{"id":11192,"date":"2026-07-20T17:33:13","date_gmt":"2026-07-20T16:33:13","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11192"},"modified":"2026-07-20T23:14:39","modified_gmt":"2026-07-20T22:14:39","slug":"somos-mascare-e-vulcao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11192","title":{"rendered":"A PESSOA COMO M\u00c1SCARA E VULC\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p>Cada pessoa \u00e9 um mist\u00e9rio insond\u00e1vel, uma gruta que recua sempre um passo mais fundo do que a luz da nossa vela consegue alcan\u00e7ar. E porque o po\u00e7o n\u00e3o tem fundo vis\u00edvel, cada um se apressa a construir, sobre a boca do abismo, uma m\u00e1scara, n\u00e3o para mentir, mas para n\u00e3o cair. A m\u00e1scara \u00e9 o primeiro gesto de sobreviv\u00eancia do mist\u00e9rio perante o mundo.<\/p>\n<p>Chamamos &#8220;real&#8221; \u00e0quilo que se v\u00ea, e, no entanto, o que se v\u00ea \u00e9 apenas o facete que a luz do momento escolheu iluminar num caleidosc\u00f3pio que gira sem parar. Somos feitos de mil cacos coloridos, m\u00e1goas, ternuras, ambi\u00e7\u00f5es, sil\u00eancios e a cada volta da roda um desenho novo se comp\u00f5e, sempre parcial, sempre provis\u00f3rio. Confundir esse desenho fugaz com a totalidade de quem somos \u00e9 confundir a sombra projectada na parede com o corpo que a projecta, como sugestionava Plat\u00e3o na imagem projectada nas paredes da caverna.<\/p>\n<p>E ainda assim \u00e9 preciso descrever a m\u00e1scara. S\u00f3 que a m\u00e1scara que se debru\u00e7a sobre si mesma, tentando conhecer-se, n\u00e3o pode faz\u00ea-lo sen\u00e3o a partir de outra m\u00e1scara, a do pr\u00f3prio autoconhecimento. \u00c9 o espelho colocado diante do espelho: as imagens multiplicam-se em corredores infinitos, cada vez mais pequenas, cada vez mais fi\u00e9is \u00e0 ideia de fundo e cada vez mais longe de o tocar. Conhecemo-nos, sim, mas conhecemos o rosto pintado, nunca a argila anterior \u00e0 pintura.<\/p>\n<p>Resta a inten\u00e7\u00e3o. \u00c9 ela quem lan\u00e7a sobre o gesto o manto pesado e luminoso da verdade, como quem cobre com um pano de altar uma mesa qualquer e a transfigura. Mas o manto n\u00e3o muda a madeira por baixo: a ac\u00e7\u00e3o, vestida de boa inten\u00e7\u00e3o, continua presa aos limites estreitos da consci\u00eancia que a gerou, e raramente coincide com a Ac\u00e7\u00e3o maior, aquela que seria plena, livre, sem sombra de c\u00e1lculo ou de medo. Entre o que queremos fazer e o que verdadeiramente fazemos corre sempre um fio de \u00e1gua que se perde entre pedras.<\/p>\n<p>E isto porque somos amassados, ao mesmo tempo, com barro de Deus e com barro do Diabo, o que fica \u00e0 superf\u00edcie, o que os outros, tamb\u00e9m mascarados, conseguem ler em n\u00f3s, \u00e9 sempre uma liga das duas argilas, nunca uma s\u00f3. H\u00e1 quem, ao olhar-nos, veja sobretudo o brilho: chamemos-lhe os que descobrem mais Deus. H\u00e1 quem repare primeiro na fenda escura: os que descobrem mais o Diabo. E h\u00e1 ainda os mafarricos, os olhos treinados apenas para a fuligem, que por mais luz que uma alma ofere\u00e7a, insistem em n\u00e3o enxergar sen\u00e3o o fumo. O espelho que cada um nos estende devolve sempre a sua pr\u00f3pria cegueira, tanto quanto a nossa verdade.<\/p>\n<p>No fundo, todos andamos, mafarricos inclu\u00eddos, \u00e0 procura de n\u00f3s mesmos, tacteando no escuro de um corredor de espelhos. Mas a m\u00e1scara tecida de Deus e de Diabo, a m\u00e1scara que somos e que os outros veem, \u00e9 precisamente aquilo que nos impede de tocar o fundo de n\u00f3s pr\u00f3prios. Falamos com orgulho de autoconhecimento, como quem fala de uma terra j\u00e1 conhecida e, no entanto, o que conhecemos, quando muito, s\u00e3o as m\u00e1scaras e as suas fun\u00e7\u00f5es, o rosto que usamos no trabalho, o que usamos em casa, o que usamos sozinhos diante do espelho, que tamb\u00e9m \u00e9 m\u00e1scara, s\u00f3 que mais \u00edntima.<\/p>\n<p>Isto explica-se porque no mais interior de n\u00f3s mesmos n\u00e3o h\u00e1 sala iluminada, h\u00e1 vulc\u00e3o. H\u00e1 um magma de amor que n\u00e3o conhece lei nem moral, um fogo anterior a qualquer c\u00f3digo, que a crosta, a m\u00e1scara e a pele endurecida da nossa hist\u00f3ria, tanto precisa de conter, de nomear, de vestir com regras, precisamente para poder existir \u00e0 superf\u00edcie do mundo sem se dissolver nele. E tal como o magma da terra s\u00f3 ganha forma no pr\u00f3prio acto de irromper, arrefecendo em contacto com o ar at\u00e9 se tornar rocha, pedra, paisagem, tamb\u00e9m o nosso amor mais fundo s\u00f3 se torna forma, gesto, rosto reconhec\u00edvel, no instante em que sobe at\u00e9 \u00e0 crosta e se exterioriza. Antes disso \u00e9 apenas pot\u00eancia incandescente, sem nome, sem contorno, informe de t\u00e3o vasta.<\/p>\n<p>Eis o paradoxo em que vivemos: buscar a face nua sob a m\u00e1scara \u00e9 um projecto t\u00e3o imposs\u00edvel como pedir ao magma que se mostre magma, e n\u00e3o rocha, sem deixar de correr. O que resta, ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 a queixa de nunca chegarmos ao fundo, mas o assombro de que exista fundo, existia um vulc\u00e3o de amor a arder em cada um de n\u00f3s, mesmo quando tudo o que os outros e n\u00f3s pr\u00f3prios conseguimos ver \u00e9 a crosta que ele, generosamente, criou para se dar a ver.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><br \/>\nPegadas do Tempo \u00a9<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cada pessoa \u00e9 um mist\u00e9rio insond\u00e1vel, uma gruta que recua sempre um passo mais fundo do que a luz da nossa vela consegue alcan\u00e7ar. E porque o po\u00e7o n\u00e3o tem fundo vis\u00edvel, cada um se apressa a construir, sobre a boca do abismo, uma m\u00e1scara, n\u00e3o para mentir, mas para n\u00e3o cair. 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