{"id":11281,"date":"2026-08-06T22:10:23","date_gmt":"2026-08-06T21:10:23","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11281"},"modified":"2026-08-06T22:11:20","modified_gmt":"2026-08-06T21:11:20","slug":"do-empenho-que-nos-falta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11281","title":{"rendered":"DO EMPENHO QUE NOS FALTA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Europa muralha quando foi chamada a ser mar<\/strong><\/p>\n<p>O mar n\u00e3o tem muros, mas os homens constroem-nos dentro de si para n\u00e3o descobrirem o rosto por tr\u00e1s da onda.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma imagem que a imprensa europeia repete, como um disco eliminado que lembra a de um mapa, com setas vermelhas a atravessarem o Estreito de Gibraltar, uma mancha densa de corpos an\u00f3nimos a escalar a cerca de Ceuta. Fala-se em n\u00fameros de pelo menos 50 000, 80 afogados, fala-se em \u00abpress\u00e3o migrat\u00f3ria\u00bb, em \u00abdefesa das fronteiras\u00bb, mas raramente se fala no que esses bra\u00e7os que nadam procuram, para al\u00e9m da linha imagin\u00e1ria que separa a \u00c1frica da Europa.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m nada contra as correntes do Mediterr\u00e2neo por desporto ou esp\u00edrito de aventura. A \u00e1gua salgada n\u00e3o \u00e9 um convite; \u00e9 um desespero l\u00edquido, um \u00faltimo recurso e aqueles jovens carregam nas costas uma hist\u00f3ria inteira de injusti\u00e7as, s\u00e9culos de extra\u00e7\u00e3o de riqueza, mapas de pa\u00edses tra\u00e7ados por outrem onde os seus recursos naturais e o seu trabalho foram sempre o combust\u00edvel para o progresso alheio.<\/p>\n<p>Quando Bruxelas ergue o tom e fala em \u00abinvas\u00e3o\u00bb, comete dois erros fatais porque troca a causa pelo efeito, e a pessoa pela estat\u00edstica. Mas n\u00e3o se invade aquilo a que se pertence, ainda que por direito de humanidade partilhada. O que vemos n\u00e3o \u00e9 uma mancha militar, mas o movimento tect\u00f3nico da pobreza a chocar contra a muralha rica da indiferen\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Por tr\u00e1s da Onda h\u00e1 uma Economia de Explora\u00e7\u00e3o e a Atra\u00e7\u00e3o pelo Abismo<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 uma verdade inc\u00f3moda que os discursos oficiais evitam: a Europa e os Estados Unidos s\u00e3o os grandes benefici\u00e1rios de um sistema que mant\u00e9m o Sul global numa depend\u00eancia perene. Extraem-se minerais, explora-se a m\u00e3o de obra, transferem-se lucros e depois, de maneira surpreendente e hip\u00f3crita, erguem-se barreiras para impedir que os corpos desses mesmos trabalhadores sigam o caminho do capital.<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o proposta \u00e9 quase sempre a mesma: conten\u00e7\u00e3o, devolu\u00e7\u00e3o, dissuas\u00e3o. Raramente se pergunta: porque \u00e9 que a Europa \u00e9 t\u00e3o atrativa? E a resposta \u00e9 cruelmente \u00f3bvia, porque concentra a riqueza que foi, em boa parte, constru\u00edda sobre os ombros daqueles que agora batem \u00e0 porta.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 um caminho alternativo, um caminho de empenho, n\u00e3o de luta. A palavra lutar traz j\u00e1 em si a mecha masculina guerreira. Por isso \u00e9 melhor falarmos de empenho. Empenho em criar filiais industriais nos pa\u00edses de origem. Empenho em transferir tecnologia e em pagar pre\u00e7os justos pelas mat\u00e9rias-primas. Empenho em reduzir a atratividade da Europa, n\u00e3o a tornando pior, mas tornando o mundo melhor.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de uma caridade paternalista nas de intelig\u00eancia estrat\u00e9gica com rosto humano. Se os jovens da margem sul tiverem escolas, empregos dignos, hospitais e esperan\u00e7a, a travessia mortal deixa de fazer sentido. A press\u00e3o migrat\u00f3ria n\u00e3o se resolve com arames farpados; resolve-se com estradas, f\u00e1bricas e universidades. E isto fica mais barato e \u00e9 mais justo e sobretudo mais eficaz.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>O Palco da Guerra \u00e9 o Sorvedouro que tudo justifica<\/strong><\/p>\n<p>Enquanto nos debatemos com os 80 afogados de Ceuta, os or\u00e7amentos europeus incham com verbas para a defesa. Ouvimos ministros, como o alem\u00e3o Pistorius, pregar a \u00abprepara\u00e7\u00e3o para a guerra\u00bb com a mesma naturalidade com que outros falam do tempo. O comediante Dieter Hallervorden, com a verdade crua que s\u00f3 a s\u00e1tira permite, chamou-lhe \u00abministro da Guerra\u00bb e mandou para o inferno quem exige que nos tornemos belicosos. O que disse parece exagerado, mas tem raz\u00e3o e at\u00e9 justifica que \u00e9 melhor ser covarde durante dois minutos do que estar morto para o resto da vida.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria, essa velha professora que nunca repetimos, ensina-nos que o rearmamento n\u00e3o \u00e9 seguran\u00e7a, mas sim uma profecia que se auto-cumpre. Cada euro gasto em tanques \u00e9 um euro roubado ao bom entendimento, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, \u00e0 sa\u00fade, \u00e0s pens\u00f5es, ao ambiente e provoca uma espiral de escalada que, como sabemos, desemboca sempre no mesmo lugar o campo de batalha, onde a l\u00f3gica falha e os factos brutos prevalecem.<\/p>\n<p>E quem paga o pre\u00e7o? Certamente n\u00e3o a pequena elite que, numa eventual crise, emigra para para\u00edsos fiscais ou pa\u00edses neutros. Quem paga s\u00e3o os que ficam, os que n\u00e3o t\u00eam para onde fugir, os que dependem do sistema p\u00fablico que se desmorona para financiar a ind\u00fastria b\u00e9lica. Os mesmos que, ironicamente, s\u00e3o convocados para odiar o estrangeiro, quando o verdadeiro inimigo, tantas vezes, est\u00e1 dentro de portas e veste fato e gravata.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Uma Elite governante doente contamina a Democracia e o seu Povo<\/strong><\/p>\n<p>A democracia europeia est\u00e1 doente e n\u00e3o por falta de elei\u00e7\u00f5es, mas por falta de escuta. Os governantes, ref\u00e9ns de grandes grupos econ\u00f3micos globais, privilegiam o lucro m\u00e1ximo e imediato em detrimento da justi\u00e7a social duradoura. Mas se a pol\u00edtica se virasse para a solidariedade efetiva, com planos concretos de coopera\u00e7\u00e3o, com perd\u00e3o da d\u00edvida, com investimento real nos pa\u00edses mais pobres, o apoio popular seria esmagador. As pessoas comuns n\u00e3o s\u00e3o est\u00fapidas e sabem que a explora\u00e7\u00e3o do ser humano e da natureza tem um custo que, mais cedo ou mais tarde, todos pagamos. Observam que gerir a mis\u00e9ria \u00e9 um neg\u00f3cio cruel e sabem que resolv\u00ea-la seria um investimento em paz.<\/p>\n<p>Se os governantes percebessem que o seu poder n\u00e3o est\u00e1 em controlar a orienta\u00e7\u00e3o mental dos cidad\u00e3os atrav\u00e9s do engano e do medo, mas em alinhar os interesses da na\u00e7\u00e3o com os interesses da humanidade, n\u00e3o precisariam de manipular, de dividir ou de guerrear. Um povo que se sente ouvido n\u00e3o precisa de ser vigiado. A guerra, ali\u00e1s, \u00e9 o \u00faltimo recurso dos que j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam argumentos de esperan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>A Modus de Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O rearmamento \u00e9, al\u00e9m do mais, uma cat\u00e1strofe ecol\u00f3gica. As ind\u00fastrias b\u00e9licas s\u00e3o das mais poluentes do globo. Mas o debate p\u00fablico insiste em separar o ambiente dos m\u00edsseis, como se o ar que respirarmos pudesse escolher entre a paz e a guerra.<\/p>\n<p>A verdadeira seguran\u00e7a dos povos n\u00e3o est\u00e1 nas ogivas nucleares, mas na capacidade partilhada de cultivar, de curar, de construir. N\u00e3o h\u00e1 muro alto que proteja uma ilha de prosperidade rodeada por um oceano de mis\u00e9ria. Esse mar n\u00e3o respeita fronteiras, porque leva corpos, leva sementes, leva polui\u00e7\u00e3o e leva hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>Por vezes o que parece desordem n\u00e3o \u00e9 desordem, \u00e9 apenas a \u00fanica ordem poss\u00edvel para quem olha o mundo com os olhos abertos e onde a indigna\u00e7\u00e3o \u00e9 o princ\u00edpio da lucidez.<\/p>\n<p>No fundo, o que Ceuta nos mostra n\u00e3o \u00e9 uma invas\u00e3o, mas um espelho que reflete um mundo que escolheu a defesa em vez do abra\u00e7o e o lucro em vez da vida.<\/p>\n<p>O verdadeiro empenho pol\u00edtico deveria consagrar-se \u00e0 paz com a mesma veem\u00eancia com que se consagra \u00e0 guerra. Consagrar-se-ia, pois, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e0 doutrina\u00e7\u00e3o, \u00e0 produ\u00e7\u00e3o local contra o dumping global. E ent\u00e3o, em vez de se perder a contar os afogados, ouviria, finalmente, o que dizem os que nadam.<\/p>\n<p>A verdadeira vit\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 impedir que cheguem, mas fazer com que n\u00e3o precisem de partir. Que o mar, um dia, sirva apenas para nos unir, nunca para nos sepultar.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><br \/>\nPegadas do Tempo \u00a9<br \/>\nORCID: <a href=\"https:\/\/orcid.org\/0009-0003-6251-1578\">https:\/\/orcid.org\/0009-0003-6251-1578<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Europa muralha quando foi chamada a ser mar O mar n\u00e3o tem muros, mas os homens constroem-nos dentro de si para n\u00e3o descobrirem o rosto por tr\u00e1s da onda. 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