{"id":11231,"date":"2026-07-30T22:51:43","date_gmt":"2026-07-30T21:51:43","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11231"},"modified":"2026-07-30T23:07:02","modified_gmt":"2026-07-30T22:07:02","slug":"uma-boa-accao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11231","title":{"rendered":"UMA BOA AC\u00c7\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p>O dia nascera enevoado sobre Kassel, com um daqueles cinzentos que se nos colam aos ossos e toldam o \u00e2nimo antes mesmo do primeiro gole de caf\u00e9. As compras do dia a fazer, as obras inc\u00f3modas e eternas em frente ao estabelecimento, o carrinho de pl\u00e1stico a ranger, as luzes frias do Aldi a iluminar a indiferen\u00e7a dos rostos apressados. Nada anunciava que, ali, entre as prateleiras met\u00e1licas e o zumbido dos leitores de c\u00f3digo de barras, iria despontar um sol particular.<\/p>\n<p>Nada anunciava que, ali, entre as prateleiras met\u00e1licas e o zumbido dos leitores de c\u00f3digo de barras, iria despontar um sol particular.<\/p>\n<p>A minha esposa, carola, estava na fila do caixa, de olhar perdido no vaiv\u00e9m mon\u00f3tono das compras, quando reparou no homem que a sucedia na fila da caixa. N\u00e3o tinha carrinho, apenas os bra\u00e7os carregados com meia d\u00fazia de artigos, equilibrados com a per\u00edcia de quem n\u00e3o gosta de perder tempo. Num gesto espont\u00e2neo, que \u00e9 um sopro de humanidade, a carola sorriu-lhe e convidou-o a passar \u00e0 sua frente. Era pouco, dir-se-ia, quase nada porque significava apenas um passo para o lado, um aceno de m\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas o homem, com uma serenidade desarmante, n\u00e3o se limitou a aceitar. Virou-se, apontou para o senhor que vinha atr\u00e1s de dele, um anci\u00e3o de m\u00e3os tr\u00e9mulas e olhar cansado, que segurava uma \u00fanica barra de p\u00e3o e respondeu, com uma voz quente que cortou o ar condicionado da loja:<\/p>\n<p>&#8211; Mas olhe que, o que est\u00e1 atr\u00e1s de mim, ainda tem menos que eu.<\/p>\n<p>Carola, rendida \u00e0quela corrente de gentileza, abriu os bra\u00e7os num gesto largo:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o passem os dois, \u00e0 vontade.<\/p>\n<p>Foi como se uma pequena onda de calor tivesse varrido a fila da caixa e o corredor. Os dois homens sorriram, daqueles sorrisos genu\u00ednos, sem pressa e sem m\u00e1scaras. O primeiro atravessou o Caixa, pagou e, em vez de se evadir para a rua, quedou-se pacientemente ao lado dos tapetes rolantes, \u00e0 espera de Carola. Quando ela terminou, ele aproximou-se com uma oferta inesperada:<\/p>\n<p>&#8211; Deixe-me levar-lhe as compras at\u00e9 ao carro.<\/p>\n<p>Ela recusou, por instinto, constrangida com o peso, porque afinal, levava dois fardos de \u00e1gua, cada um com seis garrafas pesadas. Mas ele, que j\u00e1 contava d\u00e9cadas a mais no lombo da vida, n\u00e3o aceitou um &#8220;n\u00e3o&#8221; por resposta. Pegou nos fardos com a firmeza de quem ainda carrega consigo a for\u00e7a das boas maneiras de outros tempos e seguiu-a pelo estacionamento, com passos seguros, como quem carrega um tesouro.<\/p>\n<p>No carro, j\u00e1 com os vidros embaciados pelo esfor\u00e7o e pela emo\u00e7\u00e3o, Carola agradeceu-lhe, comovida. Ele, limpando as m\u00e3os \u00e0s cal\u00e7as e com um brilho maroto no olhar, confessou:<\/p>\n<p>&#8211; Eu s\u00f3 queria come\u00e7ar o dia com uma boa ac\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que a minha mulher, iluminada por aquela troca t\u00e3o singela, lhe respondeu com a ternura que o momento pedia:<\/p>\n<p>&#8211; Mas o senhor j\u00e1 fez a boa ac\u00e7\u00e3o e n\u00e3o foi uma, foram duas! Ao deixar o colega de tr\u00e1s passar, e ao sorrir-me com esta cordialidade t\u00e3o pura, sem segundas inten\u00e7\u00f5es. Isso j\u00e1 era para mim\u00a0 o sol da manh\u00e3.<\/p>\n<p>Ele ficou em sil\u00eancio por um instante, como quem saboreia uma fruta doce e sorriu de novo. Era daqueles homens raros que, em cada gesto, se esquecem da \u00faltima boa obra e s\u00f3 se lembram da pr\u00f3xima. N\u00e3o guardava trof\u00e9us, apenas semeava.<\/p>\n<p>E acreditem: aquele sorriso, nascido no corredor de um supermercado qualquer, foi um clar\u00e3o que desfez o nevoeiro cerrado que a manh\u00e3 nos trouxera. Mas a magia n\u00e3o parou ali. Ao chegar a casa, a Carola contou-me tudo, e as palavras dela envolveram-me como um cobertor ao lume. Ela, ao transmitir-me esse instante, praticou tamb\u00e9m a sua boa ac\u00e7\u00e3o, fez com que a fa\u00edsca saltasse para mim. E eu, agora, ao confi\u00e1-la a estas linhas, passo-lhe a chama a si, que me l\u00ea.<\/p>\n<p>\u00c9 assim o desabrochar do dia. N\u00e3o vem num estrondo, nem num acontecimento grandioso. Vem num desvio de passo, numa ced\u00eancia de lugar, num oferecimento de bra\u00e7os cansados, num sorriso que se atravessa no nosso caminho e nos deixa, sem pedir nada em troca, a sensa\u00e7\u00e3o profunda e c\u00e1lida de um amanhecer eterno.<\/p>\n<p>Porque o que custa zero \u00e9, no fim, o que tem mais valor. E as pegadas que ficam no tempo n\u00e3o s\u00e3o as das pressas, mas as dos pequenos gestos que nos fazem parar e olhar o outro.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo,<br \/>\nPegadas do Tempo<br \/>\nORCID: <a href=\"https:\/\/orcid.org\/0009-0003-6251-1578\">https:\/\/orcid.org\/0009-0003-6251-1578<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O dia nascera enevoado sobre Kassel, com um daqueles cinzentos que se nos colam aos ossos e toldam o \u00e2nimo antes mesmo do primeiro gole de caf\u00e9. 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