{"id":11118,"date":"2026-07-02T15:21:29","date_gmt":"2026-07-02T14:21:29","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11118"},"modified":"2026-07-02T15:22:05","modified_gmt":"2026-07-02T14:22:05","slug":"o-eclipse-das-coisas-numa-linguagem-alheadora-da-experiencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11118","title":{"rendered":"O ECLIPSE DAS COISAS NUMA LINGUAGEM ALHEADORA DA EXPERI\u00caNCIA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Quem muda o vocabul\u00e1rio muda a pr\u00f3pria forma de ser e de estar no mundo<\/strong><\/p>\n<p>Ao observarmos a evolu\u00e7\u00e3o da linguagem nas sociedades europeias, sobretudo a partir das \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, torna-se evidente que muitas palavras perderam parte da sua densidade sem\u00e2ntica e da sua capacidade de remeter diretamente para a experi\u00eancia concreta da realidade. <strong>N\u00e3o se trata apenas da natural evolu\u00e7\u00e3o das l\u00ednguas, um fen\u00f3meno inevit\u00e1vel e estudado pela Lingu\u00edstica, mas tamb\u00e9m da crescente tend\u00eancia para simplificar, uniformizar e abstrair o vocabul\u00e1rio utilizado no ensino, na comunica\u00e7\u00e3o p\u00fablica e nos meios digitais. Este fen\u00f3meno al\u00e9m de plurifacetado revela-se atrevido ao querer reduzir a gram\u00e1tica a uma quest\u00e3o de discuss\u00e3o de emancipa\u00e7\u00e3o, de g\u00e9nero ou de wokismo cego.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Um exemplo que parece inocente e foi efetivado em Portugal \u00a0\u00e9 a altera\u00e7\u00e3o da terminologia gramatical que levou \u00e0 substitui\u00e7\u00e3o da designa\u00e7\u00e3o tradicional &#8220;substantivo&#8221; pela categoria mais gen\u00e9rica de &#8220;nome&#8221; em diversos documentos pedag\u00f3gicos.<\/strong> A altera\u00e7\u00e3o come\u00e7ou com a introdu\u00e7\u00e3o da Terminologia Lingu\u00edstica para os Ensinos B\u00e1sico e Secund\u00e1rio (TLEBS), aprovada pela Portaria n.\u00ba 1488\/2004, de 24 de dezembro, consolidada depois no Dicion\u00e1rio Terminol\u00f3gico. Embora esta mudan\u00e7a tenha sido justificada por raz\u00f5es de simplifica\u00e7\u00e3o did\u00e1tica e para aproximar a terminologia escolar aos modelos lingu\u00edsticos contempor\u00e2neos, ela revela-se como demasiadamente \u201cinocente\u201d ao seguir agendas globais sem ter em considera\u00e7\u00e3o a preocupa\u00e7\u00e3o expressa por George Orwell!<strong> \u00a0Contudo ela suscita uma quest\u00e3o mais ampla: at\u00e9 que ponto a simplifica\u00e7\u00e3o da linguagem pode contribuir para um enfraquecimento da rela\u00e7\u00e3o entre as palavras e a realidade que elas designam? E at\u00e9 que ponto com a linguagem se muda o substrato do humano, ao termos em conta a preocupa\u00e7\u00e3o expressa por George Orwell?<\/strong><\/p>\n<p>As palavras n\u00e3o s\u00e3o meros sinais convencionais. Desde Arist\u00f3teles, para quem o ser humano \u00e9 um animal dotado de logos, at\u00e9 Martin Heidegger, que afirmava que &#8220;a linguagem \u00e9 a casa do Ser&#8221;, numerosos pensadores entenderam que \u00e9 atrav\u00e9s da linguagem que vivemos e habitamos o mundo. <strong>Quando uma palavra conserva a sua liga\u00e7\u00e3o \u00e0 experi\u00eancia concreta, ela transporta mem\u00f3ria, cultura e formas de perceber a realidade. Quando essa liga\u00e7\u00e3o se enfraquece, corre-se o risco de substituir a riqueza da experi\u00eancia por categorias cada vez mais abstratas.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 precisamente este perigo que George Orwell denunciou no c\u00e9lebre ensaio Politics and the English Language. <strong>A degrada\u00e7\u00e3o da linguagem n\u00e3o \u00e9 apenas um sintoma porque pode ser usado como instrumento de empobrecimento do pensamento.<\/strong> Como escreveu: &#8220;Se o pensamento corrompe a linguagem, a linguagem tamb\u00e9m pode corromper o pensamento.&#8221; <strong>A simplifica\u00e7\u00e3o excessiva ou a manipula\u00e7\u00e3o das palavras acaba por limitar a pr\u00f3pria capacidade de pensar criticamente.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Este processo favorece um progressivo desenraizamento da pessoa.<\/strong> Simone Weil tamb\u00e9m adverte para a perda da liga\u00e7\u00e3o \u00e0s coisas concretas ao falar de enraizamento (L&#8217;Enracinement, 1949), ao escrever que &#8220;o enraizamento \u00e9 talvez a necessidade mais importante e mais desconhecida da alma humana&#8221;. \u00a0O indiv\u00edduo deixa de encontrar na linguagem uma media\u00e7\u00e3o entre si e o mundo vivido para se mover predominantemente no universo das ideias abstratas, dos conceitos funcionais e das classifica\u00e7\u00f5es convencionais. <strong>A realidade ou objeto torna-se menos algo que se experimenta e mais algo que se interpreta atrav\u00e9s de sistemas previamente constru\u00eddos.<\/strong><\/p>\n<p>Esta tend\u00eancia \u00e9 refor\u00e7ada pela crescente media\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. <strong>As crian\u00e7as que descobrem o mundo sobretudo atrav\u00e9s dos ecr\u00e3s adquirem vastas compet\u00eancias digitais, mas veem reduzidas as oportunidades de contacto direto com a realidade f\u00edsica: tocar, cheirar, explorar, subir, cair, observar lentamente os ritmos da natureza.<\/strong> Diversos estudos em Psicologia do Desenvolvimento confirmam que a experi\u00eancia sens\u00f3rio-motora constitui uma base essencial da aprendizagem.<\/p>\n<p><strong>J\u00e1 nos anos 80, Neil Postman advertia que toda a tecnologia altera a ecologia da cultura.<\/strong> Em Amusing Ourselves to Death mostrou como uma sociedade dominada pelos meios audiovisuais tende a privilegiar o entretenimento sobre a reflex\u00e3o, fazendo com que a imagem substitua progressivamente a experi\u00eancia e a argumenta\u00e7\u00e3o. <strong>O problema n\u00e3o reside na tecnologia em si, mas na forma como esta redefine silenciosamente os nossos h\u00e1bitos de pensar.<\/strong><\/p>\n<p>Por seu lado, Marshall McLuhan sintetizou esta transforma\u00e7\u00e3o na c\u00e9lebre f\u00f3rmula: &#8220;O meio \u00e9 a mensagem<strong>.&#8221; O meio atrav\u00e9s do qual conhecemos o mundo n\u00e3o \u00e9 neutro porque modifica a pr\u00f3pria estrutura da perce\u00e7\u00e3o e da consci\u00eancia.<\/strong> Quando a experi\u00eancia passa a ser predominantemente mediada pelos ecr\u00e3s, tamb\u00e9m o modo de compreender a realidade acaba por se transformar.<\/p>\n<p><strong>Poder-se-ia dizer, metaforicamente, que os antigos caminhos vivos, ladeados pela diversidade da vegeta\u00e7\u00e3o e pela imprevisibilidade da natureza, v\u00e3o sendo substitu\u00eddos pelo asfalto das vias cuidadosamente projetadas. Nestas estradas prevalecem sinais convencionais definidos por arquitetos dos sistemas sociais, econ\u00f3micos e tecnol\u00f3gicos.<\/strong> Pouco a pouco, habituamo-nos mais a interpretar s\u00edmbolos do que a observar diretamente as coisas. <strong>Deste modo o acesso \u00e0 vida \u201creal\u201d decai ao construir a m\u00e1scara da realidade j\u00e1 n\u00e3o a partir da experi\u00eancia e da observa\u00e7\u00e3o do objecto para se tornar na m\u00e1scara da m\u00e1scara.<\/strong><\/p>\n<p>Forma-se assim aquilo que poder\u00edamos designar por um &#8220;eclipse das coisas&#8221;. <strong>As realidades concretas cedem lugar \u00e0s suas representa\u00e7\u00f5es; a experi\u00eancia \u00e9 substitu\u00edda pela media\u00e7\u00e3o; o objeto pela imagem; a presen\u00e7a pelo fluxo cont\u00ednuo de informa\u00e7\u00e3o. Ora, quando as coisas desaparecem do horizonte da experi\u00eancia, tamb\u00e9m a mem\u00f3ria tende a enfraquecer-se, pois a mem\u00f3ria humana alimenta-se da viv\u00eancia concreta, dos lugares, dos gestos e dos encontros.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Esta preocupa\u00e7\u00e3o que aqui apresento aproxima-se da reflex\u00e3o de Hannah Arendt sobre a perda do &#8220;mundo comum&#8221; e que muito me impressionou aquando de estudante. Em The Human Condition, Arendt lembra que a realidade humana nasce de um mundo partilhado de coisas, obras e experi\u00eancias concretas. Quando esse mundo \u00e9 substitu\u00eddo por constru\u00e7\u00f5es abstratas ou por realidades inteiramente mediadas, enfraquecem-se igualmente os v\u00ednculos que sustentam a vida pol\u00edtica, a mem\u00f3ria hist\u00f3rica e a responsabilidade comum.<\/strong><\/p>\n<p>As consequ\u00eancias deste fen\u00f3meno ultrapassam, por isso, o dom\u00ednio da linguagem. Afetam a pr\u00f3pria compreens\u00e3o do ser humano e da sociedade. <strong>Uma transforma\u00e7\u00e3o profunda da rela\u00e7\u00e3o entre linguagem, experi\u00eancia e mem\u00f3ria conduz inevitavelmente ao aparecimento de uma nova antropologia e de uma nova sociologia, nas quais a identidade pessoal se constr\u00f3i cada vez mais atrav\u00e9s das redes simb\u00f3licas, dos algoritmos e das media\u00e7\u00f5es digitais, e cada vez menos atrav\u00e9s da experi\u00eancia direta da realidade vivida e deste modo devasta certamente o humanismo.<\/strong><\/p>\n<p>O que observamos no mundo que nos circunda \u00e9 preocupante contudo, importa evitar leituras simplistas. A abstra\u00e7\u00e3o constitui igualmente uma das grandes conquistas da intelig\u00eancia humana e permitiu o extraordin\u00e1rio desenvolvimento das ci\u00eancias, da filosofia e da t\u00e9cnica. O desafio consiste em preservar o equil\u00edbrio entre a capacidade de abstrair e a perman\u00eancia da liga\u00e7\u00e3o \u00e0s coisas concretas. Uma linguagem que perde completamente as suas ra\u00edzes na experi\u00eancia empobrece o pensamento e uma experi\u00eancia sem linguagem perde a possibilidade de ser compreendida e transmitida.<\/p>\n<p><strong>Talvez uma das tarefas culturais mais importantes do nosso tempo seja precisamente restaurar esse equil\u00edbrio: devolver \u00e0s palavras a sua espessura humana e reencontrar, atrav\u00e9s delas, a presen\u00e7a das coisas, da mem\u00f3ria e da realidade que lhes d\u00e1 sentido. Porque, em \u00faltima an\u00e1lise, n\u00e3o \u00e9 apenas o vocabul\u00e1rio que muda, o que muda \u00e9 a pr\u00f3pria forma de existir e de estar no mundo.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<br \/>\n<\/strong>Pegadas do Tempo \u00a9<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem muda o vocabul\u00e1rio muda a pr\u00f3pria forma de ser e de estar no mundo Ao observarmos a evolu\u00e7\u00e3o da linguagem nas sociedades europeias, sobretudo a partir das \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, torna-se evidente que muitas palavras perderam parte da sua densidade sem\u00e2ntica e da sua capacidade de remeter diretamente para a experi\u00eancia concreta &hellip; <a href=\"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11118\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">O ECLIPSE DAS COISAS NUMA LINGUAGEM ALHEADORA DA EXPERI\u00caNCIA<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[3,15,14,4,5,7,8,16],"tags":[],"class_list":["post-11118","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-arte","category-cultura","category-economia","category-educacao","category-escola","category-politica","category-religiao","category-sociedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/11118","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=11118"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/11118\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11120,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/11118\/revisions\/11120"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=11118"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=11118"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=11118"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}