{"id":11298,"date":"2026-08-10T19:46:05","date_gmt":"2026-08-10T18:46:05","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11298"},"modified":"2026-08-10T19:46:05","modified_gmt":"2026-08-10T18:46:05","slug":"receita-para-estressados-do-autoaperfeicoamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11298","title":{"rendered":"RECEITA PARA ESTRESSADOS DO AUTOAPERFEI\u00c7OAMENTO"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>A arte de tamb\u00e9m nos deixarmos em paz<\/strong><\/p>\n<p>Vivemos numa \u00e9poca em que j\u00e1 n\u00e3o basta viver. \u00c9 preciso melhorar a vida, melhorar o corpo, melhorar a mente, melhorar as rela\u00e7\u00f5es e, se sobrar algum tempo, melhorar tamb\u00e9m a maneira como melhoramos. Imaginemos que at\u00e9 j\u00e1 chegamos a ponto de o descanso ter de ser produtivo.<\/p>\n<p>Meditamos para ficar mais serenos, fazemos exerc\u00edcio para viver mais, lemos para crescer interiormente e, ao fim do dia, ca\u00edmos exaustos na cama com a desagrad\u00e1vel sensa\u00e7\u00e3o de ainda n\u00e3o sermos a pessoa que dever\u00edamos ser. Estamos a exagerar um pouco neste ponto.<\/p>\n<p>A press\u00e3o do autoaperfei\u00e7oamento \u00e9 particularmente trai\u00e7oeira porque se apresenta sempre com boas maneiras. N\u00e3o nos diz: \u00abN\u00e3o prestas.\u00bb mas sugere-nos delicadamente que pod\u00edamos ser ainda melhores e n\u00f3s, habituados \u00e0 obedi\u00eancia, l\u00e1 metemos mais uma obriga\u00e7\u00e3o na mochila.<\/p>\n<p>Por isso gosto da medita\u00e7\u00e3o e da ora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o como t\u00e9cnicas para me tornar melhor, mas como lugares onde posso, por momentos, deixar de ter de me tornar seja o que for para ser simplesmente com o divino e expressar como \u00e9 boa a resson\u00e2ncia. H\u00e1 uma sabedoria e um sil\u00eancio que n\u00e3o exigem curr\u00edculo.<\/p>\n<p>No sil\u00eancio posso escutar-me e tentar reconciliar o ego com o eu, o eu com o tu e ambos com esse dif\u00edcil e maravilhoso \u00abn\u00f3s\u00bb. Para isso, cada pessoa traz consigo uma sabedoria que n\u00e3o vem necessariamente nos diplomas. H\u00e1 coisas que a alma sabe antes de n\u00f3s sabermos explic\u00e1-las e quanto mais simples s\u00e3o as pessoas mais vis\u00edvel tornam a explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m quem procura ajudar os outros conhece outra armadilha! Esquecermo-nos de n\u00f3s pr\u00f3prios, at\u00e9 a ponto de nos esquecermos da sede.<\/p>\n<p>Na vida religiosa e pastoral isso acontece facilmente. Queremos estar presentes, compreender, consolar, servir. Tudo \u00e9 muito crist\u00e3o at\u00e9 ao dia em que a alma, depois de passar tanto tempo a dar \u00e1gua aos outros, percebe que tamb\u00e9m ela tem sede.<\/p>\n<p>\u00c9 algo que \u00e9 preciso aprender pois tamb\u00e9m eu sou algu\u00e9m de quem devo cuidar, o problema \u00e9 que a for\u00e7a do h\u00e1bito nos leva na enxurrada.<\/p>\n<p>Temos por vezes uma estranha generosidade ao reservarmos para os outros a compreens\u00e3o e deixarmos para n\u00f3s a severidade. Ao amigo cansado dizemos: \u00abDescansa, fizeste o que podias.\u00bb A n\u00f3s pr\u00f3prios dizemos: \u00abPodias ter feito mais.\u00bb \u00c9 uma injusti\u00e7a na pr\u00f3pria casa talvez a compensar a atitude daqueles que organizam a vida a desviar a \u00e1gua para o seu moinho. (N\u00e3o se trata aqui de moralismo porque a vida \u00e9 como o fluxo do rio e n\u00e3o se fixa numa ou noutra margem ela \u00e9 margem e corrente doutro modo n\u00e3o seria vida).<\/p>\n<p>Durante a minha atividade pastoral encontrei uma maneira muito pessoal de fazer as pazes com os meus limites. Quando queria ajudar algu\u00e9m e sentia sobre mim o peso da responsabilidade, dizia a Deus: \u00abTu sabes que quero fazer o bem e que procuro estar ao Teu servi\u00e7o. Se fizer alguma coisa errada, lembra-Te de que tamb\u00e9m tenho as minhas limita\u00e7\u00f5es e eu fa\u00e7o o que posso e \u00e0 minha maneira, de resto, o problema \u00e9. Teu.\u00bb<\/p>\n<p>Talvez fosse uma ora\u00e7\u00e3o desabitual, mas aliviava-me a alma, pois sempre pensei que Deus compreenderia. Afinal, se nos criou limitados, n\u00e3o poder\u00e1 ficar demasiado surpreendido quando damos com a cabe\u00e7a nos limites.<\/p>\n<p>Hoje, na atividade jornal\u00edstica, continuo a viver um pouco desta confian\u00e7a. Escrevo procurando faz\u00ea-lo com boa inten\u00e7\u00e3o, embora conhe\u00e7a o aviso popular de que \u00abde boas inten\u00e7\u00f5es est\u00e1 o inferno cheio\u00bb.<\/p>\n<p>Escrevo, portanto, aquilo que analiso, penso e sinto. Se errar, haver\u00e1 quem me corrija e h\u00e1 sempre algo a aprender.<\/p>\n<p>Talvez seja esta a minha receita para os estressados do autoaperfei\u00e7oamento: tratar-nos a n\u00f3s mesmos como tratamos algu\u00e9m de quem gostamos e estarmos atentos ao que o esp\u00edrito do tempo nos dita.<\/p>\n<p>Melhorar, sim, mas sem viver descontentes com aquilo que somos. Por isso trata-se de ajudar os outros sem nos abandonarmos pelo caminho e rezar sem querer impressionar Deus, deixando tamb\u00e9m Deus falar e quando meditamos trata-se de o fazer sem transformar o sil\u00eancio noutra disciplina ol\u00edmpica.<\/p>\n<p>Trata-se de aprender a dizer ao fim de certos dias: \u00abFiz o que pude e amanh\u00e3 veremos.\u00bb<\/p>\n<p>N\u00e3o est\u00e1 escrito nos \u00ablivros\u00bb da vida que tenhamos de ser permanentemente a nossa melhor vers\u00e3o. A vida seria demasiado injusta se reservasse o seu palco apenas para os melhores. H\u00e1 lugar tamb\u00e9m para os hesitantes, os cansados, os que trope\u00e7am e continuam o caminho. Chegaria sermos, na medida do poss\u00edvel, a nossa vers\u00e3o mais humana, aquela que conhece os pr\u00f3prios limites, sabe sorrir das suas imperfei\u00e7\u00f5es e, ao fim do dia, se permite sentar um pouco com a vida, sem a obriga\u00e7\u00e3o de se aperfei\u00e7oar, deixando que ela siga o seu curso e n\u00f3s com ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Do Direito ao Desgoverno e \u00e0 Rebeldia!!!<\/strong><\/p>\n<p>Como exerc\u00edcio de desabitua\u00e7\u00e3o e em esp\u00edrito de contradi\u00e7\u00e3o \u00e0 propaganda do perfecionismo que nos quer atafegar, segue uma receita<\/p>\n<p>Quero entrar na vida sem passaporte e sair dela sem porteiro.<\/p>\n<p>O oposto do controle n\u00e3o \u00e9 o caos, mas sim a tr\u00e9gua!<\/p>\n<p>\u00c9 permitido chorar e n\u00e3o extrair li\u00e7\u00e3o alguma do choro.<\/p>\n<p>\u00c9 permitido levantar-se sem rumo e gastar o dia em \u00f3rbita.<\/p>\n<p>\u00c9 permitido ter medo das lembran\u00e7as e n\u00e3o ter for\u00e7as para encar\u00e1-las.<\/p>\n<p>\u00c9 permitido n\u00e3o rir dos problemas, lev\u00e1-los a s\u00e9rio, e deix\u00e1-los pesar.<\/p>\n<p>\u00c9 permitido n\u00e3o lutar, recuar e descobrir que a fronteira tamb\u00e9m \u00e9 um lugar.<\/p>\n<p>\u00c9 permitido abandonar tudo por medo porque \u00e0s vezes o medo \u00e9 a \u00fanica voz sensata.<\/p>\n<p>\u00c9 permitido n\u00e3o transformar sonhos em realidade e deix\u00e1-los onde est\u00e3o, na qualidade de sonhos.<\/p>\n<p>\u00c9 permitido n\u00e3o demonstrar amor e mesmo assim t\u00ea-lo guardado onde ningu\u00e9m v\u00ea.<\/p>\n<p>\u00c9 permitido que as tuas d\u00favidas e mau-humor respinguem nos outros, desde que, depois, os limpemos juntos.<\/p>\n<p>\u00c9 permitido deixar os amigos e, mais tarde, reencontr\u00e1-los no sil\u00eancio.<\/p>\n<p>\u00c9 permitido n\u00e3o seres tu mesmo diante das pessoas, porque tu tens v\u00e1rios eus e todos merecem vez.<\/p>\n<p>\u00c9 permitido fingir que as pessoas n\u00e3o te importam, se a intimidade doer naquele dia.<\/p>\n<p>\u00c9 permitido ser gentil por puro acaso e n\u00e3o por c\u00e1lculo de lembran\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00c9 permitido esquecer aqueles que gostam de ti porque a mem\u00f3ria tem os seus esquecimentos justos.<\/p>\n<p>\u00c9 permitido sentir saudade e n\u00e3o se alegrar, apenas senti-la at\u00e9 que ela passe.<\/p>\n<p>\u00c9 permitido esquecer os olhos, o sorriso e lembrar-se apenas do que doeu.<\/p>\n<p>\u00c9 permitido recusar-se a embelezar a dor e assim n\u00e3o transformar a tristeza em curr\u00edculo.<\/p>\n<p>\u00c9 permitido n\u00e3o ser her\u00f3i porque os her\u00f3is morrem no final e os habitantes ficam para testemunhar o cotidiano<\/p>\n<p>\u00c9 permitido n\u00e3o pagar o passado porque o passado j\u00e1 foi pago com o tempo que passou.<\/p>\n<p>\u00c9 permitido descansar, hesitar, errar e repetir o erro porque s\u00e3o actos pol\u00edticos de resist\u00eancia ao produtivismo.<\/p>\n<p>Quero entrar na vida sem passaporte e sair dela sem porteiro.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><br \/>\nPegadas do Tempo \u00a9<br \/>\nORCID: <a href=\"https:\/\/orcid.org\/0009-0003-6251-1578\">https:\/\/orcid.org\/0009-0003-6251-1578<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A arte de tamb\u00e9m nos deixarmos em paz Vivemos numa \u00e9poca em que j\u00e1 n\u00e3o basta viver. \u00c9 preciso melhorar a vida, melhorar o corpo, melhorar a mente, melhorar as rela\u00e7\u00f5es e, se sobrar algum tempo, melhorar tamb\u00e9m a maneira como melhoramos. 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