{"id":11207,"date":"2026-07-25T22:36:50","date_gmt":"2026-07-25T21:36:50","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11207"},"modified":"2026-07-25T22:36:50","modified_gmt":"2026-07-25T21:36:50","slug":"voltando-ao-acordo-ortografico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11207","title":{"rendered":"VOLTANDO AO ACORDO ORTOGR\u00c1FICO"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para pessoas que p\u00f5em retic\u00eancias ao AO e interessadas na discuss\u00e3o<\/p>\n<p>Ao ler-se o artigo \u201cO Acordo Ortogr\u00e1fico ainda n\u00e3o pode ser julgado\u201d de Paulo Freitas do Amaral, no jornal \u201cCorreio de Lagos\u201d <a href=\"https:\/\/correiodelagos.com\/opiniao\/o-acordo-ortografico-ainda-nao-pode-ser-julgado\/#\">https:\/\/correiodelagos.com\/opiniao\/o-acordo-ortografico-ainda-nao-pode-ser-julgado\/#<\/a> , verifica-se que o artigo \u00e9 um primor de ret\u00f3rica hist\u00f3rica, mas peca por determinismo tecnol\u00f3gico. Ele olha para as redes de informa\u00e7\u00e3o como um mero eco do Acordo, quando, na verdade, elas s\u00e3o o seu principal campo de batalha. Longe de tornarem o Acordo irrevers\u00edvel, as novas tecnologias exp\u00f5em as suas incongru\u00eancias diariamente, mantendo viva a grafia anterior nos motores de busca e permitindo, pela primeira vez na Hist\u00f3ria, uma flexibilidade ortogr\u00e1fica em tempo real. Se o autor estivesse certo, a intelig\u00eancia artificial j\u00e1 teria resolvido a quest\u00e3o; mas a realidade \u00e9 que a IA gera constantemente erros e confus\u00f5es entre as variantes, provando que o Acordo n\u00e3o \u00e9 uma realidade cultural consolidada, mas uma norma administrativa em permanente tens\u00e3o com a pr\u00e1tica viva da l\u00edngua, uma tens\u00e3o que a tecnologia, afinal, tornou mais vis\u00edvel, e n\u00e3o mais pac\u00edfica.<\/p>\n<ol>\n<li>O &#8220;argumento da escala temporal&#8221; \u00e9 uma fal\u00e1cia de autoridade ao apelar para a Hist\u00f3ria. Quando afirma que 20 anos s\u00e3o &#8220;extremamente curtos&#8221; perante &#8220;nove s\u00e9culos&#8221;, ele est\u00e1 a cometer um sofisma. Este racioc\u00ednio \u00e9 uma armadilha l\u00f3gica que torna qualquer cr\u00edtica eternamente prematura. Se 20 anos s\u00e3o curtos, 50 tamb\u00e9m o ser\u00e3o, e 100 tamb\u00e9m, porque a l\u00edngua tem 900.<\/li>\n<\/ol>\n<p>O que ele esconde com esta ret\u00f3rica \u00e9 que a avalia\u00e7\u00e3o de um sistema n\u00e3o precisa de s\u00e9culos. A coer\u00eancia interna de uma l\u00edngua avalia-se pela l\u00f3gica, n\u00e3o pela cronologia. Se eu desenhar um mapa com coordenadas erradas, n\u00e3o preciso de esperar 50 anos para saber que os viajantes se v\u00e3o perder; posso analisar a geometria do mapa no dia seguinte. O Acordo Ortogr\u00e1fico tem v\u00edcios l\u00f3gicos que s\u00e3o atemporais e que a ret\u00f3rica do autor tenta abafar com a n\u00e9voa do &#8220;tempo hist\u00f3rico&#8221;.<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li>A &#8220;coer\u00eancia interna&#8221; e o pecado da exce\u00e7\u00e3o (O &#8220;deus dar\u00e1&#8221;)<\/li>\n<\/ol>\n<p>O historiador deixa a coer\u00eancia &#8220;ao deus dar\u00e1&#8221;. Coer\u00eancia interna \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o previs\u00edvel entre a fonologia (o som) e a grafia (a escrita), e a rela\u00e7\u00e3o morfol\u00f3gica entre palavras da mesma fam\u00edlia (ex: eletricidade \/ el\u00e9trico). Se a l\u00edngua n\u00e3o obedece a decretos, porque assume que obedece a este?<\/p>\n<p>O Acordo Ortogr\u00e1fico, na sua aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica, quebrou essa coer\u00eancia em vez de a aperfei\u00e7oar. Ele eliminou as consoantes mudas (ex: ac\u00e7\u00e3o, a\u00e7\u00e3o), mas apenas quando n\u00e3o s\u00e3o pronunciadas. Contudo, na deriva\u00e7\u00e3o, essas mesmas consoantes reaparecem porque s\u00e3o pronunciadas: escrevemos a\u00e7\u00e3o (sem &#8216;c&#8217;), mas escrevemos acionista ou acionar (com &#8216;c&#8217;? N\u00e3o, espera, a regra \u00e9 acionar sem &#8216;c&#8217; tamb\u00e9m? Vamos a um exemplo mais claro: contacto, passou a contato em Portugal? N\u00e3o, a regra diz que se a consoante for pronunciada, mant\u00e9m-se. Ent\u00e3o pacto mant\u00e9m o &#8216;c&#8217; porque se pronuncia? Com isto abre-se caminho \u00e0 confus\u00e3o.<\/p>\n<p>O exemplo cl\u00e1ssico \u00e9 a dupla grafia de verbos que passaram a ter oscila\u00e7\u00f5es ca\u00f3ticas. Como j\u00e1 referi no artigo <a href=\"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11083\">https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11083<\/a> \u00a0o que o Acordo fez foi substituir uma ortografia etimol\u00f3gica (com regras claras, ainda que complexas) por uma ortografia fon\u00e9tica superficial, mas cheia de exce\u00e7\u00f5es e casu\u00edsmos e empobrecimento das pessoas gramaticais. \u00c9 exatamente o oposto de uma coer\u00eancia interna, passando a ser uma colcha de retalhos. Ignorar esta an\u00e1lise t\u00e9cnica em nome de &#8220;j\u00e1 passou uma gera\u00e7\u00e3o&#8221; \u00e9, de facto, deixar o rigor ao acaso.<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li>A confus\u00e3o entre &#8220;sucesso de implementa\u00e7\u00e3o&#8221; e &#8220;qualidade sist\u00e9mica&#8221;<\/li>\n<\/ol>\n<p>O autor do texto troca os campos sem\u00e2nticos propositadamente. Ele diz que n\u00e3o se pode chamar &#8220;fracasso&#8221; porque as pessoas est\u00e3o a escrever de acordo com a nova norma. Mas isso \u00e9 confundir ades\u00e3o for\u00e7ada com qualidade lingu\u00edstica.<\/p>\n<p>A escolaridade obrigat\u00f3ria e os dicion\u00e1rios institucionais imp\u00f5em qualquer norma, mesmo que ela seja m\u00e1. A quest\u00e3o nunca foi se as pessoas conseguem adaptar-se (elas conseguem porque os humanos s\u00e3o pl\u00e1sticos), mas sim o que se perdeu nessa adapta\u00e7\u00e3o. Perdeu-se a transpar\u00eancia etimol\u00f3gica (a liga\u00e7\u00e3o ao latim e grego, que ajudava na compreens\u00e3o de palavras eruditas), perdeu-se a distin\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica entre palavras hom\u00f3fonas (ex: cesta e sexta j\u00e1 eram confusas, mas outras surgiram) e, sobretudo, perdeu-se a unicidade da raiz morfol\u00f3gica. Avaliar o sucesso ou fracasso sem passar pelo crivo da funcionalidade cognitiva e pedag\u00f3gica \u00e9 um debate vazio. O autor foge desse crivo porque, se o enfrentasse, teria de admitir que a reforma \u00e9, na melhor das hip\u00f3teses, um mal que atenta contra a l\u00f3gica da l\u00edngua.<\/p>\n<ol start=\"4\">\n<li>O &#8220;tempo&#8221; n\u00e3o cura contradi\u00e7\u00f5es l\u00f3gicas<\/li>\n<\/ol>\n<p>Por fim, a maior fragilidade da posi\u00e7\u00e3o do historiador\u00a0 \u00e9 assumir que o tempo \u00e9 uma esp\u00e9cie de alquimia que transforma o errado em certo. Se uma regra \u00e9 internamente contradit\u00f3ria hoje, continuar\u00e1 a s\u00ea-lo daqui a 100 anos. As pessoas podem habituar-se \u00e0 contradi\u00e7\u00e3o porque o c\u00e9rebro humano normaliza o absurdo, mas isso n\u00e3o faz dela uma boa regra. A Hist\u00f3ria que ele invoca n\u00e3o \u00e9 um juiz que absolve os erros; \u00e9 um arquivo que os regista.<\/p>\n<p>Quando ele diz que &#8220;a l\u00edngua n\u00e3o obedece a decretos&#8221;, e simultaneamente defende que os decretos devem permanecer s\u00f3 porque foram aplicados, ele est\u00e1 a contradizer a sua pr\u00f3pria premissa. Se a l\u00edngua \u00e9 org\u00e2nica, ela rejeitaria espontaneamente as m\u00e1s solu\u00e7\u00f5es. Ora, o que vemos \u00e9 que a l\u00edngua n\u00e3o rejeitou porque a tecnologia e a escola a amoleceram. Estamos perante uma l\u00edngua em estado de &#8220;vida assistida&#8221;, n\u00e3o de evolu\u00e7\u00e3o natural.<\/p>\n<p>Em suma, o texto de Paulo Freitas do Amaral \u00e9 uma magn\u00edfica pe\u00e7a de orat\u00f3ria para silenciar cr\u00edticos, apelando \u00e0 paci\u00eancia hist\u00f3rica. Mas a verdade \u00e9 que um linguista ou um fil\u00f3logo s\u00e9rio n\u00e3o precisa de esperar 900 anos para saber se uma reforma faz sentido; precisa apenas de olhar para o paradigma verbal, para a deriva\u00e7\u00e3o sufixal e para a economia cognitiva da escrita. E, nesse olhar, o Acordo revela-se fr\u00e1gil, incoerente e profundamente dependente de &#8220;deus dar\u00e1&#8221; \u2013 ou, pior, do &#8220;deus algor\u00edtmico&#8221; dos corretores ortogr\u00e1ficos. Na qualidade de historiador Paulo Freitas do Amaral pronuncia-se sobre um assunto que n\u00e3o faz parte da sua especialidade e deveria reconhecer que a filosofia da Hist\u00f3ria n\u00e3o deve seguir o cunho pol\u00edtico\/partid\u00e1rio porque obedece a uma outra l\u00f3gica.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<br \/>\n<\/strong>ORCID: <a href=\"https:\/\/orcid.org\/0009-0003-6251-1578\">https:\/\/orcid.org\/0009-0003-6251-1578<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Anexo carta que redigi \u00e0 Direc\u00e7\u00e3o do Jornal Correio de Lagos<\/p>\n<p>Assunto: <strong>Refuta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica aos pressupostos hist\u00f3ricos e tecnol\u00f3gicos do Acordo Ortogr\u00e1fico<\/strong><\/p>\n<p>(Se o Jornal Correio de Lagos pretender contribuir para uma discuss\u00e3o mais objectiva pode publicar o artigo que se segue \u00e0 refuta\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Prezado Senhor Paulo Freitas do Amaral, \u00a0autor do artigo \u201cO Acordo Ortogr\u00e1fico ainda n\u00e3o pode ser julgado\u201d.<\/p>\n<p>Li com aten\u00e7\u00e3o o seu artigo, no qual defende que vinte anos s\u00e3o um per\u00edodo insuficiente para avaliar o Acordo Ortogr\u00e1fico e que as novas redes de informa\u00e7\u00e3o e a digitaliza\u00e7\u00e3o vieram, naturalmente, consolidar a sua irreversibilidade. A sua prosa \u00e9, reconhecidamente, de grande flu\u00eancia ret\u00f3rica. Contudo, como cidad\u00e3o atento \u00e0 coer\u00eancia interna da nossa l\u00edngua e \u00e0 realidade dos factos digitais, sinto-me na obriga\u00e7\u00e3o de lhe endere\u00e7ar uma contracr\u00edtica estruturada, que espero ver publicamente considerada.<\/p>\n<p>Permito-me resumir os argumentos que contradizem a sua tese e que, a meu ver, revelam uma vis\u00e3o excessivamente complacente e determinista da reforma ortogr\u00e1fica:<\/p>\n<ol>\n<li>A fal\u00e1cia da escala temporal e a acelera\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria<\/li>\n<\/ol>\n<p>Argumenta que 20 anos s\u00e3o &#8220;extremamente curtos&#8221; perante nove s\u00e9culos de exist\u00eancia da l\u00edngua. Este racioc\u00ednio, por\u00e9m, constitui uma fal\u00e1cia de autoridade que torna qualquer cr\u00edtica eternamente prematura. A verdade \u00e9 que a condi\u00e7\u00e3o material da Hist\u00f3ria se alterou radicalmente. No passado, uma reforma dependia de gera\u00e7\u00f5es para circular atrav\u00e9s de livros impressos. Hoje, com a comunica\u00e7\u00e3o instant\u00e2nea e a Big Data, produzimos em duas d\u00e9cadas um volume de texto escrito superior a todo o patrim\u00f3nio dos nove s\u00e9culos anteriores. Portanto, n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel avaliar o impacto da reforma, como temos a obriga\u00e7\u00e3o estat\u00edstica e emp\u00edrica de o fazer. O &#8220;tempo hist\u00f3rico&#8221; encolheu e a tecnologia n\u00e3o \u00e9 uma desculpa para a in\u00e9rcia, mas um acelerador de diagn\u00f3sticos.<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li>A confus\u00e3o entre implementa\u00e7\u00e3o for\u00e7ada e qualidade sist\u00e9mica<\/li>\n<\/ol>\n<p>O senhor confunde, no seu texto, o sucesso da implementa\u00e7\u00e3o com a qualidade intr\u00ednseca da norma. Que as crian\u00e7as e os jovens escrevam segundo as novas regras \u00e9 um dado meramente administrativo e escolar, n\u00e3o um atestado de excel\u00eancia lingu\u00edstica. A escolaridade obrigat\u00f3ria e os dicion\u00e1rios institucionais imp\u00f5em qualquer norma, mesmo que ela seja intrinsecamente defeituosa. O cerne da quest\u00e3o nunca foi se as pessoas conseguem adaptar-se (sim porque os humanos s\u00e3o pl\u00e1sticos), mas sim o que se perdeu nessa adapta\u00e7\u00e3o. E \u00e9 factual que se perdeu a transpar\u00eancia etimol\u00f3gica, a liga\u00e7\u00e3o org\u00e2nica \u00e0s ra\u00edzes greco-latinas, e criaram-se novas ambiguidades homof\u00f3nicas. O tempo n\u00e3o cura contradi\u00e7\u00f5es l\u00f3gicas; o facto de nos habituamos a elas, n\u00e3o as transforma em boas regras.<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li>A ilus\u00e3o do &#8220;esquecimento&#8221; face ao Arquivo Digital Total<\/li>\n<\/ol>\n<p>O argumento mais fr\u00e1gil apresentado\u00a0 \u00e9 o de que a nova gera\u00e7\u00e3o &#8220;n\u00e3o tem mem\u00f3ria&#8221; da grafia anterior, tornando o retrocesso impratic\u00e1vel. Ora, ao contr\u00e1rio das reformas do s\u00e9culo XIX, hoje vivemos na era do hiper-arquivo. Qualquer jovem, ao pesquisar um texto de 1998 ou uma edi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica de Cam\u00f5es, tem acesso instant\u00e2neo e lado-a-lado \u00e0s duas normas. A tecnologia n\u00e3o apaga o passado; monumentaliza-o e torna-o perenemente acess\u00edvel nos servidores. Portanto, a mem\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 biol\u00f3gica, \u00e9 algor\u00edtmica. E se a mem\u00f3ria persiste digitalmente, a justifica\u00e7\u00e3o para n\u00e3o se voltar atr\u00e1s perde toda a for\u00e7a hist\u00f3rica.<\/p>\n<ol start=\"4\">\n<li>A tecnologia como agente de coer\u00e7\u00e3o, n\u00e3o de evolu\u00e7\u00e3o org\u00e2nica<\/li>\n<\/ol>\n<p>Afirma que &#8220;os computadores, os corretores e a IA trabalham naturalmente com as normas atuais&#8221;. Esta \u00e9 uma invers\u00e3o l\u00f3gica perigosa. Um corretor ortogr\u00e1fico n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f3meno lingu\u00edstico natural; \u00e9 um acto de engenharia pol\u00edtica e comercial. Se a Microsoft ou a Google atualizarem os seus dicion\u00e1rios para a norma anterior (ou para uma h\u00edbrida), toda a escrita digital mudar\u00e1 no dia seguinte. A tecnologia n\u00e3o \u00e9 um agente de consolida\u00e7\u00e3o irrevers\u00edvel; \u00e9 um agente de plasticidade extrema. Usar a tecnologia para validar o Acordo \u00e9 como dizer que uma estrada de asfalto \u00e9 irrevers\u00edvel porque os carros s\u00f3 andam nela, esquecendo que o asfalto foi posto por decis\u00e3o humana e pode ser removido por outra decis\u00e3o. A l\u00edngua n\u00e3o &#8220;muda&#8221; porque o Word sublinha uma palavra a vermelho; a l\u00edngua \u00e9 coagida por uma interface, o que \u00e9 historicamente muito diferente.<\/p>\n<ol start=\"5\">\n<li>A incoer\u00eancia interna da reforma (o &#8220;deus dar\u00e1&#8221; estrutural)<\/li>\n<\/ol>\n<p>O artigo come\u00e7a por dizer que &#8220;a l\u00edngua n\u00e3o obedece a decretos&#8221;, mas termina a defender que o decreto deve permanecer s\u00f3 porque foi aplicado. Se a l\u00edngua \u00e9 org\u00e2nica, ela rejeitaria espontaneamente as m\u00e1s solu\u00e7\u00f5es. Ora, o que vemos \u00e9 que a l\u00edngua n\u00e3o rejeitou porque a tecnologia e a escola a implementaram. Estamos perante uma l\u00edngua em estado de vida assistida, n\u00e3o de evolu\u00e7\u00e3o natural. A reforma quebrou a coer\u00eancia morfol\u00f3gica ao eliminar consoantes em alguns contextos, mas mant\u00ea-las noutros (nas palavras da mesma fam\u00edlia), e criou caos nas conjuga\u00e7\u00f5es verbais como adequar ou averiguar e empobrece a l\u00edngua acabando propriamente com o v\u00f3s. Isto n\u00e3o \u00e9 evolu\u00e7\u00e3o; \u00e9 uma colcha de retalhos que um fil\u00f3logo s\u00e9rio reconheceria como um atentado \u00e0 l\u00f3gica sist\u00e9mica da l\u00edngua.<\/p>\n<p>Conclus\u00e3o:<\/p>\n<p>A sua vis\u00e3o, prezado Senhor Paulo Freitas do Amaral, \u00e9 a de um historiador que olha para o passado com saudade, mas que se recusa a olhar para o presente com rigor t\u00e9cnico. A avalia\u00e7\u00e3o de uma reforma ortogr\u00e1fica n\u00e3o deve ficar ref\u00e9m de uma paci\u00eancia cronol\u00f3gica indefinida; deve passar pelo crivo da funcionalidade cognitiva, da transpar\u00eancia etimol\u00f3gica e da economia pedag\u00f3gica. E nesse crivo, infelizmente, o Acordo Ortogr\u00e1fico revela-se fr\u00e1gil, incoerente e profundamente dependente do &#8220;deus algor\u00edtmico&#8221; dos corretores.<\/p>\n<p>N\u00e3o pe\u00e7o que o consideremos um &#8220;fracasso&#8221; por decreto, mas pe\u00e7o que lhe retiremos o v\u00e9u da inevitabilidade hist\u00f3rica. A l\u00edngua portuguesa sobreviveu a muitas mudan\u00e7as, mas sobreviveu, sobretudo, porque houve quem as discutisse com lucidez e n\u00e3o as aceitasse como um destino cego. \u00c9 nesse esp\u00edrito de debate cr\u00edtico que lhe apresento estas reflex\u00f5es.<\/p>\n<p>Com os melhores cumprimentos,<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<br \/>\n<\/strong>ORCID: <a href=\"https:\/\/orcid.org\/0009-0003-6251-1578\">https:\/\/orcid.org\/0009-0003-6251-1578<\/a><\/p>\n<p>Artigo : Os Erros do Acordo Ortogr\u00e1fico no link: https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11083<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Para pessoas que p\u00f5em retic\u00eancias ao AO e interessadas na discuss\u00e3o Ao ler-se o artigo \u201cO Acordo Ortogr\u00e1fico ainda n\u00e3o pode ser julgado\u201d de Paulo Freitas do Amaral, no jornal \u201cCorreio de Lagos\u201d https:\/\/correiodelagos.com\/opiniao\/o-acordo-ortografico-ainda-nao-pode-ser-julgado\/# , verifica-se que o artigo \u00e9 um primor de ret\u00f3rica hist\u00f3rica, mas peca por determinismo tecnol\u00f3gico. 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