{"id":11071,"date":"2026-06-23T12:49:47","date_gmt":"2026-06-23T11:49:47","guid":{"rendered":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11071"},"modified":"2026-06-23T13:05:08","modified_gmt":"2026-06-23T12:05:08","slug":"o-funcionamento-interno-da-polis-democratica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/antonio-justo.eu\/?p=11071","title":{"rendered":"O FUNCIONAMENTO INTERNO DA POLIS DEMOCR\u00c1TICA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>O Paradoxo da Pluralidade d\u00e1-se quando a Opini\u00e3o substitui o Argumento<\/strong><\/p>\n<p>A observa\u00e7\u00e3o que me proponho neste artigo \u00e9 t\u00e3o l\u00facida como inc\u00f3moda! De facto, pensando um pouco mais al\u00e9m da normalidade, a democracia representativa, na sua pr\u00e1tica corrente, parece assentar numa fic\u00e7\u00e3o funcional. A soberania popular \u00e9 invocada, mas o seu exerc\u00edcio efetivo traduz-se na escolha peri\u00f3dica de elites que, uma vez investidas, transformam a diversidade de opini\u00f5es num mecanismo de autolegitima\u00e7\u00e3o. <strong>O cerne do problema que enuncio n\u00e3o reside na exist\u00eancia de vozes divergentes, porque isso seria o oxig\u00e9nio do sistema, mas sim na forma como essa diverg\u00eancia \u00e9 gerida! O bus\u00edlis da quest\u00e3o vem do facto da pluralidade de opini\u00f5es ser confundida com pluralidade de argumentos e do facto de ser dessa confus\u00e3o que a sociedade retira a sua seiva.<\/strong><\/p>\n<p>Do ponto de vista epistemol\u00f3gico, o que se verifica \u00e9 uma invers\u00e3o subtil. <strong>Em vez de se partir de premissas para se alcan\u00e7ar uma conclus\u00e3o, parte-se de uma conclus\u00e3o socialmente hegem\u00f3nica (muitas vezes moldada por escolas de especialistas expoentes, no sentido de formadores de opini\u00e3o) e procuram-se, seguindo a corrente, os argumentos que a justifiquem.<\/strong> <strong>Os contra-argumentos, quando surgem, n\u00e3o s\u00e3o refutados na sua estrutura l\u00f3gica ou factual; s\u00e3o, antes, categorizados<\/strong>. S\u00e3o atribu\u00eddos a motiva\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas, a interesses corporativos, a uma suposta ignor\u00e2ncia ou a um alinhamento ideol\u00f3gico suspeito de esquerda ou de direita. Esta categoriza\u00e7\u00e3o substitui a resposta e esvazia o debate real.<\/p>\n<p><strong>Esta din\u00e2mica revela uma estrutura de poder que opera pelo controlo do enquadramento interpretativo. A impress\u00e3o de diversidade \u00e9 mantida, pois \u00e9 \u00fatil \u00e0 legitima\u00e7\u00e3o, mas a moldura na qual essa diversidade pode exprimir-se \u00e9 estritamente delimitada. As perguntas cruciais a colocar seriam: os pontos de vista opostos s\u00e3o apresentados de forma justa? Os factos s\u00e3o separados dos ju\u00edzos de valor? O ponto de vista oposto mais forte \u00e9 considerado?<\/strong> <strong>Estas quest\u00f5es fundamentais s\u00e3o, na pr\u00e1tica, sistematicamente negligenciadas. O debate deixa de ser um di\u00e1logo dial\u00e9tico para se tornar num ritual de perten\u00e7a. <\/strong>A posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica n\u00e3o se define pelo que se diz, mas pelo grupo a que se pertence ou pela moralidade que se exibe.<\/p>\n<p><strong>O que emerge, ent\u00e3o, \u00e9 uma sociedade que vive da contradi\u00e7\u00e3o sem a resolver.<\/strong> <strong>A orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica deixa de ser um estado de conhecimento, um saber objetivo sobre o bem comum, para se transformar num pragmatismo partilhado, constantemente relegitimado pelo pr\u00f3prio processo institucional.<\/strong> <strong>A raz\u00e3o, neste modelo, n\u00e3o \u00e9 descoberta porque se reduz apenas a uma l\u00f3gica produzida pela corre\u00e7\u00e3o cont\u00ednua e pela experi\u00eancia acumulada, num ciclo que, pela sua pr\u00f3pria natureza, nunca chega a um ponto final universal nem a um empenho comum no bem comum.<\/strong> <strong>Viver com esta contradi\u00e7\u00e3o, como se nota ao observar a sociedade e o seu discurso, exige do cidad\u00e3o uma dist\u00e2ncia ir\u00f3nica, um &#8220;humor&#8221; que impede o indiv\u00edduo de ser tragado pela voragem do poder. Sem essa dist\u00e2ncia, o cidad\u00e3o ou o intelectual sucumbe \u00e0 l\u00f3gica bin\u00e1ria do &#8220;n\u00f3s&#8221; contra &#8220;eles&#8221;, perdendo a capacidade de estranhar o seu pr\u00f3prio campo.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Tamb\u00e9m o relativismo cultural seguido na governa\u00e7\u00e3o se transforma em faca de dois gumes que nem ata nem desata porque n\u00e3o mantem coer\u00eancia interna nem externa,<\/strong> o que provoca em muitos sentimentos de impot\u00eancia e noutros uma reaccao de autodefesa nacionalista por lhe faltar fundamento l\u00f3gico.<\/p>\n<p>A transi\u00e7\u00e3o de um sistema geopol\u00edtico unipolar para uma ordem marcadamente pluripolar, integrada pela Europa, Estados Unidos, China, R\u00fassia, \u00cdndia, Brasil e pelas na\u00e7\u00f5es \u00e1rabes, reclama uma nova epistemologia das rela\u00e7\u00f5es internacionais. Torna-se premente estabelecer um di\u00e1logo profundo entre civiliza\u00e7\u00f5es que viabilize um consenso fundamental em torno da realiza\u00e7\u00e3o do bem comum.<\/p>\n<p><strong>Ant\u00f3nio da Cunha Duarte Justo<br \/>\n<\/strong>\u00a9 Pegadas do Tempo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Paradoxo da Pluralidade d\u00e1-se quando a Opini\u00e3o substitui o Argumento A observa\u00e7\u00e3o que me proponho neste artigo \u00e9 t\u00e3o l\u00facida como inc\u00f3moda! De facto, pensando um pouco mais al\u00e9m da normalidade, a democracia representativa, na sua pr\u00e1tica corrente, parece assentar numa fic\u00e7\u00e3o funcional. 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