{"id":11122,"date":"2026-07-03T19:29:34","date_gmt":"2026-07-03T18:29:34","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11122"},"modified":"2026-07-03T19:29:34","modified_gmt":"2026-07-03T18:29:34","slug":"militarizacao-em-curso-em-universidades-alemas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11122","title":{"rendered":"MILITARIZA\u00c7\u00c3O EM CURSO EM UNIVERSIDADES ALEM\u00c3S"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Kassel na sombra do A\u00e7o e o sil\u00eancio da cl\u00e1usula da paz<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 cidades cuja geografia \u00e9 marcada pelo rio, pela serra ou pelo mar. Kassel, no cora\u00e7\u00e3o da Alemanha, tamb\u00e9m tem o rio Fulda, mas nela v\u00ea-se a marca da cinza. Quem percorre as suas ruas da cidade baixa, mesmo nas manh\u00e3s mais l\u00edmpidas, sente um peso na terra um eco subterr\u00e2neo de 1943, quando 75% da cidade ru\u00edram sob o fogo dos Aliados, pagando o pre\u00e7o de ser, j\u00e1 nessa altura, um basti\u00e3o da ind\u00fastria b\u00e9lica. Hoje, as chamin\u00e9s da Rheinmetall e da KNDS Deutschland n\u00e3o fumegam p\u00f3lvora, mas exalam o a\u00e7o frio dos tanques e das muni\u00e7\u00f5es que a Europa novamente reclama. E \u00e9 precisamente nesta cidade, t\u00e3o linda e com tantos parques, onde a Hist\u00f3ria parece ter-se esquecido de sarar, que se trava uma batalha silenciosa, mas fundamental, pelo futuro da raz\u00e3o acad\u00e9mica.<\/p>\n<p><strong>Em causa est\u00e1 a revoga\u00e7\u00e3o da chamada \u00abZivilkausel\u00bb, a cl\u00e1usula civil de paz, na Universidade de Kassel. Setenta institui\u00e7\u00f5es de ensino superior alem\u00e3s subscreveram, outrora, o compromisso de que a investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica se consagraria, exclusivamente, a fins pac\u00edficos. Kassel era uma dessas vozes \u00e9ticas no deserto do progresso t\u00e9cnico. Contudo, a nova vaga de rearmamento que varre a Alemanha, esse <em>Zeitenwende<\/em> que tantos aplaudem como necessidade geopol\u00edtica, amea\u00e7a agora transformar os laborat\u00f3rios em extens\u00f5es dos quart\u00e9is. A ci\u00eancia, que deveria ser o farol da humanidade, corre o risco de se tornar a b\u00fassola da artilharia.<\/strong><\/p>\n<p><strong>O problema n\u00e3o reside na pureza abstrata da investiga\u00e7\u00e3o, sabemos que o conhecimento \u00e9, por natureza, ambivalente e que os frutos da f\u00edsica podem alimentar hospitais ou m\u00edsseis. A quest\u00e3o crucial \u00e9 a <em>intencionalidade<\/em> e a <em>influ\u00eancia<\/em><em>.<\/em> Quando a maior concentra\u00e7\u00e3o de ind\u00fastria armamentista do pa\u00eds se instala \u00e0 porta da universidade, abolir a cl\u00e1usula de paz n\u00e3o \u00e9 um gesto de transpar\u00eancia; \u00e9 um convite aberto para que o dinheiro sujo da guerra dite as prioridades cient\u00edficas. E<\/strong> <strong>a trag\u00e9dia anuncia-se em dois atos: em primeiro lugar, os fundos p\u00fablicos, que deveriam nutrir o esp\u00edrito cr\u00edtico e a coes\u00e3o social, poderiam ser desviados para financiar a morte. Em segundo lugar, e mais sinistro, a universidade deixaria de ser o templo do debate para se tornar o escrit\u00f3rio de projetos das multinacionais do a\u00e7o.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Perante este cen\u00e1rio, o Senado da Universidade hesita. Composto por apenas tr\u00eas estudantes, nove professores, tr\u00eas acad\u00e9micos e dois administrativos, este \u00f3rg\u00e3o reflete um desequil\u00edbrio de poder gritante, a voz dos que aprendem \u00e9 abafada pelos que j\u00e1 decidiram.<\/strong> Ap\u00f3s tr\u00eas horas de discuss\u00e3o, o Conselho Acad\u00e9mico adiou a decis\u00e3o. Mas o adiamento, longe de ser uma vit\u00f3ria, cheira a t\u00e1tica de dila\u00e7\u00e3o. <strong>A sugest\u00e3o de criar uma comiss\u00e3o de \u00e9tica \u00e9, no limite, uma manobra burocr\u00e1tica, uma cortina de fumo para ganhar tempo e esvaziar a resist\u00eancia que, entretanto, se ergue com cartazes e gritos do lado de fora do campus.<\/strong> A ASTA, representa\u00e7\u00e3o estudantil, apela a uma vota\u00e7\u00e3o geral, um gesto democr\u00e1tico que a raz\u00e3o louva, mas que a urg\u00eancia do momento condena \u2013 porque, enquanto se contam votos, os canh\u00f5es continuam a ser forjados.<\/p>\n<p><strong>Mas o que est\u00e1 em jogo transcende as fronteiras do estado do Hesse. A Alemanha, pela sua for\u00e7a econ\u00f3mica e moral, \u00e9 um modelo. E quando a Alemanha se militariza, todo o continente estremece. Pa\u00edses como Portugal, situados na margem atl\u00e2ntica, sentem a press\u00e3o tect\u00f3nica deste rearmamento<\/strong>. Num pa\u00eds que deveria semear o esp\u00edrito social, a cultura de paz e a resili\u00eancia comunit\u00e1ria, a onda belicista germ\u00e2nica amea\u00e7a impor uma l\u00f3gica de subalternidade: &#8220;Se a Alemanha se rearma, n\u00f3s tamb\u00e9m temos de o fazer.&#8221; Mas esta \u00e9 uma fal\u00e1cia perigosa. <strong>A Europa n\u00e3o precisa de mais ex\u00e9rcitos; precisa de mais pedagogia. Precisa de dominar a arte da diplomacia e da fraternidade, em vez de competir na corrida ao armamento.<\/strong><\/p>\n<p><strong>A vontade militar e o del\u00edrio belicista avan\u00e7am a passos largos na sociedade germ\u00e2nica, infiltrando o discurso pol\u00edtico, a imprensa e agora a academia. Para onde caminha a Alemanha dos nobres poetas e dos pensadores? <\/strong>Mas as universidades devem ser os baluartes contra essa mar\u00e9. Criar espa\u00e7os de guerra dentro dos muros onde se cultiva o saber \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o t\u00e3o absurda como cultivar espinhos num jardim de flores. <strong>O ex\u00e9rcito j\u00e1 tem os seus quart\u00e9is onde pode ter os seus laborat\u00f3rios; a ci\u00eancia deve ter os seus laborat\u00f3rios de paz.<\/strong><\/p>\n<p>A mem\u00f3ria de Kassel, essa cidade arrasada at\u00e9 aos alicerces, deve servir de advert\u00eancia. Os fantasmas de 1943 n\u00e3o pedem vingan\u00e7a; pedem mem\u00f3ria. Revogar a cl\u00e1usula de paz agora, quando o dinheiro manda e a Europa rearma, n\u00e3o \u00e9 apenas um precedente perigoso para outras universidades que observam este caso; \u00e9 uma trai\u00e7\u00e3o \u00e0queles que, sobre os escombros, juraram que nunca mais.<\/p>\n<p>Apelamos, pois, \u00e0 raz\u00e3o e ao cora\u00e7\u00e3o de cada cidad\u00e3o europeu. A raz\u00e3o diz-nos que a investiga\u00e7\u00e3o civil e a \u00e9tica n\u00e3o s\u00e3o obst\u00e1culos ao progresso, mas a sua \u00fanica garantia de sustentabilidade. O cora\u00e7\u00e3o diz-nos que os jovens que hoje protestam em Kassel s\u00e3o a consci\u00eancia viva de um continente que j\u00e1 se despeda\u00e7ou duas vezes. N\u00e3o os deixemos s\u00f3s. Que a Europa n\u00e3o se deixe cegar pelo brilho ef\u00e9mero do a\u00e7o. Que a cl\u00e1usula de paz n\u00e3o seja um papel rasgado ao vento, mas o alicerce sobre o qual constru\u00edmos, finalmente, uma cultura de paz duradoura. <strong>Porque, se a universidade deixar de ser o lugar onde se sonha com um mundo melhor, quem o far\u00e1 por n\u00f3s?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/strong><br \/>\nPegadas do Tempo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Kassel na sombra do A\u00e7o e o sil\u00eancio da cl\u00e1usula da paz H\u00e1 cidades cuja geografia \u00e9 marcada pelo rio, pela serra ou pelo mar. Kassel, no cora\u00e7\u00e3o da Alemanha, tamb\u00e9m tem o rio Fulda, mas nela v\u00ea-se a marca da cinza. 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