{"id":1114,"date":"2007-11-17T10:31:00","date_gmt":"2007-11-17T09:31:00","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1114"},"modified":"2007-11-17T10:31:00","modified_gmt":"2007-11-17T09:31:00","slug":"natal-tambem-para-os-animais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=1114","title":{"rendered":"Natal tamb\u00e9m para os animais"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"texto\">                    <b>Dignidade Partilhada<\/b><\/p>\n<p>O Natal e a P\u00e1scoa s\u00e3o mais que rituais religiosos; eles remetem-nos para o fundamento da nossa no\u00e7\u00e3o de valores, para os crit\u00e9rios base da nossa cultura.<\/p>\n<p>Natal \u00e9 o tempo da dignidade partilhada. Nele se juntam a divindade, a humanidade e os animais para celebrar a Vida. Na prec\u00e1ria gruta de Bel\u00e9m, l\u00e1 se juntam todos, os representantes das culturas nos reis magos e os representantes dos animais na vaca e no burro: Dignidade Partilhada!<\/p>\n<p>Os animais testemunham, com a sua presen\u00e7a, a sua saudade da eternidade, p\u00f5em-se tamb\u00e9m eles na fila salvante. Aqui afirmam que o seu desejo de eternidade n\u00e3o se realiza apenas na procria\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m eles querem participar no acto da reden\u00e7\u00e3o; tamb\u00e9m eles querem participar activamente no processo libertador. Querem recordar o processo da evolu\u00e7\u00e3o e da vida, o esp\u00edrito comum nela presente. Como o ser humano, tamb\u00e9m eles se sentem processo e n\u00e3o mero produto acabado.<\/p>\n<p>A vaca suplica, n\u00e3o quer viver em eterna pris\u00e3o! No seu triste olhar revela os gritos sufocados, at\u00e9 agora n\u00e3o ouvidos de todos os irm\u00e3os. Tamb\u00e9m ela aspira por uma vida que a n\u00e3o reduza a vaca leiteira ou a bocado de carne mal comida! A sua presen\u00e7a \u00e9 silenciosa, \u00e9 a express\u00e3o dos sem voz! Do desenvolvimento do homem, da sua evolu\u00e7\u00e3o consciente est\u00e1 dependente tamb\u00e9m a liberta\u00e7\u00e3o animal.<\/p>\n<p>A dor paciente dos animais ofendidos olha, atrav\u00e9s do olhar do burro, o mal dos outros suportado, \u00e9 um leve queixume da compaix\u00e3o ausente. No olhar fixo asinino est\u00e1 presente a mis\u00e9ria da vida animal alienada. Aquela presen\u00e7a meditativa, aquele olhar mais n\u00e3o \u00e9 que o apelo ao homem para que se lembre das barbaridades que faz contra os animais e do que h\u00e1 de comum entre estes e o ser humano. A humilha\u00e7\u00e3o, o sofrimento por este praticada \u00e9 incomensur\u00e1vel e s\u00f3 poder\u00e1 por ele ser remida, quando acordar para a consci\u00eancia do seu verdadeiro ser. Como o menino do pres\u00e9pio est\u00e1 para a liberta\u00e7\u00e3o da humanidade e da natureza, assim o ser humano deve estar para a liberta\u00e7\u00e3o dos animais&#8230; Porque n\u00e3o come\u00e7ar por evitar a dor evit\u00e1vel? A compaix\u00e3o \u00e9 sofrimento, \u00e9 identifica\u00e7\u00e3o com todo o ser. A sua dor \u00e9 demasiado cara para ser desbaratada como \u00e9. A dor dos irm\u00e3os animais n\u00e3o \u00e9 tida em conta, ainda n\u00e3o faz parte do nosso consciente\u2026 Natal \u00e9 o tempo de recordar para presencializar a vida pac\u00edfica e fraterna j\u00e1 vivida no para\u00edso terreal. No novo para\u00edso n\u00e3o se poder\u00e1 viver com a recorda\u00e7\u00e3o dos animais maltratados se j\u00e1 no terreal viv\u00edamos com eles em harmonia!<\/p>\n<p>Francisco de Assis, consciente, lembrou-se disso e tomou os animais no cora\u00e7\u00e3o falando com eles a linguagem da religi\u00e3o, a linguagem da irmandade dos seres\u2026 Ele dava gra\u00e7as com o irm\u00e3o sol com a irm\u00e3 lua, com a irm\u00e3 vaca\u2026 Este louvor n\u00e3o partia dum sentimento meramente rom\u00e2ntico, ele era sim o testemunho duma consci\u00eancia j\u00e1 muito desenvolvida que tinha percebido, a realidade, o cristianismo na sua ess\u00eancia.<\/p>\n<p>Contra todas as perspectivas Jesus veio nascer numa guarida de animais, num curral. Ele, a divindade quebra com todas as conven\u00e7\u00f5es, com todas as certezas humanas; ele quer mais que uma vis\u00e3o uma viv\u00eancia aperspectivista da realidade. Com <b>o seu nascimento na gruta onde os animais viviam ele vem alargar a perspectiva humana para a dignidade dos outros seres, a dignidade dos animais e das plantas.<\/b> Ele vem acabar com as dicotomias para acentuar o seu car\u00e1cter polar complementar. Vem demonstrar o imposs\u00edvel, a unidade da mat\u00e9ria e do esp\u00edrito: ele mesmo se tornou a express\u00e3o do aparentemente imposs\u00edvel sendo ao mesmo tempo a dimens\u00e3o material do mundo e a espiritual, num s\u00f3 ser, num mesmo processo. Esta realidade \u00e9 depois materializada no dogma da trindade que \u00e9 ao mesmo tempo a realidade e f\u00f3rmula do processo polar reconciliado e din\u00e2mico do existir, que tamb\u00e9m a F\u00edsica na teoria da relatividade e dos quanta ajuda a compreender, experimentar.<\/p>\n<p>Na vida de fora tudo \u00e9 analogia, met\u00e1fora. O sol ilumina e d\u00e1 vida ao sistema solar, o c\u00e9rebro d\u00e1 vida e ilumina o nosso ser, e o Esp\u00edrito informa o universo sendo dele o seu respirar, o seu oxig\u00e9nio. A vida torna-se s\u00edmbolo e processo, nela ressoa o antes e o depois, \u00e9 acontecer. A minha imagina\u00e7\u00e3o, o meu sonhar e aspirar s\u00e3o as sombras duma outra realidade. Duma outra realidade n\u00e3o, da mesma realidade vista duma outra perspectiva, que em mim ressoa e o mundo anima.<\/p>\n<p>Sonho ou realidade, tudo \u00e9 um processo, um acordar para uma nova consci\u00eancia nas estufas do desenvolvimento da &#8220;realidade&#8221;&#8230;<\/p>\n<p>                <b>Pegadas do Esp\u00edrito irreconhecidas<\/b><br \/>No &#8220;tempo&#8221; do para\u00edso o Homem era o protector da terra irmanada pelo mesmo respirar de Deus. O seu respirar \u00e9 o animar divino, sustentador da vida. Depois de Cristo essa respira\u00e7\u00e3o divina que informa o homem e a natureza \u00e9 chamada Esp\u00edrito Santo. \u201cO que fizestes ao mais pequeno a mim o fizestes\u201d. Tamb\u00e9m neles est\u00e1 o gene divino, tamb\u00e9m os animais t\u00eam a saudade do Esp\u00edrito, tal como j\u00e1 dizia Tom\u00e1s de Aquino. Toda a natureza espera pela salva\u00e7\u00e3o, lembra-nos Paulo no Novo Testamento.<\/p>\n<p>Com o advento crist\u00e3o, o avan\u00e7o qualitativo da consci\u00eancia humana, acabam-se os sacrif\u00edcios de animais no templo ritual: \u201cV\u00f3s fazeis da casa de meu pai um covil de ladroes assassinos\u201d. Tamb\u00e9m j\u00e1 na velha alian\u00e7a se come\u00e7ou a desdenhar o correr do sangue. Hoje s\u00f3 conhecemos o c\u00e3o e o gato, o resto \u00e9 bife, \u00e9 chouri\u00e7o, pegadas do esp\u00edrito tornadas irreconhec\u00edveis&#8230; Os antigos pediam desculpa ao esp\u00edrito do animal antes de o matarem e de o comerem, hoje como lhe podemos pedir desculpa se o n\u00e3o reconhecemos?<\/p>\n<p>No animal por\u00e9m jorra tamb\u00e9m o amor, o h\u00e1lito da vida, j\u00e1 mais reconhec\u00edvel. Chega que nos tornemos culpados na sua morte evitando ser banais que n\u00e3o reconhecem o destino comum neste reino de Deus. A obra redentora parece ainda n\u00e3o ter chegado aos animais!&#8230;<\/p>\n<p>Inocente, a irm\u00e3 vaca venerada no pres\u00e9pio testemunha a vida por esses prados fora. Os animais testemunham o nascimento mas n\u00e3o a morte porque desta n\u00e3o se tinham tornado c\u00famplices\u2026Eles ser\u00e3o remidos por cada um de n\u00f3s acompanhando-nos. No respeito por eles e na coexist\u00eancia pac\u00edfica n\u00e3o precisamos de viver na rivalidade. O respeito pela vida comum abrir-nos-\u00e1 os olhos para as f\u00e1bricas da morte, matadouros onde jorra o sangue econ\u00f3mico do mau trato animal. O desrespeito pela dignidade da vida, o desrespeito pelo esp\u00edrito. Muitos de n\u00f3s, mais brutos que os inocentes animais, s\u00f3 temos a percep\u00e7\u00e3o da realidade materializada, faltando-nos os tent\u00e1culos sensitivos da diferencia\u00e7\u00e3o entre esp\u00edrito e suas diferentes materializa\u00e7\u00f5es da realidade. A experi\u00eancia milen\u00e1ria da \u00cdndia, de que s\u00f3 o vegetarismo consegue dar mais p\u00e3o para mais bocas, levou-a instintivamente a considerar a vaca como animal sagrado. Esse conhecimento conduziu a um preceito religioso mais perto da vida.<\/p>\n<p>   <b>S\u00f3 a dignidade partilhada oferece garantias de futuro.<\/b><br \/>O antropocentrismo de toda a cria\u00e7\u00e3o defendido pela cristandade foi um grande factor na defesa dos direitos humanos; n\u00e3o poupou por\u00e9m certos exageros no desrespeito para com os animais. Neste ponto a cristandade ter\u00e1 de aprender do Hindu\u00edsmo e do Budismo a rela\u00e7\u00e3o com os animais e reatar a consci\u00eancia \u00e0 espiritualidade Franciscana na realidade do pres\u00e9pio. A dignidade humana n\u00e3o deve ofuscar o resto da natureza. Todos dever\u00e3o viver na solidariedade da dignidade partilhada. Para isso o rei da cria\u00e7\u00e3o ter\u00e1 que dar grandes passos no desenvolvimento da sua consci\u00eancia. Tamb\u00e9m o desenvolvimento da ci\u00eancia n\u00e3o pode continuar a justificar uma experimenta\u00e7\u00e3o desumana como \u00e9 praticada.<\/p>\n<p>A ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo encontra-se em processo em toda a natureza no palco do tempo. Toda a cria\u00e7\u00e3o geme as dores do parto e toda ela se encontra em processo de salva\u00e7\u00e3o a caminho da realiza\u00e7\u00e3o do corpo m\u00edstico, de tudo em todos (em linguagem teol\u00f3gica: natureza em processo de ressurrei\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>O antropocentrismo crist\u00e3o ainda n\u00e3o conseguiu respeitar e alargar a dignidade humana a toda a humanidade, mais lhe falta ainda para conseguir a coexist\u00eancia pac\u00edfica e dial\u00f3gica entre o Homem, os animais e as plantas. Sim, tamb\u00e9m a planta, o animal tem uma dignidade divina a respeitar. Os seres vivos chegaram \u00e0 individua\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito comum no Homem: este encontra-se num processo aberto e progressivo de consci\u00eancia. Esta culminar\u00e1 na consci\u00eancia da experi\u00eancia do Cristo, da divindade em n\u00f3s. Quando chegarmos \u00e0 consci\u00eancia trinit\u00e1ria restituiremos a dignidade a todo o ser, seja ele \u00e1tomo, planta, animal ou ser humano e experimentar-nos-emos na unidade do ser trinit\u00e1rio na comunh\u00e3o do Esp\u00edrito.<br \/>Ant\u00f3nio Justo<br \/>Te\u00f3logo                   <\/span><\/p>\n<div align=\"right\"> <span class=\"texto\"><b>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/b> <\/span><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dignidade Partilhada O Natal e a P\u00e1scoa s\u00e3o mais que rituais religiosos; eles remetem-nos para o fundamento da nossa no\u00e7\u00e3o de valores, para os crit\u00e9rios base da nossa cultura. Natal \u00e9 o tempo da dignidade partilhada. Nele se juntam a divindade, a humanidade e os animais para celebrar a Vida. 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