{"id":11075,"date":"2026-06-23T13:37:50","date_gmt":"2026-06-23T12:37:50","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11075"},"modified":"2026-06-23T13:37:50","modified_gmt":"2026-06-23T12:37:50","slug":"a-ilegitimidade-do-julgamento-civilizacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11075","title":{"rendered":"A ILEGITIMIDADE DO JULGAMENTO CIVILIZACIONAL"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>O relativismo que deslegitima a pr\u00f3pria Polis e a qualifica\u00e7\u00e3o de outras sociedades<\/strong><\/p>\n<p>Se na primeira reflex\u00e3o do texto \u201cO Funcionamento interno da Polis democr\u00e1tica\u201d (1) incido no funcionamento interno da polis, neste segundo artigo toco uma quest\u00e3o mais profunda e envolvente que \u00e9 a quest\u00e3o da sua proje\u00e7\u00e3o externa (como podemos partir da pr\u00f3pria incoer\u00eancia vivida para nos arrogar o direito de julgar outras ordens sociais?). A partir do momento em que uma sociedade abdica de um fundamento transcendente ou de um consenso universal sobre o &#8220;bem&#8221; (contentando-se com a corre\u00e7\u00e3o pragm\u00e1tica do seu processo relativista), como pode ela arrogar-se o direito de julgar outras ordens sociais; designem-se elas russa, chinesa ou europeia, em categorias morais e de valor?<\/p>\n<p>A atitude europeia, expressa em Bruxelas, n\u00e3o tem fundamento filos\u00f3fico nem \u00e9tico que a sustente e n\u00e3o consegue passar numa an\u00e1lise filosoficamente rigorosa porque, ao faz\u00ea-lo, essa sociedade incorre num erro l\u00f3gico e \u00e9tico fundamental. Se a sua pr\u00f3pria legitimidade assenta na aus\u00eancia de um ponto final absoluto e na aceita\u00e7\u00e3o da diverg\u00eancia como motor, ent\u00e3o aplicar os seus padr\u00f5es (que s\u00e3o, reconhecidamente, fruto de uma conting\u00eancia hist\u00f3rica e de uma rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as interna) a outras civiliza\u00e7\u00f5es \u00e9 um ato de viol\u00eancia metaf\u00edsica. \u00c9 pretender que o seu modus procedendi particular (de base relativista) se eleva \u00e0 categoria de teleologia universal (como se o prop\u00f3sito da EU ou dos EUA fossem a vontade e sentido \u00faltimo universal). A EU segue uma doutrina de auto refut\u00e7\u00e3o ao arvorar-se como a guardi\u00e3 de valores quando lhe falta a l\u00f3gica que a fundamente ao ter abandonado o fundamento crist\u00e3o que lhe dava coer\u00eancia. Nega-se a si mesma ao apostar apenas na sua abertura tendo para tal de professar o relativismo como verdade absoluta e uma proclama\u00e7\u00e3o de valores abstratos. Nesta l\u00f3gica esta falta de coer\u00eancia n\u00e3o se podia atestar \u00e0 velha ordem europeia!<\/p>\n<p>Mais ainda: este julgamento moral externo traz consigo o g\u00e9rmen do relativismo que o desvaloriza a si mesmo. Se os valores ocidentais s\u00e3o apenas o resultado de uma pr\u00e1tica pol\u00edtica espec\u00edfica e relegitimada no tempo, ent\u00e3o por que haveriam de ser superiores aos valores que orientam outras pr\u00e1ticas pol\u00edticas? Ao reivindicar para si uma exce\u00e7\u00e3o moral, a democracia ocidental contradiz o seu pr\u00f3prio princ\u00edpio operativo que \u00e9 o da conting\u00eancia e da negocia\u00e7\u00e3o permanente. Passa, sub-repticiamente, de um pragmatismo humilde a um universalismo dogm\u00e1tico, mas sem a coragem de o fundamentar numa antropologia ou numa teleologia consistentes.<\/p>\n<p>A consequ\u00eancia pr\u00e1tica \u00e9 a desilus\u00e3o cada vez mais palp\u00e1vel no contexto social em que o Ocidente vive. A sociedade, quando preserva um senso de honra pr\u00f3pria (ou seja, uma consci\u00eancia cr\u00edtica e coerente), sente o desconforto desta duplicidade. Percebe que o debate real foi substitu\u00eddo por um jogo de espelhos inst\u00e1veis: julga-se o outro para se reafirmar a si pr\u00f3prio, mas as categorias desse julgamento s\u00e3o fr\u00e1geis e auto-contradit\u00f3rias.<\/p>\n<p>Assim, a \u00fanica postura intelectualmente honesta e politicamente sustent\u00e1vel \u00e9 a que assume a incomensurabilidade local das ordens sociais de que fala Thomas Kuhn. Reconhecer que a orienta\u00e7\u00e3o \u00e9 um rumo partilhado e n\u00e3o um destino fixo, implica aceitar que as outras civiliza\u00e7\u00f5es navegam por outros mares, com outras cartas n\u00e1uticas. Discutir formas de sociedade implica, ent\u00e3o, um di\u00e1logo pragm\u00e1tico sobre coexist\u00eancia e consequ\u00eancias, e n\u00e3o um tribunal moral onde umas se sentam no banco dos ju\u00edzes e outras no dos r\u00e9us (como se observa nas narrativas de tipo p\u00f3s-factual presentes no discurso p\u00fablico). O distanciamento e o humor de sobreviv\u00eancia necess\u00e1rio n\u00e3o s\u00e3o, pois, um mero recurso estoico de sobreviv\u00eancia; s\u00e3o uma exig\u00eancia epistemol\u00f3gica para quem n\u00e3o quer confundir a sua pr\u00f3pria sombra (a sua pr\u00e1tica pol\u00edtica contingente) com a luz da verdade universal.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<br \/>\n<\/strong>\u00a9 Pegadas do Tempo<\/p>\n<p>(1) O Paradoxo da Pluralidade d\u00e1-se quando a Opini\u00e3o substitui o Argumento em \u00a0Artigo aqui em Pegadas do Tempo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O relativismo que deslegitima a pr\u00f3pria Polis e a qualifica\u00e7\u00e3o de outras sociedades Se na primeira reflex\u00e3o do texto \u201cO Funcionamento interno da Polis democr\u00e1tica\u201d (1) incido no funcionamento interno da polis, neste segundo artigo toco uma quest\u00e3o mais profunda e envolvente que \u00e9 a quest\u00e3o da sua proje\u00e7\u00e3o externa (como podemos partir da pr\u00f3pria &hellip; <a href=\"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11075\" class=\"more-link\">Continuar a ler <span class=\"screen-reader-text\">A ILEGITIMIDADE DO JULGAMENTO CIVILIZACIONAL<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[3,15,14,4,5,6,7,8,16],"tags":[],"class_list":["post-11075","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-arte","category-cultura","category-economia","category-educacao","category-escola","category-migracao","category-politica","category-religiao","category-sociedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/11075","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=11075"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/11075\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11076,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/11075\/revisions\/11076"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=11075"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=11075"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/antonio-justo.eu\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=11075"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}