{"id":11257,"date":"2026-08-03T14:52:59","date_gmt":"2026-08-03T13:52:59","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11257"},"modified":"2026-08-03T14:56:58","modified_gmt":"2026-08-03T13:56:58","slug":"ceuta-e-o-teatro-das-narrativas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11257","title":{"rendered":"CEUTA E O TEATRO DAS NARRATIVAS"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>50.000 almas entre o desespero e o xadrez geopol\u00edtico<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o eram cinquenta, nem quinhentas, mas sim cinquenta mil. Cinquenta mil almas que, enquanto o tempo abre e fecha os olhos, transpuseram a cerca que separa \u00c1frica da Europa, para, no dia seguinte, regressarem a Marrocos como se o mar tivesse devolvido aquilo que a terra emprestara. A imagem \u00e9 t\u00e3o surreal como a rapidez com que se desenrolou o tuf\u00e3o.<strong> Para o observador distra\u00eddo, foi uma vaga migrat\u00f3ria. Para o olhar cr\u00edtico, um espelho que reflecte as tens\u00f5es submersas do Magrebe e, por arrasto, um aviso sombrio de que as fronteiras, quando abandonadas \u00e0 geopol\u00edtica, se podem tornar em p\u00f3lvora seca, tal como a Ucr\u00e2nia nos ensinou.<\/strong><\/p>\n<p>A indiferen\u00e7a ou, mais provavelmente, a ac\u00e7\u00e3o calculada das autoridades marroquinas torna evidente que n\u00e3o estamos perante um acaso climat\u00e9rico ou uma falha de seguran\u00e7a. <strong>Rabat est\u00e1 irritado pelo restabelecimento de la\u00e7os amig\u00e1veis entre Espanha e a Arg\u00e9lia, que \u00e9 a sua rival hist\u00f3rica no tabuleiro norte-africano. Marrocos v\u00ea a aproxima\u00e7\u00e3o de Espanha a Arg\u00e9lia, como uma provoca\u00e7\u00e3o directa. <\/strong>Se a geopol\u00edtica \u00e9 a arte de fazer o inimigo dan\u00e7ar, Ceuta foi o palco agora escolhido e as 50.000 pessoas, infelizmente, s\u00e3o apenas coreografia involunt\u00e1ria. O rasto das pegadas na areia n\u00e3o leva ao mar; leva, inequivocamente, aos corredores do poder em Marrocos.<\/p>\n<p>Todavia, a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9, nunca foi, apenas migrat\u00f3ria. No horizonte, o Saara Ocidental emerge como um fantasma que recusa descansar em paz. Ao facilitar a cidadania espanhola aos saharauis, que s\u00e3o os habitantes ind\u00edgenas desse territ\u00f3rio disputado, Madrid atirou um dado sobre a mesa que Marrocos n\u00e3o podia ignorar. Apoiado pela Arg\u00e9lia, o movimento Polis\u00e1rio \u00e9 a espinha dorsal da indigna\u00e7\u00e3o marroquina. <strong>Assim, a crise de Ceuta n\u00e3o \u00e9 uma crise de refugiados; \u00e9 uma crise de soberania e de orgulho nacional ferido, que usa vidas humanas como massa de manobra numa negocia\u00e7\u00e3o que se quer silenciosa, mas que explode em pra\u00e7a p\u00fablica.<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00c9 aqui que o discurso p\u00fablico se desvirtua e a informa\u00e7\u00e3o se transforma em arma de arremesso. Bruxelas tece indigna\u00e7\u00f5es hip\u00f3critas, condimentadas com l\u00e1grimas de crocodilo, enquanto analistas de gabinete especulam sobre liga\u00e7\u00f5es obscuras entre Washington, Telavive e Rabat. Diz-se que Marrocos decidiu desestabilizar o governo de esquerda espanhol em retalia\u00e7\u00e3o pelas cr\u00edticas de Madrid a Israel na Faixa de Gaza e aos ataques dos EUA ao Ir\u00e3o, ou pela resist\u00eancia ib\u00e9rica em aumentar aceleradamente as despesas de defesa perante as exig\u00eancias de Trump. Haver\u00e1 um fio condutor que liga a press\u00e3o sobre o d\u00e9fice militar \u00e0 abertura s\u00fabita das portas de Ceuta? Esta especula\u00e7\u00e3o, por mais sedutora que seja, corre o risco de servir apenas os moinhos de quem procura simplificar o complexo. A verdade \u00e9 que transformar 50.000 jovens desesperados num instrumento de chantagem diplom\u00e1tica revela uma crueldade t\u00e3o gritante que ultrapassa qualquer inten\u00e7\u00e3o pol\u00edtica racional.<\/strong><\/p>\n<p>Os rumores, esses, acrescentam p\u00f3lvora ao debate. A ideia de que Israel ajudaria Marrocos a &#8220;recuperar&#8221; Ceuta e Melilha para punir a Espanha circula nos bastidores como moeda corrente. Mas, mais do que a veracidade destas inten\u00e7\u00f5es, dif\u00edcil de provar e f\u00e1cil de desmentir, importa perceber quem as divulga e com que prop\u00f3sito. <strong>A informa\u00e7\u00e3o, hoje, muitas vezes n\u00e3o ilumina porque deslumbra e cega. <\/strong>As redes sociais amplificam o eco da fronteira &#8220;aberta&#8221;, transformando o desalento estrutural dos jovens marroquinos, que veem no mar mais oportunidades do que na sua pr\u00f3pria p\u00e1tria, num espet\u00e1culo medi\u00e1tico que desvia o olhar do elefante na sala: a falta de oportunidades end\u00e9mica nos pa\u00edses de origem e a hipocrisia europeia perante o drama humano, que s\u00f3 se comove quando as imagens entram pela sala de estar dentro.<\/p>\n<p><strong>Ceuta \u00e9, pois, o reflexo de um mundo onde as cortinas da geopol\u00edtica escondem palcos de mis\u00e9ria. As fronteiras, recordemo-lo, devem ser marcadas por boas rela\u00e7\u00f5es entre vizinhos e n\u00e3o por not\u00edcias escandalosas ou informa\u00e7\u00f5es manipuladas que procuram levar a \u00e1gua aos moinhos de agendas alheias. A<\/strong>o lermos os factos, exijamos clareza: n\u00e3o nos deixemos afogar na espuma dos dias, mas antes aprendamos a ver o fundo do abismo, mas sem ganhar vertigens. Porque enquanto as grandes pot\u00eancias jogam xadrez com os territ\u00f3rios, os pe\u00f5es, esses cinquenta mil, continuam a olhar para o mar, n\u00e3o como uma fronteira, mas como a \u00fanica promessa t\u00e9nue de um futuro que, na terra firme, lhes foi negado.<\/p>\n<p>Segundo fontes oficiais espanholas, pelo menos 67 pessoas morreram durante este epis\u00f3dio espec\u00edfico, que levou \u00e0 chegada de cerca de 50.000 pessoas \u00e0 cidade. Em 2026 morreram oficialmente 97 pessoas na tentativa de alcan\u00e7ar Ceuta. N\u00fameros oficiais apontam para 46 mortos em 2025.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<br \/>\n<\/strong><strong>Pegadas do Tempo<br \/>\n<\/strong><strong>ORCID: https:\/\/orcid.org\/0009-0003-6251-1578<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>50.000 almas entre o desespero e o xadrez geopol\u00edtico N\u00e3o eram cinquenta, nem quinhentas, mas sim cinquenta mil. 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