u00fanica teoria, a import\u00e2ncia de redes, interdepend\u00eancias, contextos e processos.<\/p>\n<p>O desafio consiste em evitar dois extremos. O primeiro seria o reducionismo, segundo o qual apenas aquilo que \u00e9 cientificamente mensur\u00e1vel seria real. O segundo seria utilizar livremente conceitos cient\u00edficos como met\u00e1foras para legitimar afirma\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas ou religiosas que a ci\u00eancia n\u00e3o demonstra. Entre ambos existe um campo extraordinariamente fecundo: o di\u00e1logo interdisciplinar.<\/p>\n<p>A ci\u00eancia pode ensinar \u00e0 filosofia a disciplina perante os factos. A filosofia pode perguntar pelos pressupostos e limites dos modelos cient\u00edficos.<\/p>\n<p>A \u00e9tica pode perguntar o que devemos fazer com aquilo que podemos fazer.<\/p>\n<p>A religi\u00e3o pode manter abertas quest\u00f5es de sentido que nenhum instrumento de medi\u00e7\u00e3o consegue resolver.<\/p>\n<p>E todas podem aprender que conhecimento n\u00e3o significa necessariamente dom\u00ednio.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Do parasitismo \u00e0 simbiose<\/strong><\/p>\n<p>Talvez seja poss\u00edvel recorrer ainda a outra imagem biol\u00f3gica, mantendo consci\u00eancia dos limites da analogia.<\/p>\n<p>H\u00e1 rela\u00e7\u00f5es que extraem sem devolver. H\u00e1 outras em que diferentes organismos coexistem e retiram benef\u00edcios da rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m as sociedades podem perguntar que tipo de rela\u00e7\u00f5es institucionalizam.<\/p>\n<p>Uma economia pode funcionar de modo extractivo perante trabalhadores, territ\u00f3rios e natureza.<\/p>\n<p>Um imp\u00e9rio pode enriquecer o centro empobrecendo a periferia.<\/p>\n<p>Uma gera\u00e7\u00e3o pode usufruir recursos transferindo os custos ambientais para as seguintes.<\/p>\n<p>Uma rela\u00e7\u00e3o entre homem e mulher pode transformar o outro em fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma cultura pode apropriar-se de outra sem verdadeiramente a encontrar.<\/p>\n<p><strong>A alternativa civilizacional seria deslocarmo-nos de uma l\u00f3gica predominantemente extractiva para uma l\u00f3gica simbi\u00f3tica<\/strong>.<\/p>\n<p>N\u00e3o porque a natureza seja sempre harmoniosa, n\u00e3o \u00e9, mas porque o humano possui a possibilidade \u00e9tica de escolher que rela\u00e7\u00f5es quer cultivar.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>A rela\u00e7\u00e3o como centro<\/strong><\/p>\n<p>Chegamos assim ao n\u00facleo da quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Se colocarmos o indiv\u00edduo no centro, arriscamo-nos ao individualismo. Se colocarmos a sociedade no centro, arriscamo-nos ao colectivismo. Se colocarmos o Estado no centro, arriscamo-nos ao totalitarismo. Se colocarmos o mercado no centro, arriscamo-nos \u00e0 mercantiliza\u00e7\u00e3o. Se colocarmos exclusivamente a humanidade no centro, arriscamo-nos ao antropocentrismo.<\/p>\n<p>Mas que acontece se colocarmos a rela\u00e7\u00e3o no centro?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o indiv\u00edduo continua a possuir dignidade, mas a sua dignidade encontra a dignidade do outro. A sociedade continua necess\u00e1ria, mas existe para possibilitar pessoas e comunidades. A economia continua indispens\u00e1vel, mas passa a ser meio.\u00a0 A t\u00e9cnica permanece extraordin\u00e1ria, mas deixa de decidir os seus pr\u00f3prios fins. A natureza deixa de ser cen\u00e1rio e torna-se comunidade de perten\u00e7a. O feminino e o masculino deixam de disputar a representa\u00e7\u00e3o do humano. A diversidade deixa de constituir amea\u00e7a. E a unidade deixa de exigir uniformidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Gineantropologia como antropologia da complementaridade<\/strong><\/p>\n<p>A gineantropologia poderia, portanto, constituir-se em torno de uma afirma\u00e7\u00e3o fundamental:<\/p>\n<p>o humano \u00e9 rela\u00e7\u00e3o sexuada, corporal, cultural, hist\u00f3rica, ecol\u00f3gica e transcendente em processo de individua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nenhuma destas dimens\u00f5es o explica isoladamente. O ser humano n\u00e3o \u00e9 apenas gene. N\u00e3o \u00e9 apenas g\u00e9nero. N\u00e3o \u00e9 apenas cultura. N\u00e3o \u00e9 apenas economia. N\u00e3o \u00e9 apenas consci\u00eancia. N\u00e3o \u00e9 apenas indiv\u00edduo. N\u00e3o \u00e9 apenas membro de um colectivo.<\/p>\n<p>\u00c9 uma realidade processual na qual todas estas dimens\u00f5es se encontram, se condicionam e se transformam.<\/p>\n<p>Nesta perspectiva, a emancipa\u00e7\u00e3o deixa de significar libertar o indiv\u00edduo de todas as rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Passa a significar tamb\u00e9m libertar as rela\u00e7\u00f5es da domina\u00e7\u00e3o. Esta diferen\u00e7a \u00e9 decisiva.<\/p>\n<p>Porque talvez o grande erro de parte da modernidade tenha consistido em imaginar que ser livre significa depender cada vez menos dos outros. A realidade mostra exactamente o contr\u00e1rio. Somos radicalmente interdependentes. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 eliminar a depend\u00eancia. \u00c9 transform\u00e1-la em interdepend\u00eancia digna.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Uma \u00e9tica do presente respons\u00e1vel<\/strong><\/p>\n<p>Voltamos, finalmente, ao ponto de partida. A vida n\u00e3o tem diante de si um projecto que possamos conhecer antecipadamente. O futuro permanece aberto. Isso n\u00e3o conduz ao niilismo. Conduz \u00e0 responsabilidade.<\/p>\n<p>Se o futuro n\u00e3o est\u00e1 garantido, aquilo que fazemos agora importa ainda mais. Precisamos de projectos, mas n\u00e3o de uma religi\u00e3o do projecto. Precisamos de progresso, mas de um progresso capaz de perguntar para onde progride. Precisamos de economia, mas n\u00e3o de transformar tudo em economia. Precisamos de tecnologia, mas de uma tecnologia inserida numa compreens\u00e3o do humano. Precisamos de diversidade, mas tamb\u00e9m de v\u00ednculos que impe\u00e7am que ela se transforme em fragmenta\u00e7\u00e3o. Precisamos de identidades, mas suficientemente abertas para encontrarem outras identidades. Precisamos de ci\u00eancia sem cientismo, religi\u00e3o sem fundamentalismo, pol\u00edtica sem tribalismo e mercado sem mercantiliza\u00e7\u00e3o do humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>A civiliza\u00e7\u00e3o do Entre<\/strong><\/p>\n<p>Talvez a grande mudan\u00e7a ontol\u00f3gica de que necessitamos possa condensar-se numa passagem: do ser como dom\u00ednio para o ser como rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A natureza recorda-nos que existir significa coexistir. A crian\u00e7a recorda-nos que come\u00e7ar significa receber e simultaneamente inovar. A diversidade recorda-nos que unidade n\u00e3o significa repeti\u00e7\u00e3o. A ecologia recorda-nos que nenhuma vida \u00e9 verdadeiramente isolada.<\/p>\n<p>A Trindade, para a consci\u00eancia crist\u00e3, leva esta intui\u00e7\u00e3o \u00e0 sua express\u00e3o mais radical: no pr\u00f3prio fundamento divino, unidade e rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o se excluem.<\/p>\n<p>E uma gineantropologia poderia traduzir esta intui\u00e7\u00e3o para uma compreens\u00e3o renovada do humano: n\u00e3o o Homem abstracto no centro do universo, mas mulher e homem, indiv\u00edduo e comunidade, cultura e natureza integrados numa rede processual de rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A civiliza\u00e7\u00e3o futura talvez tenha de aprender a habitar precisamente esse espa\u00e7o. O espa\u00e7o entre Eu e Tu. Entre homem e mulher. Entre indiv\u00edduo e comunidade. Entre humanidade e natureza. Entre cultura pr\u00f3pria e cultura alheia. Entre presente e futuro. Entre aquilo que herdamos e aquilo que criamos.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 um espa\u00e7o vazio. \u00c9 o lugar onde a vida acontece.<\/p>\n<p>Uma nova ontologia come\u00e7aria, portanto, n\u00e3o pela pergunta cartesiana \u201co que posso conhecer?\u201d, nem apenas pela pergunta moderna \u201co que posso fazer?\u201d, mas por uma pergunta anterior e talvez mais radical: em que rela\u00e7\u00f5es existo e que qualidade de rela\u00e7\u00e3o produz a minha maneira de existir?<\/p>\n<p>Da resposta depender\u00e3o a ci\u00eancia que construiremos, a economia que aceitaremos, a tecnologia que desenvolveremos, a rela\u00e7\u00e3o entre os sexos, a maneira como encontraremos outras culturas e o planeta que deixaremos \u00e0s gera\u00e7\u00f5es seguintes.<\/p>\n<p>Porque talvez o pr\u00f3ximo passo do desenvolvimento humano n\u00e3o consista em aumentar indefinidamente o nosso poder sobre o mundo. Talvez consista em desenvolver a nossa capacidade de rela\u00e7\u00e3o com o mundo. N\u00e3o dominar mais, mas compreender melhor. N\u00e3o uniformizar, mas relacionar. N\u00e3o transformar diferen\u00e7a em rivalidade, mas em fecundidade. nN\u00e3o fugir permanentemente do presente em nome de um futuro projectado, mas fazer do presente o lugar onde um futuro diferente come\u00e7a.<\/p>\n<p>Se a antiga ontologia perguntou sobretudo o que \u00e9 o ser, uma ontologia relacional ter\u00e1 de acrescentar: como \u00e9 que o ser se torna na rela\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>E a gineantropologia poder\u00e1 responder que o humano n\u00e3o se realiza contra o outro, nem apesar do outro, mas num processo em que individua\u00e7\u00e3o e comunh\u00e3o, diferen\u00e7a e perten\u00e7a, feminino e masculino, natureza e cultura se tornam dimens\u00f5es complementares de uma mesma aventura.<\/p>\n<p>A vida n\u00e3o nos entrega um projecto acabado. Entrega-nos rela\u00e7\u00f5es. E talvez seja precisamente por isso que nos entrega tamb\u00e9m responsabilidade.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><br \/>\nPegadas do Tempo \u00a9<br \/>\nORCID: https:\/\/orcid.org\/0009-0003-6251-1578<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para uma gineantropologia da diversidade e do humano A vida n\u00e3o come\u00e7a com um projecto, come\u00e7a com um acontecimento. Antes de qualquer plano existe nascimento; antes da inten\u00e7\u00e3o, emerg\u00eancia; antes do programa conscientemente elaborado est\u00e1 a rela\u00e7\u00e3o. O ser humano recebe uma heran\u00e7a gen\u00e9tica, nasce no interior de uma hist\u00f3ria que n\u00e3o escolheu, encontra uma &hellip; <a href=\"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11307\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">DA ONTOLOGIA DO DOM\u00cdNIO \u00c0 ONTOLOGIA DA RELA\u00c7\u00c3O<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[3,15,14,4,5,6,7,8,16],"tags":[],"class_list":["post-11307","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-arte","category-cultura","category-economia","category-educacao","category-escola","category-migracao","category-politica","category-religiao","category-sociedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/11307","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=11307"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/11307\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11311,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/11307\/revisions\/11311"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=11307"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=11307"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=11307"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}