{"id":11302,"date":"2026-08-11T22:59:48","date_gmt":"2026-08-11T21:59:48","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11302"},"modified":"2026-08-11T23:10:29","modified_gmt":"2026-08-11T22:10:29","slug":"em-memoria-do-amigo-pe-ramiro-pereira-galhispo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11302","title":{"rendered":"Em mem\u00f3ria do Pe. Ramiro Pereira Galhispo"},"content":{"rendered":"<p>O amigo Pe. Ramiro foi um homem de cora\u00e7\u00e3o largo, que fez da entrega aos outros o seu programa de vida<\/p>\n<p>Nesta hora de emo\u00e7\u00e3o e saudade, em que recordamos a partida do nosso muito querido Pe. Ramiro Pereira Galhispo, natural da Caranguejeira, Leiria, quero deixar algumas palavras de gratid\u00e3o e de mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>A 11 de agosto de 2026, o seu corpo foi entregue \u00e0 terra, depois de uma longa vida de 95 anos, plena de esp\u00edrito salesiano, de servi\u00e7o, de alegria e de humanidade. A dor da sua partida mistura-se com a consola\u00e7\u00e3o de sabermos que se libertou finalmente do sofrimento causado pela doen\u00e7a. E fica, entre n\u00f3s, aquilo que a morte n\u00e3o consegue sepultar e que \u00e9 a presen\u00e7a de uma vida semeada nos outros.<\/p>\n<p>Agora que o meu amigo morreu, dou comigo a reviv\u00ea-lo de uma maneira muito especial. Volto \u00e0s cartas que me escreveu ao longo dos anos, releio as suas palavras, reconhe\u00e7o nelas a sua voz e reencontro o homem que conheci e estimei. \u00c9 tamb\u00e9m atrav\u00e9s dessas cartas que quero manifestar a minha gratid\u00e3o por tudo aquilo que ele semeou.<\/p>\n<p>O Pe. Ramiro conseguiu congregar, de forma singular e aut\u00eantica, a sua individualidade e a sua miss\u00e3o. Nele conviviam harmoniosamente o homem, o salesiano, o sacerdote, o m\u00fasico, o professor e, sobretudo, o pastor. Um pastor que, por natureza e voca\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se colocava acima do rebanho, mas caminhava no meio dele para melhor o compreender e servir.<\/p>\n<p>Era um padre da juventude e do povo. Deixava falar o cora\u00e7\u00e3o e, por onde passava, parecia transmitir uma certeza simples e profunda como que a dizer: Deus tamb\u00e9m \u00e9 povo.<\/p>\n<p>Tinha um sorriso comunicativo, uma alegria contagiante e um bom humor que aproximavam as pessoas. O esp\u00edrito jovial de Dom Bosco manifestava-se nele com naturalidade. Era entusiasta, cheio de iniciativa, vivaz, otimista, soci\u00e1vel e eloquente. Mas, acima de tudo, era algu\u00e9m dispon\u00edvel, era um homem com quem se podia contar.<\/p>\n<p><strong>O Pe. Ramiro era, para mim, um anjo de asas largas, n\u00e3o feito para permanecer apenas dentro dos muros de um convento.<\/strong><\/p>\n<p>Precisava de espa\u00e7o para servir, de gente para amar, de dificuldades onde meter m\u00e3os \u00e0 obra. A capacidade de dedica\u00e7\u00e3o acompanhava-o por toda a parte. Onde chegava, come\u00e7ava a fazer. Onde encontrava sofrimento, aproximava-se. O sofrimento dos outros tocava-o profundamente, como se encontrasse em cada pessoa ferida o pr\u00f3prio Cristo abandonado, no momento da s\u00faplica: \u00abPai, se poss\u00edvel, afasta de mim este c\u00e1lice.\u00bb<\/p>\n<p>A sua alegria n\u00e3o era, por\u00e9m, ingenuidade nem desconhecimento da dor. Como sacerdote, manifestava quase sempre encorajamento e esperan\u00e7a, mas essa luz vinha tamb\u00e9m de sofrimentos escondidos. Talvez por isso fosse uma alegria t\u00e3o verdadeira porque era a for\u00e7a de quem aceita a cruz procurando viv\u00ea-la j\u00e1 com rosto de ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Desde Arouca ficou uma amizade de muitos anos<\/strong><\/p>\n<p>O carism\u00e1tico Pe. Ramiro come\u00e7ou a fazer parte da minha vida em <strong>1960, em Arouca<\/strong>, quando foi meu professor de franc\u00eas e de mestre de m\u00fasica.<\/p>\n<p>Recordo ainda a sua enorme sensibilidade. Quando n\u00f3s, alunos, desafin\u00e1vamos, ele n\u00e3o nos humilhava nem nos censurava. Limitava-se a erguer as m\u00e3os at\u00e9 aos seus cabelos encaracolados, como que acariciando a pr\u00f3pria cabe\u00e7a perante o nosso desacerto musical. Era um gesto t\u00e3o seu e que, passados tantos anos, permanece vivo na minha mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Mais tarde, depois do meu tiroc\u00ednio em Izeda, voltei a encontr\u00e1-lo quando eu era estudante de Teologia em Benediktbeuern. Nessa altura, o Pe. Ramiro trabalhava como p\u00e1roco e orientador no Col\u00e9gio Portugu\u00eas de Kaiserslautern, servindo uma comunidade de cerca de tr\u00eas mil portugueses.<\/p>\n<p>A sua a\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, ultrapassava largamente a atividade estritamente pastoral. Exercia diversas fun\u00e7\u00f5es em benef\u00edcio daquela comunidade emigrante e chegou a enviar para Benediktbeuern dinheiro proveniente do seu trabalho, ajudando assim a financiar os nossos estudos teol\u00f3gicos: \u00e9ramos quatro estudantes portugueses.<\/p>\n<p>Nunca esqueci este gesto de salesiano. Ele diz muito mais sobre o Pe. Ramiro do que qualquer elogio que lhe possamos fazer pois trabalhava, servia e partilhava para que outros pudessem continuar o seu caminho.<\/p>\n<p>Depois da minha ordena\u00e7\u00e3o sacerdotal, quando vivia nas Oficinas de S. Jos\u00e9, tive ainda a felicidade de o substituir durante as f\u00e9rias nas comunidades de Kaiserslautern e de Mog\u00fancia. Pude ent\u00e3o compreender ainda melhor a dimens\u00e3o do trabalho que ali realizara e, sobretudo, os la\u00e7os humanos que criara.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>\u00abQuem anda \u00e0 chuva molha-se\u00bb<\/strong><\/p>\n<p>Em 1980, deixou aquele seu \u201cimp\u00e9rio\u201d de Kaiserslautern e partiu para a Madeira.<\/p>\n<p>A sa\u00edda n\u00e3o foi f\u00e1cil f\u00e1cil, mas o Pe. Ramiro possu\u00eda aquela sabedoria de quem, tendo sofrido, se recusa a transformar a m\u00e1goa em ressentimento.<\/p>\n<p>Numa carta que me escreveu do Funchal, em 17 de abril de 1986, recordava as circunst\u00e2ncias da sua sa\u00edda de Kaiserslautern: \u00abIsso s\u00e3o problemas ultrapassados; foi apenas para dizer que a vida traz destes percal\u00e7os; e&#8230; quem anda \u00e0 chuva molha-se (a n\u00e3o ser que use o guarda-chuva da hipocrisia).\u00bb<\/p>\n<p>Este \u00e9 um extraordin\u00e1rio retrato da sua maneira de estar na vida! Perdoar, seguir adiante, n\u00e3o alimentar amarguras, n\u00e3o permitir que o passado impe\u00e7a a constru\u00e7\u00e3o do futuro.<\/p>\n<p>Noutra carta, depois de ter deixado Kaiserslautern, escrevia-me sobre os pedidos para que regressasse e sobre as inevit\u00e1veis queixas que surgiam entre as pessoas: \u00abPedidos de regresso e \u201cqueixas\u201d que sempre se fazem uns aos outros, mas a que eu nunca respondo, procurando sempre a calma, a reconcilia\u00e7\u00e3o e a alegria. O passado passou e h\u00e1 que construir a partir do que existe, sem lam\u00farias.\u00bb<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>\u201cSem lam\u00farias\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Talvez estas duas palavras encerrem muito da sua filosofia de vida. N\u00e3o significavam aus\u00eancia de sofrimento, mas a decis\u00e3o de n\u00e3o fazer do sofrimento uma morada. O Pe. Ramiro preferia construir.<\/p>\n<p>Kaiserslautern ficou para tr\u00e1s geograficamente, mas nunca verdadeiramente o deixou partir. Kaiserslautern corria atr\u00e1s dele: atrav\u00e9s de centenas e centenas de cartas, atrav\u00e9s da amizade e da gratid\u00e3o das pessoas e atrav\u00e9s dos muitos jovens daquela comunidade que vinham a Portugal durante as f\u00e9rias para casar e queriam que fosse ele a celebrar e acompanhar esse momento das suas vidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Um padre dos jovens<\/strong><\/p>\n<p>O Pe. Ramiro compreendia profundamente os jovens. N\u00e3o os via como destinat\u00e1rios passivos de pedagogias ou doutrinas, mas como pessoas que precisavam de proximidade, confian\u00e7a, aten\u00e7\u00e3o e amor.<\/p>\n<p>Quando chegou a altura de deixar o Funchal, confidenciava: \u00ab\u00c9 bom que outros passem por aqui para ver se perdem um pouco a mania de que bons s\u00e3o s\u00f3 os que est\u00e3o dentro dos muros dum convento.\u00bb<\/p>\n<p>E acrescentava, a prop\u00f3sito da juventude: \u00abOs jovens hoje merecem outro tratamento e precisam de mais algo do que simplesmente ideias e ci\u00eancia na cabe\u00e7a&#8230;!\u00bb<\/p>\n<p>Estas palavras dizem muito sobre o seu modo de compreender a miss\u00e3o salesiana.<\/p>\n<p>Para ele, educar e evangelizar n\u00e3o era apenas transmitir ideias. Era estar presente, como Dom Bosco estava presente e muitos hoje procuram estar presentes. Educar era ouvir, acompanhar, dar confian\u00e7a, ajudar algu\u00e9m a descobrir que \u00e9 amado e que a sua vida possui valor.<\/p>\n<p>Quando foi delegado nacional da Federa\u00e7\u00e3o AADB, essa capacidade de congregar e entusiasmar tornou-se ainda mais evidente. Onde aparecia, o Pe. Ramiro impressionava e mobilizava as pessoas. Tinha a capacidade rara de comunicar entusiasmo sem perder a proximidade humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O Pe. Ramiro tamb\u00e9m era o \u201cespanta-pardais\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Ele pr\u00f3prio dizia, com aquele humor t\u00e3o caracter\u00edstico, que era um \u201cespanta-pardais\u201d.<\/p>\n<p>Sempre entendi esta express\u00e3o como uma bela met\u00e1fora da sua miss\u00e3o. O importante era cuidar da sementeira, centrar toda a a\u00e7\u00e3o no essencial crist\u00e3o e salesiano e n\u00e3o ficar excessivamente preocupado com os \u201cpardais\u201d que, aqui e ali, procuram estragar aquilo que se semeia ou tenta semear.<\/p>\n<p>O Pe. Ramiro sabia seguir em frente, perdoava, recome\u00e7ava e procurava a reconcilia\u00e7\u00e3o. N\u00e3o cultivava uma cara triste nem deixava que o peso do mal lhe roubasse a capacidade de sorrir.<\/p>\n<p>Foi um homem profundamente crist\u00e3o, capaz de encarar a cruz quotidiana com rosto de ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O Amigo<\/strong><\/p>\n<p>O Pe. Ramiro n\u00e3o pertence apenas \u00e0s institui\u00e7\u00f5es por onde passou, \u00e0s comunidades que serviu ou \u00e0 hist\u00f3ria salesiana. Para mim, pertence tamb\u00e9m \u00e0 hist\u00f3ria familiar e pessoal da amizade.<\/p>\n<p>Foi meu amigo e amigo da minha fam\u00edlia. Foi ele quem batizou o meu filho, David Ramiro, em S. Jo\u00e3o da Madeira. E o pr\u00f3prio nome conserva, por isso, uma mem\u00f3ria que nos \u00e9 particularmente querida. Defacto, escolhi o nome para o meu filho em recorda\u00e7\u00e3o do Pe Ramiro e do Pe. David.<\/p>\n<p>Ao longo dos anos volt\u00e1mos a encontrar-nos v\u00e1rias vezes em Arouca e a \u00faltima vez na Quinta Outeiro da Luz onde ficou de na pr\u00f3xima vez trazer cal\u00e7\u00f5es para mergulhhar na piscina. Infelizmente a doen\u00e7a n\u00e3o lhe permitiu voltar. Guardo tamb\u00e9m com especial ternura uma imagem dos \u00faltimos tempos em que tivemos o prazer de atravessar juntos a ponte dos Passadi\u00e7os do Paiva, de m\u00e3o na m\u00e3o.<\/p>\n<p>Hoje essa recorda\u00e7\u00e3o ganha para mim outro significado. H\u00e1 pontes que atravessamos sem sabermos que um dia se transformar\u00e3o em s\u00edmbolos. Aquela m\u00e3o que ent\u00e3o acompanhei \u00e9 agora mem\u00f3ria. Mas a amizade permanece como uma ponte que nem a morte consegue destruir.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O Pe. Ramiro tinha uma vida cheia que enchia a vida dos outros<\/strong><\/p>\n<p>O amigo Ramiro foi um homem realizado e permaneceu jovem porque fez da entrega aos outros o seu programa de vida. Teve uma vida cheia e encheu a vida dos outros.<\/p>\n<p>Encheu-a de alegria, de amor, de dedica\u00e7\u00e3o, de m\u00fasica, de humor, de esperan\u00e7a e daquela disponibilidade t\u00e3o pr\u00f3pria de quem n\u00e3o pergunta primeiro o que vai receber, mas aquilo que pode oferecer.<\/p>\n<p>Deixa nos seus condisc\u00edpulos, nos irm\u00e3os salesianos, nos antigos alunos, nos jovens, nas comunidades que serviu, nos amigos e em tantas fam\u00edlias uma saudade imensa. Mas deixa tamb\u00e9m uma mensagem: viver com alegria, servir com generosidade, conservar a mente aberta, perdoar e continuar a construir.<\/p>\n<p>Agora, ao reler as cartas que me escreveu, o Ramiro torna-se paradoxalmente mais vivo dentro de mim. A sua caligrafia, t\u00e3o caracter\u00edstica como ele embora mais ordenada, devolve-me a sua voz; as suas frases devolvem-me o seu humor; as suas confid\u00eancias fazem regressar o amigo.<\/p>\n<p>Talvez uma das formas mais profundas de permanecer seja precisamente esta: continuar vivo naquilo que se semeou no cora\u00e7\u00e3o dos outros.<\/p>\n<p>Por isso, nesta hora em que entregamos o seu corpo \u00e0 terra, a palavra que mais desejo pronunciar n\u00e3o \u00e9 apenas saudade mas sobretudo de agradecimento<strong>.<\/strong><\/p>\n<p>Obrigado, Pe. Ramiro, pela amizade. Obrigado pelo sacerd\u00f3cio vivido no meio do povo.<br \/>\nObrigado pela juventude que conservaste e despertaste nos outros. Obrigado pelas m\u00e3os que tantas vezes meteste \u00e0 obra.<br \/>\nObrigado pela alegria com que escondeste tantas cruzes.<br \/>\nObrigado pelas cartas, pelas palavras, pela m\u00fasica, pelo sorriso e pela capacidade de acreditar nas pessoas.<br \/>\nObrigado \u00e0 sua fam\u00edlia da Caranguejeira, que o deu \u00e0 vida e obrigado \u00e0 Fam\u00edlia Salesiana, que nos proporcionou o encontro com uma personalidade t\u00e3o rica e prendada de dons.<br \/>\nObrigado a Deus pela longa vida deste homem que soube fazer dos seus 95 anos uma hist\u00f3ria de entrega. Hoje entreg\u00e1mos o seu corpo \u00e0 terra, mas aquilo que o Pe. Ramiro semeou n\u00e3o fica debaixo dela porque fica em n\u00f3s.<\/p>\n<p>Certamente esta \u00e9 a mais bela ressurrei\u00e7\u00e3o que nos \u00e9 dado testemunhar na vida daqueles que am\u00e1mos: quando partem e, apesar disso, continuamos a ouvi-los, a record\u00e1-los, a repetir as suas palavras e a reconhecer no nosso pr\u00f3prio caminho alguma coisa daquilo que deles recebemos.<\/p>\n<p>Descansa em paz, querido Pe. Ramiro. Que Deus te acolha agora com aquela mesma alegria com que tu procuraste acolher os outros.<\/p>\n<p>E que, onde estiveres, continues com as tuas asas largas, finalmente sem muros, sem dores e sem fronteiras.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><br \/>\nPegadas do Tempo<br \/>\nORCID: <a href=\"https:\/\/orcid.org\/0009-0003-6251-1578\">https:\/\/orcid.org\/0009-0003-6251-1578<\/a><\/p>\n<p><strong>Retrato po\u00e9tico do Pe. Ramiro<\/strong><\/p>\n<p>ASAS LARGAS<\/p>\n<p>N\u00e3o eras homem de ficar<br \/>\n\u00e0 sombra quieta de um convento;<br \/>\ntinhas o mundo para amar<br \/>\ne Deus soprava em chamamento.<\/p>\n<p>Eras de estrada e de partida,<br \/>\nde porta aberta, m\u00e3o estendida,<br \/>\num padre feito para a vida,<br \/>\num cora\u00e7\u00e3o de asas sem medida.<\/p>\n<p>Onde chegavas, de repente,<br \/>\nhavia um gesto, havia um plano;<br \/>\nDeus parecia mais da gente,<br \/>\nmais nosso, pr\u00f3ximo, mais humano.<\/p>\n<p>Tinham os jovens no teu olhar<br \/>\nn\u00e3o s\u00f3 doutrina ou teoria:<br \/>\nqueriam algu\u00e9m para os escutar,<br \/>\nqueriam p\u00e3o de companhia.<\/p>\n<p>E tu sabias que ensinar<br \/>\n\u00e9 muito mais do que dizer:<br \/>\n\u00e9 caminhar, compreender,<br \/>\ndar confian\u00e7a e fazer crescer.<\/p>\n<p>Professor de m\u00fasica e franc\u00eas,<br \/>\nse alguma nota nos fugia,<br \/>\nn\u00e3o vinha a cr\u00edtica ou altivez:<br \/>\na m\u00e3o aos carac\u00f3is subia!<\/p>\n<p>E nesse gesto divertido,<br \/>\nt\u00e3o teu, t\u00e3o simples, t\u00e3o inteiro,<br \/>\nficava o erro perdoado<br \/>\ne o mestre amigo verdadeiro.<\/p>\n<p>Depois, por terras da Alemanha,<br \/>\nentre emigrantes portugueses,<br \/>\nfizeste a p\u00e1tria na dist\u00e2ncia<br \/>\ne foste irm\u00e3o milhares de vezes.<\/p>\n<p>De Kaiserslautern, trabalhando,<br \/>\na n\u00f3s, estudantes, ajudavas;<br \/>\ne o que ganhavas, partilhando,<br \/>\nem nosso estudo semeavas.<\/p>\n<p>Que bela forma de ensinar<br \/>\nsem livro, quadro ou prega\u00e7\u00e3o:<br \/>\nquem d\u00e1 ao outro o seu lugar<br \/>\nfaz do Evangelho profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas veio a chuva. E tu sabias<br \/>\nque quem caminha h\u00e1 de molhar-se;<br \/>\ns\u00f3 h\u00e1 maneiras, tu dizias,<br \/>\nde, por hipocrisia, resguardar-se.<\/p>\n<p>N\u00e3o quiseste tal guarda-chuva,<br \/>\nnem te serviste da amargura;<br \/>\npreferiste, depois da chuva,<br \/>\nseguir de fronte limpa e pura.<\/p>\n<p>E quando a vida te feria,<br \/>\nn\u00e3o fizeste da dor morada:<br \/>\npor tr\u00e1s da tua cortesia<br \/>\nhavia uma cruz abra\u00e7ada.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m por isso a tua alegria<br \/>\nn\u00e3o era um riso superficial:<br \/>\nera uma P\u00e1scoa que nascia<br \/>\ndo sofrimento feito sinal.<\/p>\n<p>Tinhas a cruz, mas no teu rosto<br \/>\nj\u00e1 despontava a Ressurrei\u00e7\u00e3o;<br \/>\ne punhas, mesmo no desgosto,<br \/>\numa esperan\u00e7a em cada m\u00e3o.<\/p>\n<p>Chamavas-te, a rir, \u201cespanta-pardais\u201d,<br \/>\ne havia nisso uma verdade:<br \/>\nguardar sementes essenciais,<br \/>\nsem dar ao mal centralidade.<\/p>\n<p>Que os pardais viessem \u00e0 semente!<br \/>\nTu semeavas outra vez.<br \/>\nPerdoar era seguir em frente;<br \/>\nrecome\u00e7ar, tua lucidez.<\/p>\n<p>\u201cSem lam\u00farias\u201d, ensinavas:<br \/>\no que passou, passou tamb\u00e9m.<br \/>\nCom o pouco que encontravas,<br \/>\nfazias nascer algum bem.<\/p>\n<p>\u00d3 Ramiro, padre do povo,<br \/>\nsalesiano at\u00e9 ao cora\u00e7\u00e3o,<br \/>\ntinhas o dom de fazer novo<br \/>\no que tocavas com a tua m\u00e3o.<\/p>\n<p>M\u00fasico, mestre, sacerdote,<br \/>\npastor sem trono nem altura,<br \/>\nn\u00e3o caminhavas sobre o rebanho:<br \/>\nias com ele na aventura.<\/p>\n<p>E se encontravas quem sofria,<br \/>\nn\u00e3o passavas indiferente;<br \/>\nnaquela dor reconhecias<br \/>\nCristo abandonado \u00e0 tua frente.<\/p>\n<p>Por isso foste sempre jovem,<br \/>\nmesmo quando os anos eram tantos:<br \/>\nh\u00e1 homens que os calend\u00e1rios medem,<br \/>\nh\u00e1 outros que se medem pelos encontros.<\/p>\n<p>Noventa e cinco anos de caminho,<br \/>\nde humor, servi\u00e7o e amizade;<br \/>\nquem tanto deu nunca est\u00e1 sozinho<br \/>\nquando atravessa a eternidade.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m comigo atravessaste<br \/>\numa ponte sobre o Paiva, m\u00e3o na m\u00e3o;<br \/>\nquem diria, quando passaste,<br \/>\nque ela seria hoje ora\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>H\u00e1 pontes feitas de madeira,<br \/>\nh\u00e1 pontes feitas de amizade;<br \/>\numas terminam noutra beira,<br \/>\noutras atravessam a eternidade.<\/p>\n<p>Batizaste o meu David Ramiro,<br \/>\nentraste assim na minha fam\u00edlia;<br \/>\ne em cada carta que hoje admiro<br \/>\ntua voz novamente cintila.<\/p>\n<p>Agora abro as tuas cartas<br \/>\ne o tempo come\u00e7a a recuar:<br \/>\nas palavras tornam-se pegadas<br \/>\ne volto contigo a caminhar.<\/p>\n<p>N\u00e3o, Ramiro, n\u00e3o est\u00e1s ausente<br \/>\nenquanto houver quem possa dizer:<br \/>\n\u201cFoi meu amigo, esteve presente,<br \/>\najudou-me um dia a crescer.\u201d<\/p>\n<p>Hoje a terra recebeu<br \/>\no corpo cansado da viagem;<br \/>\nmas n\u00e3o recebe o que floresceu,<br \/>\nnem pode enterrar tua passagem.<\/p>\n<p>Porque quem vive para dar<br \/>\nn\u00e3o cabe inteiro numa despedida;<br \/>\nfica nos outros a morar,<br \/>\nmultiplicado noutra vida.<\/p>\n<p>Ficas no jovem que escutaste,<br \/>\nno emigrante que acolheste,<br \/>\nno aluno que n\u00e3o humilhaste,<br \/>\nno cora\u00e7\u00e3o que compreendeste.<\/p>\n<p>Ficas no p\u00e3o que repartiste,<br \/>\nno riso aberto, franco e s\u00e3o,<br \/>\nna m\u00e3o que a tanta gente abriste,<br \/>\nna f\u00e9 transformada em a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E fica em n\u00f3s, como alvorada,<br \/>\no teu recado derradeiro:<br \/>\nseguir sem medo pela estrada,<br \/>\namar e servir por inteiro.<\/p>\n<p>Vai, pois, amigo, em paz profunda,<br \/>\nliberto agora de sofrer.<br \/>\nQue a Luz de Deus toda te inunda<br \/>\ne te ensine um novo amanhecer.<\/p>\n<p>Talvez o C\u00e9u tamb\u00e9m precise<br \/>\nde quem n\u00e3o saiba estar parado,<br \/>\nde um \u201cespanta-pardais\u201d que avise<br \/>\nque o Amor deve ser semeado.<\/p>\n<p>E se h\u00e1 no C\u00e9u algum convento,<br \/>\nque sejam largos os seus portais:<br \/>\ntu foste sempre homem de vento,<br \/>\num anjo de asas largas demais.<\/p>\n<p>Ao Pe. Ramiro Pereira Galhispo,<br \/>\ncom amizade, gratid\u00e3o e saudade<strong>.<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/orcid.org\/0009-0003-6251-1578\">Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O amigo Pe. Ramiro foi um homem de cora\u00e7\u00e3o largo, que fez da entrega aos outros o seu programa de vida Nesta hora de emo\u00e7\u00e3o e saudade, em que recordamos a partida do nosso muito querido Pe. Ramiro Pereira Galhispo, natural da Caranguejeira, Leiria, quero deixar algumas palavras de gratid\u00e3o e de mem\u00f3ria. A 11 &hellip; <a href=\"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11302\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">Em mem\u00f3ria do Pe. Ramiro Pereira Galhispo<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[3,15,6,8,16],"tags":[],"class_list":["post-11302","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-arte","category-cultura","category-migracao","category-religiao","category-sociedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/11302","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=11302"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/11302\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11306,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/11302\/revisions\/11306"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=11302"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=11302"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=11302"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}