{"id":11109,"date":"2026-06-30T22:39:08","date_gmt":"2026-06-30T21:39:08","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11109"},"modified":"2026-06-30T23:07:31","modified_gmt":"2026-06-30T22:07:31","slug":"para-uma-cultura-do-encontro-romper-a-inercia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11109","title":{"rendered":"PARA UMA CULTURA DO ENCONTRO ROMPER A IN\u00c9RCIA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>Como resgatar o Humano da Fragmenta\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Do hiperindividualismo \u00e0 consci\u00eancia integral do &#8220;Eu-Tu-N\u00f3s<\/strong>&#8221;<br \/>\nO empenho em tal causa ter\u00e1 de ser de envergadura civilizacional se n\u00e3o se quer que a civiliza\u00e7\u00e3o se dissolva na in\u00e9rcia. A tarefa come\u00e7a pela necessidade urgente de uma s\u00edntese global que resgate o ser humano ocidental da fragmenta\u00e7\u00e3o do hiperindividualismo contempor\u00e2neo. Para tal seria de encarar a necessidade de uma grande s\u00edntese epistemol\u00f3gica e antropol\u00f3gica para salvar a humanidade da sua pr\u00f3pria fragmenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Temos de proceder a uma leitura hist\u00f3rica cir\u00fargica. O processo de emancipa\u00e7\u00e3o individual, que teve no Protestantismo e no Iluminismo os seus motores iniciais, libertou o homem de tutelas medievais, mas, ao ser capturado pelas estruturas econ\u00f3micas e t\u00e9cnicas da modernidade, degenerou no hiperindividualismo e na atomiza\u00e7\u00e3o social. O ego hipertrofiado tornou-se o consumidor perfeito para um sistema que precisa de indiv\u00edduos isolados, previs\u00edveis e dependentes de &#8220;m\u00e1scaras&#8221; mercantis. Se o indiv\u00edduo se esvaziou do seu \u00e2mago, da sua mesmidade, as civiliza\u00e7\u00f5es correm agora o mesmo risco de implodirem por falta de consist\u00eancia espiritual interna, fechando-se em pequenos nichos de sobreviv\u00eancia identit\u00e1ria.<\/p>\n<h2>A urg\u00eancia da s\u00edntese numa matriz integradora global<\/h2>\n<p>A tarefa competiria aos intelectuais, fil\u00f3sofos e l\u00edderes espirituais do Ocidente e do Oriente; n\u00e3o se trata da cria\u00e7\u00e3o de uma nova ideologia pol\u00edtica, mas sim de uma Meta-Matriz Relacional (1). A cria\u00e7\u00e3o de uma matriz conceptual e formativa transcultural, que sirva de base para as rela\u00e7\u00f5es internacionais e para a educa\u00e7\u00e3o dos povos, \u00e9, depois do reencontro da pr\u00f3pria cultura com os seus fundamentos org\u00e2nicos, o desafio do nosso s\u00e9culo. Uma s\u00edntese que assente no reconhecimento de que somos todos &#8220;caminheiros na procura e na constru\u00e7\u00e3o da Verdade&#8221;, operando em tr\u00eas eixos fundamentais:<\/p>\n<ol>\n<li>A dial\u00e9tica do humano: Masculinidade e Feminilidade<\/li>\n<\/ol>\n<p>A desestrutura\u00e7\u00e3o do mundo atual decorre tamb\u00e9m da perda de equil\u00edbrio entre as energias arquet\u00edpicas do masculino e do feminino, como tenho apresentado\u00a0 em Pegadas do Tempo: www.ant\u00f3nio-justo.eu. A sociedade t\u00e9cnico-secular hipertrofiou o &#8220;masculino t\u00f3xico\/mec\u00e2nico&#8221; (a conquista, a explora\u00e7\u00e3o, a categoriza\u00e7\u00e3o, o controlo e a descri\u00e7\u00e3o fria) e marginalizou o &#8220;feminino essencial&#8221; (a intui\u00e7\u00e3o, o acolhimento, a resson\u00e2ncia, o cuidado e a rela\u00e7\u00e3o por presen\u00e7a). Integrar ambas as dimens\u00f5es na matriz formativa dos povos \u00e9 devolver \u00e0 humanidade a sua totalidade psicol\u00f3gica e existencial. N\u00e3o h\u00e1 &#8220;N\u00f3s&#8221; inteiro sem a harmonia destas duas polaridades (2).<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li>A reconcilia\u00e7\u00e3o do Ser: Materialidade e Espiritualidade<\/li>\n<\/ol>\n<p>O Ocidente secularizado cometeu o erro tr\u00e1gico de decretar o div\u00f3rcio entre o corpo e a alma, entre o progresso t\u00e9cnico (materialidade) e a profundidade m\u00edstica (espiritualidade). A s\u00edntese proposta exige que a espiritualidade deixe de ser vista como um &#8220;anacronismo&#8221; ou um &#8220;h\u00e1bito privado&#8221;, passando a ser reconhecida como a infraestrutura invis\u00edvel que d\u00e1 qualidade e limite \u00e9tico \u00e0 a\u00e7\u00e3o material. O Oriente tem aqui um papel pedag\u00f3gico fundamental com as suas filosofias da iman\u00eancia e da unidade entre mente e mat\u00e9ria (3).<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li>O horizonte teandro-pol\u00edtico: Povo express\u00e3o do divino<\/li>\n<\/ol>\n<p>Esta express\u00e3o evoca a intui\u00e7\u00e3o profunda de que a comunidade humana (o Povo), quando autoconsciente e unida na resson\u00e2ncia, manifesta a pr\u00f3pria presen\u00e7a do Sagrado na Terra. Deus n\u00e3o como um monarca exterior que dita dogmas e preconceitos atrav\u00e9s de uma casta institucional, mas Deus como a for\u00e7a motriz, o &#8220;Movente&#8221; intemporal que se atualiza na comunh\u00e3o sincera e sem m\u00e1scaras entre os seres humanos. Formar os povos neste sentido \u00e9 educ\u00e1-los para a sacralidade da rela\u00e7\u00e3o social (4).<\/p>\n<h2>O desafio da implementa\u00e7\u00e3o na pr\u00e1tica<\/h2>\n<p>O grande obst\u00e1culo a esta vis\u00e3o ut\u00f3pica (no sentido mais nobre de um ideal orientador) \u00e9 que as estruturas que hoje governam o mundo, financeiras, tecnol\u00f3gicas e burocr\u00e1ticas, prosperam precisamente na aus\u00eancia de s\u00edntese. Elas alimentam-se do preconceito, da divis\u00e3o e da ilus\u00e3o de certeza para manter o controlo. Por isso, essa matriz pedag\u00f3gica global talvez tenha de come\u00e7ar a ser escrita e vivida a partir da base, atrav\u00e9s de redes transnacionais de pensadores e criadores que, se recusam a aceitar a fal\u00eancia qualitativa da nossa civiliza\u00e7\u00e3o (5).<\/p>\n<p><strong>Estrat\u00e9gias e poss\u00edveis abordagens:<\/strong><\/p>\n<p>As f\u00f3rmulas do dogmatismo eclesial e do manique\u00edsmo secular seriam ultrapassadas ao repensar-se o Mist\u00e9rio da Trindade (1=3) e (3=1) e da Encarna\u00e7\u00e3o para l\u00e1 de imposta\u00e7\u00f5es religiosas ou seculares e devolv\u00ea-las ao seu estatuto de matrizes l\u00f3gicas e existenciais:<\/p>\n<p>&#8211; A Trindade como Ant\u00eddotos ao Manique\u00edsmo &#8211; O pensamento trinit\u00e1rio quebra o binarismo (dualismo). Mostra que a identidade n\u00e3o se faz pela exclus\u00e3o do outro, mas pela rela\u00e7\u00e3o de reciprocidade. O Pai, o Filho e o Esp\u00edrito Santo n\u00e3o competem; coexistem numa din\u00e2mica de doa\u00e7\u00e3o m\u00fatua (perichoresis) onde a unidade preserva a diversidade. Secularizar a Trindade significa criar uma sociedade onde o &#8220;N\u00f3s&#8221; n\u00e3o esmaga o &#8220;Eu&#8221; nem o &#8220;Tu&#8221;, mas os potencia (possibilita a sustentabilidade perene da cultura).<\/p>\n<p>&#8211; A Encarna\u00e7\u00e3o como Reconcilia\u00e7\u00e3o Mat\u00e9ria-Esp\u00edrito &#8211; Em Cristo, o divino n\u00e3o anula o humano; a carne (mat\u00e9ria) torna-se o ve\u00edculo do Esp\u00edrito. Ao esquecer isto, o Ocidente secular hipertrofiou a mat\u00e9ria (o consumo, a t\u00e9cnica) e desintegrou o sentido (um reino simbolizado na est\u00e1tua de Nabucodonosor, rei da Babil\u00f3nia, com p\u00e9s de barro, isto \u00e9, s\u00edmbolo da vida p\u00fablica\u00a0 com pol\u00edticos sem virtude, carentes de m\u00e9ritos e sem valores intr\u00ednsecos: um colosso sem alma que n\u00e3o pode resistir ao embate que a espera).<\/p>\n<h2>O novo &#8220;momento Beneditino&#8221; e o encontro de caminheiros<\/h2>\n<p>Uma estrat\u00e9gia que reinterpretasse o esp\u00edrito original de S\u00e3o Bento para o s\u00e9culo XXI poderia tornar-se numa cirurgia historicamente oportuna. De facto, quando o Imp\u00e9rio Romano colapsou no caos e no manique\u00edsmo b\u00e1rbaro, foram os mosteiros beneditinos que preservaram a cultura, criaram novos modelos agr\u00edcolas e fundaram comunidades de paz baseadas no equil\u00edbrio entre o trabalho material e a contempla\u00e7\u00e3o (Ora et Labora).<\/p>\n<p>Ter\u00edamos um Neo-Monasticismo Ecum\u00e9nico e Intercomunit\u00e1rio de cariz secular e espiritual, com um eixo de caracter vertical seguindo a Via M\u00edstica Transcultural como tecto. Enquanto o Ocidente acentuaria o valor do Eu (Trindade\/Encarnac\u00e3o) o Oriente expressaria o valor do Todo (Budismo\/Vazio Interdependente). Deste modo abdicar-se-ia da matriz de pensamento manique\u00edsta dos opostos rivais legitimadores de uma cultura da guerra para se ultrapassar o binarismo\/dualismo e passar-se \u00e0 f\u00f3rmula tr\u00ednia de uma cultura de paz de avan\u00e7o em espiral.<\/p>\n<p>Ter\u00edamos, por um lado, grupos seculares e religiosos em co-presen\u00e7a. Haveria a cria\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os que funcionem como laborat\u00f3rios de uma nova s\u00edntese, onde crentes e n\u00e3o-crentes se sintonizam atrav\u00e9s da via m\u00edstica (inclusiva) que, por natureza, despoja o ser humano de dogmas e preconceitos, permitindo o encontro direto com o &#8220;Movente&#8221; e por outro lado ter\u00edamos o casamento do ocidente com o oriente em que o passo do Ocidente consistiria em caminhar em dire\u00e7\u00e3o ao Oriente atrav\u00e9s da m\u00edstica, reaprendendo a dissolver o ego inflacionado na teia da interdepend\u00eancia universal (o conceito budista de Prat\u012btyasamutp\u0101da ou o Tao) e o passo do Oriente seria caminhar em dire\u00e7\u00e3o ao Ocidente assimilando a valoriza\u00e7\u00e3o ontol\u00f3gica da pessoa individual, n\u00e3o como um \u00e1tomo isolado da sociedade de consumo, mas como um n\u00f3 sagrado, \u00fanico e irrepet\u00edvel na rede da exist\u00eancia com o prot\u00f3tipo relacional trinit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Esta caminhada comum do Cristianismo e do Budismo n\u00e3o visa fundi-los numa religi\u00e3o universal cinzenta, mas sim us\u00e1-los como espelhos m\u00fatuos para corrigir os excessos e cegueiras de cada civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na minha p\u00e1gina virtual Pegadas do Tempo, tal como neste ensaio, procuro fomentar momentos de reflex\u00e3o e an\u00e1lise que sirvam de est\u00edmulo \u00e0 pondera\u00e7\u00e3o urgente de que carecemos, neste tempo em que a cultura da concorr\u00eancia amea\u00e7a devorar o que o humano tem de mais genu\u00edno. Numa perspetiva de constru\u00e7\u00e3o de uma cultura universal de paz, poder\u00edamos, cada qual no seu contexto, ir elaborando e desenhando a arquitetura operacional de que a nossa civiliza\u00e7\u00e3o necessita para n\u00e3o sucumbir \u00e0 mecaniza\u00e7\u00e3o existencial. O momento axial que atravessamos pede a vis\u00e3o de um pragmatismo prof\u00e9tico. O grande desafio da era da Intelig\u00eancia Artificial e da hiperconex\u00e3o virtual n\u00e3o se resolve com mais isolamento nem com o apego a formalidades pol\u00edticas e pastorais est\u00e9reis, mas sim com o entrela\u00e7amento de comunidades em redes descentralizadas que gerem experi\u00eancias reais de comunh\u00e3o. Constatamos como as institui\u00e7\u00f5es falham e como a &#8220;Palavra&#8221;, enquanto energia mist\u00e9rio, pode ser encarnada hoje atrav\u00e9s de vetores cruciais:<\/p>\n<ol>\n<li>A descentraliza\u00e7\u00e3o e os novos rituais na era da IA<\/li>\n<\/ol>\n<p>Se a IA automatiza a l\u00f3gica, a efici\u00eancia e a descri\u00e7\u00e3o abstrata, o que resta para o Homem \u00e9 a capacidade de presen\u00e7a, o mist\u00e9rio e o v\u00ednculo afetivo. Os conventos f\u00edsicos tradicionais servem a poucos, mas o modelo de &#8220;redes descentralizadas&#8221; permite que o esp\u00edrito comunit\u00e1rio se propague em capilares pela sociedade.<\/p>\n<p>&#8211; A Palavra como Energia: A Palavra aqui n\u00e3o \u00e9 o &#8220;discurso&#8221; ou o dogma dogm\u00e1tico, mas a for\u00e7a geradora de realidades (o Logos: a \u201cPalavra\u201d no processo de ser encarnada).<\/p>\n<p>&#8211; Novos Rituais: Precisamos de din\u00e2micas virtuais e f\u00edsicas que funcionem como portos de abrigo contra o ru\u00eddo. N\u00e3o se tratam de rituais de &#8220;sacristia&#8221;, de &#8220;lojas&#8221;, de centrais partid\u00e1rias, nem de f\u00f3runs pol\u00edtico-econ\u00f3micos intergovernamentais, mas sim de momentos estruturados de paragem, escuta e partilha aut\u00eantica, que as pessoas possam levar consigo para o seu quotidiano. Quanto \u00e0 sua org\u00e2nica, creio que um modelo de maior abrang\u00eancia global poderia ser elaborado com as devidas adapta\u00e7\u00f5es, inspirando-se na estrutura da Igreja cat\u00f3lica que, apesar do seu car\u00e1cter piramidal, contempla o momento democr\u00e1tico e a valoriza\u00e7\u00e3o das dimens\u00f5es regionais.<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li>A arte e o desporto como liturgias encarnadas<\/li>\n<\/ol>\n<p>Urge focar a a\u00e7\u00e3o cultural e religiosa nas artes, filmes, teatro espont\u00e2neo, concertos, etc., onde a mensagem esteja em primeiro plano, e n\u00e3o o int\u00e9rprete! Tal implicaria uma aut\u00eantica revolu\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica, mas uma revolu\u00e7\u00e3o que valeria a pena experimentar, moldada pelas necessidades e potencialidades de cada comunidade. Imagine-se, nas igrejas e sacristias, sess\u00f5es de teatro de improvisa\u00e7\u00e3o onde se pudesse desenvolver uma catarse de car\u00e1cter psicol\u00f3gica, espiritual e f\u00edsica, na qual o indiv\u00edduo e o grupo, em intera\u00e7\u00e3o, expressassem o divino e o humano, a amargura e a alegria de viver, numa aut\u00eantica express\u00e3o lit\u00fargica de cura e reden\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Este teatro improvisado, longe de ser mero entretenimento, constituir-se-ia como um espa\u00e7o de vulnerabilidade sagrada. O ensaio, a falha, o gesto inesperado, tudo isso se tornaria mat\u00e9ria lit\u00fargica, porque a\u00ed, mais do que em qualquer rito perfeitamente coreografado, se revela o humano tal como ele \u00e9: imperfeito, em busca, aberto ao sopro do Esp\u00edrito. O &#8220;palco&#8221; da igreja deixaria de ser um lugar de dist\u00e2ncia entre clero e fi\u00e9is para se tornar um c\u00edrculo onde todos s\u00e3o, ao mesmo tempo, atores e espectadores da Gra\u00e7a. O que est\u00e1 em jogo n\u00e3o \u00e9 a qualidade est\u00e9tica da representa\u00e7\u00e3o, mas a verdade da encarna\u00e7\u00e3o, o Verbo que se faz carne, de novo, em cada gesto partilhado.<\/p>\n<p>Uma express\u00e3o de cura humana integral, n\u00e3o alicer\u00e7ada em defini\u00e7\u00f5es de perten\u00e7a, mas num car\u00e1cter simultaneamente corporal e espiritual, pressup\u00f5e o Esvaziamento do Ego (Kenosis). Esta Kenosis n\u00e3o \u00e9 um mero apagamento niilista, mas antes uma expans\u00e3o por esvaziamento: o artista, ao recolher-se, n\u00e3o diminui, torna-se antes uma membrana perme\u00e1vel por onde o divino e o humano trocam respira\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Quando o actor ou o m\u00fasico se apaga em favor da obra, a arte converte-se num canal para a resson\u00e2ncia trinit\u00e1ria e pressup\u00f5e, al\u00e9m disso, uma espiritualidade isenta do excessivo odor a velas e das habituais v\u00e9nias ao Zeitgeist. A resson\u00e2ncia trinit\u00e1ria n\u00e3o \u00e9 um conceito abstrato; \u00e9 a vibra\u00e7\u00e3o concreta de uma rela\u00e7\u00e3o que se estabelece no intervalo entre a nota e o sil\u00eancio, entre o gesto e a pausa, entre o eu e o Tu.<\/p>\n<p>O esvaziamento do ego, nesse contexto, \u00e9 o \u00fanico gesto que permite \u00e0 comunidade e n\u00e3o ao int\u00e9rprete tornar-se protagonista da cura. Como na improvisa\u00e7\u00e3o teatral, aqui o &#8220;palco&#8221; n\u00e3o \u00e9 o lugar do virtuoso, mas o lugar do servidor da obra. E a obra, por sua vez, n\u00e3o pertence ao artista, nem ao p\u00fablico, nem sequer \u00e0 Igreja como institui\u00e7\u00e3o: ela pertence ao encontro (corpo m\u00edstico de Cristo) esse instante fugidio (a ressoar em cada um) em que o corpo, o esp\u00edrito e o Mist\u00e9rio coabitam sem media\u00e7\u00f5es desnecess\u00e1rias. \u00c9 nessa nudez ritual que a reden\u00e7\u00e3o deixa de ser doutrina e se faz carne, novamente, em cada respira\u00e7\u00e3o de viv\u00eancia partilhada.<\/p>\n<p>O que o mundo hoje precisa \u00e9 de uma espiritualidade sem cheiro a velas e sem v\u00e9nias ao Zeitgeist: Os centros paroquiais e culturais j\u00e1 t\u00eam a log\u00edstica e o espa\u00e7o f\u00edsico. Falta-lhes libertarem-se das exterioridades formais para oferecerem o que o mundo pede: espa\u00e7os de sil\u00eancio, de encena\u00e7\u00e3o da vida, de partilha p\u00f3s-concorr\u00eancia. O desporto e a arte, vividos de forma comunit\u00e1ria, tornam-se a nova m\u00edstica encarnada. A espiritualidade aut\u00eantica n\u00e3o se confunde com a encena\u00e7\u00e3o piedosa (rituais sentimentais, as parafern\u00e1lias devocionais) nem com o servilismo \u00e0s modas intelectuais ou pol\u00edticas do momento, sejam elas o ativismo superficial, o tecnoutopismo ou o relativismo est\u00e9ril que nos amarra a todos \u00e0 pia onde todos se servem da \u201clavagem\u201d (restos de comida) p\u00fablica. Essa espiritualidade despojada exige uma ascese de aten\u00e7\u00e3o que corresponde a estar no mundo sem lhe prestar vassalagem, a habitar a tradi\u00e7\u00e3o sem a mumificar e a acolher o novo sem se render ao fetiche da novidade.<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li>A Fenomenologia das F\u00f3rmulas b\u00e1sicas e o Impacto pol\u00edtico<\/li>\n<\/ol>\n<p>O indiv\u00edduo isolado \u00e9 politicamente impotente e facilmente engolido pelas org\u00e2nicas burocr\u00e1ticas da modernidade, facto este que se observa cada vez mais consumado nas novas formas de estar na polis. Para recuperar a voz, as pessoas\u00a0 t\u00eam de se organizar em grupos e assim se formar uma nova antropologia e uma nova sociologia. Para isso precisa-se:<\/p>\n<p>&#8211; Consciencializa\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica: Cada cultura esconde f\u00f3rmulas b\u00e1sicas de sabedoria (como a Trindade no Ocidente ou o Vazio Interdependente no Oriente). Fazer uma fenomenologia dessas f\u00f3rmulas significa traduzi-las em matrizes de comportamento em que se afirme a coopera\u00e7\u00e3o em vez de manique\u00edsmo e a inclus\u00e3o em vez da exclus\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Para l\u00e1 de Hans K\u00fcng: O projeto Ethos Global de Hans K\u00fcng lan\u00e7ou as bases te\u00f3ricas para uma \u00e9tica planet\u00e1ria partilhada. O passo seguinte, exige por\u00e9m\u00a0 que os governantes e o clero apliquem isto na organiza\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica mas como virtude e n\u00e3o como conte\u00fados abstratos como pretendem for\u00e7as que se encontram por tr\u00e1s de agendas pol\u00edticas. As institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o podem ser n\u00facleos fechados (guetos de certezas) nem bal\u00f5es ao sabor das \u00e1guas do politicamente correto; t\u00eam de se enredar com outros grupos para criar massa cr\u00edtica e impacto pol\u00edtico-social.<\/p>\n<h2>Criar Plataformas de Poliniza\u00e7\u00e3o cruzada<\/h2>\n<p>Como resposta \u00e0 urg\u00eancia de curar a fratura manique\u00edsta da nossa sociedade pressup\u00f5e-se criar-se uma estrat\u00e9gia de dupla via que transforma a par\u00f3quia e a sede partid\u00e1ria de espa\u00e7os de trincheira ideol\u00f3gica em verdadeiras plataformas de poliniza\u00e7\u00e3o cruzada.<\/p>\n<p>Ao criar eventos culturais abertos em paralelo com os religiosos, a par\u00f3quia deixa de ser um &#8220;gueto de crentes&#8221; e passa a ser a \u00e1gora da comunidade de cunho cat\u00f3lico. O segredo est\u00e1 em fazer com que o crente e o laico se encontrem n\u00e3o para debater dogmas, mas para comungar de uma experi\u00eancia humana partilhada que se expressa em a\u00e7\u00f5es conjuntas.<\/p>\n<p>A Arte com Conte\u00fado Integral como Terceiro Elemento<\/p>\n<p>Para que este conv\u00edvio aconte\u00e7a sem desd\u00e9m m\u00fatuo, a arte com conte\u00fado integral funciona como o lubrificante existencial perfeito.<\/p>\n<p>O Laico entra no espa\u00e7o atra\u00eddo pela beleza, pela m\u00fasica ou pelo teatro, sem o medo de ser doutrinado ou de encontrar o &#8220;cheiro a sacristia&#8221;.<\/p>\n<p>O Crente sai da sua zona de conforto e aprende a ver a manifesta\u00e7\u00e3o do Mist\u00e9rio e da Palavra tamb\u00e9m fora das f\u00f3rmulas lit\u00fargicas tradicionais.<\/p>\n<p>O Encontro d\u00e1-se na resson\u00e2ncia da mensagem da obra. A arte integral toca no \u00e2mago do ser, onde as m\u00e1scaras do &#8220;ateu&#8221; ou do &#8220;cat\u00f3lico&#8221; caem, restando apenas dois caminheiros perante o belo.<\/p>\n<h2>A Despolariza\u00e7\u00e3o dos Partidos Pol\u00edticos<\/h2>\n<p>Ao estender esta l\u00f3gica aos centros nevr\u00e1lgicos dos partidos pol\u00edticos, as consequ\u00eancias revelam-se igualmente profundas. Hoje configurados como f\u00e1bricas de ideologia e de competi\u00e7\u00e3o agressiva, se estes organismos passarem a fomentar pr\u00e1ticas abertas e n\u00e3o apenas doutrinas fechadas, a pol\u00edtica poder\u00e1 recuperar a sua dimens\u00e3o antropol\u00f3gica primordial: a de servi\u00e7o ao &#8220;N\u00f3s&#8221;.<\/p>\n<p>Imagine-se uma sede partid\u00e1ria que abra as suas portas a din\u00e2micas de teatro espont\u00e2neo, a servi\u00e7os de diaconia como nas par\u00f3quias, a projetos de ecologia local ou a debates art\u00edsticos desprovidos de fins eleitorais. Ao faz\u00ea-lo, ela abdica do papel de &#8220;ator dominante&#8221; para se focar na mensagem e na comunidade. Cria-se, assim, nesses espa\u00e7os, a pr\u00e1tica do exerc\u00edcio c\u00edvico como virtude e n\u00e3o j\u00e1 como mera defesa de interesses sectoriais ou de captura do poder.<\/p>\n<p>Esta conviv\u00eancia pr\u00e1tica, horizontal e desarmada constitui o \u00fanico ant\u00eddoto eficaz contra o desaparecimento do indiv\u00edduo na org\u00e2nica mec\u00e2nica do nosso tempo. Ela \u00e9 a encarna\u00e7\u00e3o viva de uma cultura de paz em substitui\u00e7\u00e3o da cultura de competi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas onde reside, afinal, o c\u00edrculo vicioso que paralisa as institui\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas? Estar\u00e1 no medo de perder a identidade ou na incapacidade de gerir a pluralidade? Na verdade, ele emerge da tr\u00e1gica alian\u00e7a entre o receio da descaracteriza\u00e7\u00e3o, a gest\u00e3o da &#8220;mis\u00e9ria&#8221; institucional, a in\u00e9rcia burocr\u00e1tica e a tend\u00eancia humana para se refugiar em guetos de identifica\u00e7\u00e3o f\u00e1cil. Esta equa\u00e7\u00e3o complexa revela por que raz\u00e3o a transi\u00e7\u00e3o para uma consci\u00eancia integral (Eu-Tu-N\u00f3s) constitui um desafio herc\u00faleo e plurivalente. Enquanto as dire\u00e7\u00f5es se limitarem a administrar a mis\u00e9ria, seja a escassez de recursos, a perda de s\u00f3cios ou a debandada de militantes, a sua vis\u00e3o encolhe. O foco desloca-se, ent\u00e3o, da miss\u00e3o e do horizonte do bem comum para a mera sobreviv\u00eancia org\u00e2nica.<\/p>\n<h2>A Patologia do Clientelismo Institucional<\/h2>\n<p>Este ref\u00fagio na rotina n\u00e3o \u00e9 in\u00f3cuo; ele germina e perpetua verdadeiros ecossistemas de clientela, cuja din\u00e2mica se revela em tr\u00eas movimentos complementares e devastadores.<\/p>\n<p>O primeiro \u00e9 o circuito fechado. As par\u00f3quias e os partidos pol\u00edticos, ao enclausurarem-se na sua pr\u00f3pria l\u00f3gica, passam a produzir conte\u00fados, linguagens e rituais feitos \u00e0 medida exclusiva dos seus habitu\u00e9s. Toda a sua energia criativa e comunicacional \u00e9 canalizada para confortar a clientela fiel, assegurando a sua lealdade a qualquer custo. Contudo, esta sintonia fina com o interior tem um pre\u00e7o exorbitante: o alheamento total em rela\u00e7\u00e3o ao resto do mundo, que deixa de ser interpelado para ser meramente ignorado.<\/p>\n<p>O segundo movimento \u00e9 o consolo das m\u00e1scaras. A rotineira clientela, prisioneira deste ciclo, aceita de bom grado a m\u00e1scara institucional \u2014 sejam as exterioridades formais do rito religioso, sejam a cartilha ideol\u00f3gica do partido. Esta ades\u00e3o n\u00e3o nasce, por\u00e9m, de uma convic\u00e7\u00e3o profunda, mas da necessidade visceral de se agarrar a uma ilus\u00e3o de perten\u00e7a e de certeza num mundo cada vez mais fluido e desconcertante. A m\u00e1scara funciona como um b\u00e1lsamo que anestesia a ang\u00fastia da desorienta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Da conjuga\u00e7\u00e3o destes dois fatores emerge o terceiro movimento que se expressa no desd\u00e9m pelo exterior. Instaura-se um fosso intranspon\u00edvel: quem est\u00e1 dentro olha para fora com desd\u00e9m ou receio, encarando a alteridade como uma amea\u00e7a \u00e0 sua identidade conquistada a ferros; quem est\u00e1 fora, por seu turno, retribui o olhar com indiferen\u00e7a ou repulsa, vendo naquela institui\u00e7\u00e3o um clube obsoleto e surdo. Neste jogo de espelhos distorcidos, a cultura da concorr\u00eancia e o manique\u00edsmo politico-ideol\u00f3gico vencem uma vez mais, cimentando a paralisia e inviabilizando qualquer ponte para o di\u00e1logo aut\u00eantico.<\/p>\n<h2>Romper o Enredo da In\u00e9rcia atrav\u00e9s de infiltra\u00e7\u00e3o para o Encontro<\/h2>\n<p>Dado que o desafio \u00e9 plurivalente e as institui\u00e7\u00f5es padecem do peso esmagador da in\u00e9rcia, a transforma\u00e7\u00e3o dificilmente emanar\u00e1 de uma decis\u00e3o de topo das suas dire\u00e7\u00f5es administradoras. A mudan\u00e7a estrutural exige, assim, uma abordagem de cissura e infiltra\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica que atue silenciosamente nos interst\u00edcios do poder.<\/p>\n<p>A primeira via \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de factos consumados, ou a via pr\u00e1tica. Em vez de tentar convencer uma dire\u00e7\u00e3o paroquial ou partid\u00e1ria a rever a sua vis\u00e3o te\u00f3rica, o caminho passa por propor pequenos projetos concretos e aut\u00f3nomos, um concerto de conte\u00fado integral, a\u00e7\u00f5es de voluntariado, uma encena\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea, um c\u00edrculo de sil\u00eancio, que, valendo-se da log\u00edstica da institui\u00e7\u00e3o, falem uma linguagem universal. Quando a clientela habitual e os novos &#8220;caminheiros&#8221; se misturam na experi\u00eancia do belo, o medo da perda de identidade dissolve-se pela evid\u00eancia da alegria do encontro.<\/p>\n<p>Paralelamente, imp\u00f5e-se a afirma\u00e7\u00e3o de uma identidade aberta, no sentido de uma verdadeira trindade operacional. Importa demonstrar na pr\u00e1tica que a matriz trinit\u00e1ria n\u00e3o destr\u00f3i a identidade, pelo contr\u00e1rio, expande-a. A identidade crist\u00e3 ou humanista n\u00e3o se perde quando se abre ao di\u00e1logo, ao faz\u00ea-lo, atualiza-se. O 1 s\u00f3 se realiza plenamente quando descobre que \u00e9 3, ou seja, que a sua subst\u00e2ncia mais \u00edntima \u00e9 a pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o com o outro.<\/p>\n<p>Compreender o mecanismo do medo institucional \u00e9 o primeiro passo para construir as pontes que o contornam. Ora, o poder estruturado na nossa contemporaneidade desenvolveu uma imunidade quase perfeita \u00e0 mudan\u00e7a org\u00e2nica vinda da base. O pragmatismo seletivo transformou a pr\u00f3pria sociedade numa vasta rede de clientes. Esta l\u00f3gica mercantil e de manuten\u00e7\u00e3o de privil\u00e9gios n\u00e3o tolera a osmose com o indiv\u00edduo livre; prefere a filtragem e a exclus\u00e3o para garantir que as engrenagens burocr\u00e1ticas e comerciais continuem a rodar sem sobressaltos. Da\u00ed a solidariedade c\u00famplice entre as institui\u00e7\u00f5es: todas t\u00eam o indiv\u00edduo como suporte, mas todas s\u00e3o solid\u00e1rias em mant\u00ea-lo impotente. Uma cultura que apostasse na pessoa desenvolveria uma escola que ensinasse o aluno a pensar, cultivando um esp\u00edrito simultaneamente cr\u00edtico e inclusivo; a institui\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, prefere formar indiv\u00edduos adaptados e dependentes. Por isso, quando surgem pessoas ou grupos que apresentam conceitos cr\u00edticos diferentes, a sociedade reage catalogando-os como teorias da conspira\u00e7\u00e3o e n\u00e3o como teorias alternativas.<\/p>\n<p>Este mesmo padr\u00e3o din\u00e2mico, que observamos nas organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e educacionais, revela-se de forma paradigm\u00e1tica no atual sistema liter\u00e1rio e cultural. O sistema editorial contempor\u00e2neo j\u00e1 n\u00e3o procura a originalidade do \u00e2mago do ser, o &#8220;conte\u00fado integral&#8221; ou a qualidade cient\u00edfica; prefere o produto padronizado, os canais de comercializa\u00e7\u00e3o instalados e os autores que alimentam a mentalidade mercantil do entretenimento r\u00e1pido ou da ideologia da moda, nomeadamente a literatura que fomenta o politicamente correto ditado pelo sistema (Quem vive do sistema n\u00e3o se insurge e quem est\u00e1 fora dele encontra-se na depend\u00eancia dele). Desta forma, a aut\u00eantica criatividade \u00e9 asfixiada pela burocracia do mercado e por interesses instalados, revelando que a in\u00e9rcia n\u00e3o se circunscreve \u00e0 esfera pol\u00edtica ou religiosa, mas constitui um fen\u00f3meno profundamente cultural. Para que as fissuras sejam verdadeiramente eficazes, ter\u00e3o, pois, de atravessar todos estes estratos, infiltrando-se tanto nos c\u00f3digos do poder como nos bastidores da produ\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica.<\/p>\n<h2>A Urg\u00eancia de uma Nova Gera\u00e7\u00e3o de L\u00edderes e Funcion\u00e1rios<\/h2>\n<p>Face \u00e0 rigidez e \u00e0 impermeabilidade institucionais, a estrat\u00e9gia ter\u00e1 de se deslocar para a raiz biol\u00f3gica e espiritual das pr\u00f3prias organiza\u00e7\u00f5es. A forma\u00e7\u00e3o de uma nova gera\u00e7\u00e3o de l\u00edderes e funcion\u00e1rios, religiosos e n\u00e3o religiosos, emerge como a \u00fanica via capaz de operar a partir do interior do sistema, precisamente por serem eles os futuros herdeiros das chaves log\u00edsticas e do poder institu\u00eddo.<\/p>\n<p>Para que esta gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o seja corrompida pela in\u00e9rcia burocr\u00e1tica e pelo clientelismo logo \u00e0 nascen\u00e7a, a sua prepara\u00e7\u00e3o, em semin\u00e1rios, faculdades de letras, escolas de ci\u00eancia pol\u00edtica, centros de gest\u00e3o cultural e universidades, teria de assentar em tr\u00eas pilares inovadores:<\/p>\n<ol>\n<li>Uma Pedagogia da Plurival\u00eancia que eduque os futuros l\u00edderes na capacidade de habitar a d\u00favida e a complexidade, em vez de os treinar para gerir certezas dogm\u00e1ticas ou cartilhas partid\u00e1rias.<\/li>\n<li>Uma Hermen\u00eautica da Complementaridade que ensine a ler as f\u00f3rmulas basilares das civiliza\u00e7\u00f5es (como a Trindade, a Encarna\u00e7\u00e3o&#8230;) como gram\u00e1ticas de paz e de rela\u00e7\u00e3o Eu-Tu-N\u00f3s, libertando-as do espartilho do manique\u00edsmo institucional.<\/li>\n<li>A Voca\u00e7\u00e3o de Facilitadores, n\u00e3o de Actores formando l\u00edderes cujo ego se apague para dar lugar \u00e0 mensagem e ao espa\u00e7o de resson\u00e2ncia comunit\u00e1ria, que compreendam que a sua miss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 &#8220;administrar a mis\u00e9ria&#8221; da clientela, mas abrir as portas \u00e0 vida encarnada.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Esta l\u00f3gica formativa deve estender-se, com igual acuidade, \u00e0s institui\u00e7\u00f5es de car\u00e1ter econ\u00f3mico e aos seus funcion\u00e1rios. Para garantir um m\u00ednimo de justi\u00e7a e equil\u00edbrio, seria imperativo estabelecer um teto para os ganhos pessoais, canalizando o excedente para funda\u00e7\u00f5es culturais e de benefic\u00eancia p\u00fablica, princ\u00edpio que deveria aplicar-se, de igual modo, aos funcion\u00e1rios pol\u00edticos. Com efeito, as atuais funda\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, tal como concebidas, tendem a estabilizar uma cultura de guerra e rivalidade, em vez de fomentarem uma aut\u00eantica cultura da paz.<\/p>\n<h2>O Enredamento Silencioso das Novas Lideran\u00e7as<\/h2>\n<p>Dotados de uma vis\u00e3o ecum\u00e9nica e plurivalente, estes novos guias teriam como primeira tarefa pr\u00e1tica subverter a rigidez seletiva precisamente atrav\u00e9s do enredamento de grupos. Cl\u00e9rigos ou dirigentes com autoridade formal, possuiriam a legitimidade para aceder aos recursos e \u00e0s redes log\u00edsticas atualmente fechadas, colocando-os ao servi\u00e7o de encontros genu\u00ednos, da arte com conte\u00fado integral e de rituais descentralizados que acolham tanto o crente como o laico. Trata-se, naturalmente, de uma aut\u00eantica subvers\u00e3o pac\u00edfica exercida a partir das chefias.<\/p>\n<p>Uma vez que a fortaleza do poder secular e religioso est\u00e1 blindada contra os cidad\u00e3os independentes e os leigos que tentam for\u00e7ar a entrada, a solu\u00e7\u00e3o reside em garantir que aqueles que assumem as muralhas j\u00e1 trazem no cora\u00e7\u00e3o o desejo profundo de as abrir ao mundo. A cren\u00e7a debate-se na cabe\u00e7a como um produto de mercado; a f\u00e9 aberta deita ra\u00edzes no peito e une-nos ao &#8220;Movente&#8221; sem precisar de explica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<\/p>\n<p>Pegadas do Tempo \u00a9<\/p>\n<p>(1) A base filos\u00f3fico-teol\u00f3gica e qu\u00e2ntica para essa reconcilia\u00e7\u00e3o dos opostos j\u00e1 se encontra no chamado mist\u00e9rio da Trindade em\u00a0 o 1=3 e o 3=1 e no chamado mist\u00e9rio da incarna\u00e7\u00e3o em que em Jesus Cristo se mistura em termos de igualdade mat\u00e9ria e esp\u00edrito servido a sua pessoa\u00a0 ao mesmo tempo como b\u00fassola. A sociedade ocidental relegou essa vis\u00e3o de complementaridade e de inclus\u00e3o para os conventos e construiu o modelo institucional secular baseado na din\u00e2mica maniqueia, o que levou a sociedade secular a distanciar-se mais ainda dos modelos orientais. Por isso a acentua\u00e7\u00e3o da via m\u00edstica seja um ponto de sa\u00edda para o problema e um passo em dire\u00e7\u00e3o de reconcilia\u00e7\u00e3o com o oriente. O oriente poderia por seu lado dar um passo no sentido de valoriza\u00e7\u00e3o da pessoa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sociedade.<\/p>\n<p>(2) O Ocidente hiper-racionalizou e mecanizou a sociedade (mediante uma hipertrofia de um certo princ\u00edpio masculino de controlo e segmenta\u00e7\u00e3o), esquecendo-se da dimens\u00e3o receptiva, relacional, c\u00edclica e integradora (o princ\u00edpio feminino), essencial para a resson\u00e2ncia e para o cuidado da vida.<\/p>\n<p>(3) A resposta \u00e0 crise secular n\u00e3o \u00e9 o desprezo pelo progresso material ou pela ci\u00eancia, mas a sua subordina\u00e7\u00e3o a um eixo espiritual. A mat\u00e9ria deve ser vista como a manifesta\u00e7\u00e3o vis\u00edvel do invis\u00edvel, e a t\u00e9cnica deve servir o \u00e2mago do ser, n\u00e3o a sua aliena\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>(4) Esta perspetiva pedag\u00f3gica e pol\u00edtica transformaria radicalmente as rela\u00e7\u00f5es de poder. Se a sacralidade (Deus) n\u00e3o estiver apenas isolada num c\u00e9u distante ou fechada num dogma, mas for reconhecida na pr\u00f3pria comunidade humana em movimento (o Povo), o outro deixa de ser um concorrente ou um objeto funcional e passa a ser um co-caminheiro no Mist\u00e9rio (Neste ponto seria necess\u00e1rio acentuar-se o caracter m\u00edstico do cristianismo se n\u00e3o quisermos tornar-nos em co-cangalheiros da cultura ocidental).<\/p>\n<p>(5) Numa matriz desta natureza, a Verdade deixa de ser uma posse est\u00e1tica de uma cultura, religi\u00e3o ou partido (o que gera o preconceito e o dogmatismo) e passa a ser um horizonte em constru\u00e7\u00e3o. Os intelectuais e pensadores de hoje teriam a miss\u00e3o de desenhar os programas de forma\u00e7\u00e3o que equacionem o referido neste ensaio. Seriam programas que n\u00e3o ensinassem certezas ideol\u00f3gicas, mas que educassem os povos para a capacidade de viver com o paradoxo, de escutar o sil\u00eancio, de dialogar na diferen\u00e7a e de reconhecer que a nossa linguagem \u00e9 apenas descritiva e apenas descreve o caminho, enquanto o caminho se faz caminhando juntos. Esta vis\u00e3o ecum\u00e9nica e integradora seria a vacina contra a barb\u00e1rie do ego\u00edsmo coletivo e individual. \u00c9 uma utopia necess\u00e1ria para dar consist\u00eancia \u00e0s civiliza\u00e7\u00f5es que amea\u00e7am desmoronar-se sob o peso do seu pr\u00f3prio vazio existencial. O momento hist\u00f3rico em que nos encontramos mereceria relev\u00e2ncia axial.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como resgatar o Humano da Fragmenta\u00e7\u00e3o Do hiperindividualismo \u00e0 consci\u00eancia integral do &#8220;Eu-Tu-N\u00f3s&#8221; O empenho em tal causa ter\u00e1 de ser de envergadura civilizacional se n\u00e3o se quer que a civiliza\u00e7\u00e3o se dissolva na in\u00e9rcia. 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