{"id":11300,"date":"2026-08-11T12:02:35","date_gmt":"2026-08-11T11:02:35","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11300"},"modified":"2026-08-11T12:02:35","modified_gmt":"2026-08-11T11:02:35","slug":"com-deus-a-janela-e-maior","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11300","title":{"rendered":"COM DEUS A JANELA \u00c9 MAIOR"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>F\u00e9, cren\u00e7a e institui\u00e7\u00e3o entre os limites da linguagem e a vastid\u00e3o do horizonte humano<\/strong><\/p>\n<p><em>A sabedoria n\u00e3o consiste em viver sem janelas, mas em saber que toda a janela tem uma moldura e que o horizonte \u00e9 sempre maior do que aquilo que vemos. O problema come\u00e7a quando imaginamos que a nossa janela \u00e9 o mundo.<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 opini\u00f5es que, embora coerentes dentro da sua pr\u00f3pria l\u00f3gica, fazem lembrar quem contempla o mundo atrav\u00e9s de uma janela demasiado pequena. O que se v\u00ea pode ser verdadeiro, mas n\u00e3o \u00e9 toda a verdade. O horizonte fica condicionado pela moldura e facilmente se confunde a parcela vis\u00edvel com a realidade inteira.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m o pensamento corre esse risco. Quando se fecha sobre os seus pr\u00f3prios pressupostos, interesses ou certezas, transforma a raz\u00e3o numa esp\u00e9cie de quarto de paredes espelhadas, onde, para onde quer que se olhe, acaba-se por encontrar a pr\u00f3pria imagem. A perspetiva do divino, pelo contr\u00e1rio, convida a alargar a janela. \u00c9 uma perspetiva global e integral, desde que Deus n\u00e3o seja reduzido a um tijolo destinado \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio ego, nem convertido em argumento para legitimar aquilo que previamente decidimos pensar ou ao limite do pr\u00f3prio conhecimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Da estreiteza das certezas \u00e0 liberdade de uma f\u00e9 que alarga o horizonte<\/strong><\/p>\n<p>Pensar com Deus n\u00e3o significa possuir a verdade nem falar em nome dela. Significa, antes, reconhecer que a verdade \u00e9 sempre maior do que aquele que a procura ou a expressa. A f\u00e9 aut\u00eantica n\u00e3o estreita o horizonte, muito pelo contr\u00e1rio alarga-o. N\u00e3o deveria tornar o ser humano mais r\u00edgido, mas mais dispon\u00edvel e n\u00e3o mais arrogante, mas mais atento ao mist\u00e9rio que atravessa a exist\u00eancia. Deus tem uma fun\u00e7\u00e3o muito mais profunda do que a de simples resposta religiosa. Deus \u00e9 horizonte, mas n\u00e3o aquele que confirma a nossa perspetiva, mas aquele que permanentemente a transcende. Assim, quanto mais algu\u00e9m pretende meter Deus dentro das suas certezas, menor se torna o seu mundo e quanto mais reconhece que Deus o ultrapassa, mais larga se torna a janela.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>A f\u00e9 \u00e9 o vinho e a cren\u00e7a \u00e9 a garrafa<\/strong><\/p>\n<p>Deixar-se guiar por Deus pertence \u00e0 dimens\u00e3o da f\u00e9 e n\u00e3o pode ser simplesmente reduzido a um conjunto de cren\u00e7as. F\u00e9 e cren\u00e7a relacionam-se, mas n\u00e3o se confundem.<\/p>\n<p>Poder\u00edamos diz\u00ea-lo atrav\u00e9s de uma imagem: a f\u00e9 \u00e9 o vinho e a cren\u00e7a \u00e9 a garrafa que lhe d\u00e1 forma, a conserva e permite partilh\u00e1-lo. A garrafa \u00e9 necess\u00e1ria, mas n\u00e3o \u00e9 o vinho. E seria estranho discutir interminavelmente o formato, a cor e o r\u00f3tulo da garrafa (a cren\u00e7a, a institui\u00e7\u00e3o), esquecendo aquilo que ela cont\u00e9m.<\/p>\n<p>A cren\u00e7a d\u00e1 express\u00e3o hist\u00f3rica, cultural e comunit\u00e1ria \u00e0 experi\u00eancia religiosa. Formula, organiza, transmite e preserva. A f\u00e9, por\u00e9m, situa-se mais fundo, porque \u00e9 rela\u00e7\u00e3o interior, confian\u00e7a fundamental, abertura ao transcendente e nele a todo o ser que nele est\u00e1 presente. \u00c9 a disposi\u00e7\u00e3o de quem aceita caminhar sem possuir antecipadamente o roteiro completo.<\/p>\n<p>Por isso, a f\u00e9 exige coragem. A confian\u00e7a cultivada no quotidiano alimenta os impulsos espirituais de quem procura deixar-se guiar por Deus. E deixar-se guiar n\u00e3o significa abandonar a raz\u00e3o, mas aprender tamb\u00e9m a escutar aquilo que vem do interior (a nossa sar\u00e7a ardente), para al\u00e9m dos automatismos funcionais, das conveni\u00eancias, dos c\u00e1lculos de interesse e das expectativas exteriores. H\u00e1 uma intelig\u00eancia do cora\u00e7\u00e3o que n\u00e3o substitui a raz\u00e3o, mas a completa. A raz\u00e3o sem a verdura do vale transformar-se-ia em deserto<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>A liberdade interior da f\u00e9<\/strong><\/p>\n<p>Num mundo onde o cinismo \u00e9 frequentemente confundido com lucidez e a desconfian\u00e7a com intelig\u00eancia, conservar a capacidade de confiar tornou-se quase um ato de resist\u00eancia.<\/p>\n<p>A f\u00e9 pode proporcionar essa liberdade interior. N\u00e3o se trata de obedecer cegamente a regras nem de se tornar subserviente \u00e0 autoridade (nem \u00e0 letra morta). Sabemos, inclusivamente pela experi\u00eancia do mundo do trabalho e das organiza\u00e7\u00f5es, como a obedi\u00eancia sem consci\u00eancia pode facilmente converter-se em conformismo, oportunismo ou ren\u00fancia \u00e0 pr\u00f3pria responsabilidade.<\/p>\n<p>Pensar com Deus significa precisamente o contr\u00e1rio, porque possibilita espa\u00e7o para ganhar dist\u00e2ncia interior em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s narrativas dominantes, discerni-las e, quando necess\u00e1rio, procurar novos caminhos. A f\u00e9 permite confrontar aquilo que nos \u00e9 dito de fora com aquilo que, no sil\u00eancio da consci\u00eancia, o cora\u00e7\u00e3o reconhece como verdadeiro.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de transformar qualquer sentimento pessoal em voz divina. Tamb\u00e9m o cora\u00e7\u00e3o necessita de discernimento. Trata-se de n\u00e3o permitir que a vida seja inteiramente determinada pelo ru\u00eddo exterior.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Deus n\u00e3o cabe nas nossas constru\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>Ficaram para tr\u00e1s os tempos em que, em largos setores da cultura religiosa europeia, a f\u00e9 era alimentada sobretudo pelo medo da condena\u00e7\u00e3o eterna. Uma espiritualidade dominada pelo medo corre sempre o risco de esquecer o essencial da mensagem crist\u00e3 onde o amor de Deus \u00e9 libertador e possibilita a reconcilia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Na comunh\u00e3o interior com Deus, as coisas come\u00e7am a ser vistas de outra maneira<\/strong><\/p>\n<p>Deus n\u00e3o fica aprisionado em frases, f\u00f3rmulas, doutrinas ou institui\u00e7\u00f5es. Estas podem apontar para Ele, testemunh\u00e1-Lo e manter viva a mem\u00f3ria de uma experi\u00eancia coletiva, mas n\u00e3o podem encerr\u00e1-Lo. O s\u00edmbolo aponta para algo mais profundo, mas n\u00e3o possui. E tamb\u00e9m a palavra aponta mas n\u00e3o esgota.<\/p>\n<p>No cristianismo, esta tens\u00e3o torna-se particularmente fecunda: Deus n\u00e3o permanece numa abstra\u00e7\u00e3o ou doutrina distante, porque, em Jesus, percorre o caminho do humano. O divino encontra o ser humano dentro da hist\u00f3ria, das suas fragilidades, rela\u00e7\u00f5es, circunst\u00e2ncias e contradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O ser humano, por sua vez, nunca existe isoladamente. \u00c9 constitu\u00eddo pela sua mesmidade e pelas circunst\u00e2ncias que o envolvem. Precisa do outro e necessita de estruturas (institui\u00e7\u00f5es) que tornem historicamente poss\u00edvel o n\u00f3s, a comunidade. \u00c9 aqui que entram as institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>F\u00e9, cren\u00e7a e institui\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>As institui\u00e7\u00f5es s\u00e3o necess\u00e1rias porque a mem\u00f3ria humana precisa de lugares onde habitar. Sem estruturas, tradi\u00e7\u00f5es e comunidades, dificilmente uma experi\u00eancia atravessaria s\u00e9culos e gera\u00e7\u00f5es. A institui\u00e7\u00e3o organiza o espa\u00e7o coletivo, conserva a mem\u00f3ria, transmite narrativas e possibilita uma presen\u00e7a hist\u00f3rica. Mas toda a institui\u00e7\u00e3o corre igualmente o risco de confundir o recipiente com o conte\u00fado.<\/p>\n<p>Talvez possamos considerar a institui\u00e7\u00e3o como um bem menor, n\u00e3o porque seja necessariamente m\u00e1, mas porque toda a institucionaliza\u00e7\u00e3o implica regras, fronteiras, poderes e mecanismos de conserva\u00e7\u00e3o que podem acabar por sobrepor-se \u00e0 experi\u00eancia viva que lhes deu origem.<\/p>\n<p>\u00c9, por isso, empobrecedor identificar simplesmente f\u00e9 e institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>F\u00e9, cren\u00e7a e institui\u00e7\u00e3o s\u00e3o dimens\u00f5es diferentes, embora complementares, de uma realidade humana e espiritual complexa que tem a ver com a ess\u00eancia humana na qualidade de eu-tu-n\u00f3s (t\u00e3o bem enunciada na f\u00f3rmula trinit\u00e1ria)..<\/p>\n<p>A f\u00e9 corresponde \u00e0 rela\u00e7\u00e3o interior com o transcendente; a cren\u00e7a oferece-lhe linguagem, imagens, conceitos e narrativas; a institui\u00e7\u00e3o cria o espa\u00e7o hist\u00f3rico e comunit\u00e1rio onde essas cren\u00e7as podem ser transmitidas, celebradas, discutidas e renovadas.<\/p>\n<p>Uma comunidade religiosa sem experi\u00eancia interior corre o risco de se transformar numa administra\u00e7\u00e3o do sagrado. Uma experi\u00eancia espiritual sem qualquer linguagem dificilmente pode ser comunicada. E uma cren\u00e7a sem comunidade corre o risco de desaparecer com aquele que a professa.<\/p>\n<p>H\u00e1, portanto, entre estas dimens\u00f5es uma tens\u00e3o inevit\u00e1vel e at\u00e9 mesmo \u00a0necess\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>A soberania da f\u00e9<\/strong><\/p>\n<p>Quem observa a religi\u00e3o apenas do exterior pode ter dificuldade em compreender esta distin\u00e7\u00e3o. V\u00ea os ritos, os dogmas, os edif\u00edcios, as autoridades e os costumes e conclui que nisso consiste a religi\u00e3o. Mas a realidade interior da f\u00e9 n\u00e3o \u00e9 imediatamente observ\u00e1vel.<\/p>\n<p>No cristianismo, a soberania espiritual do crist\u00e3o encontra-se precisamente na f\u00e9, isto \u00e9, na rela\u00e7\u00e3o pessoal e interior com Deus, que n\u00e3o pode ser inteiramente substitu\u00edda pela ades\u00e3o exterior a f\u00f3rmulas. A cren\u00e7a \u00e9 necess\u00e1ria como roupagem cultural e comunit\u00e1ria, mas a roupa n\u00e3o \u00e9 o corpo, assim como a rota n\u00e3o \u00e9 a paisagem.<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o implica desprezar a tradi\u00e7\u00e3o. Pelo contr\u00e1rio, significa coloc\u00e1-la no lugar que lhe corresponde. A comunidade constitui o bi\u00f3topo do indiv\u00edduo. Ningu\u00e9m nasce fora da linguagem, da hist\u00f3ria ou da cultura. Precisamos de comunidades para receber e transmitir aquilo que individualmente nunca poder\u00edamos construir do princ\u00edpio. A institui\u00e7\u00e3o possibilita continuidade hist\u00f3rica; a tradi\u00e7\u00e3o permite conversar com os mortos e entregar alguma coisa aos que ainda n\u00e3o nasceram. Mas nenhuma tradi\u00e7\u00e3o deveria transformar-se numa pris\u00e3o do esp\u00edrito.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Toda a linguagem \u00e9 s\u00edmbolo<\/strong><\/p>\n<p>A quest\u00e3o torna-se ainda mais complexa quando reconhecemos uma caracter\u00edstica fundamental da exist\u00eancia humana, pelo facto de toda a linguagem ser simb\u00f3lica. A palavra nunca \u00e9 a pr\u00f3pria coisa.<\/p>\n<p>Quando dizemos \u00ab\u00e1rvore\u00bb, nenhuma \u00e1rvore cresce sobre a p\u00e1gina. Quando dizemos \u00abamor\u00bb, a palavra n\u00e3o cont\u00e9m os amores vividos. E quando pronunciamos a palavra \u00abDeus\u00bb, quatro letras n\u00e3o encerram o mist\u00e9rio para o qual apontam.<\/p>\n<p>Entre aquilo que algu\u00e9m pretende comunicar e aquilo que o outro compreende existe inevitavelmente um espa\u00e7o interpretativo. O emissor parte do seu universo de experi\u00eancias, mem\u00f3rias, emo\u00e7\u00f5es e conceitos. O recetor acolhe a mensagem a partir de outro universo igualmente singular. O significado recebido nunca \u00e9 uma reprodu\u00e7\u00e3o fotogr\u00e1fica da inten\u00e7\u00e3o original, pois \u00a0\u00e9 sempre uma reconstru\u00e7\u00e3o. A realidade que transportamos mentalmente \u00e9, portanto, sempre interpretada.<\/p>\n<p>Este facto deveria tornar-nos intelectualmente mais modestos. Muitas discuss\u00f5es tornam-se violentas precisamente porque cada participante esquece a natureza simb\u00f3lica da linguagem e identifica a sua interpreta\u00e7\u00e3o com a pr\u00f3pria realidade. De repente, j\u00e1 n\u00e3o se confrontam perspetivas sobre uma coisa: confrontam-se identidades. E quando uma interpreta\u00e7\u00e3o se torna parte insepar\u00e1vel do ego, qualquer discord\u00e2ncia passa a ser sentida como agress\u00e3o pessoal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Quando as palavras se tornam trincheiras<\/strong><\/p>\n<p>Abre-se assim um vasto campo para debates que facilmente se perdem na emo\u00e7\u00e3o. N\u00e3o necessariamente porque os interlocutores sejam irracionais, mas porque desconhecem, ou esquecem, os limites da pr\u00f3pria linguagem. As palavras, criadas para construir pontes, podem ent\u00e3o transformar-se em trincheiras.<\/p>\n<p>Para evitar isso, \u00e9 necess\u00e1rio aprender a ler e a ouvir o outro sob m\u00faltiplas perspetivas. Perguntar n\u00e3o apenas \u00abo que disse?\u00bb, mas tamb\u00e9m: \u00abde onde fala?\u00bb, \u00abo que entende por esta palavra?\u00bb, \u00abque experi\u00eancia estar\u00e1 por detr\u00e1s desta afirma\u00e7\u00e3o?\u00bb e, sobretudo, \u00abque parte da realidade estarei eu pr\u00f3prio a n\u00e3o ver?\u00bb.<\/p>\n<p>\u00c9 aqui que regressamos \u00e0 pequena janela. Cada ser humano olha o mundo a partir de uma janela particular. A sua biografia \u00e9 uma janela; a sua cultura \u00e9 uma janela; a sua religi\u00e3o ou aus\u00eancia dela \u00e9 uma janela; a sua profiss\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o, condi\u00e7\u00e3o social e experi\u00eancia afetiva s\u00e3o janelas. O problema n\u00e3o est\u00e1 em possuir uma janela. \u00c9 imposs\u00edvel viver sem alguma moldura. O problema come\u00e7a quando imaginamos que a nossa janela \u00e9 o mundo.<\/p>\n<p>A f\u00e9 pode ajudar a ultrapassar essa ilus\u00e3o porque introduz no pensamento uma dimens\u00e3o que transcende o pr\u00f3prio ego. Se Deus \u00e9 maior do que aquilo que penso sobre Deus, tamb\u00e9m a realidade ser\u00e1 maior do que aquilo que penso sobre ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O humor como higiene do esp\u00edrito<\/strong><\/p>\n<p>Neste contexto, o humor desempenha uma fun\u00e7\u00e3o espiritual e intelectual frequentemente subestimada. O humor saud\u00e1vel cria dist\u00e2ncia entre o ego e as suas certezas. Recorda-nos que somos seres limitados a falar de realidades que nos excedem. Impede-nos de transformar cada opini\u00e3o numa fortaleza e cada diverg\u00eancia numa batalha pela sobreviv\u00eancia da pr\u00f3pria identidade.<\/p>\n<p>Quem consegue sorrir de si mesmo j\u00e1 come\u00e7ou a libertar-se da tirania do ego. Talvez por isso o humor seja um dos melhores ant\u00eddotos contra o fanatismo. O fan\u00e1tico n\u00e3o consegue rir de si pr\u00f3prio porque precisa de levar absolutamente a s\u00e9rio a imagem que construiu de si, do mundo e at\u00e9 de Deus. O humor, pelo contr\u00e1rio, abre uma pequena fresta na parede das certezas. E por essa fresta pode entrar luz.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Pensar \u00e0 grande<\/strong><\/p>\n<p>Pensar com Deus n\u00e3o significa, portanto, pensar que se possui Deus. Significa justamente reconhecer que Deus n\u00e3o cabe no nosso pensamento. \u00c9 essa consci\u00eancia que permite pensar \u00e0 grande.<\/p>\n<p>Pensar \u00e0 grande \u00e9 n\u00e3o reduzir o outro \u00e0 opini\u00e3o que expressou ontem. \u00c9 n\u00e3o reduzir a f\u00e9 \u00e0 cren\u00e7a, nem a cren\u00e7a \u00e0 institui\u00e7\u00e3o. \u00c9 reconhecer a necessidade da comunidade sem divinizar as suas estruturas. \u00c9 respeitar a tradi\u00e7\u00e3o sem transformar a mem\u00f3ria numa algema. \u00c9 usar a raz\u00e3o sem fazer dela um \u00eddolo e escutar o cora\u00e7\u00e3o sem o confundir com o capricho. \u00c9 tamb\u00e9m reconhecer que aquilo que vemos depende, em parte, da janela atrav\u00e9s da qual olhamos.<\/p>\n<p>Talvez a verdadeira experi\u00eancia espiritual n\u00e3o nos ofere\u00e7a simplesmente respostas, mas comece por alargar a janela. Ent\u00e3o, aquilo que antes parecia contradit\u00f3rio pode revelar outra dimens\u00e3o; aquilo que parecia amea\u00e7a pode tornar-se pergunta e aquilo que parecia estranho pode tornar-se oportunidade de encontro.<\/p>\n<p>E at\u00e9 Deus deixa de ser o argumento que usamos contra o outro para voltar a ser o horizonte que nos ultrapassa a ambos. Nesse horizonte, a f\u00e9 n\u00e3o precisa de ter medo da raz\u00e3o, a raz\u00e3o n\u00e3o precisa de ridicularizar a f\u00e9 e a diferen\u00e7a n\u00e3o necessita de desembocar em hostilidade.<\/p>\n<p>Quem contempla o mundo por uma janela mais ampla descobre, pouco a pouco, que nenhuma perspetiva humana cont\u00e9m a paisagem inteira.<\/p>\n<p>E talvez seja precisamente a\u00ed, quando deixamos de confundir a nossa pequena janela com a vastid\u00e3o do mundo, que come\u00e7amos verdadeiramente a ver.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><br \/>\nPegadas do Tempo<br \/>\nORCID: <a href=\"https:\/\/orcid.org\/0009-0003-6251-1578\">https:\/\/orcid.org\/0009-0003-6251-1578<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>F\u00e9, cren\u00e7a e institui\u00e7\u00e3o entre os limites da linguagem e a vastid\u00e3o do horizonte humano A sabedoria n\u00e3o consiste em viver sem janelas, mas em saber que toda a janela tem uma moldura e que o horizonte \u00e9 sempre maior do que aquilo que vemos. 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