{"id":11163,"date":"2026-07-13T12:04:06","date_gmt":"2026-07-13T11:04:06","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11163"},"modified":"2026-07-13T14:05:34","modified_gmt":"2026-07-13T13:05:34","slug":"bruxelas-empenhada-em-reduzir-a-cultura-europeia-a-instrumento-de-guerra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11163","title":{"rendered":"BRUXELAS EMPENHADA EM REDUZIR A CULTURA EUROPEIA A INSTRUMENTO DE GUERRA"},"content":{"rendered":"<p>A amea\u00e7a pairou sobre os canais de Veneza como uma n\u00e9voa salobra, indiferente \u00e0 beleza dos pal\u00e1cios e ao murm\u00fario das gondolas remadas. Dois milh\u00f5es de euros, ninharia para os cofres opulentos de Bruxelas, mas cifra vital para a alma de uma Bienal que sempre se quis universal, ficaram suspensos por um capricho geopol\u00edtico. A senhora comiss\u00e1ria, Henna Virknen, brande o seu telem\u00f3vel como outrora se brandia uma espada, anunciando na ef\u00e9mera pra\u00e7a digital que a cultura deve pagar o pre\u00e7o da desobedi\u00eancia. Eis o primeiro sintoma da b\u00edlis de que fala o povo: a raz\u00e3o turva-se quando o poder resolve vestir a farda do moralismo.<\/p>\n<p>Ora, independentemente do xadrez econ\u00f3mico e pol\u00edtico que se joga na Ucr\u00e2nia, essa pobre terra transformada em cavalo de Troia dos grandes estrategas globais, uma coisa se nos afigura cristalina. A Europa, velha de s\u00e9culos mas surpreendentemente imatura na sua gerontocracia, julga rejuvenescer apostando apenas nas suas qualidades guerreiras. \u00c9 um equ\u00edvoco tr\u00e1gico e profundamente ir\u00f3nico: um continente que inventou a universidade, a sinfonia e a declara\u00e7\u00e3o dos direitos do homem reduz-se agora \u00e0 ret\u00f3rica do bombardeiro e ao gesto do diplomata que s\u00f3 conhece a provoca\u00e7\u00e3o como forma de di\u00e1logo. O poder, nessa Bruxelas asfixiante, parece ter esquecido todas as l\u00ednguas, excepto a do dinheiro e a da san\u00e7\u00e3o. Imp\u00f5em-se &#8220;valores subversivos&#8221; contra &#8220;valores sagrados&#8221;, mas ningu\u00e9m se d\u00e1 ao trabalho de definir quais s\u00e3o uns e outros, porque, neste conflito surdo contra o povo europeu e contra o povo russo, parece reger o argumento c\u00ednico do tudo vale.<\/p>\n<p>Escutemos, com aten\u00e7\u00e3o, os hinos do fanatismo contempor\u00e2neo. L\u00e1 longe, do outro lado do Atl\u00e2ntico, ouvimos o eco gutural de &#8220;Am\u00e9rica acima de tudo&#8221;. Aqui, no velho continente, respondemos com o timbre mel\u00edfluo, mas igualmente vazio de &#8220;Valores democr\u00e1ticos da Europa acima de tudo&#8221;. \u00c9 a mesma moeda, cunhada em lados diferentes, servindo o mesmo esp\u00edrito do globalismo que sopra das torres de marfim financeiras para as plan\u00edcies do sofrimento real. Cada vez se tem mais a impress\u00e3o, e o senso comum, esse bem raro, teima em confirm\u00e1-lo, de que a grandeza das pot\u00eancias tem como condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria a humilha\u00e7\u00e3o met\u00f3dica do cidad\u00e3o comum. A dissid\u00eancia, nessa Europa embriagada de si mesma, \u00e9 simplesmente pensar de forma diferente; a heresia, hoje, \u00e9 querer a paz sem submeter a alma ao dogma.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso, pois, que o povo desperte. N\u00e3o o povo abstracto dos discursos oficiais, mas a carne e o osso que pagam impostos e criam os filhos. Bruxelas estende-se como um polvo de bra\u00e7os tecnocr\u00e1ticos, avassalando at\u00e9 os sagrados espa\u00e7os da cultura, transformando a arte num campo de batalha rasteiro. A Bienal de Veneza, que devia ser um o\u00e1sis de contempla\u00e7\u00e3o, arrisca-se a tornar-se um museu da censura. E esta \u00e9 a maior trag\u00e9dia: quando os burocratas se arrogam o direito de definir o que \u00e9 ou n\u00e3o &#8220;democr\u00e1tico&#8221; na paleta de um pintor ou na m\u00fasica de um compositor, estamos a trocar a utopia pela pol\u00edcia.<\/p>\n<p>O humanismo, esse velho amigo esquecido, dita que a cultura n\u00e3o \u00e9 instrumento de guerra, mas tr\u00e9gua. A cultura n\u00e3o \u00e9 arma de arremesso, mas ponte. Se a Europa quer verdadeiramente rejuvenescer, que olhe para os seus filhos, n\u00e3o para os seus generais; que se inspire nos seus fil\u00f3sofos e te\u00f3logos, n\u00e3o nos seus comiss\u00e1rios. Que guarde o cinismo para a pol\u00edtica, que \u00e9, afinal, a sua mat\u00e9ria-prima e a generosidade para a arte. Caso contr\u00e1rio, a Bienal de Veneza n\u00e3o ser\u00e1 a \u00fanica a afogar-se nas suas \u00e1guas turvas; afogar-se-\u00e1 a pr\u00f3pria ideia de Europa, v\u00edtima da sua pr\u00f3pria b\u00edlis, sufocada pelo polvo que criou para a defender.<\/p>\n<p>E quando isso acontecer, n\u00e3o digam que o povo n\u00e3o avisou.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><\/p>\n<p>Pegadas do Tempo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A amea\u00e7a pairou sobre os canais de Veneza como uma n\u00e9voa salobra, indiferente \u00e0 beleza dos pal\u00e1cios e ao murm\u00fario das gondolas remadas. 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