{"id":1124,"date":"2007-11-17T10:35:00","date_gmt":"2007-11-17T09:35:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1124"},"modified":"2007-11-17T10:35:00","modified_gmt":"2007-11-17T09:35:00","slug":"natal-%e2%80%93-a-simbologia-dum-outro-humanismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1124","title":{"rendered":"Natal \u2013 A simbologia dum outro humanismo"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"texto\">                    <b>Um humanismo para l\u00e1 do religioso e do pol\u00edtico<\/b><\/p>\n<p>As representa\u00e7\u00f5es mais antigas do nascimento de Jesus apresentam-no numa gruta, numa caverna. Os povos da Palestina costumavam usar as grutas para guarida dos animais. Maria deu \u00e0 luz o filho numa gruta colocando-o na manjedoura dos animais, refere Lucas (2, 7). A tradi\u00e7\u00e3o de representar o nascimento num curral come\u00e7ou s\u00f3 mais tarde, na \u00e9poca de Francisco de Assis, altura em que o pensar naturalista se estendeu \u00e0 iconografia (1). A igreja oriental permaneceu com o motivo da gruta, da caverna. Este est\u00e1 recheado de sentido simb\u00f3lico. A realidade divina com o natal torna-se hist\u00f3ria humana e vice-versa.<br \/>A gruta, ou caverna quer lembrar a racha ou fenda da terra que recorda tamb\u00e9m o seio feminino. O nascimento de Jesus na gruta simboliza a uni\u00e3o do C\u00e9u com a terra sendo esta por aquele fecundada. A gruta \u00e9 o lugar do acontecimento sagrado onde se realiza a fecunda\u00e7\u00e3o da terra pelo c\u00e9u.<br \/>Com o nascimento de Jesus na gruta foi quebrada a dura crusta do mundo e assim se torna livre o caminho para Deus e se abre o caminho do ser humano para si mesmo. Da caverna sai a luz. No seu desenvolvimento, o ser humano ter\u00e1 que entrar na gruta (na caverna) do cora\u00e7\u00e3o; tamb\u00e9m ele ter\u00e1 de transpor a crusta do seu corpo para penetrar no seu cora\u00e7\u00e3o onde se encontra o gene divino. Na caverna do cora\u00e7\u00e3o repousa a luz, o gene divino \u00e0 espera de poder perpassar o caos. O lugar de \u201cref\u00fagio\u201d, a gruta \u00e9 o lugar do encontro, do renascimento, da regenera\u00e7\u00e3o.<br \/>Os arqu\u00e9tipos Jesus, Gruta, Maria e a comunidade que nasce da gruta tornam-se vis\u00edveis evidenciando-se a sua realidade simb\u00f3lica no acontecimento da incarna\u00e7\u00e3o (Natal). O s\u00edmbolo, mais que um sinal duma realidade, \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o da verdadeira realidade na esfera espacio \u2013 temporal. \u00c9 a realidade total (divina) que se presencializa. Ao lado de Jesus encontram-se tamb\u00e9m o burro e a vaca, s\u00edmbolos das for\u00e7as da luz e das trevas. Os dois bafejam-no e num acto de submiss\u00e3o entregam-lhe essas for\u00e7as.<br \/>No Natal vive-se o tempo do cora\u00e7\u00e3o, a gruta onde se encontra a sabedoria \u00e0 espera de ser abordada e concretizada. Tamb\u00e9m a m\u00edstica do cora\u00e7\u00e3o de Jesus tem a ver com a gruta nas imagens arqu\u00e9tipo.<br \/>Quem quer renascer ter\u00e1 de entrar na gruta, no cora\u00e7\u00e3o da terra, no cora\u00e7\u00e3o do ser humano, em si mesmo. A regenera\u00e7\u00e3o d\u00e1-se no cora\u00e7\u00e3o de Cristo, no pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a gruta do nascimento do verdadeiro Homem e da Comunidade. Na gruta, no cora\u00e7\u00e3o se encontrar\u00e1 o pai do ser. A\u00ed se gera o novo ser donde nascer\u00e1 uma consci\u00eancia nova integral. Nos albergues n\u00e3o h\u00e1 lugar para o renascimento atendendo a que o novo n\u00e3o pode surgir sob a influ\u00eancia do velho. O novo homem ter\u00e1 que nascer longe da esfera das for\u00e7as dominantes.<br \/>Na simbologia natal\u00edcia sobressai tamb\u00e9m a virgindade, a imagem duma mulher que se encontra em rela\u00e7\u00e3o com Deus sem interven\u00e7\u00e3o do homem nem de institui\u00e7\u00e3o humana. Aqui surge uma nova cria\u00e7\u00e3o da humanidade que se expressa em Jesus Cristo, o ser soberano, o novo Homem, n\u00f3s. Em mim se gera a realidade humano-divina Jesus Cristo.<br \/>Com a incarna\u00e7\u00e3o passa-se a uma correla\u00e7\u00e3o humano \u2013 divina; a mat\u00e9ria possui o gene divino. Com a nova Eva o ser humano n\u00e3o se define apenas pelo parentesco, n\u00e3o se explica pelo acto sexual, nem t\u00e3o-pouco por um acto evolutivo mas pela rela\u00e7\u00e3o directa com Deus. A simbologia cria uma liga\u00e7\u00e3o com a realidade da vida do homem e de toda a natureza. Ela abre um novo mundo em que \u00e9 poss\u00edvel a exist\u00eancia do homem livre e libertador, salvador. O homem \u00e9 libertado das suas rela\u00e7\u00f5es ambientais, do ter, da fam\u00edlia e das autoridades. Surge uma nova consci\u00eancia humana, para l\u00e1 das morais. Na sua saudade vital ele participa da reden\u00e7\u00e3o e continua-a; realiza o que em Cristo se pode ver j\u00e1 na antecipa\u00e7\u00e3o, no processo hist\u00f3rico do desenvolvimento.<br \/>Na incarna\u00e7\u00e3o a esfera divina interpenetra-se com a esfera humana, com Maria, a m\u00e3e terra, sem interven\u00e7\u00e3o natural. Na realidade natal\u00edcia o c\u00e9u e a terra manifestam-se assim numa rela\u00e7\u00e3o bipolar, sem antagonismos. (O antagonismo e a dial\u00e9ctica pertencem ao mundo da realidade superficialmente percept\u00edvel, \u00e0 fenomenologia). Com a incarna\u00e7\u00e3o a divindade materializa-se em Jesus e espiritualiza-se pela ressurrei\u00e7\u00e3o no Cristo, unificando-se em Jesus Cristo o prot\u00f3tipo da realidade, o prot\u00f3tipo do ser humano, da rela\u00e7\u00e3o bipolar humano \u2013 divina. Neste processo a abertura \u00e9 o pressuposto do acto criador e da maternidade. A maternidade torna-se tamb\u00e9m ela o processo gerador cont\u00ednuo da nova realidade, uma rela\u00e7\u00e3o bipolar m\u00e3e \u2013 filho, mat\u00e9ria \u2013 esp\u00edrito.<br \/>H\u00e1 uma correla\u00e7\u00e3o entre o nascimento na gruta e o parto virginal. A terra e a m\u00e3e d\u00e3o \u00e0 luz\u2026 Com o Natal irrompe no tempo a criatividade e a inspira\u00e7\u00e3o.<br \/>Somos terra, terra a tornar-nos m\u00e3e. Neste processo acontece natal&#8230; d\u00e1-se \u00e0 luz: para isso n\u00e3o \u00e9 preciso ser-se religioso nem ateu, \u00e9-se Homem.<br \/>N\u00e3o se trata aqui de cair num espiritualismo ing\u00e9nuo dado que a componente terra est\u00e1 bem presente na simbologia da cruz. O lugar do ser humano n\u00e3o \u00e9 o da fantasia mas o da hist\u00f3ria com as suas realidades. Este pressup\u00f5e por\u00e9m uma nova consci\u00eancia, um novo modo de pensar, sentir e agir. Tudo em correla\u00e7\u00e3o dum di\u00e1logo rec\u00edproco do mundo da experi\u00eancia humana. Esta \u00e9 a mensagem a ser compreendida por religi\u00e3o, pol\u00edtica, economia e sociedade. Doutro modo continuaremos a viver e a agir na pr\u00e9-hist\u00f3ria do esp\u00edrito &#8211; mat\u00e9ria.<br \/>A realidade do Natal com a sua simbologia vem dar luz sobre as ambival\u00eancias da vida e abrir-lhes novas perspectivas a n\u00edvel social, religioso, pol\u00edtico e pessoal. Trata-se portanto de, nos nossos actos paternais, maternais, filiais (fraternais, maritais e humanos), concretizarmos o humano \u2013 divino, de presencializarmos o Natal (a incarna\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p><b>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/b><br \/>In \u201c Pegadas do Tempo\u201d<\/p>\n<p>(1) Desejo notar aqui, para aqueles que sigam mais o pensar linear, o pensar l\u00f3gico, que h\u00e1 v\u00e1rias maneiras de abordar a realidade e que o pensar l\u00f3gico \u00e9 diferente do pensar simb\u00f3lico, por imagens. De facto h\u00e1 uma correla\u00e7\u00e3o entra a verdade m\u00edtica e a verdade hist\u00f3rica. A hist\u00f3rica \u00e9 apenas a leitura perspectivista espacio-temporal da realidade enquanto que a simb\u00f3lica m\u00edtica \u00e9 aperspectivista, integral, englobando tamb\u00e9m a primeira, sendo pluridimensional. A realidade m\u00edtica inclui tamb\u00e9m a realidade natural e hist\u00f3rica. Trata-se duma interpreta\u00e7\u00e3o integral cora\u00e7\u00e3o &#8211; raz\u00e3o e n\u00e3o apenas duma interpreta\u00e7\u00e3o l\u00f3gica, mental. Cora\u00e7\u00e3o e raz\u00e3o unem-se na tentativa de percep\u00e7\u00e3o da Realidade. <\/span><\/p>\n<div align=\"right\"> <span class=\"texto\"><b>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/b> <\/span><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um humanismo para l\u00e1 do religioso e do pol\u00edtico As representa\u00e7\u00f5es mais antigas do nascimento de Jesus apresentam-no numa gruta, numa caverna. Os povos da Palestina costumavam usar as grutas para guarida dos animais. Maria deu \u00e0 luz o filho numa gruta colocando-o na manjedoura dos animais, refere Lucas (2, 7). 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